Semana de correria é a melhor definição para este penúltimo período do Toyota Etios. Nos primeiros dias, uso urbano intenso revelou mais do mesmo, ou seja, a docilidade que caracteriza o pequeno sedã da Toyota. Macio em praticamente todos os aspectos – suspensões, direção, comandos, resposta do motor – ele é cada vez mais visto nas mãos dos taxistas, o que está plenamente justificado por estas características. Para quem guia o dia inteiro, não ter de “brigar” com o carro é um fundamento mais do que óbvio. E fora isso há o conforto oferecido pelo banco, a razoável ergonomia e a economia de combustível.

Algo incomodou neste uso em cidade? Sim, a relativa incompetência do sistema de refrigeração/ventilação. O posicionamento de duas das quatro “bocas”, as centrais, não é ideal e alguns leitores escreveram para o AE conjecturando que elas estão mais à direita do painel por ser o Etios um carro que visou o mercado indiano, no qual a mão de direção é a inglesa e portanto o volante fica do lado oposto ao do Etios nacional. Esta é uma afirmação errada, pois no Etios indiano elas também ficam mais distantes do motorista.

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Etios indiano também tem as saídas de ar superpostas afastadas do banco do motorista (Foto Divulgação Etios)

Mas não foi o posicionamento das saídas de ar o pior problema, mas sim a instabilidade dos dispositivos que fecham e/ou direcionam o fluxo de ar. Se colocados na horizontal, um desnível do piso mais pronunciado, passar em um buraco ou lombada, por vezes as tira do ajuste escolhido. Se colocados na vertical, o próprio fluxo do ar quando em grau máximo, na quarta velocidade entre quatro possíveis, se encarrega de mover as “bocas. E mais: mesmo escolhendo a saída do ar apenas por cima, vaza bastante ar para os pés. Deixar este Etios preto no sol e pretender que o ar-condicionado dê conta da climatização interna de modo rápido é ilusório mesmo usando todas as técnicas possíveis para evacuar o calor. A impressão é de que o sistema é simplesmente fraco para o tamanho da cabine. Isso no calor do começo de outono paulistano. Como seria no norte do Brasil?

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Aletas dos difusores no painel não aguentam a força do fluxo de ar e mudam de posição constantemente, um incômodo

Em pequenos  carros, com direcionamento à economia (preço baixo, consumo baixo…) evidentemente não faz sentido dotar o sistema de climatização de equipamentos sofisticados, tipo bizona, de controle digital etc. Além disso, um motor de cavalaria contida, que não chega aos 100 cv, deve privilegiar levar a massa do carro e seus passageiros com competência. Refrigerar o habitáculo é importante, mas não prioritário. A estratégia que corta momentaneamente o funcionamento do compressor do ar-condicionado — um ladrão de energia mais do que conhecido — quando o pé afunda demais no acelerador, pedindo mais potência, mata a capacidade de trocar calor por ar fresco. Tudo muito compreensível, claro, mas o mau posicionamento das saídas de ar, elas se moverem por si próprias e a má vedação do sistema faz o Etios “tomar pau” no item climatização, tão importante em países como o Brasil. E a Índia…

Depois de suar três dias no entra e sai de um carro preto estacionado ao sol paulistano, uma viagem rápida ao Vale do Paraíba foi a ocasião de checar novamente as habilidades rodoviárias do Etios, agora em condição diferente do que o fim de semana praiano; em vez de família, porta-malas cheio e cruzar ide a volta os 800 metros de desnível que separam o planalto do litoral paulista, uma viagem plana, e rápida. E põe rápida nisso…

Só como um eremita, o motorista atrasado para a chegada a um compromisso na histórica São Luís do Paraitinga, há cerca de 180 km da capital, fez desta viagem um exercício de limites. Driblar os radares sem desrespeitar o bom senso, usar cada centímetro de acelerador contra o avanço inexorável dos minutos e… fazer muitas descobertas sobre o Etios!

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Na estrada percebe-se sensibilidade de moderada a média a ventos laterais e nos deslocamentos de ar ao ultrapassar veículos pesados

Lembram da boa estabilidade direcional com carro cheio e a velocidades entre 110 e 120 km/h?  Pois quando o ponteiro passa desta fronteira e o Etios está apenas com uma alma a bordo, a sensibilidade a ventos laterais mesmo de baixa intensidade exige atenção. Aliás, mesmo ultrapassando um caminhão ou um ônibus em ritmo mais animadinho faz o Etios “acusar o golpe”. Pesando menos de uma tonelada, relativamente alto, suspensões macias e com a área de contato com o solo a cargo dos pneus 185/60R15, não é uma surpresa tal comportamento. A direção de assistência elétrica variável acompanha, tornando-se mais pesada com o aumento da velocidade. É inseguro o Etios em velocidades mais altas? Não. É apenas um carro que sem aparatos mais elaborados tanto no aspecto aerodinâmico quanto no âmbito técnico. Não há controle de tração, de estabilidade e tampouco formas de carroceria que o ajudariam a ter uma melhor performance em velocidades mais elevadas. Ou seja, o Etios é correto, o que não é é exigir dele uma atitude para a qual ele não foi feito como, por exemplo, rodar em velocidades exageradas.

A correria para chegar na hora ao compromisso foi seguida pela pressa de voltar para casa e assim, o trajeto de quase 400 quilômetros serviu para verificação de quanto o consumo seria afetado pelo pé pesado. Na bomba (sempre a mesma desde o início do teste) a confirmação: o Etios é realmente econômico. Conseguiu uma marca pouco melhor do que a da viagem ao litoral. Ok, a subida da serra deu lugar ao pé pesado, mas a cifra de 13,64 km/l (dos quais ao menos 70 km percorridos em trânsito pesado) não deixa dúvida sobre a parcimônia do motor ao beber gasolina. Mesmo acelerando a fundo.

Porém, um aspecto infeliz deste Toyota foi confirmado nesta viagem, que é a grande imprecisão do marcador de combustível. Tudo que poderia ser dito sobre o polêmico painel do Etios já foi dito. Inclusive sabemos que ele mudará radicalmente para a versão 2017, mas no caso, no “nosso” Etios, descobri que as barrinhas do instrumentos são farsantes, imprecisas. Elas simplesmente somem e a luz alerta de baixo combustível aparece bem antes do que deveria. No abastecimento no máximo 35 litros entraram no tanque, cuja ficha técnica declara ter 45. Enfim, o motorista tem de aprender que, mesmo com o alerta aceso, tem a disposição muitos quilômetros pela frente.

Outros detalhes que se destacaram na semana foram a boa visibilidade oferecida pelos espelhos retrovisores laterais, com comando elétrico. Todavia, acima dos 120 km/h, descobrimos que o espelho, ou melhor, sua capa, é a origem de uma pequeno mas chato ruído aerodinâmico, um silvo que obviamente quanto mais rápido se anda, mais forte fica. Fez falta na viagem o controle de velocidade automático, artigo de primeira necessidade em estradas tão boas quanto as percorridas, onde é fácil superar o limite imposto por lei.

Agora a semana final tem no menu a visita à Suspentécnica que fechará o teste do Etios sedã, um carro que até agora, visto por cima e por dentro, merece muito mais elogios do que críticas. Como será analisando-o por baixo?

RA

 

TOYOTA ETIOS SEDÃ PLATINUM

Dias: 21
Quilometragem total: 1.483 km
Distância na cidade: 639 km (43,1%)
Distância na estrada: 844 km (56,9%)
Consumo médio: 11,22 km/l (gasolina)
Melhor média: 13,6 km/l (gasolina)
Pior média: 8,5 km/l (gasolina)

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