No Primeiro Mundo, arbustos floridos entre as pistas evitam que os motoristas sejam ofuscados…

O asfalto era um tapete, com três faixas de cada lado. Nas laterais de cada pista, uma faixinha branca de uns 30 cm de largura que faz os pneus vibrarem e emitirem um “apito” de alerta: se o motorista cochila ou fica desatento e o carro começa a perder o rumo, o silvo e a pequena vibração chamam sua atenção antes de atingir o acostamento ou os protetores metálicos centrais, entre as pistas. Até aí, nenhuma novidade, pois algumas rodovias brasileiras usam o mesmo recurso.

Mas a Cristina, ao meu lado, se deslumbrou e elogiou a beleza das flores que enfeitavam a faixa central entre os guard-rails que dividiam as duas pistas. E tentava — em vão — se lembrar de alguma coisa semelhante nas nossas estradas.

Menos romântico e com raciocínio cartesiano típico do engenheiro, eu percebi que, além do aspecto decorativo, os arbustos contribuíam também para evitar o ofuscamento dos motoristas do lado de cá pelos faróis que vinham de lá…

Nos trechos de estrada cortados montanha rochosa adentro, telas metálicas enormes foram penduradas desde o alto do morro até o acostamento para conter as pedras que rolam pela encosta. Nas longas e sinuosas descidas, placas indicavam “saídas de emergência”: um trecho de uns 100 metros de extensão em forte aclive saindo do acostamento, com um piso semiarenoso e barreiras antichoque em seu final. Para conter veículos sem freios (fading?) no trecho…

E mais: no asfalto, sinais em “vê” pintados em sequência e separados por distância padrão permitem ao motorista avaliar se está muito próximo do veiculo à frente. Em alguns trechos, principalmente em pontes e viadutos, birutas (como as de aeroporto) indicam direção e intensidade do vento. Nos trechos em que a rodovia cortava ou passava próxima a casas ou prédios, paredes verticais laterais com material fonoabsorvente poupam os ouvidos dos moradores vizinhos à pista. Se o carro tem o “Sem Parar” fixado no para-brisa, além do débito automático nos pedágios, um painel eletrônico indica quanto foi debitado na conta, naquele trecho.

O prezado está imaginando a descrição de uma germânica “Autobahn”, uma“autoroute” francesa, ou talvez uma britânica “motorway”. Nada disso: no mês passado rodei em Portugal em estradas principais e secundárias. País inserido na comunidade européia mas nem tão rico nem próspero como seus vizinhos.

Para mineiros, como eu, ficou mais fácil ir para a “terrinha” com os voos diretos da TAP partindo de Belo Horizonte e outras capitais brasileiras. Já são doze voos diários, sem a complicada e cansativa conexão em Guarulhos ou Galeão. E quem se tornou seu sócio recentemente foi David Neeleman, da Azul.

Rodamos muito pelo interior do país (o prezado já comeu — de colherinha — um queijo de ovelha da Serra da Estrela, ou tomou ginjinha no copinho de chocolate em Óbidos?) e deu para perceber que mesmo pequenas estradas secundárias de uma única pista são extremamente bem cuidadas e sinalizadas. Nada a ver com as nossas que assustam o motorista com buracos, e crateras que destroem pneus, rodas, suspensão e o prazer da viagem. Com exceção de São Paulo que tem malha rodoviária de Primeiro Mundo. Mas que, em compensação, faz o paulista sofrer com a profusão de radares fixos e móveis…

É indiscutível a competência, a preocupação com a segurança e o zelo com a verba pública em Portugal. Mas tem também a lógica lusitana de difícil percepção para brasileiros: tem a placa que alerta para um túnel à frente e outra logo depois dele para lembrar ao motorista que ele já acabou…

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Boris Feldman
Coluna: Opinião de Boris Feldman

Boris Feldman é engenheiro elétrico formado pela UFMG, também formado em Comunicação, jornalista especializado em veículos e colecionador de automóveis antigos. Além da coluna Opinião de Boris Feldman no AUTOentusiastas, é colunista do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, e do jornal O Povo, de Fortaleza e tem o programa de rádio Auto Papo, na emissora Alpha FM, de São Paulo, e em mais 38 emissoras pelo país, com três edições diárias.

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  • Reginaldo Ferreira Campos

    E no fim a piada são as desastrosas estradas brasileiras.

  • Mr. Car

    Rapaz, tão bonito que periga você ficar olhando para isto enquanto devia olhar a estrada, he, he!
    Mas notei a falta de acostamento, o que é um grande perigo.

    • Lucas

      A falta do acostamento é só para ninguém se esquecer que ali ainda é Brasil.

  • Roberto, “abençoado por Deus”…

  • Lucas

    Mas trabalhar que é bom…. Dá um trabalho….

  • Claudio, curiosidade: há uns anos houve nos Estados Unidos uma disputa de acrobacia por equipes de várias forças aéreas e a vencedora foi a Força Aérea Portuguesa. Eu há muito parei de contar piada de português, você está certo nisso.

