A falta de planejamento à época da fundação da cidade não deveria ser desculpa para piorar ainda mais os problemas de São Paulo. Ao contrário, deveria ser motivo para analisar ainda mais cuidadosamente antes de fazer qualquer intervenção urbanística.

Se temos ruas estreitas, mal traçadas, sinuosas ou em aclive e declive por que continuar estragando algo que já têm problemas de nascença? Bem, sempre é possível piorar algo que parece insustentável como bem demonstram os fatos.

Lembro-me do meu encantamento com Barcelona a primeira vez que lá estive. Uma cidade linda, apesar de ter muitas centenas de anos e, claro, ruas e calçadas estreitas e que não foram planejadas para nenhum tipo de transporte coletivo, nem carros nem nada. Moderna, no entanto e, principalmente, com uma enorme preocupação com a estética junto com a qualidade de vida de seus habitantes. Estive há dois anos novamente lá e assim continua, provando que é possível que as duas coisas andem de mãos dadas.

Já comentei neste espaço que anos atrás a prefeitura daquela cidade catalã abriu uma concorrência para a implantação de um sistema de bondes — elétricos, para evitar emissão de poluentes e de ruído. Pois bem, uma condição básica do edital era que a empresa vencedora deveria apresentar a melhor solução estética, pois a prefeitura não queria cabos suspensos que a deixariam “feia”. Ganhou a licitação a fabricante que criou um sistema de trilhos que eram eletrificados por trechos logo adiante, pelo próprio veículo, na medida em que ele avançava. Com isso, nada de “varais” de cabos que tanto enfeiam nossas fotos de viagem e nos impedem de ver o céu plenamente. E absolutamente seguro para os pedestres, pois os trilhos não ficariam eletrificados quando não estivessem em uso.

Quais as lições que tirei disso? O poder público não precisa dizer o que as empresas têm de fazer, basta exigir a solução e elas que busquem a melhor alternativa. Garanto por experiência própria que a criatividade é muito superior nesses casos — e não raro a custos inferiores. Mas precisa fiscalizar muito.

E, segunda lição, podemos viver numa cidade funcional e que também seja bonita. Mas, o que vemos em São Paulo? Uma cidade cada vez mais feia e perigosa. Perigosa? Sim. Tentem, caros leitores, vir pela rua General Euclides Figueiredo e virar à esquerda na Av. Morumbi, manobra permitida pela linha pontilhada na avenida e muito necessária, já que poucas vias chegam até lá. Pois bem, o motorista é obrigado a invadir a faixa de pedestres, embicar o carro sem ter nenhuma visibilidade e apelar para Deus, Shiva, Maomé e todos os outros para que quem vem pela av. Morumbi em direção à Casa da Fazenda o enxergue e queira lhe dar passagem. Assim como quem vem do outro lado para não ficar atravessado no meio da avenida, pois uma placa de propaganda no ponto de ônibus impede totalmente a visão. Assim, não se sabe quando se pode fazer a conversão com segurança.

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E agora, José? Como fazer a conversão? (foto googlemaps.com)

Escrevo isto com receio, é verdade, pois alguma autoridade pode ler e, em vez de tirar o raio da placa, impedir a travessia, mas este é somente um entre tantos outros casos. E, detalhe supremo, esta placa está lá há muito, muito tempo. Eu passo por lá com frequência, mas não consigo fazer uma foto e apelei para o Google Maps, que diz que esta foto é de novembro de 2014. Ou seja, nem a velha desculpa de fazer as coisas açodadamente para depois corrigi-las funciona neste caso.

Mas esta não é a única placa que atrapalha a visão dos detestados motoristas de carros particulares — detestados, diga-se novamente, pelas autoridades municipais de São Paulo — mas evidentemente impede a visão dos condutores de ônibus, táxis, motociclistas e dos endeusados ciclistas, pois nesses cruzamentos ninguém, absolutamente ninguém, enxerga coisa alguma. Sem falar nos coitados dos pedestres, por óbvio, prejudicados ao tentar atravessar a Euclides Figueiredo, mesmo que o façam na faixa.

