Certamente, todo leitor já se defrontou com o embaçamento dos vidros de seu veículo, dificultando a visibilidade e comprometendo a segurança ao dirigir. Todo o veículo é susceptível ao embaçamento, em maior ou menor proporção, e creio que o Fusca seja o exemplo mais significativo que conheci em relação a este fenômeno. Eu, particularmente, tive um Fusca 1968 e passei maus bocados em dias frios e de chuva, tentando o uso da flanelinha nos vidros para remover o embaçamento, quase sempre sem resultado. Piorava o fato de o Fusca não ter nenhuma aeração interna (só teria a partir de 1974, com entra de ar na base do para-brisa e saídas após as janelas traseiras).

fusca vidro embaçado

Fusca com o para-brisa embaçado

Como sugestão, vamos rever alguns conceitos básicos que permitirão entendermos melhor este fenômeno do embaçamento dos vidros.

Quando colocamos dois corpos em contato, a temperatura do corpo “mais quente” diminui, e a do corpo “mais frio” aumenta, até o equilíbrio térmico, onde os dois corpos passam a ter a mesma temperatura.

Temperatura é a grandeza que caracteriza o estado térmico de um corpo ou sistema e calor é a energia que se transfere entre corpos com temperaturas diferentes, sempre do mais quente para o mais frio. Por exemplo, ao retirarmos uma garrafa de água do refrigerador ou um bolo de um forno, percebemos que após algum tempo, a água esquenta e o bolo esfria, até que o equilíbrio térmico seja atingido, se igualando à temperatura ambiente.

Podemos definir como mais quente um corpo que tem maior agitação de suas moléculas que um corpo mais frio. Ao aumentar a temperatura de um corpo ou sistema, pode-se dizer que o estado de agitação de suas moléculas está aumentando. Conforme o nível de agitação das moléculas, a matéria pode assumir uma forma física diferente, ou seja, a sólida, a líquida e a gasosa. Na realidade, todos os corpos do universo tendem a ficar à mesma temperatura, trocando calor ininterruptamente, sempre do mais quente para o mais frio.

É devido a esta transferência de energia térmica que ocorre o embaçamento dos vidros, por exemplo, das janelas das casas no inverno. O ar quente interno, tocando no vidro frio, transfere sua energia térmica, induzindo a umidade ambiente a passar do estado gasoso para o estado líquido em forma de gotículas. E são essas gotículas, na realidade lentículas, que são as responsáveis pelo embaço dos vidros.

Outro bom exemplo são os espelhos do banheiro, embaçados durante o banho devido à condensação do vapor da água quente. Certamente todo o leitor já experimentou escrever com os dedos nos vidros e/ou espelhos embaçados.

 

embaço desenho dedo

Desenhando no vidro embaçado

Quantas vezes o leitor se deparou com dos vidros de seu veículo embaçados no inverno ao deixá-lo estacionado a céu aberto. O ar úmido interno, devido principalmente ao suor dos ocupantes, é condensado na superfície dos vidros, acabando com a visibilidade.

vidro embaçado

Veículo estacionado com o vidro  embaçado

 

Evitando que os vidros embacem

E como evitar embaçamento dos vidros dos veículos? Existe uma solução caseira que funciona, diminuindo a susceptibilidade ao problema. Limpe muito bem todos os vidros internamente, com álcool ou um limpa-vidros, e aplique detergente neutro puro (comum de supermercado) com uma esponja, em movimentos circulares. Depois retire o excesso de detergente com papel-toalha até à transparência total. A microcamada de detergente depositada diminui a tensão superficial das possíveis gotículas condensadas no vidro, melhorando a visibilidade pela diminuição da espessura das lentículas de água.

Existem vários produtos no mercado que se baseiam neste princípio de diminuição da tensão superficial.

Depois que o vidro embaçou, a solução vai depender dos auxílios disponíveis no veículo:

–  Vidro traseiro aquecido por resistência elétrica acoplada, que ajuda a evaporar as gotículas de água condensada, melhorando a visão. Existe o mesmo sistema para o vidro do para-brisa produzido pelos fornecedores, mas não se popularizou. Talvez por questão de custo associado ao fato de carros cada vez mais serem equipados com ar-condicionado (ver adiante).

-Ar quente direcionado ao para-brisa, evaporando as gotículas em contacto com o vidro. Este método não retira a umidade do ar e assim, em questão de minutos, o ambiente cada vez mais saturado de vapor vai embaçar novamente o vidro.

-Ar frio externo direcionado ao para-brisa ajuda a eliminar as gotículas de água, porém é pouco eficiente, pois o ar ambiente interno continua saturado de vapor d’água.

-O sistema de ar-condicionado é a melhor maneira de evitar que os vidros embacem, pois seca o ar ambiente, que sem umidade não consegue embaçar os vidros. Creio que o leitor já tenha visualizado o vapor d’água condensado pelo ar-condicionado ser drenado, chegando até a molhar o piso externo. Se o dreno por acaso entupir, a água condensada se avoluma, extravasa e vai molhar o carpete, criando um problemão. Direcionado ao para-brisa, o ar frio e seco resolve rapidamente o vidro já embaçado.

