Durante a divulgação de resultados da indústria no mês de julho da Anfavea, ocorrida na última quinta-feira 4 de agosto, tentou-se extrair de seu novo presidente, Antônio Megale, se a entidade entendia já haverem sinais de retomada no mercado, após meses seguidos de retração.

Cuidando com suas palavras ante o maior resultado mensal do ano, até que se saiu bem, afirmando ser cedo para apontar inflexão, mas que as melhores vendas refletem uma melhora na confiança do consumidor. Pode não significar inflexão ainda, mas o que vimos em julho foi um aumento de 5,6% nas vendas totais sobre junho, considerando o mês teve um dia útil a menos, a conta sobe para +10% nos emplacamentos diários de automóveis e comerciais leves sobre o mês anterior e de quase 17% nos caminhões.

Megale afirmou também a entidade espera o desfecho do cenário político trará novo ânimo ao consumidor, leia-se o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff na votação do senado, previsto para o final deste mês. Não são somente os consumidores de automóveis que aguardam ansiosamente por isso.

O ritmo médio de emplacamentos diários de automóveis e comerciais leves ficou em 8.334 unidades, a primeira vez o ano a superar as 8.000 unidades/dia. Na revisão de projeções para 2016 que a Anfavea divulgara no mês anterior, foi estimado que o mercado interno de leves fique em 2.014.000 unidades. Se até julho essas vendas já haviam acumulado 1.127.287 veículos, nos cinco meses restantes do ano teriam de atingir outras 886.700, ou um ritmo de 8.365 ao dia, que é bem próximo do que já foi alcançado em julho. Fica claro que se abriu espaço para mais otimismo, apesar do crédito seguir bastante restrito e o nível de emprego ainda em deterioração.

As exportações aumentaram em 20% sobre o mesmo período de 2015, um pequeno alívio apenas, pois no acumulado do ano tivemos 45.360 unidades embarcadas a mais e o mercado interno consumiu 274,991 unidades nacionais a menos. A reação, se confirmada, tornará possível renovar acordos de PPE (Plano de Proteção ao Emprego) em alguns fabricantes, evitando mais um tsunami de demissões.

Nesta mesma época a Anfavea refazia as suas projeções para baixo e o seguiu fazendo até junho último. Agora pode ser diferente.

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Emplacamentos diários de Automóveis e Com. leves (Fonte: Anfavea)

 

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Gráfico de Emplacamentos diários de Automóveis e Com. Leves (Fonte: Anfavea)

 

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Emplacamentos Totais de Autoveículos (Fonte: Anfavea)

 

A transição política prevista para se encerrar este mês e o que vem depois dela.

As primeiras medidas econômicas do governo Temer, anunciadas dias após assumir interinamente a cadeira presidencial, serviram como uma rápida mensagem para acalmar o mercado. Surtiram o efeito desejado. No entanto, sabia-se que uma das principais, a aprovação do limite de teto de gastos do governo envolve um processo de negociação com o Congresso e isso deve durar semanas. O início das discussões mais a sério dar-se-á após o desfecho do impeachment. Sendo realista, estamos falando de algo em torno de dois ou três meses ou até mais, portanto o ano acaba antes.

A turbulência política também deve se estender após o impeachment, as esperadas delações premiadas dos executivos das construtoras Odebrecht, Queiroz Galvão e de outros envolvidos no escândalo Lava Jato devem trazer mais surpresas e provavelmente alterar o cenário político mais um tanto. Difícil esperar não haja oscilações no otimismo e confiança do consumidor nos próximos meses, o fator principal é uma previsibilidade que não temos.

Sabe-se também que a purgação que está havendo em nossa oligarquia política é desejada pelos eleitores, força a renovação, com todos riscos que isso envolve.

O pacote de medidas econômicas esperado após setembro não será um pacote de estímulo à atividade industrial nem de cortes de impostos, tampouco deve haver flexibilização ou estímulo ao crédito ao consumidor via bancos oficiais. O Bacen deu seu recado que a taxa Selic deve permanecer sem alteração de patamar até próximo do final do ano. Pensando bem, quando a Anfavea decidiu divulgar a sua previsão revista para o ano, podia não ter presenciado o que vimos em junho e julho, mas as suas reservas para com o otimismo se justificam.

