Opa! agora estou no chão. Eu caí, ou mais correto, voei. Ao meu lado há um “boi” selvagem, rindo para mim em marcha-lenta, um ronco silencioso mas potente, sem dúvida o de um motor dois-tempos, e este é potente, 160 cv de 800 cm³.  E o que eu fiz para cair? Só dei ré. Uma coisa tão simples virou coisa de caubói  ou rodeio.

Por quê? É que o acelerador no guidão não é como numa moto, de punho giratório, é como em alguns ATVs — all terrain vehicles — apenas uma pequena alavanca acionada pelo polegar. Sabendo da potência do motor, dei ré com bastante calma, girei o guidão para a direita, e neste momento meu peso contra o acelerador aumentou, fazendo a aceleração aumentar mais ainda. Dentro de um segundo eram 160 cv fazendo o máximo, para dar ré… Voei sem nenhuma chance de me segurar na máquina, que em um segundo virou um boi louco.

Por sorte caí na neve, sem nada duro no meu lado. Sim, era neve bem firme, mas não me machuquei. “Puxa, que coisa,” pensei. “Bom, esse ‘boi’ não vai me vencer”, e continuei a viagem para explorar esse Arctic Cat M 8000 Hard Core.

Arctic Cat

Marca americana, bastante popular na Suécia

Essa história começou com o plano de visitar minha tia que mora bem no norte da Suécia, na cidade de Jokkmokk que fica no Círculo Polar Ártico, onde é noite eterna em dezembro e sol a noite inteira em junho. Um pouco exótico até para mim, que moro no sul da Suécia. Fazia muitos anos que não ia a Jokkmokk e agora era hora de fazer isso de novo. Antes, conversei com minha tia para saber se a família dela tinha algum snowmobile, ou seja, uma moto para neve. Ela disse que claro que sim, mas era um “motoneve” bem antigo e nada legal para dirigir. Então perguntei:

— Tem outra opção? Tem alguma locadora de snowmobile?
— Sim, tem uma na cidade aqui — disse.

Liguei para lá para saber que quase todas já estavam alugados, só tinham dois M 8000 para o dia que eu queria. A moça no telefone foi perguntar algo para o gerente e voltou dizendo que na verdade só tinham um livre, porque o outro estava quebrado, precisando uma nova peça que ainda não tinha chegado. Ela também queria saber se eu tinha experiência de dirigir snowmobile. Respondi que eu tinha um pouco, só um pouco, não muito,cometi os “erros” clássicos como ficar parado em neve funda demais, e também parado num lago onde havia muita água escondida entre o gelo e a neve. Ela disse “que bom”, e rimos um pouco. Ela também disse que esse snowmobile é o único que eles têm sem partida elétrica e só tem banco para uma pessoa. Disse também que o motor é muito potente, 160 cv, e tudo é feito para ficar mais leve, com um peso de apenas 209 kg. É por  isso que o modelo se chama “Hardcore”.

Que interessante, pensei, 160 cv num snowmobile! O último que dirigi tinha uns 40 cv. Mas não comentei nada disso e só perguntei se precisava levar meu capacete. Ela disse que não, estava incluído no aluguel. Então, tudo combinado.

Chegando mais perto do dia conversei com um amigo, o Bertil, que mora ali no norte. Ele tem uma casinha de “verão” fora de Jokkmokk onde há um lago grande perto, e lá na neve que fica em cima do gelo do lago pode-se brincar bem com o “sled” (snowmobile em inglês americano, que significa trenó). Um dia antes de pegar o Hardcore encontrei o Bertil e ele fez uma cópia de um mapa que mostrava, mais ou menos, onde há “ruas” preparadas para snowmobiles  na floresta e nos lagos. Também me  mostrou o lago e onde fica a casinha dele. Além disso, emprestou-me umas botas e luvas mais quentes do que as minhas para não eu não me preocupar se elas seriam suficientes ou não.

O dia chegou

Me vesti com roupas que ficam junto da pele e muitas roupas “gordas” por cima disso. Fui andando para a locadora na cidade e estava tudo certo lá. Uma pessoa me mostrou o snowmobile. Conversamos sobre todas as funções básicas, sobre o motor que tem injeção, não se precisa puxar um afogador antes de puxar a cordinha, como se faz num motor de barco.

