Os meus causos são todos reais e não os conto se eu mesmo não deles tiver participado, direta ou indiretamente.

A história de hoje me remete ao fim dos anos 60 quando já não era mais estagiário aprendiz, mas ainda trabalhava na mesma concessionária VW (Argos Automóveis) onde teve início a minha carreira profissional.

Eu já tinha saído do macacão e passado a usar um guarda-pó branco de recepcionista, aquele funcionário da linha de frente que atende o cliente. Foi uma subida rápida sim, aproveitei todas as oportunidades que a empresa me oferecera e lá estava eu para desempenhar esta função, com a vantagem de falar alemão, o que na época era muito importante. Hoje o cargo se chama consultor técnico.

O meu conto a partir de agora terá duas frentes de trabalho, a primeira é incrível. Você se lembra daquele sócio da concessionária que chutou um latão de lixo e não sabia que lá dentro alguém (eu, é claro) tinha deixado dois tambores de freio de Kombi? Você se lembra dele, que fez uma almotolia cruzar os céus da oficina até aterrissar no para-brisa de um Fusquinha? Pois é este é mais um fato curioso protagonizado por este mesmo senhor.

O Sr. João era proprietário de uma Kombi do ano 1950, importada da Alemanha na versão Samba Bus (foto de abertura, ilustrativa), não sei se você já viu uma Kombi desta, hoje só nas mãos de colecionadores. A Kombi tinha um teto corrediço de lona que ia da parte logo atrás da cabeça do motorista até a área do último banco. Nas laterais do teto havia pequenas janelas fixas porém muito bem posicionadas que permitiam aos turistas ver o alto das montanhas geladas com o veículo em movimento. Era um show de veículo, especial para turistas e transporte de hotéis.

Para andar melhor, o Sr. João, que tinha uma criatividade acima da média, instalou nesta Kombi um motor Porsche S-90 retirado de uma coisinha linda daquelas que dera perda total num acidente de estrada. Na Kombi foram removidas as caixas de redução, conjunto  original na Kombi que servia para dar tração e não velocidade, e assim ele tinha nas mãos um supercarro. Até os freios dianteiros a disco do Porsche ele adaptou, originais eram a tambor (iguais àqueles do latão de lixo).

Pois bem o carro, ou melhor, a Kombi andava muito bem, mas muito bem mesmo. Dá para imaginar a diferença de potência entre uma com motor original e esta com um motor Porsche S-90? Passar de 1.131 cm³ e 25 cv para 1.582 cm³ e 90 cv? O Sr. João era por demais ciumento, não deixava ninguém tocar naquele carro e eu nem chegava perto.

Agora vou contar a sequência desta história que terminará com os dois carros andando juntos. A Kombi com motor Super 90 e uma Kombi Pick-up.

Fomos informados que um cliente da concessionária teria sofrido um terrível acidente com sua Kombi, esta se projetara do alto da Ponte da Casa Verde para o asfalto da Marginal que naquele tempo não era o que é hoje. Por incrível que pudesse parecer, talvez devido ao peso do motor traseiro da Kombi esta caiu de teto com a parte traseira tocando primeiro o asfalto e o motorista nada sofreu além de um grande susto. Terminadas as formalidades burocráticas a Kombi foi trazida para a concessionária. Seguro não tinha, não era hábito ou tão necessário fazer seguro de uma Kombi (que coragem).

Veículo parado e todo dia Sr. João passando ao lado dela e imaginando o que poderia fazer com ela. Tomou uma decisão e não contou para ninguém, comprou a Kombi do seu proprietário como sucata. Quero lembrar que a mecânica estava super em ordem, os danos de grande monta eram só de carroceria.

Em certa manhã, Sr, João, bem humorado, o que era raro, nos chamou e disse: “Vamos fazer uma Pick-up Volkswagen como já existe na Alemanha, vejam os desenhos, quero uma igualzinha. Perguntas? Não, ótimo, mãos a obra!” Bem curto e grosso ao seu modo.

