Marcas importantes decidiram trocar a presença no salão do automóvel por eventos exclusivos e redes sociais.

No próximo sábado abrem-se as portas do Mondial de l’Automobile, o Salão do Automóvel de Paris. Que terá como principal novidade a ausência de várias marcas importantes: Ford e Volvo não estarão nesta exposição considerada uma das três mais importantes do mundo (Frankfurt e Genebra formam a trinca). Além da “generalista” americana e da “premium” sueca, desistiram também marcas sofisticadas como Aston Martin, Bentley, Lamborghini, Rolls-Royce e McLaren.

Faz lembrar uma decisão tomada no passado pelo empresário brasileiro Sergio Habib, na época o importador da Citroën. Ele fez as contas e concluiu que não valia a pena investir no Salão do Automóvel de São Paulo (Anhembi). Apesar da ausência, contratou uma empresa para fazer uma “pesquisa”. Centenas de visitantes que saíam diariamente da exposição eram questionados a respeito do estande da…Citroën. Sua opinião sobre os carros, a ambientação, o tratamento dispensado pelos atendentes, etc. Alguns poucos confessaram não se lembrar do estande, mas a grande maioria elogiou o espaço, os carros, o atendimento. O que comprovou a tese de Habib de que as multidões que se atropelam  no salão não são capazes de digerir a mensagem da marca.

O Salão de Paris é o mais antigo do mundo (primeiro em 1898), realiza-se nos anos pares (Frankfurt nos ímpares) e, em sua última edição (2014), recebeu 1,25 milhão de visitantes, um recorde mundial. O volume de visitantes foi tão grande que num dia de maior fluxo a organização foi obrigada a fechar as bilheterias pois as pessoas não conseguiam sequer de movimentar entre os estandes: simplesmente não cabia mais ninguém…

Ford e Volvo explicaram de forma semelhante sua decisão: os milhões de euros necessários para marcar presença em Paris serão investidos em ações de marketing mais objetivas em eventos exclusivos e redes sociais. Não deve ser por coincidência que outras marcas também decidiram não participar da exposição, principalmente as mais sofisticadas. Qual o percentual de visitantes de um evento tão massificado tem saldo bancário para comprar um Aston Martin ou um Rolls-Royce? Estandes destas marcas ou da Bentley e Lamborghini enchem as vistas dos apaixonados pelo automóvel, mas não se convertem em vendas. É bem verdade que ganham espaço na mídia, mas seu pessoal de comunicação e marketing tem noção exata de como divulgar marca e produto junto aos jornalistas e clientes em potencial com maior eficiência. Ao invés de multidões se espremendo no salão sem condições de analisar os modelos expostos,  preferem eventos mais elaborados, sofisticados e dirigidos especificamente ao público que lhes interessa.

Uma decisão importante como essa deve ter envolvido os principais executivos da marca, que analisaram exaustivamente prós e contras. Não passou despercebida a possibilidade de que estar ausente de um evento destas proporções pode  também ser um tiro no pé. Mas devem ter levado em conta o poder assumido nos últimos tempos  pelos portais, blogs, sites de notícias e outras ferramentas digitais. Estes novos canais via web estão provocando uma verdadeira revolução nos meios de comunicação e reduziram a força de outros veículos, principalmente da mídia impressa. E provam agora serem capazes de interferir também em grandes eventos como salões de automóveis e outras feiras.

Internet nenhuma é capaz de substituir o contato pessoal e visual com um produto tão sofisticado e cheio de nuances como o automóvel. Mas dispõe de ferramentas para selecionar o público que interessa ao fabricante e de levá-lo às suas promoções.

Não se tem ideia se a ausência destas marcas em Paris é pontual ou sinaliza uma tendência. A segunda hipótese deve estar preocupando as empresas promotoras de feiras…

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


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Sobre o Autor

Boris Feldman
Coluna: Opinião de Boris Feldman

Boris Feldman é engenheiro elétrico formado pela UFMG, também formado em Comunicação, jornalista especializado em veículos e colecionador de automóveis antigos. Além da coluna Opinião de Boris Feldman no AUTOentusiastas, é colunista do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, e do jornal O Povo, de Fortaleza e tem o programa de rádio Auto Papo, na emissora Alpha FM, de São Paulo, e em mais 38 emissoras pelo país, com três edições diárias.

  • Claudio

    Exposição de automóveis deve ser como exposição agropecuárias onde máquinas agrícolas são expostas:das dezenas de milhares de pessoas que lá comparecem a imensa maioria o faz como distração de fim de semana e o público comprador é apenas uma pequena percentagem. E estes vão principalmente para conhecer as novidades e não comprar. A decisão de compra é função de outros fatores como experiências passadas, tradição da marca, assintência técnica, relações com o revendedor etc.É provável que com automóveis seja a mesma coisa e ainda se mantém por tradição.

  • Otavio Marcondes

    Foi o que me aconteceu no último salão que fui. Hoje tenho como ritual buscar informações sobre o produto na internet, conhecidos e depois vou à loja para ter contato e definir forma de pagamento.
    Salão serve para desenvolver desejo dos produtos mais novos e aqueles exclusivos, porém tem que ser (infelizmente) mais elitizado para controlar volume de pessoas.
    Mas o futuro das feiras de automóveis com certeza está determinado ao fim em breve.
    Hoje os eventos promovidos pelas concessionárias das marcas mais acessíveis e eventos monomarcas tem retorno muito maior.

  • Boa ideia!

  • Razyr Wos

    Foi exatamente o que pensei, e digo mais: acredito sim que isso foi uma espécie de ‘protesto’ a essas leis, mesmo que eles jamais confirmem.