Dizia-se até poucos anos atrás que o que era bom para os Estados Unidos era bom para o Brasil. Ainda há muita gente que pensa assim, mas para o lado prejudicial ao cidadão, claro.

Em 1974, em razão da crise do petróleo iniciada um ano antes, o limite de velocidade americano foi baixado para 55 mph (88 km/h). Combustível foi economizado, sem dúvida alguns acidentes foram menos graves, mas o que se viu foi um grande aumento da arrecadação com dinheiro de multas, e os governantes ficaram com os olhos brilhando. Lugares onde se podia andar tranquilamente a 70 mph (112 km/h) tiveram imposto o limite — nacional — de 55 mph, trazendo muito sono e tédio — e acidentes.

Depois de apenas treze anos  e muita pressão da NMA – National Motorists Association (Associação Nacional de Motoristas) — o limite subiu para 65 mph (104 km/h), mas as autoridades aprenderam que limites antinaturais eram ótima fonte de dinheiro.

Lá os estados podem legislar sobre limites, e hoje há muitos lugares onde se pode andar a 75 mph (120 km/h) ou até mesmo 80 mph (128 km/h), mas isso tende a reverter para pior.

O americano que sabe dirigir percebe que há muitos lugares no território americano onde se tem que andar devagar demais, prejudicando o fluxo. E lá eles não discutem leis importantes e sensatas, como multas de valor dobrado em áreas escolares ou em obras nas estradas, onde crianças e pessoas trabalhando inevitavelmente ficam muito próximas dos carros.

A diminuição do tempo de luz amarela nos semáforos é outro fato que fez subir a arrecadação, pois o antigo hábito de aproveitar o amarelo pegou muita gente desprevenida e gerou grande número de multas por passar no vermelho. Outra nefasta consequência da mudança, já que com medo de passar no cruzamento e a luz mudar para vermelho mais rápido do que manda o bom senso técnico, o motorista freia bruscamente, muitas vezes causando uma colisão traseira. A diminuição do tempo do amarelo e o aumento do número de acidentes foi comprovado em estudos.

A defesa de multas é também cada vez mais difícil, com dias e horários marcados pelos juízes, e que se for impossível comparecer mesmo com justificativa clara e provada, não há segunda chance, apenas se encerra o caso e se tem que pagar a multa.

Estão sendo também cada vez mais frequentes as blitze feitas por policiais rodoviários em motos, informados por policiais em viadutos com radares do tipo pistola, e essas motos param pessoas por diversos motivos, não apenas velocidade, provocando lentidões nas estradas. A arrecadação tem crescido muito com essas ações em grupo que nunca foram comuns, mas as polícias parecem não se importar em provocar lentidões. Essa restrição à liberdade, nos EUA, não é aceita naturalmente como aqui, onde vemos esse tipo de comando em qualquer lugar, até dentro de cidades, travando avenidas frequentemente.

Nos EUA era frequente um policial seguir alguém cometendo alguma infração, parar o motorista e lhe dar um sermão, muitas vezes seguindo viagem sem uma multa emitida. Mas isso sabidamente dá mais trabalho e não gera verbas para os municípios e estados, então, está sendo uma boa prática cada vez menos utilizada.

A imprensa americana questiona números sobre segurança antes e depois dessa prática de multas cada vez em maior número, para que seja provado que as autoridades estão fazendo o trabalho corretamente. Por aqui, sabemos que estatísticas podem ser muito facilmente manipuladas a favor da autoridade, como, por exemplo, um certo prefeito dizer que acidentes foram reduzidos por causa de menor velocidade permitida, quando se sabe que o fluxo de veículos diminui bastante com uma situação econômica horrível, isso provado por números sobre consumo de combustível divulgados pela Agência Nacional de Petróleo. Conta-se a história do jeito que mais se convém, a maioria aceita quieta.

O apelo feito nos EUA é para que qualquer motorista reporte à NMA o que está acontecendo nos locais por onde passa, notando se há ação policial que seja claramente direcionada à arrecadar mais do que educar.

Também se recomenda a utilização de detetores de radar, que lá são juridicamente legais, e funcionam, pois a enorme maioria das multas são emitidas a partir de radares de mão, do tipo pistola, que operam com ondas. Ou seja, são radares de verdade, e não os sensores colocados em solo nos nossos dispositivos fixos no Brasil, ou células de presença nos dispositivos portáteis. Estes são ainda mais descaradamente arrecadadores, pois nem mesmo são facilmente visíveis, e estão sempre em locais onde é muito fácil ultrapassar o limite baixíssimo imposto e postado na sinalização. Armadilhas puras, com intuito de encher cofres.