Olhei nos instrumentos e fiquei um pouco confuso. Perguntei:

—  Sei que ele é automático, mas onde eu troco de “drive” para ré?
—  Ah, isso, veja aqui esse botão cinza, aperte-o. O motor vai parar por um segundo ou dois, depois ele pega de novo, mas agora ele vai “para o outro lado”. ou girando contra o relógio. Quando você quiser ir para frente de novo, é só apertar lá mais uma vez.

Instrumentos

Velocímetro até 160 km/h. Na tela pode ser mostrado rotação, distância, altitude, horas do uso do motor e alguns alarmes. Só um freio na esquerda. No mesmo lado tem botões para aquecer o guidão e o acelerador. Na direita, o botão cinza da ré, o vermelho desliga o motor. Acionada pelo polegar, a alavanca curva e curta é o acelerador. A partida é na alça, na frente da tampa do tanque

Eu experimentei isso e funcionou como ele disse. Interessante, nunca vi algo assim antes. Com curiosidade perguntei se é fácil ficar atolado em neve mole, “fofa”, e se funda. Ele diz que com essa esteira de três polegadas não se fica parado. Como? Pensei: “Esteira de três polegadas”?? Olhei a corrente e lembrei que na internet estava escrito algo sobre “pentes” com 76 mm de altura neste modelo. Ok, agora entendi. É como um pneu com sulcos muito profundos.

Bom, então disse tchau para ele e  saí de lá para fazer uma visita curta na casa da tia, e depois continuar para a casa do Bertil. A rua para as snowmobiles entra no mato e depois continua num lago pequeno,  e aí saí da rua para atravessar o lago na neve virgem, um lago que eu já sabia que não tem água por baixo da neve. Eu dirigi com calma mas não devagar demais, para não atolar. Entrei em outra pista com neve firme para esquiar e segui bem devagar e um pouco pela borda para não destruir a pista dos esquiadores “clássicos”. E cheguei ao jardim da tia. Sabendo que o snowmobile tem ré, entrei um pouquinho no jardim dela e estacionei.

Conversei um pouco com ela, e como vi que estava muito frio, olhei no termômetro antes de sair de novo. Opa, bastante frio, 22 graus abaixo de zero. Mas era na hora do nascer do sol e dava para ver que seria um dia muito lindo. Saí e sentei no snowmobile de novo, puxei a cordinha, o motor pegou, “engatei” a marcha à ré, e andei devagar para trás. Depois de uns dois metros senti que não ia dar certo, porque o snowmobile estava atolando e afundando na neve. Assim, andei para frente de novo e com dificuldade consegui subir um pouco. Coloquei ré novamente e tentei encontrar neve mais dura e…. não consegui, só ficou pior ainda, muito pior. O snowmobile tombou de lado, semienterrado, caído num “buraco” de neve bem fofa. Que raiva!

Caindo tras

Dar ré sem experiência é um pouco complicado

Caindo frente

Bati na porta da tia de novo e perguntei se ela tinha uma pá para tentar soltar o snowmobile. Com a pá em mãos comecei a trabalhar, e depois de uns 20 minutos tinha condições de sair do buraco. Olhei para o buraco e pensei, será que vou conseguir chegar à pista de esqui de novo? A única maneira que encontrei? Encher o buraco com mais neve e ficar pisando para fazê-la mais firme. Comecei a trabalhar nisso e levou mais de meia-hora para o buraco ficar cheio. Quente e suando, tentei dar ré de novo e com mais um pouco de velocidade na neve firme consegui sair do jardim. Trabalhão!

Agora, por fim com sol bonito, comecei a sair de Jokkmokk, na rua, em direção ao mato e como você já deve estar adivinhando, fui parar num lugar onde tive que dar ré de novo. Parei algumas vezes para ver o mapa, mas  no geral, tudo bem.

Algumas ruas pequenas no mato tinham muitas ondulações e  fiquei dirigindo por ali a uns 40 km/h para não me matar logo de cansaço ou arriscar a sair da pista e bater em alguma árvore, ou não ter condição de parar se viesse alguém do outro lado.

