Um evento muito interessante da Ford Brasil foi realizado nessa quinta-feira (15) em São Paulo.

O Ford Design Feeling tem a intenção de mostrar, de forma simplificada, o processo de criação de um veículo dentro do processo global da empresa, fazendo os presentes sentirem a abrangência de atividades desempenhadas para definir os vários itens visuais que vão muitas vezes determinar a compra de um determinado modelo.

“No universo da criação, temos de levar em conta vários fatores que vão muito além da beleza das formas. Por isso, são feitas constantes pesquisas com diversos perfis de pessoas e diferentes formas de condução. O design de interior, por exemplo, deve considerar pessoas de diferentes tamanhos e condições físicas de modo a garantir a segurança, conforto e bem estar para todos e sempre tendo como foco o uso do produto no dia a dia do consumidor”, diz Matheus Demetrescu, gerente de Experiência do Usuário da Ford.

Nesse primeiro cenário foi explicado que um time voltado para antecipar esses requisitos e identificar padrões de uso, chamado Marketing Estratégico, entra em cena, formando um conjunto de itens que o cliente deseja e, em seguida passa as informações para as equipes de Design e de Experiência do Usuário, que darão forma, cor, textura e vida ao novo veículo.

No segundo ambiente do Ford Design Feeling, batizado de Inspirações, designers apresentaram as tendências de onde extraem ideias para as novas criações. “São peças de arte, arquitetura, tecnologia, comportamento, vestuário e acessórios. É um mundo de informações que absorvemos e a partir das quais damos vazão à criatividade”, afirma Adília Afonso, supervisora da área de Color e Trim (cor e acabamento) do Design da Ford América do Sul.

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Inspirações vem de diversos produtos

A terceira estação, chamada Criação, revelou o processo de geração das ideias. Por meio de croquis, rabiscos e uma impressora 3D, que imprime pequenas peças desenhadas em computador, foi possível ver os primeiros esboços do que será o novo produto, incluindo a modelagem de um protótipo em argila, feita por um designer modelador. Na prática vimos uma parte de uma maçaneta ser feita em poucos minutos, mas havia um modelo de uma Ranger e de um Ka expostos, trabalho de semanas.

Alguns métodos e materiais utilizados são os seguintes:

Argila 

Tecnicamente chamado de clay, a argila plástica sintética é utilizada para modelamento da escultura do veículo. Diferente de uma argila comum, que ao ser aquecida endurece e não pode mais ser modelada, sua composição permite que o material, a altas temperaturas, ganhe uma textura mais maleável para facilitar sua aplicação sobre uma base de PU, uma espuma de poliuretano de alta densidade. Ao esfriar, o clay automobilístico volta à sua textura mais firme, permitindo que os designers, juntamente com os modeladores, possam esculpir sua superfície.

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Sigla de espuma de poliuretano de alta densidade. É um material mais firme e rígido que serve de base estrutural para a aplicação de uma camada de clay.

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Tape

Fita adesiva maleável utilizada para desenhar curvas sobre a superfície do clay, permitindo aos designers ajustar proporções, linhas de caráter e orientar o trabalho do modelador. O tape para design automobilístico tem a propriedade de poder ser esticado para a execução de curvas mais acentuadas, o que não seria possível com uma fita comum. 

Di-Noc

Filme maleável que imita a pintura metalizada de um automóvel real. Este filme é aplicado sobre o clay e permite que se tenha o visual semelhante a um carro real de produção. Com a aplicação do Di-Noc, pode-se fazer a análise de possíveis defeitos na superfície, avaliação de volumes, sombras e highlights, o modo como a luz incide e cria desenhos sobre a superfície do carro.

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Modelo em clay mostra a eficiência do Di-Noc para entender as superfícies

Com alguns fornecedores presentes, foi também possível manusear várias peças, partes de capas de bancos, trocando peças de tecido para criar um padrão qualquer, dentre as muitas opções de cortes, peças com velcro no verso, entre outras brincadeiras. Bem divertido inventar esse tipo de coisa.

“É uma forma de mostrar a infinidade de opções que existem, tanto de materiais como de estilos e padrões, na escolha de tecidos, cores e recortes para a concepção desse item. É um grande exercício de criatividade”, explica Adília.