Outro detalhe importante é sobre as supostas cotas que os agentes da lei obtém ao emitir as autuações. Esse assunto é antigo no Brasil, e também falado agora nos EUA. Medir a eficiência de um policial de trânsito pelo número de multas que emite é algo totalmente comprobatório da existência de uma orientação arrecadatória, e não educadora, e criaria um processo monumental naquele país se fosse provado. Aqui, estamos passivos, pagando nossas multas e tendo nossas CNH suspensas.

JJ

Notícia baseada na matéria “Is modern traffic enforcement all about dollars instead of safety?” publicada no site autoblog.com em 2/09/16, autor Gary Witzenburg.

Sobre o Autor

Juvenal Jorge
Editor Associado

Juvenal Jorge, ou JJ, como é chamado, é integrante do AE desde sua criação em 2008 e em 2016 passou a ser Editor Associado. É engenheiro automobilístico formado pela FEI, com mestrado em engenharia automobilística pela USP e pós-graduação em administração de negócios pela ESAN. Atuou como engenheiro e coordenador de projetos em várias empresas multinacionais. No AE é muito conhecido pelas matérias sobre aviões, que também são sua paixão, além de testes de veículos e edição de notícias diárias.

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  • Luiz Alberto Melchert de Carva

    Como funciona um medidor de velocidade baseado em sensor de presença? Conheço o funcionamento dos radares Dopler mas não compreendo bem como um sensor de presença pode medir velocidade. Fiquei curioso.

    • Luiz Alberto, são dois sensores, espaçados.

  • Ricardo, é, mas todo mundo parece querer ir morar lá. Por que será?

  • Ricardo, eu não creio, tenho certeza. O mal que o molusco e a gorda fecal causaram ao Brasil, muita gente não percebe. Como o índio ladrão da Bolívia se apoderar de uma refinaria da Petrobrás e ficar por isso mesmo.

  • Marco, vejo Brasil sem lupa, por favor.

  • Thales, perfeito!

  • Fat Jack,, o certo, porém utópico, seria a velocidade realista recomendada, como os 130 km/h recomendados nas Autobahnen nos trechos de velocidade ilimitada. Utópico por que os governos perderiam uma polpuda arrecadação, utópico porque desmascararia a indústria das multas ao ficar demonstrado que velocidade não causa acidente.

  • lightness RS

    Coitados, ia travar o sistema se tivesse opção de reclamar aqui do Brasil

  • lightness, nem precisa pensar muito para adivinhar onde os salafrários ficam.

  • lightness, não é exatamente assim. Quando havia um só trecho de serra na rodovia dos Imigrantes e se faziam operações de descida por ele, o limite era 100 km/h, igual à subida. Quando da construção do segundo trecho, de gradiente menor que o primeiro, falou-se à exaustão que o limite seria 110 km/h. Aí foi inaugurado em 2002 e foi estabelecido 80 km/h sem nenhuma justificativa.

  • Luiz, só tem três caminhos para escapar da indústria das multas:
    – Carro autônomo
    – Bicicleta
    – Andar a pé.

    Entretanto, tenho minhas dúvidas sobre o que farão com o carro autônomo quando ele for realidade.

    Veja o que está acontecendo nas telecomunicações. Já estudam meios de regular e cobrar impostos dos programas tipo WhatsApp que sempre foram gratuitos. Isso não tem o menor sentido porque não tem como regular.

    A internet é um meio digital universal de trocas livres de informações e cada um faz o seu programa de comunicação de dados para rodar sobre ela.

    Mas qual a realidade? Existem empresas de telefonia que são muito poderosas, e um governo que além de ser “amigo” dessas empresas, ainda arrecada impostos sobre essas operações. E se o modelo de telefonia fracassar porque todos estarão usando a internet, como fica o governo sem arrecadação e as empresas de telefonia sem lucro?

    É por isso que nosso governo está tentando regular o que não pode regular.

    Só para dar um exemplo, além do WhatsApp, tenho no meu smartphone o Telegram, o ICQ, o Viber, o Firechat e Hangouts. E isso é só uma amostra dos comunicadores que tem por aí. Agora me mostra como o governo pode arrecadar de todos. Não tem como. Mas eles vão tentar.