Ao chegar no primeiro lago fora da cidade,uma luz vermelha no painel, temperatura alta no motor! Puxa, o que é isso, -20 °C no ar e ainda o motor superaquece? Parei e desliguei o motor. Escutei se tinha algum barulho de algo fervendo, mas nada. Também nenhuma fumaça ou cheiro de glicol. Olhei no celular, sim, bateria ok e tem conexão também. Liguei para a locadora e a pessoa perguntou:

— Motor quente? Como você está dirigindo? Muito devagar na rua para snowmobiles?
— Sim, preciso sair de Jokkmokk  e não quero bater numa árvore ou algo assim — disse para ele.
— Você está onde, perto de um lago? — ele perguntou.
— Sim, bem perto.
— Ok, você tem que entrar na neve funda de vez em quando, senão o motor pode ferver.

Fiquei muito confuso com o que ele disse. Um snowmobile 2016 que num frio desse ainda tem que ser dirigido na neve funda para o motor não ficar quente demais? Achei isso muito estranho, mas vi que não fazia sentido discutir com ele sobre isso agora. Eu lhe disse que tentaria fazer isso, mas se não desse certo a culpa não seria minha se algo quebrasse (no contrato estava escrito que precisaria pagar R$ 10.000 se eu quebrasse algo caro).

Desliguei o telefone, e pensei, será que vou chegar a cair na água sob a neve acima do gelo do lago?  Deixei o snowmobile  esfriar mais um pouco e depois testaria. Se disseram que com a esteira  de três polegadas não dá para ficar atolado, vamos ver então. Saí na rua atravessando o lago, e a uns 50 a 60 km/h  saí da rua para a direita alguns metros, bem na neve virgem e fofa.

Dirigindo assim neste tipo de neve tudo fica bem diferente. O snwomobile fica um pouco inclinado, com uma atitude diferente, um pouco com o “nariz no ar”, mas só um pouco. A esteira  vai bastante fundo na neve e se precisa acelerar mais, usar mais potência do motor para manter a velocidade. Também se fica rolando um pouco para a  direita e esquerda, dá para sentir algo que quase é como “voar” na neve.

Para manter um controle bom na neve fofa, aumentei a velocidade um pouco e tudo era muito bacana e gostoso. Menos uma coisa, a viseira no capacete, que coisa mais ruim! Em velocidade mais alta baixei a viseira um pouco, e o que aconteceu? Ficou com gelo da condensação de água da minha  respiração,  e isso tornou a visão muito ruim. Levantei a viseira de novo. Continuei mais alguns quilômetros assim, só com meus óculos normais. Frio! Muito frio nos meus olhos. Frio demais e pensei que não quero ter os olhos congelados, deve ser perigoso. Entrei numa “rua” de novo e parei para esquentar meus olhos e também olhar o mapa.

Como era um dia lindo estava tudo bom lá, no meio do nada, tudo silencioso e com sol forte, e com um snowmobile selvagem, eu estava bem e feliz com a vida. Com um calor no rosto de novo, entrei no “sled” e acelerei bem forte. Que força gostosa! No fim do primeiro lago era para entrar no mato e fiz isso. Ali fiquei um pouco confuso. Era para ir para direita para chegar num outro lago, mas não vi uma rua boa para isso. Finalmente vi algo que poderia ser a rua e entrei nela. Depois de mais um pouco chegou o alarme de novo. “Motor quente”. Que raiva de novo! Dirigi  mais um pouquinho num morro bem alto para ter uma vista melhor e tentar me orientar um pouco.

Deixei o motor  esfriar e fiquei olhando no mapa e o posição do sol. Eu não estava dirigindo para o norte. Lá do morro vi um lago ao norte e pensei que é melhor ligar para o Bertil para conversar sobre o mapa e as ruas. Sim, como pensei estava errado, e preciso voltar para procurar a rua certa. Ok, agora, nessa rua pequena preciso voltar, mas como? Não tinha lugar para simplesmente dar ré e virar 180 graus. Entrar na neve fundo poderia ser uma opção,  mas com risco de ficar atolado de algum jeito. Aqui longe de tudo, pensei que era melhor tentar virar o “boi” na rua mesmo. Comecei a dar ré um pouquinho para a direita, depois para frente e esquerda, e assim continuei muitas vezes. Quando estava com 90 graus, totalmente atravessado na rua, não tinha mais como  colocar a ré. O que teria acontecido? Tentei várias vezes, em vão. Desliguei o motor. Liguei  de novo. Nada da ré, saco! Então desci e comecei fazer isso tudo à mão, puxando, empurrando, às vezes eu caindo na neve funda…  Depois de uns 10 minutos e com o corpo bem quente, deu certo, 180 graus. Comecei a voltar olhando bem no mapa, e sim, será que é aquele? Pensei.