Luiz, chefe da funilaria, chamou seus rapazes e alicates e serrotes especiais foram à luta. Alguns dias e a carroceria já tomava forma. Teto removido, portas dianteiras recuperadas e as laterais cortadas na altura própria para poder receber uma plataforma de chapa bastante resistente para garantir o seu bom uso como picape e poder transportar até motores mais pesados.

Mais alguns meses a Pick-up estava pronta e seguia para a pintura. Foi escolhido o cinza claro, cor principal da concessionária. Mais alguns dias e a inauguração com direito a chope, refrigerantes e pastéis feitos pelo vizinho, aquele bar onde eu tomava o café da manhã (almotolia voadora). Veículo pronto, licenciado, emplacado, vai ao uso, tinha até engate para cambão (aquela barra de ferro que é obrigatória para um carro poder rebocar outro) para serviços de resgate de clientes em dificuldades com seus carros.

Tudo seguia bem, muito bem, eu até usava a picape para ir ao colégio à noite, fazia à época Administração de Empresas no Colégio Rio Branco. Era um luxo, aluno garotão com carro bacana que só eu tinha, lindo, né?

Mas a alegria durou pouco. O Sr. João tinha família no Rio de Janeiro e com alguma frequência ia visitá-la.

Imagine uma Kombi S-90 na Via Dutra, isto entre 1966/67, quando nem pedágio existia. Mas um problema maior de motor fez a viagem ser interrompida.

Celular não havia, orelhão tampouco, o negócio era pegar uma carona, entrar em um posto e pedir ajuda. Para quem? Isto mesmo, eu fui o encarregado de providenciar que a Pick-up “guincho” saísse de São Paulo. e fosse buscar o patrão. Interessante que ninguém se prontificou a fazê-lo, por que será?

Muito bem, procuro dentro da concessionária alguém que tivesse habilidade para dirigir uma picape e que pudesse se ausentar por um período mais longo, possivelmente até dois dias e aturar o mau humor do patrão.  O João, que por ser baixinho era o Joãozinho, chefe da contabilidade, se prontificou a buscar o patrão. Saiu da concessionária com o carro equipado com algumas peças e ferramentas porque até o Sr. João (patrão) poderia corrigir o problema cujo diagnóstico não estava completo e certo.

Pé na estrada e lá seguia o Joãozinho ao encontro do Joãozão. Encontraram-se num posto de gasolina a cerca de 250 quilômetros de São Paulo. Conversa vai, conversa vem, tenta daqui, tenta de lá e não descobriram o defeito da Kombi. Solução, engatar o cambão e rebocá-la para São Paulo. Sabia-se que pelo tempo e pela distância seria necessário viajar à noite e pegaram estrada, a Pick-up na frente, o cambão como elo entre os carros. Na Pick-up o Joãozinho e na Kombi o Joãozão.

Iam bem até que próximos a São José dos Campos o inesperado aconteceu. O cambão que por algum problema até hoje não conhecido se solta de sua ancoragem (você conhece aquele acessório chamado engate, ele tem uma bola de ferro que também serve para proteger o para-choque dos barbeiros e as vezes até para puxar uma carretinha?), ou seja, o equipamento falhou e se solta do  para-choque traseiro da Pick-up indo ao chão e começa a se arrastar. Joãozinho percebe que algo de estranho está acontecendo, percebe que o seu carro anda muito melhor no asfalto liso e que não tem peso para ser rebocado, olha pelo retrovisor e vê a Kombi separada da Pick-up.

O Sr. João, pilotando a Kombi segue na direção do acostamento até que de repente, sem qualquer chance de reação, a Kombi da um salto alavancado pelo cambão que travou no asfalto e a parte traseira se levantando totalmente. A Kombi totalmente sem domínio dá um verdadeiro SALTO DE VARA, acabando por tombar, de lado.

