Vivemos num mundo muito estranho hoje em dia. Todo dia vejo se colocar nas costas do automóvel as maiores mazelas do mundo: falta de espaço, poluição, morte por acidentes. Parece, ouvindo esse povo, que o mundo sem automóvel seria uma maravilhosa utopia limpa e florida, um oceano de benesses. Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência perceberá que isso é um embuste. O interesse aqui é outro na verdade.

A extinção do transporte pessoal particular serve aos interesses somente de gente que sonha em um mundo seguro, planejado e estéril, onde — importante aqui esta parte — toda a liberdade pessoal é extinta.

Estes órfãos do comunismo acreditam que humanos são como abelhas e formigas, e teimam em ignorar o fato de que o espírito humano é muito maior que isso, e é impossível de ser contido por regras que nos impedem de fazer o que devemos fazer.

Cada um de nós é movido por uma chama interna que determina o que somos; uma força que nos compele a fazer coisas incríveis não porque gostamos, mas porque precisamos fazê-las. É a força que faz o bombeiro entrar no prédio em chamas para salvar alguém, é o que faz o engenheiro passar noites em claro revendo o cálculo de sua ponte, é o que me impele a sentar aqui e escrever para vocês. Não é o dinheiro, com certeza…

A liberdade pessoal, este anárquico, controverso, mas indiscutível valor que está impresso no fundo da alma de cada um de nós, é o que permite que esta chama interna, este chamado, seja respondido.

E é ela, a liberdade pessoal, que realmente está sendo atacada hoje. O automóvel, como o cigarro e tantas outras coisas, é apenas uma vítima de uma batalha muito mais antiga, que existe praticamente desde o início da humanidade.

Antes foi a ideia de uma sociedade igualitária utópica controlada pelo governo que moveu uma bem-intencionada multidão de pessoas a lutar por um mundo que se pretendia melhor. Hoje, com a falência deste modelo, a segurança é o novo mote ideológico que faz avançar esta castração geral da liberdade, esta ideia profundamente falha de que as pessoas devem ser controladas bem de pertinho para que a “sociedade” seja melhor.

Usando a vida humana como valor máximo, hoje se vê uma destruição de liberdades pessoais sem precedentes, que vai de limites de velocidade ridiculamente baixos a regras incrivelmente duras sobre saúde individual, passando por crianças que não saem mais sozinhas de casa, morrendo de medo da rua.

Todo mundo se curva, como carneirinhos, porque afinal de contas, a segurança, oh, a segurança! Ela sempre deve vir em primeiro lugar! Só que não. Esta premissa está errada em seu cerne.

O valor máximo, toda filosofia vai lhe ensinar, é a vida em si própria. E a morte faz parte intrínseca dela. A consciência de nossa própria mortalidade é a essência da experiência humana. A dor, o sofrimento, a frustração, são também essenciais na vida.

Tão importante quanto a felicidade e a realização pessoal, as coisas ruins que acontecem com a gente nos fazem quem nós somos, nos ensinam lições sobre o real e o metafísico que seriam impossíveis de aprender se nunca acontecessem, e nos tornam fortes e mais felizes quando superadas. São a vida em sua realidade mais nua e crua.

Imaginem um mundo sem morte acidental e risco, utopia pregada como possível e desejada aos quatro ventos. Estaríamos em casa vivendo uma vida virtual, falsa, sem risco algum. As coisas seriam levadas até nós por carros-robôs.

Nunca sairíamos de nossos casulos seguros. Sexo? Nem pensar, pois as doenças que poderiam ser transmitidas desta forma seriam impossíveis de controlar. Mal posso imaginar o horror de um mundo assim, mas várias obras de ficção científica existem para quem realmente quer entender a fragilidade da ideia.

Quem assistiu o grande filme da Pixar “Wall-E”, sabe o quão patética uma sociedade totalmente segura, baseada na internet e no serviço de robôs, pode ser.

O carro autônomo, na verdade nada mais que um táxi melhorado, é algo que não inspiraria medo se não trouxesse com ele a ameaça da proibição de carros não-autônomos. É este o principal problema dele, e de todo o robô. E segundo a opinião de Elon Musk, a qual subscrevo, estes robôs são “… a maior ameaça existencial que a humanidade já viu.”

O robô, em sua forma totalmente evoluída, é muito melhor que o homem. Mais preciso, mais rápido, mais inteligente, mais forte. Como toda máquina, não erra nunca e todas as suas ações são ditadas pela lógica pura. E, se um robô pode construir facilmente outro robô, pode se reproduzir também. Uma nova forma de vida.

