Um tempo atrás eu recebi do saudoso amigo e colega Verner Dittmer um relato que remete aos comentários dele para a matéria “MACH’S GUT, GROßER! (VALEU, GRANDE)“. Com seus comentários ele enviou um causo que fala, sim, de Fusca, apesar dele estar com um MG como protagonista quando as coisas ocorreram. Seu estilo de contar as coisas de maneira inteligente, bem-humorada, muito bem escrita e inserida no contexto desta coluna, é de se admirar. Eu gostaria de dividir este delicioso texto com vocês.

 

“NOSSA, ACHO QUE O MEU DÍNAMO PIFOU”

Por Verner Dittmer

Aqui vai uma historinha muito banal que envolve o Fusca, vinculado a um fato que me ocorreu em certo momento, num passado recente. Eu participava de um rali do MG Club do Brasil com meu MG GT 1967, num roteiro traçado pelo interior de São Paulo, e com destino final do primeiro dia em Campos do Jordão.

Chegaríamos lá aí pelas 19h00. Um pouco antes da subida da serra o dínamo do MG pifou, e deixou de carregar a bateria (a luz vermelha do painel ficava acesa). Não havia oficinas ou postos no caminho que fazíamos. Economizando a bateria (dentre outras medidas andando de luz apagada, apesar de já estar ficando escuro, mas por sorte havia luar) consegui chegar a Campos do Jordão (perdendo pontos, evidentemente, e transpirando de nervosismo). Cheguei a encostar o carro no hotel da programação, que (graças a Deus) era em lugar de fácil acesso. Perguntei por uma oficina elétrica, e me informaram que, por ser sábado e já ser noite, eu não iria encontrar ninguém para me atender.

Pronunciei alguns palavrões (dos que conhecia, e devo ter inventado mais alguns). Mesmo assim fui teimoso (um termo depreciativo para qualificar os perseverantes), peguei um táxi e comecei a percorrer a periferia da cidade (na verdade um grande vilarejo), perguntando de boteco em boteco, pelo que precisava.

Acabei tendo a sorte de encontrar uma oficina ainda aberta, em que um mecânico estava fazendo horas extras porque tinha que entregar um serviço na primeira hora da manhã do dia seguinte. O aspecto da oficina era terrível, era na verdade um barraco, tudo sujo, desarrumado, tudo torto, com ferro-velho espalhado por todos os lados, não se dava um passo sem tropeçar em algo.

Uma luz fraca (calculo que era uma lâmpada de uns 25 watts) mal iluminava o ambiente em que a cor preponderante era o preto. O mecânico, se bem que de aspecto jovem, estava tremendamente maltrapilho, com mãos e rosto todo sujos de graxa. Parecia um fantasma, que mal se distinguia daquele cenário meio macabro. Não inspirava confiança alguma, e por isso pensei três vezes antes de falar com ele.

Acabei sucumbindo e perguntei se ele podia dar uma olhada na “joia” do meu MG. Com alguns resmungos sobre o horário, ele disse que eu podia trazer “a fera”. No desespero — por um lado — devido à desconfiança de que essa ação não podia dar certo, mas — por outro lado — pela falta de alternativa, voltei com o táxi e levei o MG até lá. Com a marcha engatada em primeira o trajeto todo, andando com alguns trancos, pois a bateria estava fraca (mas o táxi ficava — como garantia — atrás de mim). Com alguma dificuldade acabei chegando.

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Motor de um MG GT 1967, com seu dínamo em primeiro plano

Ao pôr a mão no dínamo do meu carro o mecânico o desmontou com muita habilidade, e tudo em poucos segundos. De imediato fez o diagnóstico, era carvão gasto e coletor sujo. Lixou este com uma lixa que mais parecia um trapo velho. Depois abriu uma gaveta que continha uma porção de peças de todas as naturezas possíveis de imaginar (e tudo era preto e empoeirado). Pegou de lá dois carvões usados, mas supostamente ainda úteis, e montou tudo novamente. Eu não cronometrei, mas se o tivesse feito, teria constatado que toda operação (de alfa a ômega) tinha levado de 10 a 15 minutos. Fez uma “chupeta” para o motor pegar, e a luzinha vermelha do dínamo (a do painel) apagada indicou que estava tudo em ordem.

