Passear com um Jaguar Mark II ou com um Alfa Romeo Giulia GT Veloce? Minhas opções eram essas. Ambos os carros — que estavam expostos no evento Brazil Classics Show 2016, em Araxá, MG — são do amigo e colunista do AE, Boris Feldman.

— Veja aí em qual quer ir. Os dois estão à sua disposição — disse ele gentilmente após eu lhe pedir um clássico para o nosso leitor ou leitora “dar uma volta”.

Dúvida cruel. Estava para escurecer e só daria para sairmos com um. E daí, bom…, eu simplesmente não resisto aos encantos desse Alfa, então, confesso, pensei só de relance sobre o que seria mais interessante ao leitor (a), se um ou outro, se um belíssimo e requintado sedã de alto desempenho ou se o amado Giulia GT Veloce. Olhei pausadamente para o Jaguar e em seguida me virei para olhar o Alfa. Minhas pernas bambearam para o Alfa e um ímã me puxou para ele.

— Vamos de Alfa! O Mark II que me desculpe. Nunca dirigi um, enquanto o Giulia GTV, já, mas quando olho um fico louco para guiá-lo. Sou apaixonado por ele. Fazer o quê?” — decidi contente.

Alfa Romeo Giulia GT Veloce 1977 06  AE CLÁSSICOS: EPISÓDIO 5 - ALFA ROMEO GIULIA GT VELOCE (COM VÍDEO) Alfa Romeo Giulia GT Veloce 1977 06

O Alfa do Boris parece me dar boas-vindas

O Boris saiu guiando. Antes de dirigir um carro que é especial para seu dono gosto de ver como ele o trata; quais são seus cuidados, como passa por buracos ou lombadas, como o acelera, como passa marchas, até que giro leva o motor, essas coisas. Assim, quando for a minha vez de dirigi-lo, tratarei de não fazer nada que aflija o amoroso proprietário. É assim que se faz com o cavalo dos outros e é assim que se faz com o carro de estimação dos outros.

É gostoso sair de carona com o Boris guiando. Tocada suave, de gentleman driver. Percebe-se que mesmo falando e falando — o Boris é falante e interessante — ele vai sentindo o carro e lhe dando bons tratos. Comando total, de quem sabe o que faz, incluindo aí nas boas aceleradas quando e onde cabe, já que máquina quente, assim como cavalo quente, também gosta de suar.

E o cuore sportivo do Giulia GT Veloce gosta de bombear forte. Ar e gasolina bem misturados não faltam ao motor de 2 litros. São dois Dell’Orto duplos DHLA40, o que dá uma boca para cada um dos quatro cilindros. O bloco e o cabeçote são de alumínio, este com dois comandos de válvulas, duas válvulas por cilindro e câmara hemisférica. A potência é de 131 cv a 5.500 rpm e o torque, 18,5 m·kgf a 4.500 rpm, com taxa de compressão de 9:1. Essa potência específica de 65,5 cv/l é bastante alta para o início da década de 70, quando a média dos carros comuns estava entre 30 e 45 cv/l, e está praticamente dentro da média dos atuais.

Coração esportivo é coração que desperta emoções boas  AE CLÁSSICOS: EPISÓDIO 5 - ALFA ROMEO GIULIA GT VELOCE (COM VÍDEO) DSC06594

Coração esportivo é coração que desperta emoções boas, além de servir como obra de arte

Esse GTV pesa 1.040 kg e seu coeficiente aerodinâmico, o Cx, é 0,42. Faz o 0 a 100 km/h em 8,7 segundos e atinge máxima de 198 km/h. Suspensão dianteira independente por triângulos superpostos e mola helicoidal, com barra estabilizadora, e traseira de eixo rígido também com mola helicoidal e bem amarrado com barra Panhard. Freios são  a disco nas quatro rodas, excelentes, o câmbio é de 5 marchas. A direção não tem assistência, é rápida mas não tanto, pois ficaria pesada demais.

