Não é mais importante que a visão, mas divide importância com a audição: o olfato. Há cheiros que nos transportam para outra época. Por exemplo, enfiar o nariz na grade de ventilação dos primeiros Fuscas — falando de 1953 — com motor ainda quente e sentir aquele cheio que nem dá para definir exatamente o que é, mas tinha algo de metálico misturado com óleo e gasolina. Inesquecível.

fusca

O cheiro que saía por aquela grade era muito agradável (foto elo7.com.br)

Recentemente, no HB20, o odor do ar-condicionado nos difusores tinha um quê de adocicado, que me levou à casa de uma família americana vizinha de muro com a nossa na Gávea, no Rio, final dos anos 50, que tinha vários condicionadores de ar — na nossa não tínhamos. Um cheiro muito parecido senti em Bari, na Itália, há um par de anos, o da brisa que vinha do mar Adriático. Cheiro doce.

Um dos cheiros que reputo um dos mais espetaculares, talvez o mais, é o de carro novo. Como é bom! Aquele mistura de plásticos, adesivos, tapeçaria, é um perfume dos melhores!

carronovo

O inigualável cheiro de carro novo (youtube.com)

E o de freios superaquecidos, como parar depois de umas voltas num circuito? É inigualável, que prazer dá!

Mas este cheiro tem um rival, dentro do princípio que toda Gal tem uma Bethânia a disputar espaço e preferência do público: o de borracha dos pneus quentes também depois de andar num autódromo. Ou num carro de elevada potência arrancando.

2008 Dodge Challenger SRT8

2008 Dodge Challenger SRT8 (carhoots.com)

Pode parecer história de pescador, ou de motorista, no caso, mas consigo perceber óleo na pista numa estrada antes de chegar nele. Aquele cheiro me entra imediatamente. E como ajuda a evitar problemas!

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Dá para sentir o cheiro de óleo antes (debkumarbhadra.blogspot.com)

Na última vez que estive em Genebra, na Suíça, eu e um pequeno grupo de jornalistas entramos num restaurante, nos sentamos, e todos logo perceberam um enlouquecedor odor de presunto cru. Vimos que vinha de um balcão muito distante da mesa onde estávamos, mas vinha com uma intensidade incrível. Claro, pedimos duas porções a título de antepasto, devoradas em poucos minutos.  Que presunto cru incrível! Desmanchava-se na boca!

presunto

Deu para sentir o cheiro, não deu? (piresdemiranda.com.br)

Sei que muitos vão refutar o que vou dizer, mas um odor que me agrada muito é de tabaco. Pode ser nos cigarros dentro do maço ou de fumo de cachimbo dentro do invólucro, ou da fumaça resultante da combustão das folhas, nesse caso desde que não seja excessiva  — lembre-se até água em excesso mata.

Creio já ter contado aqui no AE que quando menino e andava de ônibus ou lotação (micro-ônibus) e se podia fumar neles, quando alguém acendia um cigarro eu esticava o pescoço para chegar o mais perto possível era um imenso prazer. E olhe que meu pai e minha e mãe não fumavam.

bb

Brigitte Bardot (wallpapersafari.com)

Há cheiros que são mesmo deliciosos:

– batata sendo frita
– carne senda assada, como nos churrascos
– mato ou grama assim que começa a chover
– grama que acabou de ser cortada (sentia isso quando ia de moto ao centro, no Rio, passando pelo Aterro do Flamengo)
– café sendo coado
– gasolina na Europa
– jornais, revistas e livros
– o produzido por motor dois-tempos quando o óleo é à base de rícino, como o antigo Castrol R-4o
– querosene de aviação
– pão francês que acabou de sair do forno
– da pintura do carro que acabou de ser encerada

A essa altura sei que você pode estar se perguntando se não vou falar de cheiro de mulher — não vou, dada a natureza do AE, mas que é uma das melhores coisas da vida, sem nenhuma dúvida.

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Al Pacino (Coronel Frank Slade, cego) dança o tango “Por una cabeza” com a jovem Gabrielle Anwar (Donna) em “Perfume de Mulher”, de 1992, trecho imperdível (universal.globo.com)

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Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

  • Jr_Jr

    Os cheiros nos remetem à sensações. Estas, que ao meu ver, são o sabor da vida.
    Restringindo-se ao mundo automobilístico, existem carros que tem cheiro peculiar, o Golf MkIV, por exemplo.