Se o ar ambiente externo estiver com muita umidade, o ar-condicionado frio direcionado ao para-brisa pode embaçá-lo externamente, criando outro problema, embora apenas uma passada do limpador de para-brisa seja suficiente para retirar o embaçamento, que não costuma ser grande. O ideal é aumentar um pouco a temperatura interna e, consequentemente, do vidro.

Como referência, veja abaixo o esquema de funcionamento do ar-condicionado veicular:

 

ar-condicionado-funcionamento

Esquema ar-condicionado veicular

Os termos:

Compressor > =
Expansion valve > válvula de expansão
Evaporator and blower > evaporador e ventilador interno
Drier > desumidificador
Condenser and fan > condensador e ventilador
High pressure side, gas > lado de alta pressão, gás
High pressure side, liquid > lado de alta pressão, líquido
Low pressure side, liquid > lado de baixa pressão, líquido
Low pressure side, gas > lado de baixa pressão, gás

O ciclo se inicia com o compressor comprimindo e energizando o gás refrigerante, que após passar pelo condensador esfria-se e se transforma em líquido. Em seguida, após passar pelo desumidificador, segue para a válvula de expansão, onde se evapora e, no processo, perde temperatura, esfria. Ao passar pelo evaporador, este esfria também, e ao o ar passar por ele, puxado por ventilador centrífugo, esfria também, ao mesmo tempo em que leva a umidade do ar a se condensar na superfície fria do evaporador, retirando-a do ar. O ar esfriado, por sua vez, faz diminuir a temperatura do ar interno. Portanto, é no evaporador — um radiador — que a umidade do interior do veículo é condensada, secando o ar.

Obviamente, quanto melhor for à ventilação interna, natural e forçada do veículo, tanto menor a probabilidade de embaçamento dos vidros.

 

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Esquema de ventilação interna veicular

Como de costume, encerro a matéria com uma homenagem que desta vez vai para o VW Golf, que ao longo dos anos mantém um dos melhores, se não o melhor, sistema de ventilação natural, ventilação forçada e ar-condicionado, ajudando enormemente no conforto e na segurança do veículo.

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VW Golf (foto de divulgação)

CM

Créditos: bundlr.com -google images – acervo do autor


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  • Fernando, se você fechasse totalmente os vidros e abrisse a ventilação interna, natural ou forçada, não resolveria?

    • Fernando

      Com as janelas totalmente fechadas e ventilação ligada na posição para desembaçar(e no mais frio) no Chevette ainda assim ficava totalmente embaçado, em épocas frias eu fazia o máximo para não abrir a janela(ou melhor, abrir o mínimo) mas mesmo assim era difícil. Tanto que nele sempre teve uma flanela no porta-trecos.

      Me lembro que teve vez na chuva que mesmo com a ventilação ligada, tive que abrir bastante a janela para conseguir fazer melhorar e então fechar novamente até ficar uma fresta menor. Alguns amigos que tiveram Chevette também me falaram na mesma dificuldade.

  • Já usei muita calha em carro. De fato ajuda muito, ao menos parece, rs. O processo é bem mais rápido com frestas abertas, fora que acaba funcionando para os vidros laterais, coisa que sem ar-condicionado demoraria uma eternidade para desembaçar.

  • Bruno Bertha

    Mike,

    nesse caso é só colocar o selecionar o ar quente, mesmo com o compressor ligado. Permanece o ar seco necessário para o desembaçamento, mas sem passar frio.

  • Fernando, exato, a transcrição desse item para o texto de tradução é que foi errada, teria de ser Evaporator and blower e foi Evaporator and valve. Já foi corrigido e o erro não foi do Meccia, mas meu ao editar a matéria. Obrigado pelo alerta.

  • Cristina Ovejaneda Moretti

    Alguém pode responder ?

  • Rochaid Rocha

    Quando eu tinha fusca eu usava folha de fumo (tabaco). Funciona. Hoje tenho um Punto 2014, ele desembaça quase que imediatamente. Uso o ar-condicionado, que é digital e controla perfeitamente esse fenômeno.

  • Fernando

    Esse produto é bom mesmo! hehe

    Em um carro meu que nem tem ar-condicionado, mas tem um sistema de ventilação bom, quando está o tempo frio de agora o que preciso para desembaçar os vidros é só ligar a ventilação no modo “azul” no modo para desembaçar e fecho os outros difusores, e bem rapidamente já está ok. Com uma temperatura externa baixa é possível desembaçar dessa forma, mesmo que o ar-condicionado fosse o ideal justamente para secar o ar interno.

