Meu nome é Gustavo, tenho 25 anos, acompanho há muitos anos o AUTOentusiastas, atualmente um pouquinho mais pelo YouTube do que pelo site, e vim aqui para falar a respeito de um carro que marcou e ainda marca muito a minha vida, o Chevrolet Monza.

Minha história com o Chevrolet Monza vem de maternidade, foi o carro que me trouxe de lá para nossa casa, no já longínquo ano de 1991. Era um Monza SL/E 2.0 cinza chumbo, que meu avô havia comprado em 1987 e ficado com ele até 1992, quando o trocou ele por um Monza SL/E 2.0 efi 1993 azul Oxford, esse talvez o carro mais importante para mim (é o mostrado na foto de abertura).

Foi nele que conheci, com meus avós, toda a riqueza do meu Alto da Boa Vista, o Rio de Janeiro inteiro com os passeios que meu avô dava comigo. Aquele carro sempre estava comigo de forma direta ou indireta, pois para acessar minha casa eu sempre tinha que passar por ele.

Na minha infância brincava com meus carrinhos — sim, eu já gostava de carro desde pequeno — no rodapé da casa. E como havia uma ladeira na garagem, fazia dali as minhas subidas com meus carrinhos, sempre ao lado dele. As diversas vezes em que brinquei de pique-esconde me escondia por baixo dele na garagem… Bons tempos, sem tantas responsabilidades.

O tempo foi passando e até 2003 tive uma convivência intensa com ele. A partir dali eu comecei a andar mais nos carros da minha mãe e do meu pai, meu avô já não saía tanto aos domingos como costumeiramente fazia, e ali foi se perdendo um certo laço com aquele carro.

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Adorava o Monza que me trouxe da maternidade

Mas tudo mudou em dezembro de 2005. Meu avô, naquele momento com a carteira vencida não podia levar o carro para fazer a vistoria no Detran. Meu pai havia ido com ele para ir vistoriar o carro e pegar o documento. Era de tarde, começou a chover, eu estava em casa vendo algumas fotos antigas e do nada meu pai me ligou e pediu para ir abrir o portão da garagem.

Desci, e enquanto eu abria o portão, olhei para aquele carro azul, com os faróis ligados, o limpador ligado, bufando com a ventoinha do motor por causa do ar-condicionado, aquele som clássico dos Família 2 daquela época, e congelei por alguns segundos olhando ele. E foi como se ele me perguntasse, “Você não se lembra mais de mim? De tudo que vivemos?”

Acabei de abrir o portão, meu pai subiu a ladeira, olhei o carro subindo, todas aquelas memórias boas aflorando, e quando ele estacionou e se esqueceu de desligar os faróis ao parar o motor e veio o disparo do alerta de faróis ligados, naquele momento parecia que eu havia-me teleportado para o banco traseiro dele depois de um passeio com meus avós e chegado à noite em casa, meu avô deixando os faróis ligados enquanto fechava o portão, aquele som ficava ecoando até ele vir me tirar do carro.

Aquilo mexeu comigo. Mais um tempinho se passou, minha mãe tinha um Gol que precisou ser pintado por conta de uma certa ferrugem aparecendo, e ela sempre me levava e trazia do colégio, pois eu estudava longe de casa. No dia em que o Gol foi para pintar, do nada me aparece minha mãe com aquele Monza azul na porta do colégio, bati o olho e veio aquele feeling novamente.

Entrei no carro, aqueles bancos macios, o cheiro do carro, foi mágico. Ali começava a notar a importância daquele carro para mim. Quando ela entrou numa rua em que sempre passávamos com o Gol, na qual cara buraco era um pulo por causa da suspensão dura, vi que no Monza eu não sentia nada, parecia que andávamos sobre um tapete. E ele foi me conquistando.

Comecei a pensar que minha mãe devia ter um carro daqueles, afinal era muito mais gostoso que o Gol. Comecei a pactuar com minha avó e juntamos dinheiro para comprar um Monza para ela, e quando o Gol voltasse o venderíamos. Dito e feito, alguns dias depois estava um Monza GLS 1994 2.0 efi prata Argenta na garagem de casa para ela e no início de abril vendemos o Gol.

Foi curioso que no dia em que o Monza de minha mãe chegou em casa, na hora de manobrar o SL/E era como se ele tivesse ficado com ciúmes, começou a engasgar e não querer voltar para o seu lugar na garagem. Ele ficou triste em ver que ficaria novamente parado.

A partir dali eu me apaixonaria de vez pelos Monzas, talvez um tanto influenciado pelas memórias que o carro me trazia, ajudado ainda pela reprise de uma novela que eu assistia antes de estudar à tarde, “A Viagem”, em que além do contexto que me interessava muito, os cenários externos eram exatamente os lugares por onde tanto andei com meu avô naquele Monza, principalmente a Estrada das Canoas.

