A aceleração é boa, superforte mas não violenta. E não acaba, já  passei dos 200, 210, 220, 230, quase 240 km/h e agora freio forte. Com a mão esquerda reduzo marcha três vezes, bam!, bam!, bam!,  e com o motor gritando eu entro na primeira curva para direita no circuito Montmeló, ou circuito da Catalunha. Na verdade não sei qual é o nome correto e eu já tinha ouvido os espanhóis falarem os dois nomes, ao comentar do circuito. Mas tanto faz, é ele, o mesmo  que faz parte do campeonato mundial de Fórmula 1.

E agora eu estou aqui, passei por um estádio bastante grande, sem ninguém gritando, e devo admitir que nunca vi um circuito tão grande e tão vazio. E que estou fazendo aqui? Correndo de turismo. No mês passado decidiu-se que eu precisava fazer uma visita de alguns dias numa indústria que fica apenas a uns 15 minutos de carro desse circuito e, mais sorte ainda, em num dos dias o circuito estaria aberto, só na hora do almoço, entre 13 e 14 horas.  Isso foi algo que eu vi no site deles e liguei para saber se era assim mesmo. Tem como dirigir mais  tarde, por exemplo?  Não tem, é isso mesmo, entre uma e duas da tarde apenas, um horário típico para almoçar na Espanha.

Ligo para meu amigo na fábrica que eu visitaria e pergunto se podemos comer fora naquele dia. Ele fica muito entusiasmado com o propósito, e num site eu agendo e pago por um Lamborghini Gallardo para fazer duas voltas no circuito. Só duas? Sim, tem para comprar volta por volta, só que o preço para mim é bem alto, mais ou menos 100 euros por volta. Puxa, tudo na vida tem um preço, mas penso que agora quero conhecer esse circuito, um sonho que eu tinha durante muitos anos. Na verdade eu tentei agendar um Ferrari F430 porque Gallardos já dirigi algumas vezes nas estradas e numa pista na Suécia, só que no site do circuito não há mais vaga no F430, só no Gallardo.

Ok, bom, vou lá para conhecer o circuito, não o Gallardo, carro que eu sei como é fácil dirigir até no limite, com pneus patinando.

No dia antes de viajarà Espanha veio uma ideia na minha cabeça. Será que Montmeló tem no jogo GT5 do Playstation 3 que o meu filhão tem e brinca às vezes? À tarde sento com calma para ver como que é no jogo. Sim, Gallardo tem, mas Montmeló não. Porém, com curiosidade pego o volante com pedais e entro no Circuito de Nürburgring, que conheço da vida real, já estive lá várias vezes. Escolho modo de câmbio manual para me acostumar a trocar marchas nas borboletas de novo.

A primeira volta não foi muito limpa e saí da pista várias vezes. Hum, nada bom isso. Na segunda tento com mais calma e não saio nenhuma vez. Para mim o Gallardo no jogo é bastante realista e na terceira volta estou bem alerta e concentrado,  e faço-a em 8 minutos e poucos segundos. Bom, mas tem como encontrar o circuito da Espanha? Pergunto para meu filho,  mas ele acha que só tem num outro jogo, o F-1 2013. Assim, troco de jogo e entro num Ferrari F-1, e aí está, o circuito de Catalunha.

Entro numa competição curta de apenas três voltas. A primeira corrida foi uma bagunça, e cheguei bem atrás de todos, saindo da pista várias vezes. Faço mais uma corrida e deixo os outros passarem para tentar segui-los. Nada mau,  agora consigo fazer umas voltas boas e limpas. Entro mais uma vez e tudo dá certo, chego em décimo lugar,  no meio do bolo,  e faço 1 minuto e 30 segundos nas voltas, a mais rápida em 1 minuto e 25 segundos. Feliz com isso, deixo o jogo para lá e começo sonhar com a realidade.

No primeiro dia, quando já na Espanha, chega um e-mail. ”Temos um problema com o Gallardo e não vai ter como dirigi-lo”. Respondo que para mim o carro não importa, o que importa é conhecer o circuito com qualquer carro, mais ou menos equivalente ao Gallardo. Respondem que ”Temos o Ferrari F430”. Ah é? — pensei. Não estava tudo reservado, sem vaga? Sim, mas dizem que está tudo certo.

Dois dias depois, às 12h30, com ajuda do meu amigo espanhol, estou diante de uma das entradas do circuito. É bom ter amigos porque estamos com um novo Peugeot 2008, que tem o pior navegador que vi na vida. Tem como fazer algo tão ”perdido” num carro agora em 2016?  A sinalização para o circuito é um pouco falha e também há várias entradas. Acho isso estranho para um lugar tão civilizado e ainda bem que o meu amigo já esteve várias vezes aqui antes para assistir corridas.

Vamos a um estacionamento atrás do paddock e deixamos o 2008.  Na entrada da pista há dois F430 conversíveis, um vermelho e um preto. Não há ninguém ali,  e  entro numa casa onde também não há ninguém. Depois de alguns minutos chegam mais alguns turistas e de um escritório vêm algumas pessoas que parece  trabalhar para esse evento. Conversamos um pouco, perguntaram meu nome e quantas voltas comprei. Escrevo meu nome num documento e fico com um papelzinho dizendo ”duas voltas”. Há dois copilotos e eles levam os carros pelo pit lane,  deixando-os carros em marcha-lenta para aquecer os motores.

