Independentemente de se o novo prefeito vai rever os limites de velocidade das marginais e outras avenidas ou construir ou destruir ciclofaixas, é óbvio que qualquer medida desse tipo deveria sempre ser pautada por estudos bem feitos. Tanto para fazer quanto para tirar. Mas, por questão de custos e de razoabilidade, especialmente para implantar. Se não, parece que estamos sempre convivendo com um bode na sala apenas porque com dois era pior. Péssima forma de governar uma cidade, diga-se de passagem.

Os paulistanos (eu me considero uma) passamos vários anos sofrendo com medidas ideológicas, sem embasamentos técnicos na área de mobilidade. Dizer que outros países fazem na maior parte das vezes é mera retórica, pois pinçam-se pontos de políticas utilizadas alhures e querem impingi-las goela abaixo dos munícipes. E na verdade são parcialmente corretos. Até hoje não vi uma questão dessas que tenha sido implementada exatamente como foi em outros países. O caso dos limites de velocidade é emblemático — falam das velocidades máximas de Londres mas deixam de considerar o tipo de via nas quais isso foi feito. Aqui baixou-se o limite em muitas, até em vias expressas marginais de rios. Lá fora não foi bem assim. E por aí vai.

Mas uma coisa me chamou a atenção no discurso do futuro prefeito de São Paulo: a questão do uso do celular. Como meus caros leitores sabem ando muito de carro, a pé, de metrô e ônibus. Trem faz um par de meses que não pego e não tenho CNH para moto. Mas, ainda assim, sou muito multimodal. Ah, e não ando de bicicleta pelas ruas de São Paulo, só no interior ou em parques e a lazer. Onde teoricamente poderia pedalar na cidade não acho seguro e onde é seguro não me serve para nada, tipo av. Paulista ou Faria Lima. Mas sempre digo que essas são duas bem planejadas. Apenas não me adiantam.

Semana passada quando dirigia pela cidade penei para fugir de um motoqueiro que cismava de andar atrás de mim digitando no celular. Desacelerei, acelerei, troquei de faixa várias vezes, mas ainda assim ele teimava em continuar. Consegui escapar de um possível acidente, mas o infeliz andou vários quilômetros assim. Também desvio de carros quando percebo que o motorista está ao celular. Já entrei numa travessa da av. Rebouças onde não queria porque uma mulher atrás de mim digitava no celular e o trânsito superlento e as motos não me permitiam mudar de faixa.

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É brincadeira? (Foto G1.globo.com)

O prefeito eleito disse que o uso do celular no trânsito é mais perigoso do que a velocidade e pelo que pesquisei, tem razão. Me chamou a atenção um estudo feito pelo Hospital Samaritano a partir de uma enquete do hospital aqui no Brasil, mesmo. Foram ouvidos mais de 4.100 condutores entre os dias 28 de dezembro de 2015 e 8 de janeiro de 2016, homens e mulheres com idades a partir de 26 anos. Desanimei, caros leitores. Do total, 80% disse que usa o celular enquanto dirige e 93%  reconheceram que é perigoso fazer isso. Ou seja, não é falta de informação. É falta de bom senso, mesmo. Pior, 63% do total disse que mudaria de hábito se sofresse um acidente em decorrência do uso de celular. Ou seja, ainda sabendo que é perigoso, somente depois de que falharem todos os esforços do padroeiro dos motoristas São Cristóvão é que a pessoa pararia de usar o celular ao volante. Ainda assim, ligeiramente mais da metade. É pouco. E, inutilidade suprema, somente 10% disseram que deixariam de usar o celular em caso de autuação. Pelo jeito, não é multando que essas pessoas vão mudar — mas talvez depois que doer no bolso várias vezes alguns mudem de ideia. E dos entrevistados, 42% disseram que enviam mensagens de texto ao volante. Estudos internacionais dizem que uma troca de mensagens no celular tira 23 segundos de atenção no trânsito. Conheço gente que leva mais tempo ainda, mas mesmo os menos lesados aumentam em muito o risco de acidentes.

Sempre citada pelos defensores da redução de velocidade, a Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que o uso do celular por motoristas aumenta em até oito vezes o risco de acidentes. No entanto, ainda não vi nenhuma manifestação na casa do futuro ex-prefeito para coibir o uso de celular  — ao contrário, canso de ver até mesmo ciclista pedalando e digitando num espertofone. Ainda não vi passeio de ciclistas contra isso, embora eles possam ser vítimas deste tipo de imprudência como, destarte, todos nós, incluindo pedestres. Destarte? Alhures? OK, resolvi falar complicado hoje, mas ficou bonito.

