Foi em Sorocaba, interior de São Paulo, numa tarde quente de sábado, no mês de janeiro de um distante 1984, a primeira vez que eu vi um Escort XR3 “ao vivo”. A recordação do modelo Mk3 vermelho Sunburst, desfilando lentamente pelas belas e arborizadas ruas do bairro Santa Rosália, ficou registrada em minha memória. De fato, a imagem era digna de uma campanha publicitária, o carro vindo de frente, exibindo aqueles fantásticos quatro faróis auxiliares em meio ao efeito cinematográfico da camada de ar quente junto ao asfalto. Realmente uma obra de arte, especialmente para um garoto de 15 anos, apaixonado por carros.

Alguns anos depois, a experiência com XR3 se tornou um pouco mais próxima do que apenas contemplação dos modelos pelas ruas e o acompanhamento dos testes e reportagens publicadas nas revistas especializadas. Isso porque, no final dos anos oitenta, algumas idas e vindas das “baladas” e viagens ao litoral paulista foram vividas a bordo de um belíssimo XR3 branco Andino 1987 0-km de propriedade de um amigo mais abastado. Contudo, essas emoções eram curtidas no banco do passageiro.

Naquele tempo as minhas condições financeiras permitam apenas sonhar ou andar de carona naquele icônico esportivo nacional. De fato, minha realidade era um valente Fiat 147 1300 L a álcool, bege Dolomiti, já com quase dez anos de uso, fabricado no início daquela década, porém não menos estimado e valioso para mim. Inclusive, os 147 são parte da minha história também, e hoje tenho um Fiat 147 GLS 1979 impecável, com sua trajetória já devidamente documentada na seção “Carros dos Leitores”de 13/03/2016 do AUTOentusiastas.

Dos anos oitenta aos dias atuais a vida foi seguindo, o tempo passando e alguns sentimentos perpetuados, como, por exemplo, a paixão por carros do passado e especialmente pelo lendário XR3. Nesse sentido, após algumas décadas de trabalho, alguns projetos “supérfluos” podem ser viabilizados sem arrependimentos, como o de pensar em comprar um Escort XR3, de preferência vermelho Sunburst como o mítico XR3 daquela “miragem” mencionada no começo dessa história. Após alguns meses de buscas na internet, indicações de amigos e pesquisas pelas ruas, não tive sucesso em encontrar um Escort XR3 Mk3 em boas condições, na cor desejada (ou qualquer outra) e com um preço justo. Então pensei: Que tal mudar os planos? Quem sabe um Mk4 ainda com coração Ford (motor CHT) ou até mesmo um conversível?

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Assim, passei a buscar por essa nova referência (XR3 Mk4 CHT), e é claro que o número de opções aumentou significativamente, porém ainda assim era decepcionante o estado de muitos Escort XR3 que cabiam ou não no meu orçamento.
Foi então que encontrei em um conhecido site de vendas de automóveis um Escort XR3 CHT 88/89 azul Mistral à venda. O anúncio era lacônico e não fornecia muitos detalhes sobre o histórico do carro, apenas que estava em bom estado. Um aspecto intrigante do anúncio se referia ao valor de venda, que era um dos mais baixos de todos os XR3 disponíveis naquele site na ocasião da pesquisa.

De qualquer forma, resolvi ligar para o proprietário para saber mais sobre o carro. Após algumas tentativas de contato sem sucesso, finalmente um senhor muito educado me atendeu e me disse que valeria a pena ver o Escort XR3. Contou ainda que o motivo da venda era a necessidade de comprar um carro para sua filha. Assim sendo, agendei uma visita no dia seguinte para ver o carro. Logo que encerrei a ligação, de imediato passou pela minha cabeça se não seria mais uma perda de tempo e dinheiro me deslocar por quilômetros até outra cidade para ver mais uma decepção… Por outro lado, sentia que talvez fosse uma boa oportunidade.

