A Porsche deu mesmo a tacada certa ao lançar o Macan, “Minicayenne”. Tanto que seu codinome era Cajun, palavra formada por Cayenne e Junior.  Em fevereiro de 2012 a fabricante de Stuttgart anunciou o nome do novo Porsche: Macan, tigre em indonésio, língua falada no arquipélago homônimo do sudeste asiático.

O Macan foi lançado simultaneamente nos Salões de Los Angeles e de Tóquio, em novembro de 2013. O Josias esteve na mostra americana e escreveu a respeito para o AE após a virada do ano, em 30 de janeiro. Foi a segunda matéria dele depois de “admitido” no AE, cujo “teste admissional” foi o antológico “Sorvete de graxa” em 3 de dezembro daquele ano. As vendas do Macan começaram na primavera europeia de 2014.

O nome de felino foi correto. Do tamanho aproximado do VW Tiguan e baseado no Audi Q5, pesando de 1.825 a 1.925 kg, as versões com motor biturbo V-6 de 3,6 litros, 340 (S) e 400 cv (Turbo), mais tração integral, apresentavam comportamento de tigre: era premer o acelerador para o suve-crossover ou crossover-suve — você decide — dar um pulo de felino para frente como para pegar sua presa. Houve de início a versão diesel também, de mesma configuração de motor e 258 cv, porém turbo, não menos fera.

Em outubro do ano passado veio o GTS, ponte de potência e preço entre o S e o Turbo,  de 360 cv. Este ano foi a vez desse Macan testado pelo AE, o simplesmente Macan, sem nenhuma nomenclatura adicional, que chegou recentemente ao Brasil e sai por R$ 319 mil.

Este agora está com o motor 2-litros do Grupo VW, o EA-888, turbo de injeção direta, 237 cv de 5.600 a 6.800 rpm e 35,7 m·kgf de 1.500 a 4.500 rpm. Tudo ali ao redor de Golf GTI, Audi TT e novo Passat. É o primeiro Porsche com motor de cilindros em linha desde o 968 de 1976, um 4-cilindros de 3 litros.

O câmbio é  o robotizado que a Porsche batizou de PDK, sigla de ‘câmbio Porsche de dupla embreagem’ em alemão, sete marchas. E o peso caiu para 1.770 kg, sempre boa notícia. O resumo de tudo isso é que este continua um Macan em sua essência. Acho que ninguém, como eu, reclamará de ele levar 6,9 segundos da imobilidade a 100 km/h e de parar de crescer quando chegar a 223 km/h.

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Interior que parece estar sempre dizendo “seja bem-vindo”

Principalmente quando embalado em uma carroceria de jeito Porsche construída na fábrica do Cayenne e do Panamera em Leipzig, na ex-República Democrática (?) Alemã, erigida para ser a fabrica do “Maximacan”, o Cayenne, lançado em 2002. Como o Paulo Keller, comigo no carro, disse, e concordo, o Macan exala precisão onde quer que se olhe, toque, cheire e ouça. Só falta o quinto sentido, mas aí complicaria, somos autoentusiastas, não autocanibais…

Só um defeito: esse Macan testado tem “head-up dashboard”. Explico.  Como interior é bege claro — belíssimo, embora não apreciado por 99,99% da população brazuca, que diz que “suja” e/ou “que é difícil de vender”— o revestimento da parte horizontal do painel na mesma cor reflete no para-brisa. Chato. Ainda sábado, no rali de regularidade do Jan Balder, havia um Jaguar E-Type 4.2-litre verde inglês-de-corrida com idêntica cor de revestimento interno, menos na parte de cima do painel, preto. Os ilhéus sabem mesmo o que fazem!

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Na foto feita para mostrar o formato estranho do espelho — por que não mais para retangular? — dá para notar o “head-up dashboard”

Quanto ao  resto, qualquer que seja o aspecto considerado, só elogios. Tudo, até o estilo, que não costumo comentar. O desenhista estava mesmo inspirado. O Macan é um autêntico hatchback em escala maior e com um visual musculoso elegante.