Se você ler Asimov, vai ver que mesmo com regras de segurança e subserviência embutidas em sua programação, os robôs (como nossos entusiastas da segurança de hoje) rapidamente chegam à lógica conclusão de que para proteger os humanos, suas liberdades devem ser abolidas, e assim, com o controle total sobre suas ações, os robôs podem garantir que eles estarão seguros, salvos de todo e qualquer acidente.

Salvos de si mesmos. Isso na melhor das hipóteses, porque na pior, eles decidem que são melhores que nós e, por consequência, que somos desnecessários e podemos ser exterminados completamente. O que seria a mais completa verdade.

Criar robôs com inteligência artificial é brincar de Deus. Mesmo os ateus, se pensarem um pouco, vão entender que são forças que claramente não entendemos, e que não temos a menor possibilidade de querer controlar, uma vez soltas.

De novo usando as palavras de Musk, “O cara num filme que está invocando o demônio, em pé no pentagrama e com sangue de bode nas mãos, acredita piamente que está fazendo algo bom. Ele acredita que vai controlar o demônio. Acredita que estudou bastante, que sabe as regras e que vai fazer tudo certo. A gente de fora sabe que aquilo não pode dar certo, mas ele prossegue…”

O automóvel autônomo está sendo empurrado para o mundo como a solução do problema de segurança veicular. Eu nem tenho certeza se realmente é um problema. É a velha máxima de que todo acidente pode ser evitado em ação. Não sei quem a criou, mas é um megalômano louco, disposto de novo a criar um mundo onde fazemos nada, mas estamos em total segurança.

O motivo por que hoje em dia nada é criado espontaneamente em fábricas, onde regras draconianas de segurança impedem que qualquer coisa seja feita sem meses de planejamento e preocupações no que pode dar errado.

Com o que pode dar certo rapidamente e sem frescura, mas com um pequeno e irrisório risco, ninguém quer mais saber. Quem enfrenta isso todo dia e tem cérebro para ir além da “segurança é prioridade”, sabe do que falo.

Para mim achar que pode se evitar totalmente mortes acidentais é de novo brincar de Deus. Pior, se achar mais onipotente que Deus, uma incrível megalomania que é extremamente comum hoje em dia. Todos vamos morrer gente, sem controle nenhum sobre como e quando.

Aprendam a viver com isso. Não é viver tomando riscos irresponsáveis, é apenas entender que alguns riscos valem a pena. Viver a vida de peito aberto, sem medos bobos, e pronto para enfrentar, com coragem, as tragédias que ela fatalmente vai colocar na nossa frente.

Ela vai colocar tragédias em nossa vida, que fique bem claro. Bem como vitórias e felicidades imensas. Não é pular de cabeça para morte certa, mas fazer coisas que acreditamos poder enfrentar e sobreviver, mesmo com algum risco envolvido. Enfrentar a morte de frente, de vez em quando, para entender o significado da vida.

Se estivermos protegidos o suficiente para que nada aconteça conosco, bem… nada vai acontecer conosco. A vida, vocês hão de concordar, tem que ser bem mais que isso. Tem que ter mais de 500 cv, e deixar marcas pretas de pneus no caminho.

Tem que ser feliz, e perseguida com coração puro e coragem para enfrentar o que quer que nos aconteça. Uma vida iluminada, cheia de acontecimentos incríveis, bons e ruins. Uma história que valha a pena ser contada.

Então, o que peço a vocês é que não tenham medo do futuro. Mas que defendam seu direito de dirigir, com todas as suas forças. Ele é legítimo e importantíssimo. Faz parte de algo maior, que é sua liberdade pessoal de levar sua vida da forma que você acha que deve. Um direito divino.

E que se algum dia se pense em proibir a direção em prol da segurança, que se levantem comigo contra isso. Só vão tirar meu carro de mim, meu direito de dirigi-lo, e a liberdade pessoal que isso me traz, sobre o meu frio e inerte cadáver.

Isso, é claro, se conseguirem me alcançar primeiro…

MAO

Eu e o PK exercendo nossa liberdade no Megane R.S.

Eu e o PK exercendo nossa liberdade no Mégane R.S.

 



  • Victor, a internet e o Facebook cuidam disso.

  • Roberto Alvarenga, perfeita a última frase.