Mais dois meses se passaram e eu entrava de férias na escola. Meu avô não tirava o carro da garagem há meses, e então a linha Monza já estava na minha cabeça, acabei virando um fã-boy.

Quando o vi jogado na garagem, parado, comecei a tratar dele, e lhe disse: “Eu não vou te deixar nunca”. Ele é a caixinha de memórias da minha infância. Comecei a cuidar como podia dele, aliás comecei a trabalhar com 15 anos para mantê-lo. Comecei a entender um pouco de mecânica por causa dele. E por aí fomos, até eu começar a ensaiar a dirigir, eu começava a aprender nele dentro da garagem de casa.

Quando tirei a carteira em 2010, meu avô queria vendê-lo para me dar um carro novo, e eu ficava uma fera. Ele dizia que queria passar o carro nos pregos. Mas em maio daquele ano ele passava o carro para meu nome, e aquele Monza que tanto parte fez da minha vida, virava meu. `

Foi meu primeiro carro, éramos “irmãos” desde os meus dois anos de idade, foi o carro onde vivi minha infância, foi o carro em que aprendi a dirigir. A partir dali meu sonho era fazer uma coleção de Monzas, eu era aficionado do modelo. E em setembro daquele ano comprava meu segundo Monza, um GL 2.0 efi “1997” verde — sim, entre aspas, ele era a última maquiagem que haviam feito na linha antes de acabarem com sua fabricação — com o qual aprendi muito, inclusive nas imprudências e excessos da juventude.

Afinal, aquele azul era um carro que eu tinha o maior cuidado; o verde, eu ia para cima e para baixo, para o trabalho, para a faculdade. E em 2011 realizei um sonho: consegui comprar um Monza Classic 1987 2.0 prata Andino com 55 mil km, e meu sonho continuava a pulsar com os três Monzas.

Mas por conta de uma preferência de minha família, um erro, tive de mudar a minha visão de futuro, tudo que havia projetado, por conta de um negócio. Meu nível de vida havia mudado, não daria para dar o passo além e salvar outro Monza. Minha cabeça também havia mudado muito, acabei ganhando maturidade e comecei a deixar de ser fã-boy.

Vendi o meu Monza GL que usava no dia a dia e comprei um Civic LX 1,5 automático 1994. Comecei a ter novas experiências e gostei muito. Mas meu Monza azul continuava ali na garagem, todo domingo saíamos e curtíamos muito o Alto da Boa Vista e todo o Rio. Sentir aquele ronco do motor, o cheiro do carro, era mágico.

Porém no final de 2013, por conta desse erro de minha família lá atrás, foi a ultima vez que saí com ele. Um dos amortecedores estourou e junto um dos cilindros de freio. Parei-o na garagem e até hoje ele nunca mais viu a cor do asfalto. Para muitos isso pode ter sido pouca coisa, fácil de arrumar, mas minha vida, os meus recursos não me ajudavam a colocar ele em funcionamento pleno novamente.

Sempre queria separar um dinheiro para ele, mas vinha alguma coisa e o tomava. Todo meu dinheiro desde aquela época ia para sustentar minha família, e como eu tinha de manter o outro carro rodando, não conseguia botar meu flecha azul para funcionar novamente.

Meu avô havia tido uma isquemia em 2008, em 2014 voltou a apresentar o mesmo quadro e ele teve uma piora significativa. O gasto com remédios, fraldas, era enorme, até hoje não sei como conseguia sustentar aquilo tudo. Meu avô acabou falecendo em abril de 2015 e infelizmente nem pude dar uma última volta com ele naquele Monza de que ele tanto gostava. Aquilo me doeu e dói até hoje.

E novamente ele volta a estar parado aguardando o dia em que eu poderei colocá-lo a funcionar e a brilhar novamente, como quando eu o vi pela primeira vez em 1993 com meu avô e quando me apaixonei novamente por ele em 2005. Isso machuca muito, porque gosto tanto daquele carro, são tantas lembranças, sabem… — desculpem-me, um pouco emocionado aqui — era tão gostoso de dirigir, meu avô gostava tanto dele… Ah, mas um dia ainda voltarei a poder rodar com ele nas ruas e virar os 30.000 km no hodômetro, que hoje paira em 29.350 km.

E mesmo não podendo mexer nele, ao menos ele ainda continua ao meu lado, e mantenho a promessa que fiz em 2006 de que nunca eu iria deixá-lo. Afinal, esse é o carro da minha vida, presente em quase todos os momentos, nos altos e nos baixos.

Se Deus quiser amanhã há de ser outro dia, e nesse amanhã eu poderei voltar a rodar com ele.

Gustavo Alvarim

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