Ao chegar ao endereço combinado, um senhor de ascendência oriental me atendeu com uma calma peculiar e me disse que o carro estava em um estacionamento nas imediações, pois há muitos anos não utilizava mais o XR3 no dia a dia e sim outro automóvel mais novo e moderno. Durante nossa breve caminhada fui conhecendo detalhes muito relevantes sobre o XR3 88/89 como, por exemplo, que se tratava de carro de um único dono, com manual do proprietário, estepe original sem uso, chaves-reserva, manutenção em dia, quilometragem baixa, ou seja, possuía todo histórico de um carro de procedência. Claro que apreciei muito essas informações.

Contudo, ao chegar ao estacionamento e ver o carro, confesso que a sensação não foi de amor à primeira vista, ou seja, o carro estava muito sujo, possuía alguns detalhes que, embora de simples solução, saltavam os olhos. Os para-choques muito desbotados, capas dos retrovisores com alguns danos, rodas (originais) maltratadas, pneus de baixa qualidade e fora da medida original, não havia o toca-fitas original, alguns riscos na lataria… Alguns detalhes que prejudicavam a aparência do carro, mas nada assustador demais a ponto de desistir imediatamente, porém não suficientemente maravilhoso para comprar sem uma contraoferta.

Porém, outras qualidades eram instigantes, como a originalidade do veículo — faróis, lanternas, faróis auxiliares e vidros originais, aerofólio em perfeito estado, volante original, teto solar funcionando, tapeçaria ótima, painel sem trincas, forros da porta ótimos, lataria integra (apenas alguns riscos) — enfim, o carro estava de fato muito alinhado.
Feita a “vistoria” estética, o próximo passo foi verificar como estava “funcionando a máquina”, e embora a partida tenha sido de “primeira”, o escapamento estava totalmente comprometido o que tornava difícil avaliar o motor, esse ponto se tornava ainda mais negativo devido à má impressão gerada pelo barulho ensurdecedor do escapamento, que mais se parecia barulho de um FNM em oposição ao esperado ronco grave e esportivo típico do XR3. Outro problema era que o carburador não estava na sua melhor forma, devido ao tempo que o carro estava parado (mais de seis meses), causando algumas falhas na aceleração (acentuadas pela idade das velas de ignição).

Mas nada melhor que dirigir para sentir definitivamente o carro. Certamente sentar no banco do motorista e empunhar aquele volante de pequeno diâmetro e colocar o carro em movimento, mesmo que acelerando timidamente, me fez recordar de imediato o passado e de toda a história que eu havia estabelecido em torno da emblemática sigla XR3. Nesse sentido, contrariamente ao contato visual, a impressão ao dirigir fez-me apaixonar pelo carro, imediatamente eu percebi que o que faltava aquele Escort XR3, era apenas o cuidado de um dono apaixonado… Paixão, a qual provavelmente, o senhor de ascendência oriental já tivesse perdido pelo XR3 azul Mistral 88/89 (último dos CHTs) ao longo dos anos.

Foi extasiante a sensação de dirigir pela primeira vez um XR3 após tantos anos de espera. Paramos em um posto de gasolina para checar a parte inferior e ao levantar o carro no elevador, uma grata surpresa, estava tudo íntegro, a suspensão, chassi e a parte de baixo do motor estavam 0-km, não havia vazamentos, trincas, sinais de mau uso ou de colisões.

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Voltamos para o estacionamento e começou a hora de negociar o preço. Embora o valor fosse bom, estávamos no auge da crise financeira em janeiro de 2016, a qual por sinal nos assola até hoje, e então fiz uma oferta (decente), porém abaixo do preço anunciado. O proprietário não aceitou, conversamos mais um pouco e aí combinamos que eu voltaria a entrar em contato.

De fato, embora já estivesse apaixonado pelo XR3 eu não queria me precipitar e fazer outra oferta naquele momento, pois ainda pretendia no retorno à minha cidade ver um Escort XR3 1985 preto em um município que ficava no caminho de volta. Contudo ao entrar na rodovia Anhanguera caiu uma enorme tempestade (aquela mesma que abriu uma cratera no km 75 sentido capital) e acabei não indo ver aquele MK3. Assim, no dia seguinte, mandei um e-mail ao vendedor e melhorei um pouco a minha oferta, porém ainda abaixo do valor anunciado. Mas após algumas horas de suspense recebo o e-mail de resposta: — Aceito, pode vir buscar o Escort quando quiser!

