Fábrica só investe em tecnologia pressionada pelo mercado, legislação ou insatisfação do cliente

Estava semana passada na apresentação de um novo automóvel, com vários outros jornalistas especializados e executivos da fábrica. Discutíamos sobre as características técnicas do novo modelo, se a suspensão era assim ou assado, qual o motor mais adequado ou se a melhor roda seria a maior ou a menor, coisas do gênero. Claro que, entre especialistas, surgiram divergências e argumentos defendendo ou criticando determinadas soluções adotadas no modelo. Numa dessas rodinhas estava um engenheiro da fábrica que tinha participado do desenvolvimento do projeto e interessado no que diziam os jornalistas. Alguns com dezenas de anos dedicados ao assunto, participado de centenas de lançamentos e dirigido outro tanto de automóveis pelo mundo.

Num momento, o tal engenheiro, até então ouvindo mais que falando, decidiu intervir numa questão que — ao contrário do que pensavam os jornalistas — tinha muito mais de bom senso que de técnica. “Penso como vocês — disse ele — em relação a este motor, realmente antigo e que já poderia ter sido substituído por outro mais moderno e eficiente”.  E acrescentou que a empresa já o produzia em outros dois países. E por que não importá-lo ou fabricá-lo também no Brasil, foi a pergunta de um jornalista.

“Por vários motivos” — disse o engenheiro.  “Importá-lo seria uma excelente ideia desde que algum de vocês assine embaixo que o dólar vai se estabilizar nos atuais R$ 3,20 durante pelo menos cinco anos. Por outro lado, fabricá-lo no Brasil exigiria investimentos de cerca de 250 milhões de dólares”. Se o assunto é levado à matriz, seus altos executivos perguntam, em primeiro lugar, se o antigo motor atende as exigências legais de emissões. E mercadológicas em relação ao desempenho e consumo. Caso contrário, o custo para modernizá-lo ao invés de investir num outro. E a questão derradeira e fatal: “Nas pesquisas, qual o grau de insatisfação dos clientes com o motor atual?”.

“Automóvel não é produzido para quem gosta e entende como nós, mas para atender a legislação ou a demanda do mercado”, arrematou. E deu um exemplo definitivo: “Em casa, temos dois modelos semelhantes, um verde a diesel, um preto a gasolina e minha mulher usa ambos. Outro dia perguntei qual o de sua preferência e ela disse ser o verdinho. “Ah, o diesel!” eu disse. E ela retrucou: “Não sei, qual a diferença?”.

Enquanto os “cobras” no assunto discutem se o motor deve ter duas ou quatro válvulas, se a suspensão traseira deve ser multibraço ou eixo de torção e abominam o japonês topo-de-linha que — absurdo! — não tem controle de estabilidade (ESC), o presidente da fábrica quer saber se há insatisfação do cliente com aquele item, se o exige ao decidir pela compra do carro e o custo do investimento para atendê-lo. E que se dane a meia-dúzia de apaixonados pelas firulas tecnológicas.

Um jornalista na roda disse que tinha recebido uma ligação meia hora antes de um cunhado que pedia sua opinião, pois estava numa concessionária comprando um carro. Ele quis saber qual era o modelo e ouviu o cunhado perguntando para o vendedor: “Como se chama mesmo aquele branquinho ali?”…

O que faz o consumidor padrão se decidir por um automóvel é, pela ordem: preço, design, índice de alergia à oficina e valor de revenda. Consumo de combustível pode atrapalhar, se for muito alto. Firulas tecnológicas? Ele não tem nem ideia do que vem a ser o ESC. Não sabe quantos cilindros tem o motor, nem se está na frente ou atrás…

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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