    • Mr. Car

      Eu conto, que não me rendo à patrulha do politicamente correto, he, he, mas tenho muito carinho, simpatia, e respeito pela gente e pelas coisas portuguesas, inclusive por ser esta minha principal ascendência. Faço como brincadeira mesmo, e também não me sinto ofendido quando portugueses contam piadas de brasileiros (e contam), levo numa boa. E já que falamos nisto…Bob, você sabe que foram os portugueses que inventaram o limpador de para-brisa? Pois foram. Os americanos só fizeram passar para o lado de fora. He, he!
      Abraço.

      • Mr. Car. inventaram também o fio de prumo, importante nas construções. Os alemães apenas o desenvolveram colocando o peso…

  • (:-)

  • André Andrews

    Essa última frase me lembrou um caso verdadeiro ocorrido em Portugal. Um rapaz fui a uma loja e o que procurava comprar ainda não tinha chegado, então perguntou ao dono se amanhã (um sábado ou domingo provavelmente) a loja fecharia, e o dono respondeu que não. No dia seguinte chegou lá e viu a loja fechada! Num outro dia voltou lá e perguntou ao dono o que tinha acontecido. Ele respondeu, “você quis saber se a loja fechava naquele dia, lógico que não, pois ela não seria aberta”.

    • jr

      Nossa forma de pensar (não falo das malandragens ou jeitinhos) não é a portuguesa, nem a alemã (mais próxima da portuguesa), nem a inglesa. Somos muito mais próximos dos franceses, pois nossa educação seguiu o modelo francês, e foi inicialmente estabelecida por mestres franceses.

      Porém, este tipo de resposta não mostra a lógica do raciocínio mas sim uma indiferença para com o interlocutor. Quem respondeu não estava interessado em dar uma resposta adequada à pergunta, simples assim.

      Não faço nenhum julgamento sobre este comportamento, apenas alerto que é característico.

  • Gustavo73

    Lombada traz voto, já ouvi isso. Radar traz dinheiro. Tudo que os políticos querem. Para quem não entende o porque da indústria da multa: a empresa que instalou os radares tem participação na arrecadação das multas. Então quanto mais multa, maior o retorno. Enquanto em um lugar sério o interesse é melhorar os motoristas para diminuir as multas. Aqui só se preocupa em arrecadar. Não tem muito tempo, li uma matéria falando que a prefeitura de São Paulo espera um aumento no ano seguinte de 25% na arrecadação das multas que já giram no bilhão de reais.

  • A Sérgio, essa questão das lombadas no Brasil é surreal. A idiotice nelas contida é assustadora. Se ainda não, leu recomendo ler esta matéria: http://www.autoentusiastas.com.br/2016/04/sp-039-rodovia-educadora/

  • Sérgio, não sabia dessa sistemática também no Ceará, bom saber. Já valetas, essa praga paulistana, é impressionante o que tem por aqui.

  • Marcelo, acho que as duas coisas. É claro que com velocidades naturais fica bem mais fácil e tranquilo dirigir, mas radar em excesso incomoda, há a sensação de sermos criminosos vigiados.

  • C. A. Oliveira

    As piadas sobre portugueses são uma mera forma de diversão. É um povo acolhedor, simpático, bem informado e muito trabalhador. De fato, é dado o devido valor à verba pública. Os serviços básicos urbanos funcionam de forma exemplar.
    Na Espanha, a situação não é muito diferente. As estradas são excelentes (a sinalização é exemplar), os condutores zelam pelo respeito e quase não há radares.

  • Lucas dos Santos

    [OFF] Bob, viu a quantidade de alterações que foram feitas no Código de Trânsito Brasileiro recentemente?

    http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Lei/L13281.htm

    Pessoal tem voltado a atenção para o reajuste do valor das multas, mas muito mais coisas foram alteradas.

    Destaque para a nova redação do Art. 61, inciso II – velocidades máximas permitidas em vias rurais não-sinalizadas – e para o veto do inciso VII que seria adicionado ao Art. 254 – proibindo pedestres de, “deliberadamente, interromper, restringir ou perturbar a circulação na via sem autorização do órgão ou entidade de trânsito com circunscrição sobre ela”.

    • Lucas, vi sim, e vou escrever a respeito. Vou escrever também sobre a lei do farol baixo.

  • Cristiano, dementes-ladrões.

  • Rafael Alx

    Além de boas e bem sinalizadas estradas, ninguém aluga a pista da esquerda! Muito legal dirigir por lá!

  • Roberto Neves

    Na segunda vez em que fui a Portugal, aluguei um Corsa Opel (creio que com motor 1,2 a gasolina) em Lisboa e segui um primo de 82 anos até Pedrógão Grande, terra onde nasceu meu pai e onde ainda tenho parentes. Meu primo tem um sedã BMW (não lembro o modelo) e tem pé pesado. Quando olhei para o meu velocímetro, estava a 160 km/h, sem ter sequer percebido! As estradas são mesmo fantásticas!

    • Roberto, é uma delícia poder andar assim sem achar que se está sendo um criminoso, não?

  • Vinicius, igualzinho aqui… É que lá eles não acham que fazer as coisas direito dê um trabalho danado…

    • Vinicius

      Bob, e mais, em plena crise econômica.
      Enfim, penso assim também em relação a tudo. Fazer direito sempre!

      Aqui, estamos fritos!

  • Sérgio, é exatamente o que você diz. Lá fora dirigir é prazer; aqui é missão.

  • Ricardo, verdade absoluta!!!

  • Ricardo, fica mesmo cada vez mais difícil.