Assim como na semana passada, estava prestes a escrever sobre outro assunto quando o universo voltou a conspirar e me fez mudar de tema. Nada como viver em terras tupiniquins, onde tudo muda o tempo todo. “No Brasil, até o passado é incerto” disse Pedro Malan ou Gustavo Loyola. E se há divergências quanto à autoria da frase, eu não as tenho quanto à validade dela.

Pois bem. Estava eu assistindo ao Grande Prêmio de F-1 domingo passado e algo me chamou muito a atenção. Corrida em Mônaco, sob chuva razoavelmente intensa, os organizadores decidiram fazer a largada com safety car. Até aí, normal. Não acho tão bonito de ver mas, vá lá, não sou eu que estou colocando em risco minha vida atrás do volante de um bólido desses. E acredito que eles entendam mais de segurança do que eu. Mas, qual não foi minha surpresa ao notar que o Mercedes-Benz corria pelas ruas do principado com o “giroflex” e as luzes de condução diurna (DRL) ligadas.

Olhei várias vezes e as diversas voltas com o safety car me ajudaram a comprovar. Sim, em plena corrida de F-1, em Mônaco, circuito de rua extremamente perigoso, com chuva, e o carro não tinha os faróis baixos acesos – mas somente as DRL (daytime running ligths). E estamos falando aqui de um Mercedes-Benz AMG GT-S de 503 cv, dirigido por um ex-piloto de diversas categorias, entre elas a rapidíssima DTM alemã, Bernd Maylander. Em Monza, por exemplo, o safety car atinge velocíssimos 280 km/h.

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O safety car circulou com faróis DRL em Mônaco (foto topformula1.com)

Mas aqui no Brasil seremos obrigados a andar com os faróis baixos ligados, pois há muitas dúvidas sobre se o uso de apenas os DRL nas estradas não será considerado infração. Falta sair a regulamentação, mas tenho lá minhas dúvidas sobre como será. Ou seja, a FIA, a associação dos pilotos, Charles Whiting e mais uma penca de pessoas que vivem de, para e pelo automobilismo entendem menos de segurança do que um senador brasileiro. Poxa, o Brasil sempre fazendo escola!

Essas originalidades já nos levaram a ter um padrão único de tomada que não existe em lugar nenhum. Um tempo atrás, algumas pessoas disseram de público que em Portugal seguia-se esse padrão. Se foi assim em algum momento não sei, mas acabei de voltar de lá e estive em uma dúzia de cidades e em nenhumazinha encontrei essa tomada. Tive de usar meus adaptadores que, aliás, há algum tempo os carrego mesmo em viagens pelo Brasil, tal a confusão de tomada antiga e aparelho com pino novo ou vice-versa.

Os carros que temos em casa normalmente ficam com a alavanca das luzes no automático e, portanto, andamos sempre com as luzes diurnas ligadas e, num passe de mágica, acendem-se os faróis baixos em túneis, garagens e lugares escuros. Mas obviamente não em rodovias durante o dia. Daqui para frente teremos de mudar manualmente os comandos.

Sempre defendi o princípio das luzes nos carros pelo mesmo motivo que os aviões as usam: ser visto. Evidentemente que um avião não precisa iluminar a pista ao pousar ou decolar pois a operação geralmente é feita por instrumentos. Nem precisaria ter luzinhas nas extremidades das asas durante o vôo se a questão fosse “ver”. É para ser visto – seja por uma ave que pode ser sugada por uma turbina (OK, muitas vezes acontece mesmo com luzes acesas, mas imagina como seria sem elas), seja por outros objetos voadores. Pelo mesmíssimo motivo deve-se acender as luzes do carro nas ruas iluminadas e, ainda, é por isso que os veículos têm luzes na traseira, ora bolas! Mas isso não significa que as DRL não sejam suficientes para as estradas durante o dia. São.

Sempre me revolto contra a falta de manutenção de muitos carros, motos e caminhões que vejo por aí. Se nem isso é fiscalizado, agora vão colocar mais uma lei? Quando a Polícia Rodoviária não para (e multa pouquíssimo, quase nada) quem circula à noite sem algum farol ou com lanternas em vez de farol  baixo me faz crer que pode não saber qual é a norma ou o que é lanterna e o que é farol baixo. Espero que não seja o caso, claro, mas se nem isso é fiscalizado, como farão com mais uma lei?