E uma considerável parte dessa criatividade vem dos fornecedores, parceiros que há muito tempo vão além dos negócios puramente comerciais. Alguns estavam presentes, mostrando seus campos de especialidade.

Para dividir experiências do universo do design de carros e entender sobre inovações e tendências, empresas dos segmentos de couro, tecido, impressão 3D, pigmentos e componentes se uniram à marca nesta ação.

Eagle Ottawa

A Eagle Ottawa, pertencente ao grupo Lear, é o maior fornecedor mundial de couro automobilístico premium, com 22 unidades em quatro continentes, 8.300 funcionários e 32% do mercado global. Desde 1865, busca os mais altos níveis de profissionalismo e serviço ao cliente. Hoje, com investimentos em novas tecnologias, produz couros mais luxuosos e duráveis, exaustivamente testados, atendendo fabricantes de automóveis em todo o mundo. No Brasil, a empresa possui uma unidade na cidade de Londrina (PR) e conta com 100 funcionários.

Faurecia

Líder global em todas as suas áreas de negócio, a francesa Faurecia fornece soluções inovadoras para o mercado automobilístico,  desenvolver carros mais ecologicamente sustentáveis, leves e modernos. Equipando um em cada três veículos produzidos hoje no mundo e operando em 34 países, a Faurecia emprega cerca de 103.000 pessoas no total, sendo 3.100 no Brasil, para um total de mais de 6.000 engenheiros e técnicos em 330 locais de produção (sendo 30 centros de Pesquisa e Desenvolvimento). No Brasil, iniciou suas atividades em 1997. Há 14 unidades de produção no país: Gravataí (RS); Quatro Barras e São José dos Pinhais (PR); São Bernardo do Campo, Limeira, Sorocaba e Piracicaba (SP); Porto Real (RJ); e Dias D´Ávila (BA); e três Centros de Pesquisa e Desenvolvimento: Limeira (SP), Quatro Barras (PR) e São Bernardo do Campo (SP).

Em um painel havia dezenas de peças modelo com padrões de acabamento diferentes, desde as fabricadas com alto brilho em plástico, passando pelas pintadas, as feitas em chapa de alumínio com aplicação também de filmes decorativos em uma ou mais camadas — que criam efeitos tridimensionais — e gravações a laser sobre pintura, até algumas com revestimento em madeira real de pequena espessura, com camada de substrato em madeira misturada com polímeros (plásticos). Esses materiais reais acabam com a sensação de olhar para uma moldura decorativa, imaginar que ela é de madeira e ao tocá-la, percebermos que pela temperatura trata-se de plástico. O resultado é uma certeza de enriquecimento do interior do carro, com uso de materiais que são o que parecem.

Dois bancos dianteiros que podiam ter os padrões alterados com amostras de tecidos diferentes, tinham a tecnologia patenteada e chamada de CCT, carved cover technology — tecnologia de capa esculpida — uma novidade que começa a ser aplicada no mercado, e consiste em fazer os relevos que formam os desenhos dos bancos na capa de tecido, vinil ou outros materiais, e não em rebaixos e saliências na espuma. A vantagem é uma maior velocidade para mudanças, menor custo, pois não se altera os moldes das espumas e mais precisão nos detalhes, podendo-se fazer um emblema, por exemplo, sem requerer costuras. O processo é patenteado e por enquanto um segredo industrial, portanto, não obtive explicação sobre como são feitos os vincos, dobras e relevos.

Merck

A Merck é uma empresa de ciência e tecnologia líder nos setores de Saúde, Ciências da Vida e Materiais de Performance, fornecedora de pigmentos de tintas de interior e exterior para a indústria automobilística. Presente no país desde 1923, conta hoje com 1.423 colaboradores, próprios e terceirizados. Além da unidade de fabricação farmacêutica, localizada na cidade do Rio de Janeiro, possui escritórios administrativos e unidades de negócios em São Paulo, Barueri e Cotia. O Grupo Merck tem mais de 340 anos de atuação, sendo a indústria farmacêutica e química mais antiga do mundo. Possui cerca de 55 mil colaboradores distribuídos em 66 países e seu propósito é ser a primeira a desenvolver novas tecnologias para a vida.

