Hoje vou contar mais uma façanha de um estagiário não muito eficiente à época: eu.

Semana passada contei um fato ocorrido comigo envolvendo o dono da concessionária na qual eu era um aprendiz estagiário, o João Skuplik.Lembra-se da história com os tambores de freio da Kombi que não terminou nada bem?

Pois bem, este novo causo não trouxe nenhum dano físico, apenas materiais.

Em uma ensolarada segunda-feira, mais ou menos dez horas da manhã, meu patrão João Skuplik pediu ao chefe da oficina que providenciasse a lubrificação das dobradiças do portão principal de entrada da concessionária, uma vez que além de estarem rangendo, tal qual portões de castelo mal-assombrado, estavam muito pesados de serem operados pelos motores elétricos que faziam os movimentos de abrir e fechar, o que poderia causar a sua queima.

Quem poderia fazer tal trabalho? A resposta você já adivinhou, fui o escalado para esta “difícil” tarefa.

Depois de receber todas as orientações do chefe de oficina, Sr. Antônio, fui ao almoxarifado pegar o equipamento que faria a tal lubrificação das dobradiças. Pedi uma almotolia, o que para o almoxarife não era nada difícil, pois ele sabia o que era,. Só quem não sabia era eu e neste momento me fiz de verdadeiro aprendiz. Recebi uma rápida orientação do seu funcionamento e logicamente vieram as recomendações de cuidados, devolver logo, essas coisas.

Fui até os portões onde as dobradiças quase enferrujadas me aguardavam. Lubrificá-las foi rápido e eficiente. Testando o mecanismo abrindo e fechando os portões algumas vezes pude, com alegria, constatar que tudo estava resolvido. Sem ruídos e abrindo e fechando bem mais rapidamente do que antes.

Mas o pior ainda estava por vir. A fome se manifestou e eu estava a poucos metros do bar onde, já antes das sete, eu costumava tomar meu café. Saía de casa às seis com um rápido copo de leite e agora já eram dez e meia e um cafezinho intermediário cairia muito bem.

Não resisti, deixei a almotolia em um cantinho, tomando muito cuidado para que nenhum carro passasse por cima dela e fui até o bar tomar mais um café.

Neste momento eis que chega o patrão e como com olhos de lince vê a almotolia no cantinho, quase escondida. Ele para seu carro, desce, pega a almotolia, olha ao redor e não encontra ninguém com quem pudesse reclamar como era seu hábito, logicamente sempre com alguns palavrões.

Lá no final do corredor de entrada da concessionária ele viu o Francisco, eletricista responsável pelas revisões e reparos elétricos nos automóveis em revisão e em alto e bom som perguntou: “Quem foi que deixou esta m#@*! aqui no portão?” e em um ato que somente se poderia esperar dele, ele atirou a almotolia com toda a força na direção do pobre Francisco, ato seguido da recomendação que a entregasse no almoxarifado.

Acontece que o nosso querido patrão não sabia que o Francisco era míope e que a distância ele pouco enxergava coisas grandes, muito menos uma almotolia voadora.

O que aconteceu? O lógico.

O Francisco nada viu e a almotolia passou por sua cabeça, acertando em cheio o para-brisa de um Fusquinha que em sua área de trabalho estava fazendo a primeira revisão. Quebrou-se todo, estilhaços para todos os lados (naquele tempo o vidro do para-brisa era temperado, e não laminado como é hoje).

Eu acabava de voltar do bar quando vi o espanto de todos que presenciaram aquele voo histórico de uma almotolia e a perplexidade de uma pessoa que mais uma vez não teve a conduta certa para atuar como um proprietário consciente e habituado a lidar com pessoas.

No início eu disse que não havia danos pessoais, mas sim materiais e mais uma vez a raiva tomou conta da razão.

Eu fiquei incógnito, ninguém me alcaguetou, mas para mim, aprendiz estagiário, esta foi mais uma lição que guardo até os dias de hoje.

Domingo que vem tem mais.

RB

 

 

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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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