  • Maycon Correia

    Meu Fiesta street tinha o melhor ar-condicionado original que já vi em carro pequeno. Em pouco tempo a névoa externa no vidro era enorme! Certa vez em um congestionamento eu deixei para ver, e deixou o para-brisa totalmente embaçado por fora! Sem contar que ele era muito mais eficiente que o do Voyage zero que veio depois. Esse apenas deixava umas pequenas “manchas”

    Uma Courier deve ser uma quase câmara fria.

    • Maycon, o Uno Fire (o quadradinho), apesar de falarem muito (mal), o ar-condicionado do meu é excelente. No calor ele também embaça o vidro por fora, como o do seu Fiesta.

  • Fabiano Cappella, o texto já foi corrigido, obrigado

  • Lemming, o sistema de ar-condicionado deveria ser obrigatório. Não enxergar o meio ambiente é correr sérios riscos de acidentes.

    • Lemming®

      Pior são os que dizem que não precisam ou não querem porque “consome muito”…aff

  • Arruda, certo tudo isso e mais suportar variação constante de rotação por toda a vida.

  • Lucas

    Claro que aciona. Você liga o ar-condicionado e vira o termostato para o quente. O compressor vai estar ligado, portanto o evaporador gelado e a água do arrefecimento do motor também vai estar circulando pelo radiador do ar quente. Aí ele mistura e “regula” a temperatura. Ar-condicionado de carro não é como os residenciais, que invertem o sentido de compressão do gás para fazer quente ou frio.

    • Lucas5ilva

      Nenhum aparelho de Ar condicionado inverte o sentido do gás, até porque o próprio circuito é unidirecional, a válvula de expansão só atua para um lado do circuito, os aparelhos residenciais quando se regula o termostato para a posição quente, aciona uma resistência elétrica que aquece o evaporador, mas o compressor é desligado, justamente pra não dar problema no circuito do gás refrigerante, por isso estranhei nos automóveis essa estratégia de permitir o compressor funcionar enquanto uma fonte quente bem ao lado (o radiador de ar quente) tiver acionado!!

  • Danniel

    Sim, o sistema de ar-condicionado é em série com o aquecedor. Até hoje nunca vi nenhum carro que não permitisse misturar ar quente com frio.

  • Lucas

    Ah, isso é verdade. Tbm sou do Sul e sei como é isso. Há ainda a opção de, num amanhecer gelado e chuvoso, como aconteceu essa semana, ligar o ar-condicionado e sair com o carro passando frio em seu interior até o motor esquentar, hehehe.

  • agent008, em qualquer carro com a válvulas termostática em ordem já há fonte de calor para o aquecedor, a água do bloco, após 1 minuto. Isso que você cita é causado por válvula termostática defeituosa, “preguiçosa”.

  • Lucas, isso mesmo, apressada, abre antes do que deve!

  • agent008, longe de mim querer discordar de você, mas em São Paulo há dias de inverno de temperaturas de 3 ºC a 5 ºC e antes de por o carro na rua, saindo da garagem do subsolo (ligando e saindo imediatamente), já vem um bafo com certo aquecimento. Em 500 metros já há um bom bafo de ar quente. Isso com todos os carros, meu e os de teste.

  • Vitor Correia

    Bela matéria

  • LucasSilva, existe o ciclo reverso nos condicionadores de ar residenciais.

  • Awaked, não é muito mencionado, mas o ar-condicionado faz parte da terceira segurança, a preventiva, ao lado da segurança ativa e da segurança passiva. Essa terceira segurança é a que proporciona ao motorista melhores condições de dirigir, por exemplo, viajar horas a fio sem o ruído de vento de janelas abertas e com uma temperatura agradável.

    • Compreendo, mas daí a dizer que não tem como? Oras, milhões de carros circulam sem. Existe estatística sobre acidentes com e sem ar-condicionado para tal afirmação? Desconheço. Sem dúvidas reconheço e prezo o conforto, sem dúvidas é muito bom dispor do equipamento. Enfim, nada mais a acrescentar.

  • Carlos A.

    Prezado Carlos Meccia, mais uma aula maravilhosa! Vou testar a aplicação de detergente, a época está perfeita para isso.

  • ochateador, mas aí é só usar o ar-condicionado o estritamente necessário.

  • Mineirim, o sistema de ar quente é independente e funciona com recirculação da água quente do motor em um pequeno radiador em baixo do painel de instrumentos. Existe uma válvula que controla o fluxo de água quente com o ajuste no painel de instrumentos, e o ventilador da ventilação forçada faz o resto. Quanto ao ruído do Focus, não sei responder.

  • Janduir

    Exato, tive um Monza Classic 1993 que tinha um ar-condicionado que gelava muito rápido. Podia estar 40 graus lá fora, carro no sol, era ligar e dentro de 10 min já tinha que diminuir a temperatura.

  • Luiz AG

    Dá para usar esse produto em viseiras de capacete?

    • Não faço ideia! No rótulo não informa.

  • Luiz AG

    Nunca vi, tem fotos?