Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas RABO QUENTE ESFRIADO – Autoentusiastas

Caro leitor ou leitora,

Ronaldo Berg, 69 anos, toda uma vida ligada intimamente ao automóvel, começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964, portanto há 52 anos. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4), Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW — era meu chefe! — e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. O Ronaldo aceitou o convite do AE para escrever uma coluna semanal, a “Do fundo do baú”, todos os domingos, de onde ele retirará muito do que tem para contar de sua longa, rica e emocionante vida profissional, até de automóvel correu.

Bem-vindo ao AE, Ronaldo!

Bob Sharp
Editor-chefe

________________________________________________________

Rabo quente esfriado

Eu só tinha 12 anos e isto aconteceu há 56 anos. O que vou contar agora era, naquela época, uma grande peripécia.

Sempre fui apaixonado por carros, meu pai tinha um enorme Mercury 51 e minha mãe, um Renault 4 CV, aquele com motor traseiro de 747 cm³, à época apelidado de “Rabo Quente” (não é esse da foto, que é só ilustrativa, mas era da mesma cor). Dizem as más línguas que era porque a água do radiador fervia (o 4 CV da minha mãe nunca ferveu), mas o fato é carro de motor traseiro ainda não existia no Brasil quando o modelo aportou por aqui, 1948 ou 1949, o Fusca ainda não havia chegado, daí o apelido.

A minha vontade de dirigir era enorme, tinha a meu favor a minha altura, pois sempre fui muito alto, o que facilitava alcançar os comandos — embreagem, acelerador, freio e alavanca de câmbio.

É lógico que sair de carro não me era permitido, mesmo morando em uma vila, uma rua sem saída. Com autorização da minha mãe, nem pensar, e do meu pai, pior ainda. Mas nem tudo era perfeito.

Uma tarde minha mãe me disse: “Hoje à noite vou ao cinema com seu pai, você vai ficar em casa com sua irmã e vê se você se comporta.” Foi o mesmo que dizer “Vou sair com seu pai, divirta-se”….

Era sete da noite, meus pais saíram com a “barca”, o Mercury, e eu fiquei em casa e na garagem o Renault Rabo Quente piscando os olhos para mim, pelo menos na minha imaginação. Foi o tempo de eu pegar uns pedaços de giz que havia trazido da escola e lá fui eu para a garagem com as chaves do Renault na mão.

Fiz uma marca em voltas das quatro rodas para registrar a posição do carro na garagem e assim poder dar as minhas voltas pela vila e colocá-lo de volta no mesmo lugar sem que minha mãe percebesse.

Ainda me lembro de como dava partida no motor, uma pequena alavanca no assoalho, entre os bancos, levantada por uma argola na ponta… Rodei muitas dezenas de metros, nem sei se cheguei a rodar um quilômetro, era uma preocupação que eu não tinha, tanta era minha certeza de que minha mãe nunca teria anotado a quilometragem antes de sair para o cinema. Não havia motivo para tal.

Depois de dar as minhas voltas, coloquei o carro na garagem e observei atentamente as marcas de giz no chão. Tudo estava perfeito, ninguém perceberia que o carro tinha saído, posição do banco igual a que a minha mãe usava. Espelho retrovisor só tinha um, o interno.

Com um pano molhado apaguei as marcas de giz e achava que estava tudo beleza, quando a Sônia, minha irmã, mais velha, me encostou na parede: “Vou contar tudo pra mamãe”. E eu pensei, Me ferrei… — quando imediatamente tive uma excelente ideia: “Se contar para a mamãe que saí com o carro dela, vou contar para ela e o papai que o seu namorado veio te ver quando não tinha ninguém em casa, o que é pior?”

Consegui com esta pequena pressão o silêncio da minha irmã…

Mas faltava uma coisa, meus pais voltariam do cinema e perceberiam o carro quente, ou seja, o ambiente da garagem quente. Foi aí que tive uma boa ideia: lavar o carro. Foi o que fiz.

Dito e feito, quando chegaram puseram o Mercury na garagem, viram o chão todo molhado e perguntaram o que tinha acontecido.

