A matéria do Marco Antônio de Oliveira de 30 de março último (“Nós gostamos de Chevette”) trouxe-me uma série de lembranças daquele que foi meu primeiro carro de uso diário: uma Marajó SL 1986 a álcool, adquirida zero-quilômetro por Cz$ 79 mil (nossa moeda na época, o cruzado), no dia 16 de maio de 1986, data em que fui, junto com meu pai, buscá-la na Concessionária Metrocar no bairro do Jabaquara, na capital paulista. Essa Marajó foi o carro de uso diário de minha mãe até meados de 1992, quando então meu pai presenteou-a com um Suzuki Vitara (está com ela até hoje!) e a Marajó acabou indo “para o canto da garagem” até 1997, quando aí tirei minha CNH.

Quando me tornei motorista habilitado, “cantei” meus pais para que eles adquirissem um Gol S “1,6-L” azul marinho que meu pai possuía na empresa. O plano estava quase dando certo, quando minha mãe descobriu as reais intenções por trás do Gol: o carro, embora surrado e chamasse pouco a atenção (preocupação deles, queriam justamente isso), tinha sido mexido por alguém e rodava com um motor 1,8-L acoplado ao câmbio original de quatro marchas do 1,6-L, tinha forte aceleração e, assim, com medo de eu acabar enfiando a cara em algum poste, meus pais acharam por bem colocar a Marajó para andar de novo. Desse modo, numa época em que a placa amarela era algo praticamente extinto, lá ia eu formoso para o Curso Anglo da rua Sergipe com a RJ-9695, minha barca dourada e conhecida no Curso inteiro.

A Marajó vivia imaculadamente limpa. Já que eu não tinha meu Gol “1,6-L”, considerava absolutamente necessário que a perua chamasse a atenção pela conservação. Sempre encerada, com pneus brilhando a glicerina, a velha perua chamava a atenção parada no estacionamento em meio a Gols, Paratis, Golfs Mk3 (era a sensação da molecada), Astras belgas, enfim, carros que meus colegas de curso pré-vestibular, muitos deles com excepcionais condições financeiras, possuíam.

Às vezes a turma do cursinho se juntava para comer lanche em algum McDonald’s mais longe. E lá ia eu, enchendo a Marajó com alguma colega (bonita, de preferência) no banco dianteiro, uns três ou quatro marmanjos no banco traseiro e quem aguentasse se contorcer, no porta-malas.

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O bom porta-malas onde os marmanjos se ajeitavam (flatout.com.br)

Sair à noite também era engraçado: geralmente quando voltávamos (de madrugada, quase sempre), combinávamos todos sairmos juntos. Só que meus colegas com seus carros a gasolina e injeção eletrônica geralmente tinham que me esperar, pois o motor GM 1,6-L OHC pintado de amarelo funcionava extremamente mal quando frio e não rendia se colocado para andar com o afogador puxado.

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Os motores Chevrolet a álcool eram pintados de amarelo (flatout.com.br)

A Marajó, além de me ensinar a dirigir, foi também escola de uma amiga minha, já com 18 anos e o querendo também, mas não sei por que razão ninguém a ensinava. E assim, o “Instrutor Daniel” e sua Marajó a levava para dirigir nas ruas próximas da casa dela no Alto da Lapa. Sempre que fazia isso, era comum ela raspar o pneu em alguma guia e eu, para esconder o malfeito de meus pais, encostava a Marajó bem “colado” à parede de maneira a ocultar as manchas brancas na banda do pneu.

O tempo foi passando, a Marajó, que embora fosse um carro bem conservado, já começava a dar mostras da necessidade de uma manutenção mais “pesada” como a embreagem (rodei todo o tempo com ela ruim, patinando), cabeçote com indício de trinca (ela “fumava” na primeira partida do dia) e freios, e meu pai, que já tínhamos gasto um bom dinheiro trocando o carburador Solex 35 de corpo simples por outro novinho, colocado pneus e refeito a suspensão, não estava animado em gastar mais dinheiro em um carro que valia na época, R$ 4 mil. E dessa maneira a Marajó acabou fazendo parte de um acerto trabalhista, entrando por um valor simbólico para a pessoa que a recebeu.

Como carro, a Marajó era ruim: bancos cansativos, gastona (quando bem regulada fazia 4,5 km/L na cidade), o motor GM funcionava mal com álcool, especialmente no frio, desempenho ruim (um Gol arrefecido a ar arrancava muito melhor que ela — muito mais “Autoentusiasta”) e tinha o péssimo hábito de esquentar as pernas da gente. Só que, por outro lado, a Marajó na minha vida carregou todo o valor de liberdade e individualidade que o automóvel representa. Significou a transição do menino para o homem que ao mesmo tempo descobria o mundo, sabia da responsabilidade de conduzir um automóvel e da fragilidade de sua carga (os passageiros).

Ela esteve presente em um momento de minha vida de descobertas onde um mundo novo se descortinava, ainda sem o “peso” de uma responsabilidade profissional e/ou familiar, e isso foi muito significativo.

E por conta de tudo isso, a Marajó foi um dos carros mais amados que tive, cuja lembrança se reveste de carinho e saudade de uma época repleta de sonhos e ideais.

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