    Da mesma forma, acredito que quando o carro autônomo for uma realidade, isso ameaçará a arrecadação e o lucro de muita gente. Aí quero ver quanto tempo vai demorar para inventarem alguma coisa contra ele.

  • ochateador

    Ele carrega os alertas (e radares) na hora que você calculou a rota.
    Se ao trafegar pela rota alguns alertas sumirem/aparecerem o waze irá se atualizar sozinho, bastando estar como GPS + plano de dados ativado.

  • Fat Jack

    Você acha normal a velocidade ser menor mesmo com uma via infinitamente mais moderna e bem equipada por ser descida?

  • Rodrigo R

    O limite de velocidade determinado é válido a partir do ponto onde o sinal é colocado até onde houver outra que a modifique, ou enquanto a distância percorrida não for superior ao intervalo estabelecido em lei. A norma diz que: para velocidade inferior ou igual a 80 km/h, a distância máxima entre uma placa e outra é de 1 km nas vias urbanas e de 10 km estradas ou rodovias, e para velocidade superior a 80 km/h, é de 2 km e de 15 km, respectivamente.

    Em resumo, a velocidade indicada permitida da placa só vale após a placa, nunca antes.

    Não há pegadinha alguma, a placa esta correta e de acordo com a lei você por falta de atenção à sinalização, foi corretamente multado.

    • Rodrigo R, desculpe, tanto é pegadinha que justamente estava lá o “inimigo” com sua “arma” a postos para garfar incautos. Se ele estava presente, o justo, o correto, o aconselhável – e honesto – seria mandá-lo parar e admoestá-lo, e não sair “atirando”. Uma sinalização que implique redução de velocidade requer mais do que simplesmente uma placa indicando nova velocidade, por exemplo a placa A-32b – passagem sinalizada de pedestres, de maneira a chamar a atenção do motorista. Não queira defender o indefensável.

  • Rodrigo R, também não vi.

  • Ricardo, safadeza oficial extrema.

  • Diogo Santos

    Essas duas estradas têm um limite diferente a cada quilômetro, realmente é profundamente irritante. Parece que quem decidiu colocar as placas foi uma criança brincando.

  • DPSF

    Sem contar os tapetes que os americanos tem para rodar. Uma imensidão de boas rodovias, em sua maioria bem asfaltadas e bem conservadas. Temos também o setor de serviços, onde americanos levam aquela máxima a outro patamar: “o cliente tem sempre razão”. Viajei para lá, comprei um notebook para mim, no quarto do hotel deu defeito, voltei no outro dia na loja, não tinha mais do modelo que eu comprei, me ofereceram o dinheiro de volta ou um notebook superior ao que eu havia comprado, levei o superior… isso é respeito. Se ainda assim os EUA não forem melhor que o Brasil, então estou com meus padrões bem ruins…
    Também não vejo ninguém pegando boia feita de câmara de ar para fugir dos EUA para Cuba e nem vejo nenhum brasileiro brigando para morar na Venezuela, nem os próprios petistas amigos dos tiranetes da Venezuela encaram morar lá…

  • Orizon Jr

    Camaradas. Peço que entendam meu ponto de vista. De antemão eu concordo com tudo que foi dito antes… Mas registro um breve contraponto.
    No geral, parece até que o brasileiro é um anjo e vive sendo armadilhado o tempo todo pelas autoridades de trânsito.
    Penso que é mais para o meio a meio. A indústria da multa é um fato, mas a falta de educação e a imprudência também.
    Tudo ocorre por uma razão explícita, mas principalmente por uma verdadeira razão (quase sempre oculta…)

    Forte Abraço a todos

    • Orizon Jr, não queira defender o indefensável. É armadilha o tempo todo, só não vê que não quer.

      • Orizon Jr

        Pois é, mestre. Não consegui ser claro. As armadilhas estão por todo lado e até já caí em algumas.
        Meu comentário é sobre o outro lado da moeda, os motoristas insanos, que não são poucos…
        É que muitos comentários dão um tom que não condiz com a realidade. Como se todos os motoristas fossem ótimos, vítimas de um sistema armadilhado.
        Não defendo, de forma alguma a indústria. Apenas não concordo com a santidade dos multados, nos quais me incluo. Forte abraço Mestre