Fiquei muito admirado que aquele sujeito consertou o defeito em um oldtimer inglês (que com certeza ele nunca tinha visto antes na vida) com razoável eficiência, em tão pouco tempo, e isso naquela oficina “fuleira”. Não resisti em perguntar donde vinha o conhecimento dele dessa matéria (o know-how dele, em neoportuguês). Foi quando ele me afirmou com toda a simplicidade: “…é que aqui aparecem muitos Fuscas velhos, que usam dínamos muito parecidos com este do seu carro… e eu conserto todos eles…”. Aí me caiu a ficha: ahnn...

Moral da história, se os Fuscas não fossem tão populares (em especial nesse interiorzão), se não fossem tão resistentes que até os antigos ainda rodam (ele falou velhos, é palavrão), e que por isso ainda são reparados e recuperados, eu provavelmente teria terminado meu rali por ali mesmo. Teria que esperar segunda-feira (o que também não seria tão desastroso assim, considerando o local em que estava), ou teria que rebocar meu MG num caminhão para casa, gastando urna boa “‘grana”. Assim eu perdi somente o jantar de confraternização daquela noite, mas pude continuar o rali no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido, e assim ganhar meu troféu de participação. Tudo — repetindo — graças ao Fusca, que, por ser um carro tão popular, é conhecido pela grande maioria dos mecânicos de nosso pais.

Ah! Antes que eu esqueça, quando perguntei ao mecânico quanto custava, ele disse: “O Sr. me dá uma caixinha p’ra Brahma de hoje à noite”.

 

SAUDADE

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Foto tirada durante um encontro de aposentados da Siemens com a diretoria da empresa, realizado no dia 9 de agosto de 2012; o semblante do Verner Dittmer, à direita, já mostra os primeiros sinais da doença

Com a publicação deste causo eu faço uma homenagem póstuma a este grande amigo e colega, com quem mantive deliciosas tertúlias sobre os mais variados temas em inúmeros almoços no restaurante da diretoria na Siemens — assunto nunca nos faltou.

O amigo Verner foi um grande colecionador e pessoa de cultura ímpar, autor de livros, numismata, conhecedor de tupi-guarani, fluente em vários idiomas e pesquisador incansável de culturas ancestrais. Foi outra vítima do Mal de Alzheimer, que o levou no dia 21 de maio de 2016, aos 79 anos.

Profissionalmente ele colecionou sucessos e dedicou boa parte da vida dele à Siemens. Um de seus grandes feitos, como executivo na área de telecomunicações, foi sua vitoriosa defesa do sistema GSM, europeu, que, com a importante ajuda dele, desbancou o sistema CDMA, americano. Assim todos que usam celulares no Brasil devem a ele um agradecimento especial por poderem usufruir do sistema mais avançado que existe.

 

AG

A coluna “Falando de Fusca” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


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Sobre o Autor

Alexander Gromow
Coluna: Falando de Fusca & Afins

Alemão, engenheiro eletricista. Ex-presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor dos livros "Eu amo Fusca" e "Eu amo Fusca II". É autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Além da coluna Falando de Fusca & Afins no AE também tem a coluna “Volkswagen World” no Portal Maxicar. Mantém o site Arte & Fusca. É ativista na preservação de veículos históricos, em particular do VW Fusca, de sua história e das histórias em torno destes carros. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

  • Fat Jack

    AG, venho mais uma vez com uma daquelas dúvidas “encardidas”:
    Os limpadores de para-brisa dos adoráveis Fusquinhas repousavam do lado do passageiro até quando?
    A dúvida vem do fato dos que os que eu tive eram assim (67/68), mas comumente vejo-os invertidos. Isso tem algo a ver com a quantidade de velocidades dele? (Os meus contavam com somente uma velocidade, creio serem originais)
    Obrigado e desculpe o “tormento”…

  • Mineirim, entortou uma ou mais válvulas.