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No Canadá usa-se DRL nas estradas, não farol baixo (foto en.wikipedia.org)

A alegação do autor do projeto de que em outros países é assim me revolta pela simplificação e pelo engano. Não, nobre legislador, não é bem assim. E muitos ainda citam o Canadá e os estudos que teriam sido realizados lá comprovando o aumento da segurança. Só que fazem uma enorme confusão, não sei se de propósito ou apenas por ignorância. Há no Canadá faróis de uso diurno que são ligados automaticamente ao dar partida no carro, que não são faróis baixos e que não podem ser desligados. E esses estão dentro da lei e são os que são utilizados normalmente. Na Escandinávia, de fato, existe uma norma semelhante mas que contempla as DRL, de uso obrigatório durante o dia, mas não dos faróis baixos que, sim, têm uso compulsório à noite — mas lá tem pouquíssimas horas de sol por dia e no inverno isso se limita a um par de horas. Não é o caso do Brasil, né?

A alegação de que muitos acidentes acontecem nas estradas por falta de visibilidade se choca, literalmente, com a realidade, que insiste em mudar em função dos interesses. Se amanhã alguém propuser outra lei vai dizer que os acidentes são causados por outro motivo. E, se isto correspondesse à realidade, então, por quê há tantos acidentes com motos? Afinal, desde 23 de setembro de 1997 o Código de Trânsito Brasileiro, lei 9.503, artigo 40, obriga ônibus, quando trafegarem em faixas próprias, motos e ciclomotores a circular com faróis acesos à luz do dia, tanto nas ruas quanto nas estradas.

Em setembro do ano passado, no 1º Fórum Nacional da Cruz Vermelha Brasileira sobre Segurança Viária, o médico Fernando Moreira, especialista em Medicina do Trânsito e conselheiro da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), apresentou dados que demonstram que os acidentes envolvendo motos já são a principal causa de ocorrências de trânsito no país, ultrapassando os atropelamentos de pedestres. Segundo ele, atualmente, mais de metade das internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) são de motociclistas, que respondem por três quartos das indenizações do Seguro Obrigatório de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres (DPVAT).

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Nem as motos respeitam a obrigatoriedade (foto novojornal.jor.br)

Eu mesma pesquisei e confirmei que em 2014 76% das indenizações pagas pela Seguradora Líder, a título de Dpvat, foram para acidentes envolvendo motocicletas — isso, apesar de o veículo representar naquele ano apenas 27% da frota nacional. Das indenizações pagas no período, 82% foram referentes à invalidez permanente e 4%, por morte. O restante para reembolso de despesas médicas. Foram mais de 580 mil vítimas em acidentes com motocicleta, a maioria do sexo masculino (88%) nas indenizações de morte (88% é para as indenizações de morte em acidentes envolvendo motocicletas). Já os automóveis representaram 19% (147.012) das indenizações pagas, as picapes e vans 3% (21.855) e ônibus, micro-ônibus e vans representaram 2% (14.435). E então, como é mesmo que a questão de segurança funciona?

Esquecem-se os defensores de que muitos motociclistas não têm habilitação para tanto, a maioria em São Paulo sequer tem (ou usa) luz dianteira e traseira mesmo à noite… em fim, a conta não fecha. Se a legislação já obriga há anos o uso do farol e os acidentes só aumentam ou a lei não é respeitada ou esse não é o motivo principal de acidentes.

Mudando de assunto: Fim de semana de ficar horas sentada na frente da TV: Fórmula 1, Nascar, 500 milhas de Indianápolis… acabei vendo o jogo do Corinthians no VT, de tanta coisa que tinha. Mônaco com safety car fica chatinha, mas certamente Ricciardo não queria tanta emoção – pneus errados no pit stop? Me poupe, RBR! Agora, esses pneus do Hamilton… fala sério. Acho que eram intermediários e que como pegadinha para nós todos foram pintados de roxo.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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