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Aquecendo motor, me ajeitando no carro

Agora estamos em umas dez pessoas aqui no pit lane, incluindo um rapaz  de 15 anos que não vai dirigir, só vai andar no banco do passageiro com um dos copilotos ao volante. Ele adora Ferraris e parece que isso é um presente que ele ganhou.

Fila não tem, e no pit lane tudo está calmo,  estamos muito curiosos para ver como vai ser. Me pergunto se vão ficar muito restritivos sobre como posso usar o carro. No YouTube eu vi um pouco de um vídeo que alguém comprou (o evento é gravado de dentro do carro, e vendem o vídeo por uns 50 euros). No que eu vi antes de chegar aqui percebi o copiloto como um pouco ”freante”, evitando que se acelerasse tudo. Até entendo, porque às vezes não deve ser fácil tratar com alguns malucos num evento desse. Falo com meu amigo sobre isso e ele diz que vai conversar um pouco com meu copiloto. Sem ter sistema de fila eu fico no lado do pit lane para ver outras pessoas dirigirem umas voltas antes.

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Saindo devagar para a pista

Ok, agora eu me decido que vou entrar no carro preto e espero onde vai parar. Agora é a minha vez. O F430 preto para, uma pessoa sai e eu entro. O copiloto vem  até o meu lado para ver se consigo posicionar o volante e o banco corretamente. Meu amigo diz algo em castelhano com ele, “tatatatatataa”, e eu só entendo a metade. O copiloto entra de novo no carro e pergunta se eu sei usar as borboletas. Eu digo que sim, dirigi vários Lamborghinis e Maseratis antes, mas um F430 não. Bom, meu copiloto diz que o F430 é praticamente igual e na pista posso acelerar  até onde der. Eu lhe digo para ver se há risco de frear tarde demais; como não conheço a pista e nem o carro, é bom falar antes.

No volante olho no manettino que está posicionado em  ”chuva”. Eu aponto no manettino, olho para fora e digo “Está fazendo um sol bonito hoje, não é?” Meu copiloto ri um pouco mas diz que isso é para não arriscar nada, eles sempre usam o ajuste de chuva porque todos que dirigem estão ”virgens” no carro e no circuito. Está bem, acho que não faz sentido discutir isso com ele e também não preciso pensar que posso ”perder a mão” do carro  saindo de alguma curva acelerando demais.

Feliz da vida, coloco a primeira marcha com a borboleta da direita e devagar começo a sair para a pista.

Vou tranquilo no pit lane e na saída começo essa aventura, posicionando-me para a primeira curva. Agora vamos. As primeiras curvas vão bem, e eu sinto que o F430 é fácil de colocar onde eu quero, e que ele só empurra os pneus dianteiros um pouquinho, saindo de frente, muito fácil controlar, e o volante é bem comunicativo.

As curvas vem uma depois da outra, e mesmo sem lembrar exatamente como era no jogo F-1, nunca vem alguma surpresa. Pelo que me lembro era assim mesmo como onde eu estou agora. O circuito tem 4.655 metros com 16 curvas, três delas, a 1, a 7 e a 10, bastante apertadas, e fico na segunda marcha. No final da primeira volta eu já me sinto bastante quente e com um sorriso grande, e a velocidade cresce também. Eu entro pela reta principal que tem  um quilômetro. Como é nessa reta? Veja aqui no outro clipe que meu amigo Sebastián fez:

Um bom grito, nada mau por ser um V-8 de virabrequim plano

Agora no final da reta a bem mais de 200 km/h no velocímetro, percebo que mesmo sendo o carro um Spyder (conversível), o rugido do vento é menor do que o rugido do motor, achei que ia ser menos isolado do que é. Nessa velocidade penso alto: onde seria bom frear? Meu copiloto entende a minha pergunta e diz ”agora!”. Freio forte e com a borboleta esquerda reduzo as marchas,  . . 4. . . 3. . . 2. .  e entro na primeira curva de novo.

Nessa segunda volta tento melhorar os traçados dentro das curvas, e é agora que eu sinto melhor o que o modo ”chuva” faz. Nas saídas das curvas posso colocar o pé do acelerador bem em baixo e tento fazer isso cedo demais para provocar o sistema, e nada de errado acontece. O controle de estabilidade não permite nenhuma patinagem das rodas traseiras. Tento dirigir acelerando tudo o que dá, e o motor faz aumentar a velocidade supercuidadoso na saídas das curvas. Penso que isso preserva os pneus bastante, pelo menos os traseiros.

Na final da segunda volta eu estou bem quente, suando, camisa molhada. Sei que preciso entrar no pit lane. Tudo que é divertido tem um fim, e eu estou muito feliz de ter tido a oportunidade de conhecer esse circuito famoso de Fórmula 1, num Ferrari, na hora do almoço.

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Será que eu gostei?

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HJ



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  • CorsarioViajante

    Que incrível! Muito legal o texto, adoro os posts do Hans!