A história de hoje refere-se a uma experiência de vida que me marcaria para o resto da vida. Devo muito da minha formação de caráter e personalidade ao aprendizado recebido e orientação recebidos neste que a princípio seria apenas um acampamento, uma colônia de férias. Você já ouviu falar de Paiol Grande? Sim, Paiol Grande, que não tem nada a ver com um grande celeiro.

Antes de entrar na experiência vivida neste fabuloso local, vou contar um pouco da sua história — não é propaganda, ele nem precisa disto, mesmo nos dias atuais.

Em 1946 foi fundada por um grupo de brasileiros idealistas a sociedade civil sem fins lucrativos denominada inicialmente “Acampamento Técnico Educacional Paiol Grande”, o mesmo nome do vale onde fica localizada a famosa Pedra do Baú, vertente de São Bento do Sapucaí (SP), pedra esta símbolo também da cidade de Campos do Jordão, de onde ela até pode ser vista. O acampamento dista sete quilômetros da cidade de São Bento do Sapucaí, mas para ir de um local ao outro naquela época, só a cavalo.

Com doações de muitas pessoas e um vultoso empréstimo, foram realizadas obras de infraestrutura como a urgentíssima estrada que uniria o acampamento à cidade de São Bento do Sapucaí. Pontes foram construídas, redes elétricas instaladas e, no acampamento, refeitório, cozinha, um enorme ranchão, enfermaria, a casa do diretor técnico, a casa do capelão, um campo de futebol, uma quadra ainda de terra para o basquetebol e, claro, para alojamentos, cinco chalés, que receberam os nomes Vento, Neblina, Cachoeira, Lua e Estrela (seriam construídos mais depois).

Tudo estava pronto e em fevereiro de 1948 formou-se a primeira turma masculina, com cerca de 70 meninos, jovens entre 10 e 16 anos. Em julho de 1949 realizou-se a primeira temporada feminina, e assim foi por muitos e muitos anos, janeiro os meninos e julho, as meninas.

Ainda em 1949, Luiz Dumont Villares, então presidente do acampamento, entregou a direção do estabelecimento aos padres Oblatos de Maria Imaculada, parceria que viria a fundamentar os princípios educativos que perduram até os dias de hoje como “Fundação Acampamento Paiol Grande”.

Desculpe se me alonguei para fazer esta apresentação, mas sempre que falo deste maravilhoso acampamento volto à minha juventude e me emociono.

Minha experiência como “paioleiro” — este é o nome que se dá a quem deste acampamento participa ou participou — teve início em 1962. Naquela época conheci grandes colaboradores do acampamento como Etty Fraser, Éder Jofre e seu tio e treinador de boxe Zumbano, e Eduardo Matarazzo Suplicy.

Eu tinha 15 anos quando meus pais, para minha total surpresa, me perguntaram se eu gostaria de passar um mês de férias no Paiol Grande. Imagino o sacrifício que meus tiveram que fazer para me proporcionar tal aventura e prazer, não era barato — de fato era caro, e muito.

Depois de visitar os escritórios em São Paulo e conhecer tudo a respeito, fiquei empolgadíssimo, era maravilhoso, fantástico. Difícil acreditar que iria acontecer.

Em janeiro, nas férias, a viagem de ônibus do Paiol, 200 jovens entre os 10 e 16 anos de idade divididos por idade entre os então 10 chalés, o meu — me lembro muito bem — foi o Lua.

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No chalé Lua, eu (seta) me pendurando na varanda do andar superior

Era indescritível a ansiedade, primeira vez sem meus pais, em companhia de outros 199 meninos, adrenalina total. Divididos os grupos por chalés, cada um em sua posição junto à cama e armário. A ordem foi cada um arrumar suas coisas.

Foi aí que tudo começou, monitores nos orientavam a como arrumar os armários, onde ficavam as calças, bermudas, tênis, botas etc. Escolhi a parte de cima de um beliche, seria uma nova experiência.

Final da tarde, pelo som muito alto que se espalhava por todo acampamento por alto-falantes, a chamada para o jantar.

Fila no refeitório. Já pensou, 200 meninos com fome, ansiedade, alguns já com saudade dos pais e todos super bem-comportados e se conhecendo?

Explicações foram dadas quando todos estavam sentados. Toda mesa teria que ter dois responsáveis voluntários para que as idas até às bandejas fossem organizadas. Na primeira noite foi tudo um pouco confuso, mas todos se alimentaram e rapidamente entraram no jogo seguindo as regras da casa. Após o jantar um intervalo para a digestão e as 22h00, toque de recolher, todos para os seus chalés, cama e por ordem de cada conselheiro (adultos), que eram os responsáveis pelo controle e orientação dos jovens em cada chalé, viria a ordem de apagar as luzes.

Às 7h00 em ponto, música pelos alto-falantes do acampamento e a mensagem diária do padre diretor.

Arrumar a cama, limpar o chalé com a distribuição das diferentes tarefas (rodízio) varrer, jogar água, passar o rodo, secar o chão e limpar o banheiro; era necessário ter rodízio. E depois ainda tinha uma inspeção feita por um monitor que dava nota e nós participávamos de uma competição que até prêmios dava: o chalé mais bem arrumado da semana era muito comemorado.

Café da manhã, o mesmo sistema do jantar e que seria também o do almoço, tudo funcionava como um relógio.

O que fazer durante o dia? Não se pode imaginar a quantidade de esportes, diferentes categorias disponíveis. O mês inteiro seria de provas, disputas, troféus em jogo. Posso enumerar algumas práticas, mas seguramente vou esquecer uma grande quantidade delas. Futebol, basquete, vôlei, natação, patinação, handebol, boxe, judô, pingue-pongue, remo, equitação, artes marciais, teatro, escaladas em montanhas inclusive a Pedra do Baú onde tive a oportunidade de subir por duas vezes e até pernoitar lá em cima. Ao final recebíamos certificados e troféus.

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Eu e meu time de futebol; pinta de jogador eu tinha…

Não poderia deixar de comentar um concurso de fantasias, no qual fui o vencedor com a fantasia de alpinista na categoria Originalidade.

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Minha fantasia de alpinista, que me deu o prêmio na categoria Originalidade

O mês passou como um raio, novas e superduradouras amizades, conceitos de vida, respeito aos colegas, educação, orientação psicológica quando necessário (alguns jovens não conseguiam ficar longe dos pais, era um trabalhão convencê-los a ficar).

Eu só posso dizer que até hoje tenho muita saudade daqueles tempos maravilhosos. Fui dois anos seguidos sendo um como paioleiro, e no segundo, por já ter 16 anos, fui convidado a ser monitor, aquele jovem líder que orientava e ajudava os demais em todas as atividades, tanto nos chalés como nas atividades esportivas.

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Eu como monitor do Chalé Sol acompanhado sempre do Conselheiro e na foto ainda o Father Owen Hope (à esq), diretor-geral do Paiol Grande

Mais uma vez, sempre serei grato aos meu pais que, com total certeza, não mediram esforços para me proporcionar esta aventura, esta experiência que em muito contribuiu para a formação da minha moral, caráter e personalidade e me tornou a pessoa que sou hoje, próxima dos 70 anos.

Que bom seria se cada jovem pudesse ter a experiência de passar por um Paiol Grande em sua vida!

RB

 

Foto de abertura: Os monitores e conselheiros da turma de janeiro de 1963

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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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