    • Mineirim

      Nem lembro. Na nota fiscal, eles trocaram todas as válvulas e retificaram o cabeçote.
      Acho que dei sorte de ainda poder rodar 100 km até chegar em casa. Fazia um barulhão tipo máquina de costura. rsrs

  • Japonês que não era japonês e tipo “sujismundo”, e não parecia ser um “mechânico”, mas era um bom mecânico? Que história mais peculiar, caro Pastel,
    Pelo jeito ele não eram muito adepto de se limpar depois de um dia de serviço…
    Mas pode ter sido tipo sim e agora me vem à mente os primórdios da medicina moderna, quando os médicos andavam com o avental sujo de sangue e de variadas secreções e, para completar o quadro indicativo de uma grande competência, usavam o mesmo pano sujo de tudo que se pode imaginar, em várias clientes diferentes.
    Sausações

  • Grato, meu caro Marcelo R.
    A definição do sistema de telefonia móvel que o Brasil iria adotar foi uma verdadeira briga de foice e potentes operadoras da época defendia o sistema CDMA. Mas prevaleceu o GSM.
    É interessante notar que tempos depois, nos EUA, que era francamente favorável ao sistema CDMA, o sistema GSM acabou triunfando; fato que demonstra o acerto do que tinha sido feito no Brasil, com ação importante do saudoso amigo Verner Dittmer.

  • Grato por seu comentário, caro Carlos A.,
    Concordo com a sua ponderação sobre as aparências que podem enganar no caso de mecânicos. Eu já me preocupo sobre a questão do gradual desaparecimento de mecânicos, limpos ou sujos, que saibam trabalhar com nossos antigos. Infelizmente este tipo de mecânico já faz parte de uma raça em extinção.

    • Carlos A.

      Realmente Sr. Alexander, os mecânicos especializados em nossos antigos estão em extinção. Felizmente eu ainda tenho o meu velho amigo e profissional em motores ” a ar” e Fusca por aqui! E além disso ele nunca mediu esforços em me ensinar. Assim praticamente faço tudo em casa! Raramente preciso da ajuda dele nas manutenções. Graças e esse suporte, atualmente o que mais me preocupa são as peças. Está ficando difícil encontrar peçass de qualidade. Um bom exemplo é o tubo coletor de admissão do Fusca. Em 2010 precisei trocá-lo. Porém o paralelo não encaixava! Sorte que encontrei um original num ferro velho em bom estado e só precisando desentupir o tubo de aquecimento. Depois disso uma pintura e ficou novo! Roda no carro até hoje!

  • Que bom que você também gostou, meu caro Mr. Car, o Verner merece todo o respeito e todas as homenagens.

  • Fernando

    Muito legal o texto e a homenagem, Alexander.

    O Alzheimer realmente é algo triste que vai aos poucos tomando a vida, a minha sogra está convivendo com ele, não se sabe bem por quanto tempo.

  • Luciano

    Esta aí um carro pelo qual eu tenho um “carinho” e ao mesmo tempo me desperta um desejo recorrente: de ter um exemplar na garagem. Vez ou outra eu “viajo” pelos sites de vendas de veículos procurando um Fusca “Fafá” em boas condições. Ainda vou ter um! É só questão de tempo. Aprendi a dirigir no Fusca “Fafá” do meu pai — era um exemplar na cor cinza, ano 83, a álcool e com carburação dupla. Até hoje eu tenho aqui em casa uma foto minha com 13 anos de idade lavando esse Fuscão. Saudades…

  • Carlos A.

    RoadV8Runner, encontrar um bom mecânico experiente e dedicado aos nossos carros antigos já é difícil. Encontrar dois está ótimo! Eu sou fã do “faça você mesmo” e se você tiver algum jeito para a coisa vá em frente! Mas, como comentei acima, outra dificuldade é encontrar peças de qualidade.
    Boa sorte!

  • Pois é, J Paulo,
    Não podemos jamais negligenciar o período de aprendizado, seja em que atividade for. Certamente uma pane semelhante não iria pegar você mais uma vez; pois barulho de Fusca rodando com 3 cilindros já tinha passado para o seu cardápio de sintomas conhecido.
    Grato pelo relato.

  • Bela homenagem ao seu amigo e belo relato verdadeiro do que significou e ainda significa um “fuca” como chama meu meu pai…. Aliás, também dele ouvi várias vezes a resposta à pergunta de algum necessitado proprietário sobre onde encontrar um mecânico em algum lugar ermo das estradas de nosso interior…Primeiro a pergunta: qual é o carro com problemas? A resposta, naqueles anos, invariavelmente era: um fuca! À qual meu pai imediatamente tecia o comentário: Ah! com um alicate e um rolo de arame, até um padeiro conserta um fuca!