Ranking de julho e dos sete meses do ano

O mês teve vendas de automóveis e comerciais leves 5% superiores a junho, mas algumas marcas puxaram essa média para cima. A Nissan teve um salto de 28% em suas vendas, Ford veio em seguida com 20%, Jeep com 18%, Fiat com 13%, Toyota com 9%. Na contramão, Renault teve queda de 2% nos emplacamentos, Hyundai -4% e Honda com surpreendentes -14%.

Chevrolet Onix segue firme na frente, com 11.591 unidades emplacadas, com o lançamento do face-lift e da versão Joy mantendo o visual anterior e mais despojamento, tática já bastante conhecida neste mercado, preço mais em conta, faz a GM sonhar em ampliar a sua liderança. Hyundai HB20 veio em seguida, com 9.697 unidades vendidas, Ford Ka em 3º com 7.325, Gol em 4º e Palio volta a figurar entre os cinco primeiros. Outros modelos que se destacaram foram as duas versões do Etios, que desde o lançamento do modelo 2017 com novas motorizações, interior e opção de câmbio automático vem incrementando vendas mês a mês. A versão hatch figurou em 11º lugar no ranking, sua melhor posição desde que foi lançado em 2012.

Chamou a atenção que alguns modelos que subiram no ranking o fizeram com ajuda das vendas diretas, aquelas que são direcionadas a locadoras e frotistas, também conhecidas como “vendas ruins” devido às margens bastante estreitas. No acumulado do ano, 28% foi o número médio das vendas de automóveis direcionadas ao canal direto. Antes da crise se aprofundar, em meados de 2014 elas já correspondiam a 24% do total. Nesse aspecto alguns modelos destacam-se por aderirem ao canal direto de vendas de forma mais contida. Honda HR-V é um deles, apenas 3,5% não vão ao varejo, Civic, 1,3%. No total da marca nipônica, 10% segue a frotistas, Jeep, 20%. Em 2016, as marcas que mais vem se utilizando dessa ferramenta de vendas têm sido Renault, Fiat e Nissan.

Nos comerciais leves, a Strada segue à frente com 5.924 picapes vendidas, Toro em 2º lugar, com 4.313 unidades, Saveiro em 3º, com 3.905, Hilux em 4º, com 2.658, seguida por S10, Ranger, Montana, Duster Oroch e Mitsubishi Triton fechando a lista dos 10 mais vendidos.

No ranking por marcas, a reação da Fiat lhe fez bem, encostou na líder Chevrolet, com 869 unidades de diferença, a menor do ano, VW em terceiro, a surpreendente Toyota se posicionando em 4º, graças à boa receptividade do Etios renovado, seguida por Ford, Hyundai, Renault e Honda.

Em agosto começam as vendas do suve Kicks, da Nissan (foto de abertura), do novo Onix, das versões automáticas do March e Versa, enfim, novos produtos disputando um consumidor relutante e agitando o mercado recessivo. Que os bons ventos de julho sigam soprando.

Para facilitar a compreensão do leitor, fizemos pequeno ajuste nas tabelas de vendas, com os números do mês e do período em rankings separados. Espero gostem.

Até mês que vem.

MAS

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Fonte: Fenabrave

 

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Fonte: Fenabrave

 

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Fonte: Fenabrave

Sobre o Autor

Marco Aurélio Strassen

Engenheiro Mecânico pós-graduado em Finanças e Marketing trabalha há vários anos na indústria de autopeças e faz a análise mensal sobre mercado especialmente para o AUTOentusiastas.

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  • MAS, adoro suas análises. Valeu

  • Marco Aurélio Strassen Murillo

    Temos porém de considerar que a Honda opera a sua fábrica de Sumaré na capacidade máxima, ou seja, tiveram de fazer escolhas e priorizaram o HR-V em detrimento dos demais. A nova fábrica construída em Itirapina para dar vazão aos novos projetos está pronta, mas devido à crise a marca japonesa tomou a decisão de suspender o início de operações por tempo indeterminado. Surpreendeu a todos, mas compreendemos os motivos. Imagine contratarem e treinarem centenas de trabalhadores e depois dispensarem.