Esta semana me lembrei de Pedro e o lobo, uma das minhas histórias infantis favoritas — para que vocês saibam, caros leitores, a primeira sempre foi Mogli, o menino da selva mas minha mãe sempre foi pródigo em ler histórias para nós, então tenho várias que curto muito. E por que lembrei dessa fábula? É que era sobre um menino pastor que chamava os lenhadores para que o ajudassem dizendo que o terrível lobo estava próximo e ele chegaria para atacar as ovelhas. Eles acudiam, mas era lorota. Uma vez, duas, três, até que se cansaram dos alarmes falsos e deixaram de ir prestar ajuda — e aí o lobo realmente estava atacando, mas Pedro se viu sozinho com a fera que devorou as pobres ovelhinhas.

Mas o que tem a ver fábulas infantis com autoentusiasmo? Tudo. As últimas semanas têm sido assim. Vai entrar em vigor a lei do farol baixo nas estradas. Não vai. Agora vai. Agora a Justiça bloqueou. Agora sim, e começam as multas. Bom, até o fechamento desta edição a Justiça havia suspendido de verdade a cobrança de multas até que as rodovias tenham claramente indicada a obrigatoriedade. Mas quem levou multa, babau. Não tem choro nem vela, tem de pagar. Mas já que no Brasil até a preposição “com” na Constituição agora tem nova interpretação…  Na minha época de gramática ela era uma palavra invariável que ligava dois elementos da sentença, subordinando o segundo ao primeiro. Ora, ora…

Eixo Rodoviário, Asa Sul, Brasília, DF (Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília. A partir de sexta-feira (8), a obrigatoriedade do farol baixo também vale durante o dia nas rodovias brasileiras. O uso do equipamento não pode ser substituído pelo de milha, de neblina ou farolete. Também é necessário ligá-lo em motos e ônibus quando chover ou o tempo estiver nublado.  OLHA A CHUVA… É MENTIRA! farol 3

Em Brasíia, o DER-DF manda acender faróis, mas só é obrigatório em rodovias: e agora? (Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília)

O problema deste comportamento errático das autoridades é que acabam não surtindo o efeito que deveriam. É para obedecer ou não? É para prevenir acidentes ou para arrecadar mais com multas? Ou nenhuma das anteriores?

Coluna 7-9-16 Lei dos Farois de novo - 1  OLHA A CHUVA… É MENTIRA! Coluna 7 9 16 Lei dos Farois de novo 1Como sempre digo, ainda não tenho certeza se a lei é boa ou não por absoluta falta de dados confiáveis que atestem isso. Faltam-me números. Mas não é por isso que vamos ser feitos de iô-iô com a legislação. Aliás, jamais entendi por que se divulgam leis de maneira precária e se fazem cumprir ainda que não estejam regulamentadas ou as partes que devem se ajustar o tenham feito. Na minha cabecinha lógica deveria estar tudo pronto e então ser anunciado: é hoje. Mas isso deveria servir para tudo. Por que publicar leis que não estão regulamentadas? Se nem somos nós, pobres mortais, leigos, que temos de fazer a regulamentação? Temos leis que aguardam regulamentação há anos, quase década. E fica a dúvida, vale ou não vale? E são reeditadas novamente de maneira temporária para valerem também de maneira precária o que sempre abre um flanco gigantesco de ações na Justiça contra e a favor. Lembra aquela frase do Nunes, do Flamengo, que disse: “Fiz que fui, não fui e acabei fondo”. Então tá.

Pois é, pensando melhor, em vez de historinha para crianças esta questão dos faróis ligados nas estradas mais parece animação de quadrilha de festa junina. Olha a cobra… é mentira! Olha a chuva… é mentira! E agora?