Depois de mais alguns quilômetros vi uma placa feita à mão em um pedaço de madeira bem no meio do mato, escrito Porjus. Ãh? Porjus? Sim, deve estar certo. Porjus fica para o norte, e a rua estava bem parecida com o mapa. Agora o  alarme do motor acendeu de novo, mas eu estava perto do segundo lago lá entrei na neve funda. Muito bom, andando na neve fofa depois de uns 300 metros o alarme sumiu. Ótimo.

Agora era “só”  encontrar a casinha do Bertil. Ela está localizada numa península no lago com outras casas também. De longe eu vi algumas casas e dirigi para lá. Fiquei pensando que não é bom dirigir devagar na neve funda enquanto estou procurando a casa dele. Assim eu entrei num caminho meio firme feito por outro snowmobile e depois parei num lugar bem no lado da península. Deixei o snowmobile e caminhei para ver onde ia chegar. Cheguei ao jardim de uma outra casa e lá havia outro snowmobile e uma pessoa ao lado, e eu disse:

— Oi, tudo bem?
— Sim, tudo bem — respondeu.
— Estou procurando uma outra casa aqui no vilarejo, posso atravessar seu jardim para chegar às ruas mais fácil? Aquele snowmobile ali é meio doido e não tenho muita experiência com ele.
— Ok, sim, passe aqui, se você ficar parado eu te ajudo — ele disse.
— Que bom, muito obrigado! — respondi, e voltei para o “Hardcore”.

Com surpresa consegui seguir a “pista” única que o outra snowmobilefez e dali a pouco cheguei à casinha do Bertil. Ele saiu para dizer alô e disse:

— Parabéns, você conseguiu! Mas demorou, hein!
— É mesmo, foi meio difícil. E olha aqui, esse capacete com viseira ruim quase congelou meus olhos — acrescentei.

Entramos no calor da casa e sentamos na frente ao fogo. O Bertil não dirige muito rápido com o “scooter” antigo dele, mas olhamos uma revista sueca que se chama “Snowmobile”. Nas fotos era fácil ver que tudo mundo que dirige um snowmobile esportivo usa óculos de esquiar rápido, como quando se desce uma montanha. É, deve ser melhor assim. Comemos bem e depois saímos curiosos para ver os detalhes do snowmobile, tirando as tampas nos lados do motor.

Subido

Em cima de neve firme; ao fundo um lago congelado

No lado esquerdo tem a transmissão, ou o “variador” com uma corrente bem forte. Parece um pouco como no carro DAF da Holanda e também alguns Volvos como o 340 que era feito na mesma fábrica. As marchas mudam automaticamente como se faz numa transmissão CVT. No eixo principal da esteira há um freio, um disco perfurado e uma pinça hidráulica acionada com a mão esquerda no guidão. Um tubo cinza e grande por cima do lado esquerdo faz um parte do escapamento, a câmara de expansão, porque  o motor é de dois tempos.

CVT

O câmbio CVT, com a correia visível, funciona bem

Silenciador

Silenciador com isolante térmico, motor está escondido por ele

No lado direito tem o silenciador com uma proteção em volta, com certeza isso é para não queimar o plástico e quem sabe também pra diminuir o barulho mais um pouco. Atrás do silenciador há um tanque de óleo e bem no fundo dá para ver os dois cilindros, a cilindrada total é 800 cm³. Atrás dos cilindros tem o radiador e pelo que entendo agora neste modelo Hardcore a principal matéria para esfriar o motor não é o vento ou o ar, é neve jogada da esteira.

Com vontade de dirigir mais, conversei com o Bertil sobre como se sai mais fácil da rua para entrar no lago de novo. O Bertil respondeu:

— Vá seguindo o rastro que eu fiz com meus esquis.
— Faz diferença isso? Naquele pequeno rastro no meio da neve funda, também acho que não vou ter condição de seguir, esse bichão vai um pouco como ele quer — ponderei com o Bertil.