    • AlexandreZamariolli

      E os Mercedes antigos, então? Parece que o cheiro do MB-Tex vai durar mais que o próprio carro!

  • Bruno Corrêa

    Realmente existem cheiros que nos levam para momentos que ficaram na memória, lembro que os carros da década de 90 tinham um cheiro em comum, ou então era um aromatizante que era comumente usado nos carros, há alguns dias senti esse mesmo cheiro em um carro e me fez lembrar do Tempra 1994 que meu pai tinha, que nostalgia!

  • Maycon Correia

    Ah os cheiros! Esse da grama é sensacional, o do pão quente só é superado por aquela chuva que começa a cair após um período de tempo seco! Agora um que eu lembro de criança e sinto até hoje! O de Fusca! Meu 1500 com tapeçaria totalmente original exala aquele cheiro maravilhoso de carro antigo. Melhor que esse é um Lincoln 1948 que um conhecido tem.
    Alguns que jamais sentiremos novamente: Kombi e Fusca Itamar novos, aquele catalisador que “perfumava” o ambiente.
    Óleo dois-tempos M50, recém-saído das RR-350 ou mesmo das Lambrettas.
    Estêncil a álcool, as provas perfumadas e secando ainda.
    Anti-rust Texaco, que foi tirado de linha. E os soldados de chumbo.

  • Renato

    Na minha lista ainda entraria o cheiro de curral pela manhã, com aquela mistura de esterco e forragens acrescida de cana recém moída.
    Lembro da antiga casa de campo dos meus pais (que hoje é minha atual residência) com o cheiro da cerca viva de cedro ainda coberta pelo orvalho da madrugada.
    Cheiro bom que sempre me remete à infância.

  • Taylor

    Bob,
    Quem anda de moto sabe bem reconhecer cheiro de oléo em contato com asfalto.
    Questão de sobrevivência.

  • Mauro Luz

    Excelente abordagem, Bob. Você se transporta no tempo e no espaço ao sentir determinados cheiros.

  • Zeb Uceta

    Falando em óleo de rícino, o cheiro de motor de aeromodelo é bem gostoso, também! Me transporta à infância, gostava de ir até a pista de VCC no Aterro, na Glória.

  • Leandro Barros

    Bob Sharp, o que forma o cheiro do ar-condicionado do HB20, imagino que possa ser o ionizador, que gera um aroma que lembra ao mesmo tempo ar antes de tempestade elétrica, melancia, cloro, maresia. Existem filtros de água com ozonizador, que faziam muito sucesso nos anos 80, que deixam a água com esse cheiro.

    Como fumante, um dos melhores cheiros que senti foi em uma visita à fábrica da Souza Cruz, em Uberlândia. Um cheiro doce, mistura de tabaco, mel, caramelo, entre outros. Gosto muito do cheiro de cigarros de qualidade quando apagados, bem como o cheiro da fumaça, mas tenho que admitir que acho o cheiro residual nas roupas, casa e interior de carros é algo bem desagradável.

    Voltando aos carros, sempre tentei assimilar quais os componentes que produzem o aroma em
    certos carros antigos, velhos ou abandonados, que na hora me remetem à infância. Entrar em
    um DKW, Fusca, Kombi são uma volta ao passado. Pode ser mistura de óleo velho, gasolina, palha do estofamento, ferrugem, algo muito característico.

    Sinto saudade de cheiro de carro novo de antigamente, que chegava ao ponto de ser tóxico. Hoje em dia todas as fábricas atenuaram muito essa questão, contratando até perfumistas para criar um padrão no aroma dos carros, e lamentavelmente, lembro de um programa sobre a Rolls-Royce, em que o fabricante faz de tudo para entregar o carro inodoro ao cliente. Se isso for verdade, deve perder algo do encanto a experiência de entrar nos carros dessa marca.

  • guilherme, cheirando próximo.

  • Corsario, deixar carro para lavar, a eterna recomendação: NÃO passem nenhum tipo de perfume, odorizador etc. Só pano úmido! Carro tem de ter cheiro de carro.

  • Corsario, esse do Clarkson é perfeita!

  • Eurico Jr., esse é fantástico!

  • Mr. Car, “Marina”, matou a pau. Mas ela tem uma rival, a “Tereza da Praia.”