Coluna 31-8-16 Placas onibus 2

Como faz um cadeirante? (foto skyscrapercity.com)

Na verdade toda a avenida Morumbi assim como Rebouças, Nove de Julho, Paulista e tantas outras foram brindadas com essas placas. Sou eu contra a publicidade? Não. E não por princípio e por formação, pois estudei Comunicação Social na faculdade. Mas, cadê o bom senso? A ideia não é sempre poupar vidas, zelar pelos transeuntes, reduzir o número de acidentes e tantas outras frases feitas? E ainda daria para discutir por horas a Lei Cidade Limpa que, se eu não estou mal informada como de fato não estou, ainda vigora mesmo que tão flechada.

Como meus caros leitores sabem sou realmente multimodal e, portanto, também usuária de ônibus. Por isso posso afirmar que mesmo quando espero num ponto não se enxerga não o ônibus que vem, pois não foram tão longe a ponto de colocar as placas à frente, mas sim aquele que acabou de partir. Saber disso nos permitiria mesmo optar por outra linha, por um táxi ou pelo metrô, por exemplo. E quem vem a pé no sentido oposto ao da mão da rua não tem como saber se deve correr para alcançar o ônibus que poderia estar chegando ou se continua andando tranquilamente pois não há nenhum no horizonte.

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Piso tátil para deficientes visuais leva a… uma placa de anúncio (foto prefeiturasp.gov.br)

E o que dizer dos deficientes físicos? Ou será que somente em momentos de Paraolimpíadas é que as autoridades olham minimamente para eles? Ou das pessoas com carrinhos de criança? Vejam algumas das fotos que aqui estão — uma, inclusive, do site da própria Prefeitura, ilustrando a genialidade das placas. Piso tátil? Para quê? Para induzir o deficiente visual a estampar a cara numa placa de propaganda? Melhor seria se não houvesse faixa indicativa, pelo menos ele teria uma chance…

Mudando de assunto: depois de um curto jejum, voltou a Fórmula 1. E justamente num dos meus circuitos favoritos, o de Spa-Francorchamps. Aprecio o talento do jovem Max Verstappen e não gosto das atuais normas que engessam ultrapassagens, mas se elas existem devem ser seguidas por todos — e aqueles que não as respeitam deveriam ser punidos. Senão, mudem-se as normas. Mas não foi o que vimos domingo passado. O holandês foi super protegido pelas autoridades da corrida e fez o que quis. Kimi Räikkönen talvez tenha sido o mais prejudicado, mas não o único. E o que o Fernando Alonso queria fazer jogando o carro para cima do Nico Hulkenberg na saída do boxe? Se a equipe o liberou antes da hora (não dá para saber pelas imagens, mas pode ter acontecido) logo em seguida ele pôde ver que o Nico estava na trilha, à frente dele, e tinha a preferência.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autoria e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


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  • Luiz Alberto Melchert de Carva

    Vou repetir aqui o que venho dizendo há anos. A mobilidade urbana precisa seguir a mais óbvia lógica; primeiro o pé humano, depois o transporte público coletivo, a seguir o transporte público individual e, por último, o transporte privado individual, incluindo carros, motocicletas e bicicletas. O morador de São Paulo acha que a calçada é o caminho para seu carro entrar na garagem. Nunca lhe passou pela cabeça que os transeuntes possam caminhar por elas. São degraus atrás de degraus até mesmo onde não há entradas de garagem. É que procura-se evitar o baldrame para compensar o declive. Por causa disso, a inclinação máxima de 2% da testada do terreno até o meio-fio jamais é respeitada. Para o paulistano, seu terreno deve ser rigorosamente plano e o aclive compensado pela calçada, quando o certo seria ela acompanhar rigorosamente o leito carroçável e o relevo compensado do portão para dentro. O resultado disso são degraus de até 50 cm. Não há como um cadeirante, um idoso com andador, uma mãe com carrinho de bebê, ou qualquer pessoa puxando um carrinho de compras transitar pelo passeio público. Por causa disso, prefere-se ir a um supermercado a quilômetros de distância a fazer as compras a pé e não as poder levar para casa. A consequência é que as pessoas não se conhecem mesmo que vizinhas, não desenvolvem amor pelo seu bairro, não se protegem e o trânsito, o ambiente e as condições cardíacas dos cidadãos sofrem com isso. Enquanto não se regularizarem as calçadas as atitudes individualistas do morador de São Paulo não se alterarão.

