Você já foi recomendado por alguém? Já recomendou alguém a alguém? Já recomendou um cuidado especial para algum serviço em uma peça rara? Já deixou um carro para serviço com uma super-recomendação de cuidado?

Se você já fez algumas destas recomendações ou algo parecido, tenho outra pergunta a lhe fazer: deu certo?

A história que vou lhe contar hoje envolve um grande ídolo brasileiro, por que não dizer mundial, do qual temos muita saudade e dele nos lembramos sempre aos domingos quando há Fórmula 1. Isso mesmo, estou falando do nosso grande e imortal “Ayrton Senna do Brasil”!

Lançamento do Gol GTi, eu trabalhando na Volkswagen do Brasil, Ayrton Senna campeão mundial pela primeira vez e tudo mais era festa, era o que mais queríamos.

Através do nosso departamento de relações públicas e imprensa eu soube que o Banco Nacional, um dos principais patrocinadores do nosso campeão, decidira dar um presente ao seu recém-laureado campeão mundial de Fórmula 1.

As negociações foram realizadas longe do meu departamento, afinal, eu como pós-vendas, nada tinha a ver diretamente com aquela homenagem que estava sendo preparada.

A escolha do carro já havia sido feita, um Gol GTi na sua cor de lançamento, a azul Mônaco, e o carro ainda seria escolhido a dedo na produção na Fábrica 2, em Taubaté (SP) e para isto havia gente suficiente em fazer o melhor, como o Disney, supervisor da Armação de Carroceria. Nesta fase começavam as tais recomendações. Produção, controle de qualidade, todos empenhados em escolher o melhor dos melhores para quem também era o melhor dos melhores pilotos do mundo.

Carro encontrado, separado e enviado aos meus cuidados para que fizéssemos uma excelente revisão de entrega e para tal também tínhamos os melhores mecânicos da oficina da fábrica, justamente os dedicados à nossa equipe de rali.

Cumpridos todos os trâmites burocráticos, o carro chegou finalmente à Ala Zero, como era chamada a oficina de Assistência Técnica da Fábrica 1 — a de São Bernardo do Campo — onde se faziam revisões de carros da frota e também atendimento de casos de difícil solução apontados pelo campo.

A ordem era: caprichar, não deixar escapar nada, fazer uma excelente revisão, o cliente era superespecial, Ayrton Senna, nosso campeão. Recomendações vinham de todos os lados e com isto a minha preocupação aumentava.

Uma nova orientação acabava de chegar. Quem já trabalhou em fábrica sabe que apesar da produção ser em série sempre há um motor com pequenas diferenças em relação a outro e a nossa engenharia começou a procurar um motor que apresentasse uma potência mais elevada dentre os medidos.

No caso dos câmbios também existem diferenças naturais como resultantes do processo de produção. O Luiz Antônio da Silva, engenheiro engajado no empenho de competições da fábrica, obteve com o diretor de Produção de Motores Hans Georg Sowade um motor com potência nominal algo acima da média — um faixa-azul, como se diz. Com o diretor de Produção de Câmbios Rui Giometti, o Luiz conseguiu uma unidade com nível de ruído inferior ao padrão.

Tínhamos então o conjunto motriz ideal para o carro do campeão. E agora, o que fazer?

Motor e câmbio foram encaminhados para a oficina da Ala Zero para que pudesse ser providenciada a troca pelo conjunto original montado no carro na sua produção. E as recomendações continuavam a chegar.

Estava chegando o momento de colocar o carro no elevador, remover motor e câmbio e substituí-los pelo novo conjunto especialmente selecionado para o campeão.

Carro no alto, rodas dianteiras removidas e com todo cuidado colocadas no porta-malas, era só soltar o conjunto motor-câmbio. Assim foi feito, lembrando de todas as recomendações.

Mas de repente, o improvável, o incrível, o pior que se poderia imaginar, aconteceu. O carro em uma “manobra” incrível, um verdadeiro looping, se projeta para trás e cai do elevador sobre o teto, com as rodas para cima.

Corre daqui, corre dali, felizmente ninguém se machucou, mas a pergunta era a mesma: como isto pôde ter acontecido? Todos os responsáveis se reúnem ao redor do veículo acidentado e começam a avaliar o sucedido. Não demorou muito para que se chegasse à conclusão: peso adicional no porta-malas do carro e a não fixação da carroceria na parte dianteira junto ao elevador. Quando se removeu o conjunto motriz completo, em uma só operação, a falta da amarração da carroceria, combinada com o peso no porta-malas, ocasionaram o deslocamento e a queda do carro do elevador.

Não foi falta de recomendação, pode o leitor estar certo, havia muitas pessoas envolvidas na tal operação, tantas que até a atenção dos mecânicos para o serviço correto foi desviada.

Relatórios feitos, análises realizadas, boletins de ocorrência internos providenciados, e as conclusões: acidente de trabalho! Troca do carro, a solução óbvia. Providenciou-se o cancelamento do faturamento daquele veículo, um novo foi faturado e a operação com todo cuidado e recomendação foi levada a efeito.

Carro zero, motor zero, câmbio zero e todos felizes.

Na foto de abertura, o momento da entrega do GTi a Ayrton Senna. Da esquerda para a direita, o irmão de Ayrton, Leonardo; Christian Schües, diretor da área de RP da Volkswagen do Brasil; Ayrton Senna; e aquele que escreveu mais esta história tirada do fundo da baú, ocorrida nas dependências da Ala Zero, Oficina de Assistência Técnica da Volkswagen do Brasil em São Bernardo do Campo.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade o seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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