No dia 2 último, quando eu dirigia o Mobi Way numa estrada asfaltada que vai de Itupeva à rodovia SP-300 Dom Gabriel Paulino Bueno Couto — essa é outra doença brasileira, a mesma rodovia com nomes diferentes, pois a SP-300 é também a Marechal Rondon, o primeiro trecho de Jundaí a Itu e o segundo, de Itu a Castilho, na divisa com o estado do Mato Grosso do Sul; sem contar SP-070, Ayrton Senna e Carvalho Pinto — fiquei perplexo com a quantidade de lombadas e naqueles momentos pensei em escrever essa matéria, inclusive ali mesmo já dei o título a ela, que é exatamente este.

Não era para a matéria ter saído hoje, afinal lombada é tópico conhecido aqui no AE, mas no mesmo dia chegou o comentário de um leitor com link de reportagem do G1 sobre um incidente com ônibus escolar na cidade de Salto (SP) que resultou na morte da adolescente de 15 anos Carolyn Dutra Lima e no ferimento grave de outro.

Uma pessoa morrer num acidente é triste e lamentável, mas morrer num incidente devido a uma lombada, é revoltante. Por isso digo com todas as letras, em alto e bom som: O BRASIL ESTÁ DOENTE.

Segundo a reportagem, o coletivo passou “em alta velocidade” (não deveria estar a mais que 60 km/) por uma lombada colocada fazia uma semana e que não estava sinalizada. Com o solavanco, os dois adolescentes, que ocupavam a última fileira, foram atirados com violência contra o teto do veículo, causando-lhes os ferimentos que pela dinâmica do fato presumo terem sido na cabeça e na coluna cervical. O motorista alegou “falha de freio”.

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“Sinalização” colocada só após o incidente

Note-se que se os dois adolescentes e demais passageiros estivessem com cinto de segurança atado (não sei o ônibus tinha) nada teria lhes acontecido, o que mostra a necessidade absoluta da retenção ao banco de qualquer veículo e que nos leva à questão de ser algo insano passageiros serem transportados em pé, que por isso tinha de ser terminantemente proibido.

Destaque-se que não houve menção de cinto de segurança na reportagem televisiva em questão, evidência de que a alienação sobre veículos é geral, mormente na imprensa brasileira.

Voltando ao tópico de país doente, nada mais verdadeiro. Só mesmo um idiota ou débil mental poderia ter concebido colocar obstáculos nas ruas com o objetivo de reduzir a velocidade do tráfego. Até onde minha memória alcança, foi em Curitiba que começou essa idiotice quando o prefeito era Jaime Lerner, isso no começo dos anos 1980. De lá para cá ocorreu uma praga, ruas e estradas infestadas do que chamo de dejeto viário.

Pior, as lombadas são regulamentadas pelo Contran (nem o deveriam ser, mas proibidas) e têm dimensões definidas, sendo a mais alta a de 10 centímetros por uma extensão de 3,7 metros.  O outro tipo tem largura de 1,5 metro com altura de 8 centímetros. Pois bem, na reportagem do G1, a repórter que estava no local falou da altura da lombada e chegou a medi-la com a mão, tinha um pouco mais de um palmo, o que dá entre 20 e 22 centímetros.

A foto de abertura desta matéria dá a exata noção da “montanha’ que foi colocada naquele ponto e a abaixo só reforça esse noção:

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Isso numa a rua é indecente e criminoso, só mesmo um débil mental poderia conceber a monstruosidade chamada lombada

Definitivamente, o Brasil está engajado na luta contra o automóvel, vale dizer está lutando contra os seus cidadãos. Se somos 205 milhões e estamos perto de 50 milhões de veículos e comerciais leves e pesados, e motocicletas, a conta dá 4,1 habitantes por veículo, nesse habitantes estão crianças e idosos que não dirigem. É o Estado contra o cidadão, portanto, não apenas contra os automobilistas.

Andar de automóvel, seja dirigindo ou como passageiro, tornou-se um verdadeiro inferno, a exemplo do que observei quando conduzia o Mobi de teste no dia 2. Nenhuma administração pública tem o direito de impor tal sacrifício à população. Quanto mais um sacrifício que resulta em morte muitas vezes. Este não foi o primeiro e não será o último acidente ou incidente causado por lombadas.

Nesse caso de Salto,  o passageiro de uma motocicleta seria literalmente atirado para o ar. Isso é loucura absoluta.

Qualquer médico atesta: um paciente em estado crítico numa ambulância terá morte certa se o veículo topar com uma lombada mesmo em velocidade pouco acima da normal para a via. Um leitor, o médico Dr. Douglas Loiola, disse-me isso recentemente.

A lombada é um câncer, e dos mais agressivos,  e precisa ser extirpado das ruas do Brasil. O quanto antes.

O pior das lombadas é ter-se tornado símbolo de status. Como? Para muitos, e todos pobres de espírito, ter lombada diante de suas casas é sinônimo de “poder”, de “ser importante”.

O trânsito não precisa de lombadas. Há pouco o demonstrei na matéria “Milagre em Barroso“, que quem ainda não leu precisa ler.

O lado funesto das lombadas é obrigar automóveis comercializados no Brasil precisarem ter altura de rodagem maior que a necessária, com isso deteriorando características aerodinâmicas, que por sua vez faz aumentar o consumo de combustível. Em certos casos, afeta-lhes a estabilidade.

A outra consequência da lombada é o desperdício de combustível no momento de frear, ao joga a energia cinética fora, e ao retomar velocidade exigindo mais potência.

E mais outra, o desgaste anormal dos elementos de suspensão e de freios dos veículos, o que acaba refletindo em tarifas mais caras no transporte público e de carga.

O Ministério Público Federal está devendo à população uma representação contra a entidade máxima de trânsito no Brasil, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) no sentido de proibirem-se as lombadas e determinar sua retirada.

Que a jovem Carolyn Dutra Lima, com tanto por viver e contribuir para a sociedade, sirva de bandeira contra essa aberração brasileira.

R.I.P., Carolyn.

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Carolyn Dutra Lima (2001–2016)

AE/BS

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Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

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