Louis Rosier venceu a 24 Horas de Le Mans de 1950 pilotando sozinho, um grande feito nunca repetido por outro piloto.

As corridas de automóveis, desde os seus primórdios, são o que podemos chamar de condições extremas, tanto para os pilotos como para os carros. Para ser o mais veloz possível, todo o conjunto tem que trabalhar no seu limite. O piloto deve estar no seu estado de concentração máxima e o equipamento funcionando no limiar da falha. Só assim pode-se extrair o máximo de um carro de corrida.

Cada categoria do automobilismo tem suas características. A Fórmula 1 exige o máximo da concentração e do equipamento para se completar as corridas que têm 300 km de extensão. Neste tempo, entre uma hora e meia e duas horas, o piloto deve manter o equipamento perto do seu limite para ser o mais veloz.

Nas corridas de endurance  a velocidade tem que ser equilibrada com a resistência (endurance), pois corridas longas como as de 24 horas exigem equilíbrio entre rendimento e durabilidade, mas não necessariamente o equipamento está trabalhando com folga, senão deixa de ser eficiente e o conjunto é prejudicado.

Dificilmente conseguimos imaginar um F-1 andando forte por horas e horas em ritmo de corrida, pois ele não foi projetado para isso. Os pilotos também não estão acostumados, pois mesmo no endurance, há revezamento entre três ou quatro pilotos, pois é preciso parar e descansar por algum tempo para manter-se atento e conseguir dirigir adequadamente. Regulamentos modernos até limitam o tempo máximo que um piloto pode guiar sem parar.

E o que dizer de um só piloto correr por 24 horas seguidas com um F-1, e ainda vencer a lendária prova de Le Mans? Pois é, aconteceu. De verdade. Em 1950, um piloto francês conseguiu efetuar esta proeza e entrar para os livros de recordes e na memória dos seus conterrâneos.

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Louis Rosier, 1905-1956 (wikipedia.com)

Louis Rosier foi um piloto nascido no ano de 1905 em Chapdes-Beaufort, província de Auvergne na região central da França, que teve bons momentos no automobilismo local e também nas corridas de Grand Prix e posteriormente na F-1. Filho de comerciantes, aprendeu sobre mecânica em oficinas da região e dirigindo o caminhão de entregas de seu pai.

Com os anos envolvido com mecânica, despertou gosto pelas corridas e inscreveu-se para competir em provas de subida de montanha, primeiro de moto com modelos Harley-Davidson e depois com carros. Neste meio tempo, Louis mantinha uma transportadora e abriu sua própria oficina, mantendo contato com marcas como Renault e Talbot, sendo representante oficial e autorizado para serviços.

Sua primeira tentativa em Le Mans foi em 1938, com um modesto 27° lugar. Inscrito na equipe de Luigi Chinetti, tricampeão da prova e que viria a ser o grande representante da Ferrari nos EUA com a equipe lendária NART (North American Racing Team). O carro que Rosier usou era um Talbot T150SS Coupe, poderia não ser o mais resistente, mas era um dos mais bonitos.

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Talbot T150SS Coupe em Le Mans 1938 (diecastlegends.com)

Louis esteve na Segunda Guerra Mundial, lutando na Resistência francesa, e retornou ao automobilismo quando os conflitos acabaram, criando até sua própria equipe, chamada Ecurie Rosier, que participou de algumas categorias, F-1 inclusive.

A Talbot-Lago foi um dos fabricantes mais marcantes da Europa no período pré e entre guerras. Carros belíssimos, produção baixa e exclusividade transformaram os Lago em raridades com preços exorbitantes nos dias de hoje. Nascida quando o italiano Antonio Lago comprou a falida Talbot do grupo STD (Sunbeam-Talbot-Darracq), a marca francesa recuperou suas atividades no meio dos anos 1930.

Com carros de qualidade e reconhecidamente velozes, em especial o modelo Record e o GS (Gran Sport), os Talbot-Lago já vinham tendo bons resultados em corridas locais pela França e conseguindo bom destaque no mercado dos automóveis de luxo. A construção dos carros não era das mais modernas, com carroceria sobre chassi, mas a mecânica era excelente, pois foi evoluindo ao longo dos anos.

Não demorou para que um modelo exclusivo de competição fosse criado, e assim nasceu o T26C, um monoposto para disputar corridas de Grand Prix. O chassi não muito evoluído era compensado pelo motor de seis cilindros em linha de 4,5 litros e aspiração natural. Cabeçote de alumínio e três carburadores duplos ajudavam a gerar até 200 cv. Acoplado ao motor vinha a caixa de transmissão Wilson do tipo pré-seletiva, dequatro marchas. Falamos um pouco deste tipo de transmissão aqui no AE. Louis Rosier pilotou o primeiro T26C a vencer uma corrida de Grand Prix, em 1949 no GP da Bélgica.