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Incríveis, os resultados da pesquisa (Foto hospitalsamaritano.com.br)

Voltando ao assunto, somente vi manifestações contra a velocidade máxima nas avenidas e marginais e possíveis exclusões de ciclofaixas. E olha que a NHTSA, o departamento de segurança no trânsito dos EUA, diz que usar dispositivos móveis ao volante aumenta em até 400% o risco de acidentes. Nos Estados Unidos enviar mensagens de texto ao volante é a principal causa de morte de adolescentes — lembrando que lá se pode dirigir a partir dos 16 anos.

Mas também temos estudos em terras tupiniquins. Um do Ministério dos Transportes diz que o uso do celular aumenta em 35% o tempo de reação dos motoristas — o que é muito mais do que o tempo levado por uma pessoa alcoolizada, que é de 12% mais do que alguém sóbrio. Como sempre digo, não sei neste caso específico como foram coletados os dados, mas é óbvio que se temos os olhos postados no celular não estamos vendo o trânsito à frente. Ainda por uma questão de Física, se um motorista tirar os olhos da rua por dois segundos (nem dá para digitar “OK” nesse tempo! ) e estiver a meros 50 km/h ele terá percorrido quase 28 metros sem olhar para a frente. Mas olhar rapidamente a tela do celular e teclar uma resposta super simples dura, em média, 23 segundos. Aos mesmos 50 km/h o veículo percorre 320 metros às cegas. E ainda que o motorista distraído vá e volte o olhar da tela para a pista de rolamento, o tempo de reação é mais lento – voltamos nos 2 segundos, no mínimo. Somente por uma questão de prática é que não se faz esse cálculo a 120 km/h pois a essa velocidade tem de se prestar atenção em muita coisa. O problema é em velocidades mais baixas, quando o motorista tende a se distrair e entediar e achar que está perdendo tempo que poderia ser utilizado de outra forma.

O problema, dizem os especialistas, não é atender o celular se você tiver viva-voz ou Bluetooth, pois isso equivale a conversar com outra pessoa dentro do carro. É digitar, pois se tira a vista do trânsito. Pessoalmente, resolvi o problema. Depois de muito tempo acabei configurando o Bluetooth dos carros de casa e agora só aperto uma tecla no volante. E exceto o telefone, o resto fica no mudo o tempo todo. Antes quando entrava no carro deixava no mudo até o telefone, para não ficar aflita de escutar o celular escondido no fundo da bolsa e pensar em atender. Sim, porque também não o deixava ao alcance da mão pelo mesmo motivo. E se estou dirigindo um carro sem esse acessório, necas de atender. Me liguem mais tarde. Telefone no fundo da bolsa e nem que eu queira consigo atender em menos de 15 minutos de busca e apreensão. Mas para aqueles que não resistem à tentação, sugiro tirar o volume do aparelho ou, ainda, baixar algum dos vários aplicativos gratuitos que existem que bloqueiam o toque do celular. Eu acho mais fácil deixar no mudo, mas…

E aí, prefeito, vamos fazer algo sobre isso? Seriamente, é claro, e com base técnica, não mero achismo. Segundo o sociólogo e especialista em segurança do Trânsito Eduardo Baivanti, digitar no celular aumenta em até 23 vezes a chance de colisão enquanto se dirige. Baivanti dirigiu durante 13 anos o programa de prevenção a acidentes da rede Sarah, renomada no tratamento de traumas. Deve entender de ossos quebrados…

Mudando de assunto: Assistir ao GP em Suzuka é sempre muito bom. Belíssimo circuito, com subidas, descidas, curvas, retas (apesar de curtas) e um show de transmissão. Japonês é craque nisso e sempre nos brindaram com dados sobre aceleração dos carros na pista, posição dos pilotos na corrida, imagens da impagável plateia… enfim, sempre vale a pena. E domingo não foi diferente. Uma fantástica ultrapassagem do Hulkenberg sobre o Bottas em plena chicane e outra linda, dupla, do Kimi.  E, claro, teve o Alonso sendo sarcástico no rádio com a própria equipe e o Vettel reclamando dos retardatários — ambos, como sempre. E  Rosberg abrindo ainda mais vantagem sobre Hamilton, que patinou na largada. Uau!

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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