Expliquei que havia lavado o Rabo Quente que estava sujo e assim o tempo deles fora de casa seria menos sentido por mim…

Fui elogiado pela iniciativa, fiquei feliz e tudo deu certo. Até eles me deixarem, muitos anos atrás, eu era um “menino” muito comportado quando o assunto era carros.

Esta é uma história verdadeira e muito pessoal, nunca souberam do que eu havia aprontado e até minha irmã soube guardar este segredo.

Contarei em breve outras histórias/fatos que se passaram comigo nos meu 52 anos trabalhados na indústria automobilística.

Aguardem!

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

  • Luciano Gonzalez

    Ronaldo, seja bem vindo!
    Que bacana sua participação aqui, trabalho na engenharia de protótipos da VW e ouço com muito carinho as histórias dos mais velhos com relação ao departamento de competições da VW!
    Com relação ao velho Rabo Quente, meu mecânico e grande amigo (Sr. Edison) que hoje têm 71 anos, teve um semi conversível, ele fala com tanto carinho e paixão desse carro… Ele é seu cunhado (Luiz) eram especialistas em Renault na década de 50/60/70, seu cunhado tinha um R8 até pouco tempo atrás.. Eles participavam de competições como preparadores e Pilotos em um mundo menos politicamente correto e muito mais divertido… Eles tem história.. Coisa de ir rodando com a família até Curitiba, participar com o mesmo carro da prova e voltar rodando pra SP, coisa de entusiasta mesmo.
    Abraços e mais uma vez, seja bem vindo!

    • Luciano, o Ronaldo já viu seu comentário, mas por algum motivo ele não conseguiu se logar no Disqus. Estamos tentando resolver.

    • RonaldoBerg

      Boa noite, Luciano, que bom ter recebido sua mensagem, vamos nos comunicando.

  • Ronaldo, seja bem vindo! Não o conheço, mas como você está no AE, já sabemos que é gente boa e muito competente!
    Esses causos de moleque pegando o carro dos pais são os melhores!
    Acho que todos os entusiastas/gearheads já “roubaram” o carro dos pais, rsrsrs!
    Eu já, meu irmão também (o infeliz, além de pegar o carro do velho, pegou o meu)
    Mas, de todas essas histórias, acho que nenhuma supera a do meu tio caçula! Eu tinha uns 11~12 anos, e estava de boas na casa da minha avó. De repente meu tio “Andinho” me chamou para “dar uma volta no carro da avó. Era um Corcel II, verde água, com umas rodas bonitas, cromadas…
    Fomos. Eu no banco traseiro, meu tio guiando e seu amigo na frente!
    Bah, que rolé legal! Andamos o bairro todo, meu tio ainda deu uma acelerada contra uma Brasília marrom, rsrsrsrs…
    Quando chegamos na casa dele, minha avó estava esperando na porta, a cabeça cheia de bobes (Não o Sharp, eram os de cabelo mesmo), uma cara de “vou te matar, desgraçado”, e para arrematar o visual, na mão direita tinha um pedaço de fio, de uns três metros, dobrado, só esperando pra estralar no lombo dele…
    Quando ele colocou o carro na garagem, esse amigo dele já saiu de fininho, eu fiquei bem quietinho no banco traseiro…
    Ele foi indo, em direção à sua sina. foi coisa de meio segundo, a extensão velha já estava cantando! Umas duas ou três “fiozadas”, bem ardidas, na perna.
    “Você nem tem 18 anos! E se mata alguém na rua? Vai pegar meu carro escondido de novo?”
    “Não senhora, não senhora!
    Eu ria, ria que chorava… De repente, escuto o berro:
    “MIIIIIIIKEEEEEEEEE”
    Gelei. Ia apanhar também. O negócio era chorar logo na primeira, quem sabe ela ficava com dó?
    Saí do carro e fui entrando. Respirei, contraí todos os músculos que tinha, e já esperava a primeira…
    “Tadinho do menino, Anderson! Onde já se viu? Levar uma criança para uma coisa perigosa dessas? Eu devia era te bater mais! Moleque irresponsável, se te pego fazendo isso de novo, te mato!”
    Dei uma super risada interna, tinha feito uma das maiores aventuras da minha vida até então, e ao invés de apanhar, fiquei como vítima.
    Perfeito.
    Até hoje essa situação é lembrada nos almoços, rsrsrs… E o tio Andinho até hoje lembra da minha cara de zoação, quando minha avó ficou com pena de mim! E me diz sempre:
    “Você ficou rindo da minha surra, né, filho da mãe?