Os mais rápidos, ou mais acostumados com esse vaivém de leis, mandados de segurança e outros, ganharam dinheiro e saíram vendendo dispositivos para acender automaticamente os faróis dos carros ao ser dada a partida.

farol 2  OLHA A CHUVA… É MENTIRA! farol 2

Alguns foram mais rápidos e ganharam dinheiro (foto connectparts.com.br)

Sempre se diz que um país sério deve ter marcos regulatórios claros e estáveis e jamais escutei ninguém dizer o contrário. Até porque é muito lógico e serve para todos. Na minha infância quando meus pais diziam “não pode” era “não pode”. E não adiantava insistir. Eles pensavam muito, especialmente minha mãe, que ficou responsável sozinha por nossa educação durante quase todo o tempo, mas quando dava uma resposta era sim ou não. E não mudava para esse pedido. Se nos autorizava a ficar até mais tarde numa determinada festa, mesmo que depois ouvisse coisas como “mas é muito tarde, você tem certeza?”, ela mantinha o combinado. E se não podíamos ir a algum lugar era igual. Resultado disto? Minha irmã e eu somos pessoas muito seguras e autoconfiantes. Não arrogantes, mas seguras. E confiamos na nossa mãe. E, acima de tudo, sabíamos que o combinado não mudaria. Contra ou a favor do que queríamos. Isso é algo fundamental para a formação do caráter. É claro que cada pedido era analisado especificamente e a resposta mudava em função das variáveis: lugar, companhia, tipo de evento etc. E a resposta nunca era de afogadilho, demorava um pouquinho e precisávamos responder algumas coisas, especialmente quem estaria presente ou não, onde seria a festa etc.

Mas, voltando ao Brasil, qual é a segurança que se tem quando a aplicação das leis muda o tempo todo? Qual é o incentivo que um agente de trânsito tem para exigir a aplicação? “Olhe, condutor, é para sua segurança…” mas isso só na segunda-feira. Na terça, a segurança foi mandada para as calendas, pois a lei já não mais precisa ser aplicada. Mas talvez na quarta-feira volte a ser exigida. Ou não. Olha a chuva!

Mudando de assunto: fim de semana de TV ligada o tempo todo: Endurance no México (ótima corrida, torci muito pela equipe do Mark Webber), Moto GP (lindas manobras entre Marc Márquez e Valentino Rossi e um acidente horroroso que por sorte não teve consequências físicas para os envolvidos), Fórmula Truck (que chuva, hein?), Indy (excelente e histórica pista, mas corrida meio mais ou menos), e, claro, Fórmula 1. Tem comentarista que quando o Rosberg larga mal diz que ele errou, mas quando é o Hamilton acha que foi problema mecânico mesmo quando se vê o painel do carro sem acusar problemas. Sim, sei que a Mercedes disse que o problema foi mecânico, mas quem acredita? Ótima performance do sempre correto Jenson Button, as grosserias de sempre do Alonso com a própria equipe pelo rádio e fantástica ultrapassagem do Ricciardo sobre o Bottas. Pena que não teremos Felipe Massa na F-1, mas era meio natural que assim fosse. A Nascar vi muito de relance — afinal, tinha muitas corridas e eu tinha um monte de coisas para fazer.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Nora Gonzalez
Coluna: Visão Feminina

Nora Gonzalez é jornalista, foi repórter (inclusive de indústria automobilística) e editora da Gazeta Mercantil e de O Estado de S. Paulo durante muitos anos. É fã de carros desde pequena, especialmente de Fórmula 1.

Publicações Relacionadas

  • Newton (ArkAngel)

    Típicas ações características de gente que não merece confiança: mudar as regras do jogo conforme as conveniências.

  • guest, EBMI com todo o direito. Impressionante!

  • Fernando, o cartaz do carro com faróis de neblina ligados sem necessidade é a prova de que na cabeça de muitos assim o carro fica “lindão”. Lamentável.

  • Brenno, independente do seu grau de miopia e astigmatismo, se você estiver com lentes corretivas corretas não fará diferença alguma os carros em sentido contrário estarem com faróis ligados ou desligados.

  • CorsarioViajante

    Também notei isso.

  • Caio, a ideia foi justamente punir imediatamente. Você, eu, todos vimos os noticiários da lei do farol e a segunda frase foi “a multa para quem não cumprir a lei é de R$ 85,13 e 4 pontos na CNH.” Pouca-vergonha.