Em paralelo ao modelo de competição, a fábrica tinha o GS, que era vendido como um chassi rolante (sem carroceria) para ser encarroçado conforme o gosto do cliente, assim como eram feitos diversos carros de luxo do período pré-guerra. Boa parte da construção do chassi e o motor seis-cilindros eram derivados do carro de corrida.

A ligação de Rosier com a Talbot-Lago dos tempos da representação e das corridas de GP abriu o caminho para que ele participasse das 24 Horas de Le Mans com modelos da marca. Em 1949, Louis e seu filho Jean-Louis Rosier disputaram a corrida com um antigo modelo T150C modificado, chamado de Spéciale e com as cores de sua equipe Ecurie Rosier, equipado com motor de 4,1-litros, mas não completaram a corrida por uma quebra no sistema de arrefecimento.

Para a corrida de 1950, um carro melhor era necessário. A opção com melhor desempenho era o T26C de competição. Era um carro rápido e confiável, mas não 100% adequado às corridas de resistência por ser um monoposto. A solução era utilizar um Talbot GS modificado para ser um carro de Grand Prix de dois lugares. O chassi #110055 foi a base para as modificações. Em pouco tempo, o chassi recebeu paralamas, faróis e uma carroceria que acomodava dois ocupantes.

O carro era extremamente competitivo, assim como Louis. Ele já estava determinado a vencer a 24 Horas, suas conquistas dos tempos de piloto de Grand Prix não poderiam acabar sem uma vitória na corrida de endurance mais importante do mundo, tinha quer ser alcançada.

A vontade de vencer era tão grande que Louis pilotou seu T26GS pelo circuito de La Sarthe por nada menos que 23h15min17s. Vinte e três horas. Seu filho Jean-Louis deu apenas duas voltas com o carro durante a corrida toda. Diz a lenda que o próprio Louis fez boa parte da manutenção do carro durante a corrida.

Valeu para ele cada segundo de suor e cansaço, na pista e nos boxes fazendo manutenção, pois assim foi sua vitória em Le Mans no ano de 1950. Um homem praticamente sozinho correu e venceu a corrida de longa duração mais dura da Europa. Ele ainda conseguiu vencer com uma volta de vantagem para os segundos colocados, Pierre Meyrat e Guy Mairesse que também correram de Talbot-Lago, mas em um modelo diferente.

Os franceses o chamaram de Campeão da França, pois um piloto nativo com um carro francês vencendo em Le Mans, ainda mais com toda a glória de ter corrido praticamente sozinho, foi o melhor reconhecimento que seu povo pode fazer por ele.

O desempenho e resistência do Talbot de Rosier foi fenomenal. Um carro de GP suportar uma corrida de um dia inteiro e vencer carros construídos especialmente para a essa corrida não é para qualquer um. E não para por ai. Três anos depois, pelo o que os registros históricos indicam, o mesmo chassi #110055 vencedor de Le Mans foi modificado para receber outra carroceria. Agora com um visual tipo barchetta, o Talbot-Lago seis-cilindros foi inscrito por Rosier para disputar uma nova corrida, desta vez na América.

A experiência nas 24 Horas na França inspirou confiança em Rosier para disputar outra prova de longa duração, mas agora um outro tipo de corrida. O carro foi inscrito para disputar a Carrera Panamericana no México, uma as mais duras provas de estrada do mundo.

Dividida em oito estágios e totalizando 3,077 km, a Carrera Panamericana conta com a dificuldade do percurso ser habitado e o relevo não é sempre suave como em um autódromo. Mesmo assim, Louis Rosier correu sozinho por vinte horas para conseguir um excelente quinto lugar, na corrida vencida por Juan Manuel Fangio e Gino Bronzoni com um Lancia D24 a exatas duas horas à frente de Rosier. Novamente o francês correu sozinho com o mesmo carro de Grand Prix por uma das mais duras e desafiadoras corridas do mundo a bordo de seu Talbot-Lago.

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Rosier na Carrera Panamericana de 1953

Louis Rosier foi sem dúvida um dos grandes pilotos da França de antes dos anos 1960, mesmo sem vencer grandes campeonatos mundiais. Ele veio a falecer no final de 1956 depois de um acidente na França com um Ferrari durante uma corrida de carros esporte. Hoje em dia o circuito francês de Clermont Ferrand que já sediou corridas de F1 recebe o nome de Circuit Louis Rosier.

As conquistas de Rosier hoje em dia não podem mais ser reproduzidas, sua marca está gravada para sempre na história e provavelmente não será mais superada.

Durante os anos 1950, Rosier aproveitou sua parceria com a Renault, a qual ele representava em sua oficina e revenda na França, para construir seus próprios carros com componentes de 4CV, mas esta é outra história.

MB

Sobre o Autor

Milton Belli

Engenheiro mecânico automobilístico e atualmente trabalhando na engenharia de um dos grandes fabricantes de veículos norte-americanos. Adora competições e aspectos técnicos de carros de corrida, temas principais de suas postagens.

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