O AK acharia o máximo o reostato da luz dos instrumentos, quando ao ser acionado, ter exibida no instrumento do painel, o da direita, em porcentagem e graficamente, a intensidade dessa iluminação. O conta-giros segue o rito Porsche, no meio, dentro dele uma janela com a velocidade expressa digitalmente, sempre visível. O velocímetro fica no lado oposto e está ali só para constar, sua escala é 0-50-100-150-200-250-280 num semicírculo, ou seja, de nada serve a não ser caso o digital dê defeito. Mas pelo menos há os tracinhos em 70, 90 e 110 km/h; leitura “Wolfsburg”, é claro. Abaixo da escala do medidor de combustível, a autonomia, também sempre exibida. Esses detalhes cativam.

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À esquerda o velocímetro só para dizer que tem; à direita, o medidor de combustível com a indicação permanente de autonomia e, abaixo dele, a visualização gráfica e porcentual da iluminação dos instrumentos

O rito da marca continua com o interruptor de ignição e partida à esquerda do volante, a chave não tendo serrilha, mas encaixada num rasgo, virando-a que o interruptor é acionado. A “chave” na verdade é apenas a carcaça dos transmissores de comando da travas das portas e a dedicada da tampa de carga de abertura e fechamento elétrico, e do transponder do módulo de comando que lhe diz “pode acionar e ligar o motor”. Detalhe: a chave é um Porsche estilizado.

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A chave

A tração é integral com acento na traseira, pode ser notado por gráfico no mesmo instrumento na direita quando selecionada a informação por pequeno e jeitoso rolete embutido no raio direito do volante que leva a outras informações.

A suspensão é absolutamente notável, triângulos superpostos/multibraço (D/T), com todos os parâmetros como devem ser, embora a superfície paulistana não ajude o régio conforto (meio que lugar-comum em crossovers e suves atualmente). Em compensação, o comportamento é de carro esporte, não pense o leitor que é exagero porque não é. Com a progressão do ímpeto nas curvas a traseira vai ficando alegre, mas aos poucos, de modo previsível, sem sustos. Os pneus dianteiros são 235/55R19Y e os traseiros, 255/50R19Y, estes 0,5% menores em raio dinâmico, que o diferencial central mata sem dificuldade. São sul-coreanos Hankook Venus S1 evo. Freios, tipicamente da marca, sobram em potência e fácil modulação. Disco nas quatro, é claro.

Como nos carros do grupo que se valem desse motor, sua presença é deliberadamente percebida no interior com uma sonoridade que só pode ter sido muito estudada, de tão boa e agradável. A sétima é longa para dar v/1000 de 54,5 km/h, 120 km/h a 2.200 rpm. Em estrada, nesse ritmo, roda-se 15 km com 1 litro sem caprichar muito; na cidade, 11. Com o conveniente tanque de 65 litros vai-se longe numa viagem. A boa notícia é o motor poder rodar com gasolina de 95 octanas RON, ou seja, comum, embora se deva preferir a aditivada por questão de bom senso.

O Macan traz o elenco de auxílios que fazem parte do Gerenciamento de Estabilidade Porsche, como o controle e estabilidade e tração desligável, mais o bloqueio do diferencial traseiro pelo freio e o controle da borboleta de aceleração para sustar o freio-motor inicial nas reduções de marcha. Para descer pirambeiras, controle de descida. Não há câmera de ré, mas o sensores de aproximação traseiro e dianteiro são bem eficazes, mostram o grau de aproximação na tela do sistema multimídia, que inclui o GPS, e que pode ser desativado por tecla no console de teto.

Dirigi-lo é mesmo uma grande experiência. Tudo está onde deve . Nada se estranha, mesmo que o painel no console de túnel pareça coisa de avião. Logo se descobre a função de cada controle. O ar-condicionado é bizona com ajuste individual até da velocidade do ventilador. Há saída para o espaço do banco traseiro, onde abaixo dele existe cinzeiro e acendedor de cigarros. Respeito a quem fuma.

O teto solar panorâmico inclina a primeira metade ou esta corre para trás. Quando não se quiser entrada da luz solar por cima um “revestimento de teto” se desenrola eletricamente lá de trás e bloqueia praticamente toda passagem de luz; não é uma tela, como se vê em outros carros. Veio a satisfação também de ver que há uma faixa degradê no para-brisa, mas que poderia ser mais escura e mais larga. Mas é melhor do que nada e já ajuda a quebrar a claridade que vem de frente e de cima. Faz diferença.

