Esse título pode parecer heresia de um autoentusiasta como eu, para quem um dos prazeres ao volante de um carro de câmbio manual é o capricho para que as trocas de marcha saiam perfeitas, mas espero que ao final do texto o leitor entenda o porquê de os modernos câmbios automáticos constituírem uma boa solução para muitos motoristas.

Há poucos meses testei a picape Fiat Toro Freedom 1,8 flex. Quando foi lançada, estranhou-se o fato de ela vir só com câmbio automático. Muitos o pediram e mesmo assim o câmbio manual não veio, e não acredito que virá. Isso porque ela com o motor E.torQ fica melhor tendo câmbio automático, não só pela comodidade que ele proporciona, mas, principalmente, porque pelas características do motor ela talvez parecesse ter desempenho sofrível diante da necessidade de constantes mudanças de marcha.

Toro Freedom Flex, câmbio automático com multimarchas
Toro Freedom 1,8 flex, câmbio automático de seis marchas

Veja só, leitor. A Toro diesel, além do câmbio automático tem o manual. Por quê? Porque esse motor diesel tem elevados potência e torque logo em baixa rotação. Com ele e câmbio manual, poucas mudanças de marcha são necessárias. Esse não é o caso do motor E.torQ. Ele é potente e torcudo, sim, mas isso quando ele empurra veículos bem mais leves, como o Linea ou a picape Strada Adventure. Para esses, o E.torQ dá e sobra. O Linea, que testei há pouco – inclusive fazendo uma longa viagem a Araxá, MG – anda muito bem. Adorei viajar com ele. Mas quando se pensa no E.torQ levando uma picape cabine dupla, que pesa 1.619 kg e que eventualmente será carregada com 650 kg entre passageiros e bagagem, na certa lhe faltaria potência caso seu motorista não manejasse constante e corretamente o câmbio manual.

Como, então, seriam as características de um eventual câmbio manual para a Toro Freedom 1,8 flex? O ideal seria que tivesse 6 marchas, de modo a haver um espectro que abrangesse todas as condições de utilização, com qualquer carga, e que atendesse às necessidades do motor. Não seria difícil para a fábrica encontrar o escalonamento que conciliasse todos esses parâmetros. Bom, mas em que isso resultaria na prática? O motorista teria que ficar constantemente trocando marchas, o que seria trabalhoso para muitos, especialmente aqueles que detestam fazê-lo.

E é aí que entra o bem programado e escalonado câmbio automático de 6 marchas da Toro Freedom 1,8 flex. Essa versão da Toro anda muito bem, acelera muito bem, desenvolve muito bem e viaja perfeitamente bem em giro baixo, silenciosa; não nos deixa em momento algum com desejos de melhor desempenho. Além do mais, gasta pouco combustível diante do trabalho que realiza. Uma das razões para isso, é que o câmbio tanto é rápido para baixar marchas quanto para subi-las. Baixa marcha rápido, o giro sobe e vem potência. Sobe marcha rápido, o giro desce e vem economia. As constantes trocas de marcha, de tão suaves, são praticamente imperceptíveis.

O mesmo notei nos recentes testes do novo Prisma. Testei-o nas suas duas versões, câmbio automático e manual, ambos de 6 marchas. O motor de 1,4-litro é potente, sendo que em giro alto é um foguetinho, mas em giro baixo deixa a desejar quando o carro está carregado e solicita constantes mudanças de marcha, o que pode desagradar certos motoristas. Mas isso não é problema quando se tem o ótimo câmbio automático, que não perde tempo e à menor solicitação no pedal do acelerador lá vai ele colocando marcha mais curta para elevar o giro a uma rotação que produzisse a potência que pedíamos. Aliviando, ele imediatamente sobe marcha para baixar o giro, e fazendo isso com trocas muito suaves. Diante disso, concluí que o Prisma com câmbio automático forma um melhor conjunto.

É claro que do ponto de vista desempenho puro o câmbio manual é mais eficaz que o automático, mas no dia a dia, principalmente nas condições que descrevi e pelos hábitos da média dos motoristas, o automático ou robotizado mostra vantagens.

Prisma com câmbio automático de 6 marchas

Prisma com câmbio automático de 6 marchas (foto do autor)

 

A mecatrônica de hoje

A mecatrônica — ramo da engenharia que liga a eletrônica e a informática a processos mecânicos — evoluiu a ponto de hoje esses novos câmbios automáticos e robotizados trabalharem melhor que a grande maioria dos motoristas. Ninguém melhor que o fabricante do carro para saber qual a marcha certa para a demanda de cada momento.

Testei o VW up! I-Motion logo após seu lançamento e gostei, embora com pequenas ressalvas. Como a evolução desses robotizados tem sido constante e rápida, imagino que ele hoje esteja ainda melhor, tanto que estou pensando em reavaliá-lo. Por quê?