Sage

A Sage Automotive Interiors é a empresa líder no segmento de tecidos para bancos, superfícies de painel de porta e revestimento para teto de veículos. Ela possui uma plataforma de produção global com unidades no Brasil, na América do Norte, Europa e China, e seus escritórios comerciais, de design e desenvolvimento estão localizados na Tailândia, Japão e Coreia. Com 159 funcionários no Brasil, a indústria está sediada em Arujá, cidade na Região Metropolitana de São Paulo. A Sage possui uma biblioteca global virtual de design para maximizar a criação de seus engenheiros e designers, além de investir em inovações, tecnologia e engenharia que visam solucionar os problemas dos clientes.

As amostras de tecidos trazidas foram bem variadas, mostrando que o que vai para a produção é uma pequena parte do que é possível de ser feito.

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3D Systems

Fornece produtos 3D (impressoras e scanners) e serviços, incluindo  materiais impressos e ferramentas de design digital. Seus produtos permitem aplicações avançadas como a impressão de dispositivos médicos e odontológicos. Como o criador da impressão 3D, a companhia passou a sua história de 30 anos permitindo que os profissionais e empresas possam otimizar seus projetos, transformar seus fluxos de trabalho, trazer produtos inovadores para o mercado e conduzir um novo modelo de negócios. No Brasil, está localizada na cidade de Diadema (SP) e possui 80 funcionários.

Na última etapa, Experiência do Usuário, a Ford apresentou, pela primeira vez no Brasil, os trajes desenvolvidos em seus centros de pesquisas na Europa e nos Estados Unidos que simulam os efeitos da gravidez, da terceira idade, da embriaguez e de drogas para expor as dificuldades e limitações de mobilidade destes motoristas.

Essas roupas foram criadas para permitir aos designers e engenheiros da Ford realizar testes e entender as necessidades das futuras mamães e pessoas idosas, gerando conhecimento para aumentar o conforto e a segurança dos veículos desde a concepção do seu projeto. De forma similar, os trajes que simulam os efeitos do álcool e drogas no motorista trazem elementos para conscientizar quem está ao volante dos riscos que estes efeitos podem causar.

A vestimenta que simula um usuário idoso foi a primeira a ser criada, já há mais de uma década, pela Ford americana, as demais vieram depois. O objetivo é claro, entender como a perda de mobilidade causada por cada uma dessas condições, naturais ou forçadas, afeta a operação do veículo. No Brasil, são chamados trajes de empatia, pois permitem a todos se colocar no lugar e se sentir como se estivessem em qualquer uma das condições, seja mulher grávida, o idoso, o alcoolizado e o drogado. Há um vídeo curto para cada uma delas, bem melhor do que tentar explicar com palavras.

Gravidez

Permite que qualquer pessoa tenha as mesmas sensações de uma gestante ao volante. O traje adiciona 13 kg ao usuário, reduz os movimentos e o conforto, simulando as limitações físicas durante a gravidez. É composto por cinto de compressão que aperta os pulmões; bolsa de peso para simular a cabeça do feto, duas bolas de chumbo para simular os membros do feto e uma bolsa d’água de 2 litros, para representar a cabeça do feto sobre a bexiga.

Terceira idade

Reduz significativamente a mobilidade do usuário e simula problemas de saúde decorrentes do envelhecimento. Projetada especialmente para dar aos engenheiros e designers uma experiência prática do que é ser uma pessoa idosa, tem vários dispositivos que reduzem a capacidade de se movimentar e comprometem os sentidos, tais como

  • Cintas de cotovelo: reduzem a articulação e impedem os movimentos para pegar objetos;
  • Luvas sem dedos: imitam a ausência de controle e força que idosos têm nas mãos;
  • Suspensórios: endurecem as articulações do joelho e limitam os movimentos das pernas, tornando difícil ficar em pé, andar ou sair do veículo;
  • Pesos para os pés: simulam a dificuldade no uso dos pedais;
  • Óculos redutores de visão: simulam doenças oculares, como glaucoma ou catarata;
  • Abafadores acústicos: filtram as altas frequências, que não podem ser ouvidas muito bem pelos idosos;
  • Bandagem cervical: limita os movimentos do pescoço;
  • Colete: pesa cerca de 10 kg, restringindo os movimentos e a flexibilidade;
  • Luvas de algodão: limitam o sentido do tato, uma consequência frequente de doenças como diabetes.