Bom, resumindo, o que acontece com esse carro é o seguinte: quem sabe dirigir, senta, sai guiando… e gama. Veja só: o banco, cujo assento é rente ao assoalho, é tipo concha e de estofo firme. Assim ele transmite melhor o comportamento do carro. Molas e espumas fofas amortecem e atrapalham a sensibilidade. Vão bem para um sedã familiar, mas não para um legítimo esportivo. Por sinal, o pentacampeão de F-1 Juan Manuel Fangio até mandou que lhe confeccionassem um macacão de pilotagem de tecido bem fino, justamente para ter a maior sensibilidade possível. O mesmo vale para os calçados, que devem ter sola fina.

Alfa Romeo Giulia GT Veloce 1977 08 c  AE CLÁSSICOS: EPISÓDIO 5 - ALFA ROMEO GIULIA GT VELOCE (COM VÍDEO) Alfa Romeo Giulia GT Veloce 1977 08 c

O Alfa Giulia GV Veloce do Boris anda como se tivesse acabado de sair da fábrica

Voltemos ao Alfa. O volante é em forma de cálice. O aro está mais próximo do motorista que seu cubo. Assim, ao menos, a já conhecida posição de dirigir, estilo “monkey driver”, ideal para quem tem pernas curtas e braços longos, é amenizada. Os Ferrari da época também são assim, dos que fazem guiar com as pernas um pouco dobradas. A alavanca de marchas é espetada direto na caixa de câmbio, e ela é inclinada, fazendo os engates das marchas ímpares serem para frente e para cima. Para ir das ímpares para as pares baixa-se a alavanca, o que na hora do racha sai quase como um tapa se as marchas estiverem no mesmo canal.  O trambulador é perfeito, com curso médio e engates leves e precisos.

Vire a chave e vem um motor que gorgoleja grosso. Acelere e o ronco grosso virará um berro raivoso. Gosto disso, opa se gosto! Quem é que não gosta do característico ronco que vem do escapamento dos Alfa? E esse som vem em estéreo, pois enquanto de trás vem o som do escapamento, da frente vem o da aspiração das quatro bocas dos carburadores, só semiamordaçadas por finos filtros esportivos. O conta-giros é grande, de ponteiro branco em fundo preto e com números bem definidos. É bater o olho e imediatamente saber o giro. O ponteiro sobe e desde rápido conforme se bombeia o acelerador, já que é de lei dar uma limpadinha nas gargantas dos Dell’Orto. Assim eles cantam mais afinados e em uníssono.

Alfa Romeo Giulia GT Veloce 1977 04  AE CLÁSSICOS: EPISÓDIO 5 - ALFA ROMEO GIULIA GT VELOCE (COM VÍDEO) Alfa Romeo Giulia GT Veloce 1977 04

O que será que enfeita quem, o carro ou a paisagem?

Os pedais são perfeitamente posicionados e o punta-tacco sai perfeito. Se não saísse, os italianos, merecidamente, emitiriam os mais baixos impropérios, porque italiano que sabe guiar leva a sério essas coisas. Onde já se viu não conseguir fazer telepaticamente o punta-tacco?

A suspensão é até macia. Firme, mas nada áspera, nada incômoda. Não com esse carro do Boris, mas há alguns anos, dirigindo outro Giulia, um Sprint Veloce, que é um modelo um pouco anterior, mas cujo comportamento é praticamente igual, eu vinha meio rápido numa curva de raio longo, quando me deparei com uma pequena e maldosa lombada à frente. O jeito foi frear forte em plena curva; frear o máximo que puder, mas sem travar rodas — acionando o ABS humano mesmo —, e foi com muita satisfação que verifiquei o quão bem esse carro freia em perfeito controle, equilibrado.

Alfa Romeo Giulia GT Veloce 1977 10  AE CLÁSSICOS: EPISÓDIO 5 - ALFA ROMEO GIULIA GT VELOCE (COM VÍDEO) Alfa Romeo Giulia GT Veloce 1977 10

O Boris me proporcionou momentos de puro enlevo, dá para ver pela minha cara

Além de lindo sob qualquer ângulo, outra de suas características que mais gosto é que ele é chique. Nada de espalhafato, nada de ostentação. Isso é que é ser chique de verdade.

Bom, então, vejamos o vídeo desse agradável passeio com o amigo Boris e seu gracioso Alfa Romeo Giulia GT Veloce. Ele sabe muito bem o que tem nas mãos e sabe muito bem como nos falar dele.