    • Luiz Alberto, você tocou num ponto que classifico como vergonha para São Paulo: as calçadas. É inconcebível que a administração da cidade, e isso vem de longe, não é a atual, faça vista grossa para esse grave problema. Suas observações se revestem de excepcional precisão.

      • Luiz Alberto Melchert de Carva

        A lei das calçadas foi aprovada em 2012 e previa multar quem não estivesse de acordo com a ABNT. Assim que o Haddad assumiu, mandou uma mensagem à câmara para amenizar a lei com auto de infração dando sessenta dias para que se regularizasse. Ocorre que não se fiscaliza e as prefeituras regionais alegam que dependem de denúncia para autuar. Aí pergunto se alguém vai denunciar o vizinho, posto que as denúncias têm que ser identificadas. Mas há um agravante que não citei, os proprietários encompridam os terrenos avançando sobre as calçadas. Se o pessoal da prefeitura passasse com um teodolito a laser medindo os terrenos a partir do vão dos portões, 7/8 delas teria de recuar os muros. Uma casa vizinha, por exemplo, alongou seu terreno até encostar no poste e a proprietária diz que o traçado da rua é que está errado.

    • Nora Gonzalez

      Luiz Alberto Melchert de Carva, você está correto. E para piorar em São Paulo nos casos em que a calçada é plana e tem largura adequada, instalam-se essas geringonças que atrapalham o trânsito de pedestres e criam obstáculos visuais aos condutores de qualquer tipo de veículo, incluindo os ciclistas.

  • Fat Jack

    “…em vez de tirar o raio da placa, impedir a travessia…”
    Compartilho do seu temor, pois a colocação de uma placa de conversão proibida é mais fácil e lucrativa (haja visto o custo apurado daquelas adquiridas para as marginais) do que a reavaliação das condições atuais para retirada da propaganda, ainda mais que a mesma deve fazer parte de um contrato público/privado.
    Outro fator incrível é que uma série de pontos de ônibus foram demolidos para colocação do “novo padrão” enquanto outros sem cobertura permaneceram assim!
    F-1: foi tudo liberado para o Verstappen eleito “queridinho da categoria” e aí não puderam punir o Alonso, pois ficaria feio e flagrante a proteção, é bom reverem logo essa permissividade antes que algo mais grave ocorra.

  • Carlos A.

    Nora, sem comentários sobre essas placas, é o fim da picada! Mas tem mais gente que poderá trombar nessas publicidades literalmente no meio do caminho, são os usuários de celular que andam a pé digitando em seus telefones sem a mínima atenção!

  • Para a questão do calor, existem uns pontos que tem terra e flores em cima.
    http://www.hypeness.com.br/wp-content/uploads/2016/01/ponto-verde-INT.jpg
    http://www.tetovivo.com.br/wp-content/uploads/2016/02/telhado-verde-instalado.png

    O design também pode ser melhorado, o concreto aceita qualquer forma.

  • Matheus S. Bueno

    Nora,

    Com o intuito de colaborar, não há os erros que foram apontados. Existem outros.

    O piso tátil em questão, é de alerta e não direcional. Talvez ele não esteja instalado a 50cm do meio fio (parece-me um pouco mais). Sua finalidade é alertar que há perigo a frente, perpendicularmente a rua e não em relação a placa.