O melhor ideia foi fazer um buraco,  na verdade um “U” grande na neve do lado da rua,  sair dessa “porta” e descer para o lago. Eu fiz o U bastante rápido com uma pá e subi no snowmobile.  O motor pegou sem problema. Saí da rua e entrei na neve fofa, tudo deu certo. No lago não tem nada para bater, exceto algumas ilhas,  e dei uma boa volta por lá. Voltei pelo mesmo caminho, subi com uma velocidade que ia me levar para a rua sem ficar grudado, entrei na rua, freei,  não consegui parar ali nos quatro metros e…. parei na neve fofa no outro lado. Puxa —pensei — será que estou atolado de novo? O Bertil ria, e disse:

— Acho que a única maneira agora é seguir por onde eu esquiei. Se não der certo vamos tentar tirar o snowmobile do lugar juntos.

Hummm — pensei — será que isso vai dar certo? Vamos ver. E assim apontei e acelerei e,  sim, esse snowmobile com esteira de três polegadas e 160 cv é algo especial na neve funda. Ele subiu o morrinho com neve desse tipo. Eu tentei seguir o rastro dos esquis do Bertil mas não consegui,  fiquei um metro para a esquerda, tentei corrigir e fiquei um metro pelo outro lado, mas. parado ou grudado? Nada disso. Que monstro de snowmobile!

No outro lado da península, antes de sair no lago de novo, tinha algumas árvores. Diminui a velocidade e consegui evitar bater nelas. Agora cheguei no lago de novo,  fiz uma boa volta e entrei entre as arvores novamente,  e cheguei à rua onde o Bertil estava me esperando, e dessa vez  consegui parar no lugar certo. Bertil e eu rimos juntos, que snowmobile mais bruto!  Só por diversão eu fiz mais algumas voltas assim, cruzando a península.

Dirigindo

Depois de algumas horas, já andando melhor

 

Vista boa

Meio perdido na floresta, foi bom chegar neste ponto mais alto para me orientar melhor

Agora começava ficar um pouco tarde, o sol querendo esconder no outro lado de uma montanha. Era na hora de voltar para a cidade, com risco de ferver o motor na floresta, onde era difícil dirigir na neve funda sem risco de bater em algo. Não, eu já me diverti bem hoje, melhor ligar para a locadora e conversar, pois há duas opções:

Eu volto com o snowmobile com risco de ferver o motor, ou, deixo ele aqui para eles buscarem. A locadora diz que sim, podem buscar, sem problema. Bom, combinado,  e assim deixamos as coisas lá mesmo. Esse foi um dia muito especial, sem dúvida. Mais aventuroso de que eu poderia ter imaginado, mas também muito divertido nos momentos bons.

Assim essa história poderia terminar. Mas não. No outro dia eu fui de carro à cidade de Kiruna para lá perto ver o hotel de gelo. Depois da visita no hotel, que é de gelo e neve mesmo, com uns 50 quartos bastante frios, vi uma concessionária Yamaha do outro lado da rua. Vi que a vitrine estava cheia de snowmobiles. Parei e entrei.

Lá dentro tinha uns 15 snowmobiles novos e mais uns25 usadao. Ali vi um modelo bem esportivo também, um Yamaha SR Viper M-TX 153 LE. Olhando mais de perto vi que vários detalhes do Yamaha eram completamente iguais aos do Arctic Cat, só com cores diferentes. Chamei um vendedor e perguntei por quê.

O vendedor diz que Yamaha usa muitas peças de Arctic Cat e neste modelo Viper eles tem um motor de Yamaha mesmo, 1000 cm³, três cilindros, quatro tempos e 130 cv. Fiquei curioso e perguntei se dava para usar  normalmente nas ruas de snowmobiles ou se tem que passar na neve funda toda hora.

O vendedor fez uma cara de surpresa e disse que ele nunca tinha escutado algo sobre isso, dá para usar em qualquer velocidade em qualquer rua.

Como o Arctic Cat tinha 160 cv, perguntei:

— Esse modelo é o mais forte de vocês?

—  Temos esse outro aqui — disse — esse tem 150 cv,  mas é  menos esportivo — concluiu.
— Ok, tem algo com turbo? — perguntei (risos)
— Sim, temos um usado com turbo, o dono colocou um kit, dá 240 cv agora, quer comprar? Só 90 mil coroas (Uns R$ 40. 000 ).