AK

 

FICHA TÉCNICA ALFA ROMEO GIULIA GT VELOCE 1973
MOTOR
Tipo4 cil, 4 tempos, arrefecido a líquido, gasolina
InstalaçãoLongitudinal
Material do bloco/cabeçoteAlumínio
Diâmetro e curso84 x 85,5 mm
Cilindrada1.962 cm³
Potência131 cv a 5.500 rpm
Torque18,6 m·kgf a 4.500 rpm
Nº de comandos de válvulas2, acionamento por corrente
Nº de válvulas por cilindro2
Taxa de compressão9:1
Formação de mistura2 carburadores Dell’Orto DHLA 40
TRANSMISSÃO
CâmbioManual de 5 marchas sincronizadas à frente e 1 à ré
Relações das marchas1ª 3,304:1; 2ª 1,988:1; 3ª 1,355:1; 4ª 1:1 (direta); 5ª 0,79:1; ré 3,01:1
Relação de diferencial4,555:1
SUSPENSÃO
DianteiraIndependente, triângulos superpostos, mola helicoidal, amortecedor hidráulico e barra estabilizadora
TraseirEixo rígido, mola helicoidal, tensor longitudinal, barra Panhard, amortecedor hidráulico e barra estabilizadora
DIREÇÃO
Caixa de direçãoSetor e sem-fim com esferas recirculantes, sem assistência
Nº de voltas entre batentes3,7
Diâmetro mínimo de curva10,6 m
FREIOS
DianteirosA disco ventilado
TraseirosA disco
RODAS E PNEUS
RodasAço, 5J-14
Pneus165HR14
CONSTRUÇÃO
TipoMonobloco em aço, cupê 2+2, duas portas
ConfiguraçãoMotor e câmbio dianteiro, tração traseira
AERODINÂMICA
Coeficiente de arrasto0,42
Área frontal calculada1,66 m²
Área frontal corrigida0,697 m²
DIMENSÕES
Comprimento4.100 mm
Largura1.580 mm
Altura1.315 mm
Distância entre eixos2.350 mm
Bitola dianteira/traseira1.324/1.274 mm
PESO
Em ordem de marcha1.040 kg
CAPACIDADES
Porta-malas320 litros
Tanque de combustível53 litros
DESEMPENHO
Aceleração 0-100 km/h8,7 s
Velocidade máxima198 km/h

Sobre o Autor

Arnaldo Keller
Editor de Testes

Arnaldo Keller: por anos colaborador da Quatro Rodas Clássicos e Car and Driver Brasil, sempre testando clássicos esportivos, sua cultura automobilística, tanto teórica quanto prática, é difícil de ser igualada. Seu interesse pela boa literatura o embasou a ter uma boa escrita, e com ela descreve as sensações de dirigir ou pilotar de maneira envolvente e emocionante, o que faz o leitor sentir-se dirigindo o carro avaliado. Também é o autor do livro “Um Corvette na noite e outros contos potentes” (Editora Alaúde).

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    Linda essa combinação de carroceria preta com bancos vermelhos.
    Elegantíssimo o volante em alumínio e madeira.
    Fico imaginando o que era ter um carro desses, no início dos anos 70!

  • Cafe Racer

    Braccio forte!

  • Edison Guerra

    “Babei” na foto do motor! Tudo muito organizado e impecável na aparência, parecendo ter saído hoje da fábrica!

  • Leonardo Mendes

    A minha cor favorita quando o assunto é carro.

    Um acessório que eu usaria com prazer nessa Alfa: um bom par de luvas.

  • Rafael Sumiya Tavares

    Magnífica é pouco! E pensar que a Giulia consegue acelerar mais rápido de 0 a 100 km/h que o 156 Sportwagon V-6 aqui de casa… parabéns ao Boris pelo bom gosto!