Nem é preciso dizer que fiquei muito feliz. Finalmente eu seria proprietário de um Ford Escort XR3 após tantos anos de espera. Mencionei que iria buscar o carro à noite logo após sair do meu trabalho, bem como pedi os dados Renavam e placa para as checagens habituais. Quando recebi a resposta com os dados do automóvel, verifiquei uma coincidência inimaginável: a sequência numérica da placa do Escort XR3 azul Mistral que eu acabava de adquirir era idêntica à de placa de um outro carro que possuo, também da marca Ford, e de cor azul! No calor da emoção de verificar todos os detalhes do XR3, no dia anterior, eu nem havia percebido a numeração da placa…

No final do dia encarei uma viagem de mais de 100 km de ônibus e às 21h estava desembarcando na rodoviária local, onde proprietário e sua filha já estavam me esperando para me entregar as chaves do Escort XR3. No curto trajeto entre a rodoviária e o estacionamento onde o carro estava guardado, ele me contou algumas histórias que aconteceram ao longo dos quase 30 anos em que o automóvel permaneceu na sua família.

É interessante que nessas situações nos damos conta do quanto um automóvel com o passar dos transcende seu fim, é surpreendente como uma “máquina” se torna quase como um ser vivo ou como se fosse um animal de estimação ou até mesmo uma pessoa da família. Foi muito interessante ouvir sobre a época que ele comprou o carro 0-km e desfilava pelas ruas da cidade chamando a atenção de pedestres e motoristas no final dos anos oitenta, afinal era um dos automóveis mais caros comercializados no país em 1988.

Bem como as histórias da sua filha, a qual com quatro anos de idade entrava e saia do carro pelo teto solar… Não há como omitir que naquele momento, ao ouvir as histórias e o envolvimento emocional de pai e filha com o carro, tive uma sensação estranha, era como se eu estivesse levando parte da história daquelas pessoas junto com o carro, mas por outro lado me confortava a ideia de que eu continuaria cuidado daquele carro tão bem quanto ele foi cuidado no passado.

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Para relaxar eu mencionei que também tinha uma filha de quatro anos e que adora carros e que provavelmente iria curtir muito aquele teto solar também. Eles riram e ficaram felizes, pois perceberam que aquele automóvel teria um bom destino. De fato, foi emocionante quando dei a partida no carro e antes de partir desejei boa noite ao pai e filha, os quais com olhos marejados davam adeus ao velho Escort XR3.

Passadas essas emoções, outras sensações vieram, como o retorno para casa enquanto seguia pela estrada naquela noite de verão com os vidros abertos me sentindo como aquele garoto que leva a menina mais bonita do bairro para passear pela primeira vez, e mesmo com escapamento danificado e algumas falhas de carburação o destemido XR3 foi cortando tranquilamente a rodovia dos Bandeirantes, como se nunca tivesse deixado de fazer isso nos últimos anos, permitindo que eu chegasse com segurança em minha residência, em Jundiaí, já próximo de uma hora da manhã. Bem que o antigo proprietário me garantiu que não haveria motivo para se preocupar em viajar à noite, pois o carro ia rodando para qualquer lugar do Brasil…

Por fim, em aproximadamente sessenta dias foi possível revitalizar e ajustar o XR3. Não foi difícil encontrar o toca-fitas original e alguns detalhes de acabamento, foi tudo muito tranquilo, apenas necessário um pouco de dedicação e investimento para fazer aquele esquecido Escort XR3 se tornar um automóvel admirado nas ruas novamente.

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Sobretudo, é recompensador olhar na garagem e ver que o carro que permaneceu por mais de 30 anos em minha memória agora está ali pertinho, bem ao meu alcance, e o melhor ainda é saber que em qualquer tarde de sábado ensolarado eu posso ligar o motor, inserir uma fita k7 do Simple Minds no toca-fitas, abrir o teto solar e rodar por aí com a mágica sensação de que, ao contrário do que diria Cazuza, “o tempo para!”… nem que seja apenas por algumas horas.

MC
Jundiaí – SP

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