    Essa foto é atual e, infelizmente, não dá para visualizar se aqueles pisos no canto inferior direito, que são direcionais e que indicam que ali é a área destinada ao deficiente visual embarcar no ônibus, encontram alguma barreira ou oferecem perigo para estas pessoas. E o erro reside aí, na posição desses pisos que indicam o embarque. Eles deveriam estar onde está a placa (NBR´s 9050 / 15 e 16537 / 16), pois, pelo sentido da rua, é na região da placa que a porta do ônibus deveria abrir e ser garantida a prioridade dessas pessoas. Onde ele está instalado, não é – muito certamente – onde os ônibus param e as pessoas embarcam.

    A placa em questão poderia, como apontou o amigo “mariorianaldi”, estar em paralelo ao sentido do fluxo na via, alinhado com o ponto de ônibus, mas não ali e sim antes de se começar o ponto. Deveria ser instalado o tão importante pisos tátil direcional, passando por trás do ponto (há espaço de sobra para isso) e que conduzisse deficientes visuais para essa área sinalizada para o embarque.

    Por ultimo, a cor amarela, apesar de usual, está em desuso em ambientes abertos por questões de contrastes. Ainda mais porque o piso de concreto em cinza claro, sobretudo a noite com a iluminação amarelada que é comum dos postes, ofusca e não oferece o contraste adequado. É preciso lembrar que os pisos táteis não são destinados somente as pessoas cegas, mas as de baixa visão também.

    Espero ter ajudado. Sou Arquiteto e Urbanista e deficiente físico.

    • Nora Gonzalez

      Matheus S. Bueno, agradeço seus comentários e quanto mais olhamos para essas fotos mais problemas aparecem. Além da falta de conformidade com as normas apontadas por você e por mariorinaldi, há um violento atentado ao bom senso. No caso da foto do piso tátil, a tal placa não é um perigo apenas para deficientes visuais, mas para cadeirantes, pais que transportam crianças em carrinhos e todo tipo de pessoa ainda que dotada de visão 20 x 20, impedidas de andar pelo óbvio obstáculo com o qual se deparam.

  • Nora Gonzalez

    AG, grata pelos seus esclarecimentos e pelo elucidativo video. Certamente os leitores também apreciarão. Eu conhecia o sistema muito bem pois trabalhei justamente na Alstom. E estive uma vez em Barcelona a trabalho para ver esse sistema, numa grande feira do setor. Pessoalmente, acho que podemos ter as duas coisas: eficiência e beleza — algo assim como eu mesma, hehehe. Brincadeira, amigo.

  • Gustavo Oliveira

    O ponto de ônibus em questão é padrão em várias partes do mundo, onde as publicidades também estão presentes. Uma simples busca no Google mostrará diversos pontos de ônibus semelhantes em várias cidades de todos os continentes.

    • Nora Gonzalez

      Gustavo Oliveira, a questão é a localização dos pontos, que prejudica a mobilidade de pedestres (deficientes físicos especialmente mas não só) e a visibilidade por parte de todos os tipos de motoristas ou ciclistas. Além de a propaganda ser uma flagrante enganação da lei Cidade Limpa, que não existe em todos os países — ainda que os pontos sejam parecidos ou iguais.

  • Lorenzo, creio ser desnecessário falar da saída da gorda fecal. Era mais que esperado. O melhor que aconteceu, do ponto de vista autoentusiasta, é o Rolls-Royce presidencial voltar a ter a placa ‘Presidente’. ‘Presidenta’ era ridículo, prova de que no interior da caixa craniana da anta não tem apenas massa encefálica, tem esterco também.

  • Celio_Jr

    Lamentável Nora! Empatia zero do ambulante!
    Em tempo: mais um ótimo artigo, abriu vários debates.

    • Nora Gonzalez

      Celio Jr., obrigada pelas suas palavras. Acho importante o debate sobre qualquer assunto e, como sempre digo, mesmo casos pontuais devem ser conhecidos e analisados por moradores de outros lugares, pois podem chegar até outras cidades. E isso serve para tudo: pontos de ônibus ou decisões políticas.