    • Mr. Car

      E a “Tereza” ainda tem um detalhe: os olhos verdinhos. Pronto, gamei! Eu tenho até medo, isto enfeitiça, he, he!
      Abraço.

      • Mr. Car, olhos verdinhos e uma pinta do lado…

  • H_Oliveira, sem a menor dúvida!

  • eNe, dois!

  • Caio Azevedo

    Não uso nunca, mas o aroma do álcool que sai pelo escapamento é nostálgico. Meu pai teve um Chevette 84 cujas partidas em ambientes abaixo dos 24 ºC eram um tormento.

    Quer me ver perdendo o raciocínio? Basta que uma mulher que fumou há alguns minutos venha conversar comigo. Só volto a raciocinar se me acionar o Ctrl+Alt+Del.

    Não é cheiro, mas é de carro. A reverberação do som da nossa voz dentro do carro. A conversa fica até melhor.

  • Davi Reis

    Belíssimo texto!

  • eNe

    Já o cheiro do dinheiro velho é terrível!

  • Daniel S. de Araujo

    Bob, o cheiro nos remete a muitas lembranças…algumas ótimas outras nem tanto (cheiro de margarida para mim é horrivel…lembra cemitério), mas alguns cheiros que citou são realmente incríveis! Cheiro dos Fuscas e Kombi…impressionante como pode esses carros terem o mesmo cheiro mesmo passado mais de 30 anos! Como falou, um misto de cheiro de cola, metal, gasolina, o material dos bancos…Como diz minha mulher, cheiro de Fusca. Quantas vezes ela não chega e fala “Daniel, você está cheirando Fusca!”

    Outro aroma que acho que esqueceu de citar…Avgas! Não consigo sentir cheiro de Avgas sem não me lembrar da minha infância, dos tempos de Campo de Marte quando iamos de avião para o Mato Grosso. Outro cheiro singular é o cheiro de café, mas o de café quando chega no terreirão para secagem!

    Agora sobre o “olfato apurado”, nunca senti cheiro de óleo na pista. Mas nos meus tempos de Fazenda, sabia, quando passava na estrada, qual o tipo de defensivo agrícola estava sendo pulverizado em uma lavoura. Nem precisava descer do carro ou ver o rótulo.

  • Roberto, essa ligação é mesmo incrível!

  • Agnaldo, sua descoberta é fantástica!

  • Juvenal Jorge

    Bob,
    o cheiro de óleo derramado na rua também me alerta rapidamente. Uma dessas aconteceu na descida da serra da Anchieta há alguns anos, antes das famigeradas lombadas eletrônicas terem sido instaladas. Comecei a sentir o cheiro e procurei a trilha de óleo, que não estava muito fácil de ver devido às condições de luz. Diminui bastante a velocidade e fui escapando da trilha, que ia da esquerda para a direita e vice-versa, por alguns quilômetros. Havia pouco trânsito, e um rapaz bem novo veio alucinadamente com um Gol, e me passou andando a uns 90 km/h, eu estava a uns 60 km/h, não mais que isso, driblando o óleo.
    Pois bem, não deu 200 metros e o cara se estampou na mureta, de lado, e andou uns 50 metros até parar. Como vi ele descendo do carro, estava sozinho, e não tinha acostamento, não parei, e não sei o que aconteceu.

    • Juvenal, se ele não se machucou, fez bem em não parar, poderia vir aporrinhação para cima de você.

  • Marcelo, obrigado pelo que me toca, quisera eu ter mais tempo para isso.

  • Lorenzo Frigerio

    É isso aí! Compressão total, zero monóxido, zero HC… só um leve cheiro de queimado do motor justo.

  • Lorenzo Frigerio

    E o velho óleo Singer, com aquele cheiro de máquina?

  • Tuhu, absolutamente show!!! Obrigado pelo presente!

  • Belmira, bem lembrado.

  • Mike, também gosto desse cheiro de freio.

  • Victor, só deixo em circulação interna em estrada de terra ou ao passar por favelas, pelo mau cheiro.

  • agent008, me procedimento de higienização do ar-condicionado é bem mais simples: fumaça do cigarro. Mata tudo que bactéria, vírus, fungos!

    • agent008

      Rsrsrs, e quase que que mata a gente junto também…. No meu caso pelo menos, que não posso com a fumaça do cigarro. Mas o filtro de cabine às vezes tem que trocar, não tem jeito…