  • H_Oliveira

    Que carro! Excelente vídeo, excelente carro, coisa mais linda… Ah Alfas…

  • A arte do punta-tacco é algo que eu ainda tenho que aprender, eu venho tentando o tempo todo, mas quase sempre o resultado é um tranco incômodo…

    • Jambeiro, é assim mesmo. No começo é meio difícil, mesmo, mas siga treinando que acaba dando certo. Mas em qual carro está treinando? Como você já viu, tem uns com pedais cuja posição relativa é ruim para a manobra e a gente aqui reclama.
      Mas, adiantando, esse tranco aí só pode vir de três coisas: 1- Você acelerou menos que o necessário, então o tranco joga sua cabeça para frente. 2- Você acelerou demais, então ele joga sua cabeça para trás. 3- Você soltou rápido demais a embreagem.

      • Bom dia Arnaldo, eu tenho um Peugeot 207, que é conhecido por ter um lag na abertura da borboleta de aceleração. Então eu piso no freio com a ponta do pé, jogo o calcanhar para acelerar, dou uma acelerada rápida enquanto piso na embreagem, reduzo a marcha e solto a embreagem. Mas como a abertura da borboleta é meio lenta (aliás, muito lenta), tenho a impressão que a “acelerada” que eu dou é insuficiente.

        Acho que eu estou soltando muito rápido a embreagem, também. O tranco é para frente.

        Edit: a posição dos pedais é boa, o acelerador é próximo ao freio tanto em distância lateral como em altura. Já no 307 do meu pai é horrível o punta-tacco, o acelerador é muito “baixo”, então ao pisar no freio e buscar o acelerador com o calcanhar, não acho nada…

        • Jambeiro, o 207 tem, sim, boa posição para a manobra. Pelo que vejo você está sabendo o que deve fazer e sabe onde anda errando. Portanto, é certeza que vai conseguir acertar. Depois você acabará fazendo sem nem mesmo perceber, que nem andar de bicicleta.

          • Que bom que pelo menos a teoria eu estou sabendo!! Agora falta a prática… vou continuar tentando. Uma coisa que eu reparei é que se eu demoro um pouco mais para soltar a embreagem (tentando evitar soltar de uma vez), ela parece patinar um pouco, o que também não é ideal.

          • Jambeiro, outro dia “socorri” meu genro na sua Pampa, picapinha que ele adora. Ela estava com um giclê entupido com sujeira e não eu podia deixar o giro baixar, senão o motor morreria. Foi na base do punta-tacco direto. Ele não sabia fazê-lo, então parou num posto de gasolina à noite porque não havia meio de ir para casa. Cheguei lá, trocamos de carro e me mandei. Depois falei para ele que para andar de “carro véio” tem que ter as manhas. Depois dessa, ele me pediu para que o ensinasse e ele logo haverá de aprender.
            Como vê, o punta-tacco serve para muitas situações.

      • lightness RS

        tentar apreender punta-tacco num carro com maldito acelerador eletrônico é uma tortura, por mais que os pedais ajudam. Muitos carros n aceitam toques rápidos, os carros comuns no caso, você precisa apertar por mais tempo, um toque mais profundo, é ridículo.

        • lightness, ainda estou para conhecer essa situação de acelerador não ter resposta no punta-tacco.

  • vstrabello

    Esse carro é lindo demais! E com essa cor ainda.. Casou perfeitamente!!!

  • lightness, é ver para crer. Pode apertar o ‘rec’.

  • lightness, de novo, aperte o ‘rec’.

  • Alfa

    Antonio, apesar do controle de qualidade da linha de montagem em Xerém (Alfa Romeo – FNM)ser inferior ao da Fiat-Betim, a qualidade da chapa e o fundo aplicado eram muito superiores. O mesmo dos caminhões. A linha exportação Rio foi feita em Xerém. Com melhor isolamento, climatizador adaptado para regiões frias, taxa de compressão 9:1, e itens de segurança vigentes na legislação alemã à época. Foram exportados aproximadamente 500 veículos. Apesar de a Fiat Brasil ter comprado a Alfa Romeo Brasil em meados de 1976, na Europa ainda eram concorrentes (Fiat só assumiu Alfa Italia em 1986). Nenhuma das duas assumiu a garantia do produto. Um Alfa Romeo, fabricado pela Fiat. Consequentemente, o seguro obrigatório para o licenciamento era muito caro, e inviabilizou as vendas. Pouco tempo depois foram liquidadas a preços irrisórios. Algumas unidades sobreviventes estão em algumas das melhores coleções da Europa.