Bebidas alcoólicas

O “Traje do Motorista Embriagado” simula os perigos de dirigir sob os efeitos do álcool, como dificuldade de visão, coordenação e equilíbrio. Tem itens interessantes, como

  • Tapa Orelhas: dificulta a audição para retardar as reações;
  • Óculos redutores de visão: produzem imagens-fantasma e visão de túnel;
  • Bandagem de pescoço: limita os movimentos da cabeça;
  • Bandagens de cotovelo: retardam os movimentos dos braços;
  • Bandagens de joelhos: retardam os movimentos das pernas;
  • Peso de tornozelo: afeta o equilíbrio, especialmente ao ser usado do lado oposto do peso do pulso.

Drogas

O mais extremo traje permite simular o efeito das nefastas drogas, reproduzindo os efeitos e danos físicos que ocorrem devido ao uso de maconha, cocaína, heroína, Ecstasy e LSD no corpo do usuário, como tempo de reação mais lento, visão distorcida, tremor nas mãos e baixa coordenação motora.  Tem os seguintes equipamentos:

  • Fones de ouvido: tocam músicas de fundo para confundir e distrair;
  • Óculos de visão reduzida: produzem visão borrada, luzes piscando e criam “visão de túnel”;
  • Coleira: restringe os movimentos da cabeça;
  • Cotoveleiras: reduzem os movimentos dos braços;
  • Munhequeira: deixa a reação mais lenta e afeta o equilíbrio;
  • Gerador de tremores: faz as mãos tremerem;
  • Joelheiras: reduzem os movimentos das pernas;
  • Tornozeleira: usada do lado oposto da munhequeira, reduz a rapidez da reação e o equilíbrio.

Foi um evento diferente e interessante, sem mostrar novidades dos carros, mas sim detalhes que são desconhecidos da maioria, e deixou claro que o tempo de desenvolvimento é fundamental para que o produto automóvel seja considerado atual ao ser colocado à venda.

Nada fácil, e nem um pouco rápido.

JJ

Na galeria a seguir, alguns desenhos feitos à mão pelos designers da Ford, aqui e fora do Brasil:

 

 

 

 

 

 



Sobre o Autor

Juvenal Jorge
Editor Associado

Juvenal Jorge, ou JJ, como é chamado, é integrante do AE desde sua criação em 2008 e em 2016 passou a ser Editor Associado. É engenheiro automobilístico formado pela FEI, com mestrado em engenharia automobilística pela USP e pós-graduação em administração de negócios pela ESAN. Atuou como engenheiro e coordenador de projetos em várias empresas multinacionais. No AE é muito conhecido pelas matérias sobre aviões, que também são sua paixão, além de testes de veículos e edição de notícias diárias.

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  • TDA

    Poxa, muito interessante todo o trabalho realizado durante o processo de criação de um novo veículo. Muito legal também a questão dos trajes simulando várias sensações diferentes e várias tipos de pessoas. Obrigado, JJ, por nos trazer todas essas informações.

  • Cafe Racer

    JJ,
    Esse evento foi aberto ao público?
    Infelizmente acredito que não.
    Seria uma forma bacana e diferenciada de divulgação do nome Ford.

    • Juvenal Jorge

      Cafe Racer,
      Não, era apenas para a mídia de automóveis e estilo em geral.

  • Juvenal Jorge

    m.n.a.
    Considero dirigir e teclar o antientusiasmo automobilístico máximo.

  • Luiz Felipe, partiu para o cyberautoterrorismo? Isso não tem lugar aqui. O PowerShift está sendo resolvido, você está generalizando na questão do pós-venda e fazendo coro com os maria-vai-com-as-outras na “montagem e acabamento”. Por favor, abstenha-se desse tipo de assunto aqui, vá expressar sua raivinha em outro lugar. Fora que o assunto da matéria do Juvenal Jorge é outro.

  • Marcelo Conte

    Muito legal, como fã da Ford, pena que o evento não foi aberto ao público, mas grato ao JJ por publicar a matéria!