Cansei de avaliar carros com motores de 1 litro e constatar que andavam muito bem, viajavam rápido, enquanto escutava ou lia cá e acolá que lhes faltava potência, que viajar com eles era um sufoco, perdiam muita velocidade nas subidas, que e isso e aquilo. Bom, me ensimesmou essa diferença entre o que eu achava e o que muitos achavam. Então, para tirar a dúvida, passei a “testar os motoristas”. Passei a observar como os motoristas medianos dirigiam esses carros. Observei que diante de um aclive eles deixavam o carro perder muita velocidade antes de reduzir marcha. Daí, quando se tocavam, era tarde; reduziam, mas a essa altura a coisa já ficara pesada até mesmo para a marcha mais curta, e toca o carro a perder velocidade.

O que faço diferente deles? Dirijo como se deve dirigir, portanto calculo, projeto o que vai acontecer e com antecedência tomo as devidas providências. Ora, afinal, dirigir é isso, seja um carro, um avião, um navio ou até mesmo um patinete. Dirigir é prever e se antecipar. Então, tendo um aclive adiante e um motor que exige giro para produzir potência, trato de meter marcha mais curta antes que a velocidade caia. O giro sobe, vem mais potência, e lá vamos nós morro acima com o motor “milzinho” muito feliz e faceiro dando conta do recado.

Acontece que muita gente não faz isso. Ou porque acham que com giro alto o motor explode, ou se desgasta, ou porque simplesmente não fazem ideia do que está acontecendo; dirigem pensando em outra coisa. Então, para que “sintam na pele”, trato de lhes exemplificar que o motor faz o papel que nossas pernas fazem ao pedalar uma bicicleta. Marcha longa traz esforço. Marcha curta traz leveza. Portanto, que ajudem o pobre motor. Deem-lhe, por favor, a marcha certa que aí a coisa vai. O tal motorista se alegra, pois descobre que seu carro anda bem, e o motorzinho trabalha aliviado.

E é aí que entra o meu interesse no câmbio ASG do up! I-Motion. Ele é até agora o único carro nacional com motor de 1 litro que tem a opção do câmbio robotizado. Com ele, esses motoristas desligados da máquina não acharão que o up! tem pouca potência. Uma, porque ele não tem pouca potência mesmo, e outra porque o câmbio tratará de tirar do motor a potência que o motorista desligado não sabe tirar. O câmbio automático — epicíclico, robotizado ou CVT — viabiliza o uso de motores ditos “mais fracos” para quem não sabe usar corretamente um câmbio manual.

E além de viabilizarem esses motores, eles trazem maior economia de combustível.

Exemplo disso é o recentemente lançado câmbio Torqshift, da Eaton, para os caminhões Ford Cargo. Trata-se de um câmbio robotizado de 16 marchas para os caminhões mais pesados e de 10 marchas para os mais leves, e cujas principais vantagens, além do menor desgaste do motorista, é garantir 10% de economia de combustível e durabilidade da embreagem incomparavelmente maior diante do câmbio manual.

Ford Cargo com TorqShift. Vida do caminhoneiro facilitada e maior economia (foto: transportabrasil.com.br)

Ford Cargo com câmbio Torqshift da Eaton: vida do caminhoneiro facilitada e maior economia (foto transportabrasil.com.br)

Note o leitor que o câmbio manual do Ford Cargo pesado tem 13 marchas, enquanto que o Torqshift dele tem 16. O câmbio manual do leve tem 6 marchas e o Torqshift nele usado tem 10. O fato de ser um sistema robotizado viabiliza o uso de um número maior de marchas, já que seria por demais trabalhoso para o motorista fazê-las manualmente (note que trocar marchas de um caminhão dá mais trabalho do que de um carro). Quanto mais marchas forem, e quanto melhor são usadas, melhor o aproveitamento do motor e menor o consumo de combustível do caminhão.

Já o caso da maior durabilidade da embreagem se deve ao melhor trato que a robotização lhe dá. Basta andar de ônibus para notar que nem todos os motoristas ditos profissionais sabem cuidar da pobre embreagem. Por várias vezes, ao desembarcar, cumprimentei bons motoristas de ônibus, elogiei-os pelo bom trato dado à máquina e agradeci pela boa viagem, portanto sem essa de me chamarem de pichador de motoristas de ônibus ou de caminhão. Só picho o que não faz questão de ser um bom profissional.

Para não dizerem que só falei de automáticos... Cobra Kirkham, a melhor réplica (foto do autor)

Para não dizerem que só falei de automáticos… Cobra Kirkham, a melhor réplica (foto do autor)

O Torqshift, portanto, não faz nada além do que um bom caminhoneiro faz. Na verdade, o Torqshift busca imitá-lo o melhor possível. Assim também fazem os automáticos e os robotizados dos automóveis: eles buscam imitar os bons motoristas.

Saudemos, portanto, os modernos e bons câmbios automáticos e robotizados! Que sejam bem-vindos.

AK

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