Os causos que estamos apresentando, tanto os do Livro II, como os novos, têm sido muito bem recebidos pelos leitores desta coluna, já que eles descrevem situações reais com as quais muitos acabam se identificando. Eles também têm motivado o recebimento de causos novos para mim, que serão identificados como “causo inédito”, como este enviado pelo Afrânio Benzaquen de Souza e que relata a sua convivência, como ele costuma dizer, com o “seu único e primeiro carro”. O Fusca 1970, bege, tem muitas histórias para contar, aí vai mais uma delas, um causo para lá de diferente. Recentemente publicamos o delicioso causo do Afrânio: “Eles têm artes… do cão! ”

VACAS AFETUOSAS

Por Afrânio Benzaquem de Souza

Meu único e primeiro carro foi um Fusca 1970, pelo qual senti extrema identificação e apreço. Eu o adquiri zero-quilômetro, no Rio de Janeiro. Havia recém-tirado a minha carteira de motorista e, naquele tempo, sentia exatamente como se estivéssemos aprendendo juntos a andar e correr…. Foi uma relação de mútuo crescimento, proximidade, interesse e confiança.

Em 1972, mudei-me para a Bahia, morando na praia de Itapuã. Nessa época, os carros eram muito sensíveis ao ambiente marítimo e logo se deterioravam. Tive muita preocupação em mantê-lo conservado e íntegro. Muitos fins-de-semana empreguei protegendo as partes internas com graxa, raspando e pintando os pisos interiores. Até os para-lamas eu retirava para inspecionar e calafetar as junções. Minha mulher, muitas vezes, reclamava: “Esse homem só falta lamber esse carro!” Mas os resíduos salinos em Salvador são realmente persistentes e mereciam cuidados.

Um dia, por volta de 1980, tive uma inesperada prova disso. Minha irmã reside numa pequena propriedade rural que temos no interior. Nessa ocasião, eu estava de férias e, como sempre, pegamos o Fusca e fomos para lá. Ao chegar, parei o carro debaixo de uma frondosa mangueira.

Mais tarde, algo inusitado chamou-me a atenção. Algumas vacas cercavam o veículo por todos os lados. De início, pensei que estavam assustadas, tentando identificar o inesperado visitante, de cor bege clara, semelhante a elas em pigmentação…

Temendo pela segurança e integridade do carro, caminhei até o local, a fim de certificar-me do que ocorria. Não consegui reprimir uma gargalhada: As vacas lambiam sofregamente o Fusca como se o fizessem com seus bezerrinhos tenros e frágeis! Nunca havia presenciado cena tão hilária e tocante… Seria o Fusca, para elas, uma espécie salina e natural de picolé? Ou, telepaticamente, teriam ouvido a minha mulher?

Essas vacas podem ter contribuído um pouquinho para a conservação desse Fusca…. Fiquei com ele até 1999, sem nenhuma corrosão nas partes superiores. Além disso, foi um carro de sorte. Com ele nunca bati, nem atropelei um animal sequer. A não ser insetos e borboletas, mas esses, nas estradas, ninguém os vê e, muito menos, pode desviar ou frear.

Nesse mesmo ano desfiz-me dele e hoje é “residente” na cidade de Olindina, interior da Bahia. Mas esta é uma outra história, que não cabe aqui relatar. O certo é que está aposentado e feliz, novinho em folha, como recém-saído de fábrica…

Contudo, oportuno seria cientificar ao novo proprietário para não deixá-lo aproximar-se de vacas, que são comuns por ali. Ele pode enamorar-se delas… E contra um touro enfurecido e ciumento não sei se é lícito e justo um Fusca pelejar…

AG

A coluna “Falando de Fusca” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Alexander Gromow
Coluna: Falando de Fusca & Afins

Alemão, engenheiro eletricista. Ex-presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor dos livros "Eu amo Fusca" e "Eu amo Fusca II". É autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Além da coluna Falando de Fusca & Afins no AE também tem a coluna “Volkswagen World” no Portal Maxicar. Mantém o site Arte & Fusca. É ativista na preservação de veículos históricos, em particular do VW Fusca, de sua história e das histórias em torno destes carros. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

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  • eNe

    Fusca virar picolé de vaca… Era o que faltava. 🙂

    • Mr. Car

      No caso, é mais o Fusca funcionando como cocho de sal, que como picolé, he, he!

  • Patureba

    Ontem mesmo meu carro ficou cheio de marcas de língua de vaca por toda a lataria! Falei com meu tio dono dos animais que elas estavam “sedentas” por sal, precisa melhorar na suplementação.

    • Olha só que coincidência, caro Patureba!
      As vaquinhas estão começando a ficar na berlinda com suas potentes lambidas!
      Também acho que as vaquinhas de seu tio anda carentes de sal como as do causo do Afrânio.

  • RoadV8Runner

    Incrível como a automóvel é centro de causos inusitados, como esse contado pelo Afrânio! E prova também como a maresia é braba

    • Pois é RoadV8Runner,
      Maresia é um problema não só para carros, mas para tudo, por exemplo para alto falantes de caixas acústicas, que ficam lá dentro escondidos. Quando menos se espera eles sucumbem à ferrugem no entreferro dos cones de som…

  • Pois é, Mr Car, o Afrânio teve sorte de não levar umas mangas caindo na lataria de seu Fusquinha. Realmente, ainda bem que não era uma jaqueira ou um coqueiro. Por falar nisto, você lembra desta propaganda?
    .
    https://youtu.be/oQCJeAL5gNU

  • Eduardo Sérgio

    Ferrugem em um carro novo e muito bem cuidado é muito frustrante. Foi essa a sensação que eu tive ao deparar com corrosão perfurativa na base da coluna A do meu Fusca 1996, com pouco tempo de uso.

    Ainda bem que hoje corrosão em automóveis é assunto do passado.

    • Não sei se a corrosão em automóveis é um assunto do passado, caro Eduardo Sérgio.
      Tudo depende da solicitação a qual o carros for submetido, tipo maresia, sal na estrada no inverno (em regiões com neve e gelo na estrada), poluição ácida, enchentes,etc.
      Mas o que você relatou do seu Fusca Itamar é uma tristeza mesmo…

  • Paulo Ferreira

    Mostrei a um amigo e comentário foi demais: “O dia em que o besouro virou bezerro”. He he!

    • Teria sido um grande titulo para esta matéria!!!
      Valeu caro Paulo Ferreira, também por estar divulgando este coluna para seus amigos!

      • Paulo Ferreira

        Nós que agradecemos pela oportunidade de lê-la caro Gromow!

  • Sabe que eu também fiquei apreensivo caro Carlos A.?
    Grato

  • Rogério Oliveira

    Tudo bem GromoW! Que causo curioso! Esta foi diferente!

    • Valeu caro Rogério Oliveira!
      Este está inaugurando a série “Causo Inédito” que serão indicados com o seguinte selo:
      .