Há um bom sistema multimídia, com navegador e tudo mais, e o som é de alta qualidade. Embora eu não goste do desliga/liga, seu funcionamento é imperceptível, tanto pela marcha-lenta das mais quietas quanto pelo religar. Pode ser desativado por tecla no console, mas quando se desliga o motor volta o modo ativado.

O porte do Macan é contido para não ser um trambolho, mas sem deixar de proporcionar bom espaço interno e generoso porta-malas de 500 litros. Comprimento de 4.681 mm com entre-eixos de 2.805 mm, largura de 1.923/2.098 mm sem/com espelhos e altura de 1.624 mm. Seu Cx é 0,36. O estepe é temporário e  vazio e há bomba de ar para enchê-lo.

Ágil, veloz, estável, seguro, espaçoso, bonito, excelente de dirigir, confortável e toda uma herança de um grande nome. Parece que estou fazendo um comercial. Só parece. Excelente até para quem, como eu, prefere um bom sedã ou hatchback a um suve.

BS

 

FICHA TÉCNICA PORSCHE MACAN TURBO
 
MOTOR
Tipo L-4, turbo com interresfriador, duplo comando por corrente, 4 válvulas por cilindro, variador de fase e de levantamento na admissão, dianteiro, longitudinal, gasolina, função desliga-liga.
Diâmetro x curso 82,5 x 92,8 mm
Cilindrada 1.984 cm³
Material do bloco e do cabeçote Alumínio
Taxa de compressão 9,6:1
Potência máxima 237 cv de 5.600 a 6.800 rpm
Torque máximo 35,7 m·kgf de 1.500 a 4.500 rpm
Corte de rotação 6.800 rpm
Formação de mistura Injeção direta
Octanagem da gasolina requerida 95 octanas RON (comum/comum aditivada)
SISTEMA ELÉTRICO
Tensão 12 V
Bateria 92 A·h
Gerador Alternador de 150 A
TRANSMISSÃO
Tipo Câmbio robotizado de duas embreagens,  7 marchas à frente e uma à ré, tração integral
Relações das marchas n.d.
Relações dos diferenciais n.d.
SUSPENSÃO
Dianteira Independente, braços triangulares superpostos, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora
Traseira Independente, multibraço, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora
DIREÇÃO
Tipo Pinhão e cremalheira,assistência elétrica indexada à velocidade
Relação de direção 14,3:1
Diâmetro mínimo de curva 11,8 metros
FREIOS
Dianteiros A disco ventilado, pinça fixa com 4 pistões
Traseiros A disco ventilado, pinça fixa com 2 pistões
Controle ABS c/ distribuição eletrônica das forças de frenagem e auxílio à frenagem
Freio de estacionamento Elétrico, agindo sobre as rodas traseiras
RODAS E PNEUS
Rodas Alumínio, 8Jx19 (D), 9Jx19 (T)
Pneus 235/55R19Y (D) e 255/50R19Y (T)
Estepe Temporário, desinflado, bomba elétrica a bordo
CONSTRUÇÃO
Arquitetura Monobloco em aço, subchassi dianteiro e traseiro, crossover de 4 portas, 5 lugares
Aerodinâmica Cx 0,36
Área frontal 2,61 m²
Área frontal corrigida 0,939 m²
DIMENSÕES
Comprimento 4.681 mm
Largura sem/com espelhos 1.923 / 2.098 mm
Altura 1.624 mm
Entreeixos 2.805 mm
Bitola dianteira/traseira 1.655/1.651 mm
CAPACIDADES E PESOS
Porta-malas 500 litros
Tanque de combustível 65 litros
Peso em ordem de marcha 1.770 kg
DESEMPENHO
Velocidade máxima 223 km/h
Aceleração 0-100 km/h 6,9 s
CONSUMO DE COMBUSTÍVEL
Cidade 11 km/l
Estrada 15 km/l
CÁLCULOS DE CÂMBIO
V/1000 em 7ª 54,5 km/h
Rotação do motor a 120 km/h em 7ª 2.200 rpm
Rotação do motor à veloc. máxima n.d.
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Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

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