Bom,  expliquei que não vou comprar nada agora,  mas se começar a nevar mais no sul da Suécia, quem sabe?

Agora fiquei mais curioso sobre esse problema de superaquecimento com o Hardcore. Vi o site de Arctic Cat e liguei para duas concessionárias.

A primeira disse que é um modelo meio sensível, mas que alguns quilômetros nas ruas com neve meio firme não deveriam fazer esquentar. Perguntou se eu olhei no nível de agua e glicol no motor. Disse que não olhei nisso, só escutei que nada estava fervendo. Ele disse que Arctic Cat cometeu um pequeno erro na linha de montagem, e alguns exemplares saíram com nível muito baixo, era só o que ele sabia sobre este assunto.

A segunda foi direta:

— Você estava dirigindo com os raspadores para fora?

Raspadores para fora…, do que ele está falando?

Ah, sim, agora acho que entendi, devem ser aquelas barras do lado da esteira, e  respondi:

— Não, achei que eles só eram para usar em gelo sem neve, faz diferença usar na neve?
— Com esse modelo ajuda um pouco, pois ele é  sensível mesmo — explicou.

O raspador levanta a neve e faz ela bater na esteira, e a esteira joga neve para frente na parte de cima, no radiador, esfriando o motor, mesmo quando não tem muita neve fofa. Ele funciona como um pezinho ou apoio de moto ou bicicleta, pode ficar recolhido ou baixado. Precisa estar embaixo para funcionar.

Ok, caro leitor do AE, se você alguma vez dirigir um Arctic Cat M 8000 Hardcore na neve meio firme, nunca esqueça de deixar os raspadores para fora!

RASPADOR E ESTEIRA

O raspador, para ajudar na refrigeração do motor; na foto está recolhido

HJ

 

FICHA TÉCNICA ARTIC CAT M 8000 HARD CORE
MOTOR
Tipo 2 cilindros, 2 tempos, 796 cm³ (85 x 70 mm), arrefecido a líquido, injeção eletrônica, 2 velas por cilindro, 160 cv. Partida manual.
TRANSMISSÃO
Tipo Automática CVT; ré com reversão do giro do motor
FREIO
Tipo A disco, comando hidráulico
ESTEIRA
Especificações 3.882 mm, 76 mm de altura nos “pentes”
DIMENSÕES
Comprimento 3.360 mm
Largura 1.200 mm
Altura 1.270 mm
PESOS E CAPACIDADES
Peso 209 kg
Tanque de combustível 45 litros
Tanque de óleo 2-tempos 3,7 litros
PREÇO
Na Suécia R$ 70.000 (equivalentes aproximadamente)


  • Interessante. Deve ser um veículo bem legal de se pilotar, assim como os quadriciclos, que nunca usei, mas tenho vontade de experimentar qualquer hora dessas.

    • lightness RS

      um quadriciclo não supera uma moto mas é muito divertido, e mais estável em linha reta, em terrenos moles etc, mas não pode abusar como numa moto, nas curvas, acelerações, e sinceramente, é bem mais fácil se matar num quadriciclo que numa moto, se você força, tomba ele sobre você, e é bem pesado. O legal é o fato de ser 4×4, você vem ali no pasto normal e do nada chega num barro forte, só ligar a 4×4 e seguir, nem sente, só não pode parar senão não sai mais, pena ser caro em relação ao que oferece, é o veículo ideal para as fazendas, manutenção menor que de um cavalo.

  • BlueGopher

    Experiência muito interessante, algo que infelizmente nunca poderemos ter por aqui.
    Mas seguirei as recomendações quando for para Jokkmokk.
    Aliás, o sufoco que passou o Hans deve ser semelhante ao que passa um jipeiro novato, dirigindo sem nenhum apoio numa trilha muito, mas muito enlameada.

    • BlueGopher, isso mesmo. A parte que me afligiu mais foi o frio nos olhos.

  • Mas e o atendente da locadora, hein? Quando questionado sobre o superaquecimento do motor “nem tchum” para os raspadores! E o jardim na frente da casa da tia? O conceito de jardim na Suécia parece um pouco diferente. rsrsrs

  • m.n.a.

    Que loucura mesmo, deve ser um perigo essa neve fofa, basta ver o que aconteceu com o Schummi…..