    • Ronaldo Berg

      Mike, bela história esta sua, a minha “roubada” foi mais tranquila e tudo acabou bem. Parabéns e obrigado.

  • Eduardo Palandi

    Ronaldo, que história legal! Bem-vindo ao AE e que venham outros causos desses! Que tal falar mais sobre o Mercury 51?

    • Mr. Car

      “Falar mais sobre o Mercury 51″…Apoiado, he, he!

  • Bera Silva

    Bem-vindo!

  • RonaldoBerg

    Mr. Car e Eduardo, vou ver o que a memória me diz.

  • braulio

    Renault rabo quente… Um dos carros que eu acharia legal até de ver mais andando pelas ruas! Gostei da “delação premiada” proposta. Lavar o carro depois de dar uma volta é bastante comum na relação pais/carros/filhos. Um triângulo amoroso em que, por vezes, as mães têm que intervir lembrando que tirar outro carro da loja dá menos trabalho que pôr outro filho no mundo…

  • Leonardo Mendes

    Saudades da Copa Peugeot de Rallye, estive em duas etapas (Indaiatuba e Ribeirão Preto) e ainda guardo com carinho cada momento… não lembro o ano exato, mas lembro que a etapa de Indaiatuba foi dentro de um canavial e um carro se incendiou.

    Fazem muito anos lembro de ter visto um Rabo Quente desses com uma preparação que “esquentou” bastante o pequeno Renault.

  • Juvenal Jorge

    Muito boa essa, Berg! habilidades de gerenciamento se desenvolvem assim, achando soluções para problemas cabeludos.
    Gostei.

  • Ricardo kobus

    Linda história!
    Quem desde cedo gosta de carros, sabe como é isso.
    Seja bem vindo ao AE, Ronaldo Berg, será uma grande satisfação ler suas histórias.

  • Ricardo kobus

    Dizem que a Kombi diesel usando mais etilenoglicol não tinha problemas de aquecimento.

  • Ricardo kobus

    Estamos ansiosos, principalmente por ele ter trabalhado 26 anos na VW.
    Será que virá algumas dicas mecânicas aos VW com mais idade?

    • Ricardo, 30 anos no Grupo VW contando os quatro anos na Audi.

  • Douglas, ótima ideia. Aproveite e tire foto do medidor de combustível também.

  • Renato Galuzzi

    Grande Berg, irei acompanhar as Histórias sobre carros, como também sobre as motos.

  • Douglas

    Esse aditivo que usaste era sem monoetileno glicol? E pode dizer a marca?

  • Fernando

    Olá Ronaldo, obrigado pela resposta!

    Sobre os motores desenvolvidos hoje, sem dúvida o padrão evoluiu absurdamente mesmo, a ponto de até se usar válvula termostática também para o cabeçote, e fluxo de bomba d’água e óleo variável.

    Mas me pergunto mesmo referente aos carros já antigos que tinham esse histórico de aquecimento, poder ser já um tanto amenizado apenas utilizando os fluidos modernos. O citado abaixo pelo Ricardo kobus é caso típico que vi muito na época, nas Kombi Diesel.

    Ao mesmo tempo parece que está mais difícil termos algumas informações dos produtos usados em competição(antigamente se sabia disso através dos mecânicos e oficinas ligados a isso), como hoje vi que muitos usam um produto específico da Motul que parece fazer bastante efeito.

    Abraços

  • Ronaldo Berg

    Xará, muito obrigado por sua mensagem. A cada domingo uma nova história, um novo causo e espero que goste.