    • Claudio Abreu

      É um círculo vicioso: menos interesse em guiar, piores motoristas, pior trânsito, menos interesse em guiar… Lamentável. Que os bravos (como nós) resistam.

  • Alex Ctba

    Texto inspirado MAO. De fato, temos vivido tempos difíceis, para nós, ou a maioria dos que frequentam esse site, que já tem uma certa idade. Infelizmente o tal do carro autônomo já é uma realidade que vai se tornar cada vez mais comum, já que as novas gerações, de um modo geral, caminham para essa demanda.

    Por outro lado, “dinossauros” como nós, se recusarão a ser extintos, enquanto correr gasolina premium nas nossas veias, e os que entenderem a nossa paixão por carros, nos farão felizes e serão felizes ao nosso lado.

    Abraço a todos!

  • Claudio Abreu

    Né? Estamos vendendo baratinho nossa liberdade. Ainda acho que é o consumo irresponsável que causa isso.

  • Bera Silva

    Newton, ótima idéia ter publicado aqui este excelente artigo do Mises Institute. Deixo também como sugestão os textos de Murray Rothbard.

  • AlexandreZamariolli

    Em resumo:

  • Oli

    MAO, no futuro os carros autonomos andarão a 300 km/h a distâncias minimas um dos outros nas principais estradas. Não há a menor possibilidade de um ser humano dirigir ali. É como querer andar a cavalo na via Dutra. Só restará aos autoentusiastas algumas estradinhas vicinais. Não há nada que possa ser feito contra isso. Conforme-se.

  • Fantástico!

    Enquanto lia, logo no começo, lembrei de Asimov, gostei de ver sua referência a ele.

    Em um de seus livros, se não me engano “The Naked Sun”, Asimov apresenta um planeta chamado Solaria, este era considerado o 2º planeta mais evoluído dos até então planetas desbravados pelo homem, e se destacava por uma densidade robótica enorme, havia 10.000 robôs para cada ser humano. Cada pessoa vivia sozinha em sua mansão, com uma enorme criadagem de robôs, que faziam tudo para ela, literalmente tudo. Todo contato humano era feito através de “hiper-onda”, que é basicamente a nossa internet, as pessoas nunca se encontravam pessoalmente, isso era um tabu. A única exceção era quando havia necessidade de procriar, e isso apenas com o consentimento do governo, marido e mulher se viam apenas para ter a relação sexual (o que para eles era uma odiosa obrigação), e quando a criança nascia, era isolada e criada por robôs, nem mesmo sabia que eram seus pais.

    Ao longo do livro Asimov vai mostrando como essa é uma sociedade decadente, o próprio personagem principal, ELijah Baley (que era um cidadão do planeta terra super-populado, tecnologicamente muito defasado e que não tinha robôs), temia muito os novos planetas, mas se deu conta de que todas essas colonias humanas iriam ruir, e que o único planeta que sobreviveria seria a terra, e que a colonização da galáxia só seria possível se feitas por humanos, ainda que muitas vidas se perdessem no processo. Os próprios robôs, inclusive, se dão conta de que a humanidade só evoluirá se eles deixarem de existir, e assim acontece. (mais ou menos assim na verdade rsrs)

    Seu texto foi brilhante, nos faz ver que essa degeneração da humanidade já está acontecendo.

    Um abraço.

  • AlexandreZamariolli

    Durante os últimos cinco anos, o dono do automóvel ouviu que era um quinta-coluna porque queimava gasolina com seu carro, um bicho que mata gente e polui a atmosfera. O automóvel virou bandido e quem o dirigia era cúmplice. O conceito de que o automóvel era uma conquista social inverteu-se.

    Para quem acha que o movimento antiautomóvel é coisa recente, a frase acima é do falecido jornalista Joelmir Beting, em entrevista publicada na revista “Quatro Rodas” em… junho de 1981!

  • Marcelo Conte

    Excelente ponto de vista. Veja só: domingo passado, uma manhã linda com céu de brigadeiro, aqui na região de Jundiaí, coloquei meu 147 GLS branquinho com quase 40 anos na estrada e pude desfrutar de quase duas horas do mais puro prazer. Qual seguro, moderno e famigerado carro autônomo proporcionaria emoção similar? Ao invés da “robotização” do veículo para proporcionar segurança nas ruas, deveria se investir na capacitação de quem conduz o automóvel. Na suposta era dos carros autônomos, os estúpidos que usam o carro como uma arma (devido à inabilidade associada à falta de bom senso) acharia um outro jeito de causar acidentes e mortes.