  • Eduardo Sérgio

    Sobre as bobagens ditas por narradores e comentaristas nas transmissões, aprendi a fazer uma coisa que Nélson Piquet declarou sempre fazer: deixar o televisor mudo, sem som, e acompanhar apenas as imagens da corrida.

  • caique, o farol normal baixo ligado de dia e sacos de lixo são duas aberrações. Um peso, medida, portanto.

  • Huttner, e nessa montanha de faróis pode-se perfeitamente não distinguir uma motocicleta. Farol baixo de dia é coisa de maluco e/ou irresponsável, ou de alguém pensou apenas nos cifrões com as multas.

  • Tuhu, mas é lógico!

  • lightness RS

    Exato, chama se chatice, resistência em fazer um simples ato de ligar os faróis.

    • lightness, não é chatice, é revolta contra uma lei idiota.

  • Eu acho que o cinto deve ser obrigatório e capacete também. Talvez numa sociedade bem educada e consciente isto poderia ser opcional, mas como é hoje em dia não acho adequado. Estas pessoas se não morrerem vão parar no hospital ocupando mais um leito e drenando mais dinheiro da saúde e se for um pai de família vai dar um transtorno danado para a família.

    • Victor H, acho que não deve ser obrigatório, mas aconselhado e conscientizado. Não estou com 73 anos incólume por sorte apenas. Quando morava no Rio usava capacete quando fosse andar mais rápido. Mas ir à praia de capacete? Jamais. Cinto, para andar devagar, tipo no bairro? Exagero puro.

  • Victor H, inventar nesse assunto é desnecessário. Basta seguir a norma europeia, que está pronta, existe e funciona.

  • André, é por aí mesmo. E tome patrulhamento.

  • André Stutz Soares

    Repito o que os escribas do AE e diversos leitores já falaram por aqui: se é para aumentar a visibilidade, obriguem fabricar todos os novos veículos com DRL e, com o tempo, todos estarão devidamente iluminados. Mas aí a arrecadação não aumenta…

    • Renato Texeira

      Concordo plenamente!

  • Renato, quer melhor exemplo do que é a nossa sociedade do que eleger e reeleger para presidente da República um semianalfabeto que nem síndico de condomínio havia sido, e o mesmo com uma mulher ex-terrorista — portanto criminosa — que nunca provou capacidade administrativa tampouco liderança?

    • Renato Sacramento

      De fato, exemplo melhor não há!

  • André, o que não faz a sensação de poder, de importância, dos pobres de espírito! Ridícula, essa mania.

  • Roberto, seria o ideal, inclusive com chaveamento que as ligue exclusivamente, sem as luzes traseiras, como nas instalações de fábrica.

  • Brenno

    Veja: o que eu tentei dizer é com relação a algo ser bom para um e não ser bom para outro. No exemplo, parei meu carro a 100 metros de mim, com os faróis ligados. Depois, fiz o mesmo com eles desligados. E, percebi que consigo notá-los com mais facilidade. Em estradas, noto diferença entre veículos que cruzam com farol ligado/desligado. Portanto, ao meu ver, é útil para mim. Assim, resolvi adotar essa prática como algo comum.
    Se para a grande maioria das pessoas não faz a mínima diferença, sem problemas: basta não usar. Afinal, não há lei que proíba usar o farol diurnamente (ainda bem).

  • Brenno

    Exato! Todos estamos carecas de saber que é vital usar o cinto. Agora, se fulano não quer usar, mesmo alertando e sabendo do risco, quem sou eu para julgar?

  • János, essa é outra da série “morro sem entender”. Como pode alguém dirigir à noite com faróis desligados? Tem que ser completamente imbecil. Como também há os imbecis que à noite só ligam os faróis de neblina para o carro ficar “lindão” e pelo corte de luz baixo, específico para neblina, não avistam placas de trânsito.

  • Pastel

    São tantas as leis neste país que a muito antiga frase “aos amigos os favores, aos inimigos a lei” (Maquiavel) foi feita sob medida para nós, os autoentusiastas. No caso, os inimigos.