Danos materiais de grande monta, uma Kombi importada cujo reparo e a dificuldade de encontrar  peças seriam um grande desafio, era neste momento um carro candidato a sucata. Naquele momento não havia mais nada a fazer a não ser contratar um caminhão, colocá-la em cima e ambos os Joãos retornarem para São Paulo, quebrados, arrasados e cansados e com um grande prejuízo a ser contabilizado. Será que fora o acaso ter escolhido um contador para dirigir a Pick-up?

Esta história, sempre repito, é verdadeira, coincidentemente é uma homenagem aos Jogos Olímpicos do Rio.

Domingo que vem tem mais.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

 



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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

  • RoadV8Runner

    Caramba, o Sr. João (Joãozão), além de mau humorado, tinha um azar lascado… Não bastasse a Kombi quebrar na viagem, acontece uma dessas no resgate! E deve ter sido um susto mais ou menos esse salto de vara da pobre Kombi “S-90” Bus.

  • Victor H, sabe qual ara a velocidade máxima dela? 80 km/h.

  • Sonia Berg

    Puxa, que história! Que fim levou a tal da Kombi linda que aparece no começo do texto? Aguardando ansiosamente o próximo domingo. Bjs

    • Ronaldo Berg

      Oi, Sonia, vamos curtindo, a cada domingo uma nova história. A foto da Kombi que aparece no texto foi tirada da Internet, aqui no Brasil as poucas que para cá vieram estão nas mãos de colecionadores e logicamente antigas, diferentes da foto.

  • Matheus Ulisses P.

    Imagino o humor do patrão ao tombar sua Kombi…
    Se fosse minha eu teria ficado louco!

    • Ronaldo Berg

      Matheus, obrigado por sua atenção e leitura das minhas histórias.
      O humor deste patrão não era muito diferente entre o estar bem e o estar mal. Como já comentei, se você soubesse levar o seu mau humor era até possível uma reversão para um conviver mais adequado. Até domingo que vem.

  • Eduardo Sérgio

    “Joãozinho, Joãozão is faster than you…”

  • Fat Jack, com vento forte a favor, você quis dizer… (rsrsrs)

  • Victor H, como o Fusca, a velocidade da Kombi era máxima e permanente. Podia andar o dia inteiro a 80 km/h sem danos ao motor.

  • Ronaldo Berg

    Tiago, você tem razão, por alguns dias ele ficou calado (isto já demonstrava culpa) mas na semana seguinte tudo voltou ao normal e ele disse: “Não quero ninguém se lamentando de nada, quero ver todo mundo trabalhando para recuperar meu carro, mãos a obra e já !!!!!!”

  • Ronaldo Berg

    Pastel, não sabemos quem fez a instalação do cambão na Kombi, provavelmente o Joãozão, porque o Joãozinho era da contabilidade, gostava de carros, mas o seu forte não era a mão de obra mecânica. Como ninguém nunca comentou nada a respeito o resto é dedução. Até domingo que vem com uma história de final feliz.

  • Carlos A.

    Caro Ronaldo, compreendi pelos seu comentário complementar, que de fato o contador socorrista não teve culpa do incidente, e o “patrão” mesmo sendo uma pessoa difícil de se lidar, era coerente em não culpar um funcionário injustamente.
    Aproveitando, esse foi mais um texto muito legal!

  • Ronaldo Berg

    Victor, fazer turismo a 100 km/h ninguém merece, eu pelo menos não me sentiria confortável. Esta Kombi não tinha o objetivo de fazer médias horárias mas sim de fazer os seus passageiros curtirem as paisagens principalmente as montanhas com neve ou gelo. O importante como Bob já comentou é que elas podiam andar km e mais km com muita segurança. Domingo que vem tem mais e com final feliz.

  • Luiz Alberto, é preferível “abater o motor a tiros” (rsrsrs) do que deixá-lo funcionar em autoignição, um funcionamento totalmente descontrolado e que força a célula de potência — pistões, bielas e virabrequim. Se for para esperar, como seu pai gostava, é melhor manter o motor um pouco acelerado justamente para a turbina mandar maior volume de ar para os cabeçotes e cilindros. Você está certo, em marcha-lenta o fluxo de ar é muito pequeno.