Na vida e atrás do volante já passei alguns perrengues. Não muitos, é verdade, e nenhum muito sério, mas força de tantos anos dirigindo e por tantos quilômetros, teria de obrigatoriamente, ter muitas historias para contar. E como minha memória ajuda…

Bem, ajuda a mim. Meu marido O-D-E-I-A minha memória. Assim mesmo, com maiúsculas e separando as letras. Ele diz que discutir comigo é quase impossível justamente por isso. Às vezes gostaria de ter um dispositivo como os computadores, daqueles que escaneiam e limpam os arquivos. Só que não tenho, apesar dos meus esforços. Guardo tudo. Para bem e para mal. Ou para que preciso lembrar o telefone da casa da minha avó em Buenos Aires: pior, não da casa onde morou até morrer, há quase 20 anos, mas daquela em que morou até o começo dos anos 1990?

Mas às vezes travo com senhas que precisaria lembrar e por isso não tenho cartão de débito. Vai entender. Sorte que não classifico as lembranças e por isso não tenho rancores. Apenas me lembro dos fatos.

Mas o lado bom é que sou uma espécie de disco rígido da família e dos amigos. Se alguém quer se lembrar de um fato, liga para a Nora. Detalhes sobre algo, liga para a Nora. E ai se a Nora não lembrar. Ninguém acredita. Lembro até de coisas que não vivi mas me contaram — mas faço a ressalva de que estou repetindo algo do jeito que me disseram, pois não gosto de faltar com a verdade.

O fato é que depois de reler minha coluna da semana passada e repensar sobre alguns comentários de leitores que achavam que não há problema em mudar de faixa em túneis ou pontes, me lembrei de algo que aconteceu comigo quase quatro anos atrás. E, como sempre digo, nada melhor do que aprender a qualquer momento.

Vinha eu dirigindo em São Paulo pela Av. Rebouças em direção à zona sul e entrei no túnel Jornalista Fernando Vieira de Mello como fiz milhares de vezes. Trânsito pesado, mas andando, logo depois do almoço. E eu na faixa da esquerda, ouvindo música. Foi tudo muito, muito rápido. De repente, vi subir fumaça pelo capô do meu carro. Estercei o volante para a direita, pois lembrei que na saída do túnel há um posto de gasolina onde pensei que poderia chegar para parar. Só que não.

Ao mesmo tempo, olhei a temperatura do motor que havia subido de duas barrinhas para cinco de uma vez, a música parou e o motor desligou. Automaticamente, apertei o botão do pisca-alerta que, claro, não ligou.

Abri a janela e comecei a acenar para o carro de trás para que ele entendesse que eu não conseguiria andar. Desnecessário, aliás, pois a fumaça já subia densa à frente do meu carro e era bem óbvio que eu não iria a lugar algum. Mas o meu carro já estava meio atravessado no corredor entre as duas faixas do túnel. Putz! Logo eu, que não mudo de faixa em túneis! Bem que meu avô tinha razão. Assim como dizem os americanos:  s… happens.

Como estava no final do túnel, na subida, lembrei de ter visto uns dois carros atrás de mim uma picape da CET e desci para pedir ajuda. Os carros se espremiam na faixa da direita, que por sorte eu não havia bloqueado totalmente, mas o congestionamento já era grande (a foto de abertura dá uma boa ideia de como estava o trânsito dentro do túnel).

Lembro que um motorista gritou: não abra o capô!! Mal sabia ele que eu não tinha a menor intenção de fazer isso, que sabia que não deve ser feito, mas valeu pela informação. Tem gente que faz isso, sim.

O pessoal da CET imediatamente se postou para fechar de vez o trânsito e colocou o carro à minha frente para puxar o meu. Expliquei que logo ali tinha um posto e somente alguns metros seria suficiente. Mas nada de as motos pararem e quase atropelam a gentil moçoila da CET, enquanto o colega amarrava a barra para puxar minha barca — na época tinha um pesadíssimo C4 Pallas automático que não se mexe nem um milímetro quando trava. E estávamos numa subida. A manobra toda não levou mais do que 10 minutos, acredito. Para mim, pareceu interminável pela confusão que criei involuntariamente.

O veículo da CET me puxou até o posto e lá me largou sem nenhuma instrução. Ainda bem que sei o que fazer. Enquanto xingava mentalmente meu marido, achando que ele não tinha revisado a água do reservatório, esperava não muito pacientemente que o motor esfriasse para poder abrir o capô. Disparei furiosos SMS para minha cara-metade já estabelecendo rotinas que seguimos desde então. Cada um cuida do seu carro e se um tem mais tempo do que o outro, OK, mas avisa. Nada de deixar carro desamparado novamente. Ele respondeu jurando de pé junto que havia verificado tudo, como sempre o faz.

Sim, ele faz isso, mas com menos frequência do que eu. Está mais para encher o tanque, calibrar pneus de vez em quando e pronto. É cuidadoso, não posso dizer que não, mas eu e que mando calibrar até o estepe, olho reservatório do esguicho do limpador de para-brisa e qualquer outra geringonça que tenha no carro, o tempo todo. Ele não deixa passar uma revisão, presta atenção em qualquer barulhinho, constantemente presta atenção ao dirigir se há alguma anormalidade, conserta tudo e mantém tudo em ordem, mas não pensei em nada disso naquela hora. Teve DR geral via torpedo.

A frentista veio me ajudar e, surpresa! Quando abrimos o reservatório ele estava praticamente cheio. Cerca de uma hora depois de tudo ter começado, reservatório completado (vá que…) temperatura (do carro, a minha ainda estava nas alturas) de volta ao normal, ligo o carro e vou embora. Tinha ainda uns bons 12 quilômetros pela frente e por via das dúvidas optei pelo caminho de menos trânsito — mas para mim, ainda a culpa era da cara-metade que não havia conferido o reservatório, mas não estava muito convencida.

Pensei na ventoinha, mas como estava ouvindo música e dentro de um túnel, não lembrava especificamente de ter ouvido ela ser acionada. Na dúvida, optei por um trajeto no qual não ficaria muito tempo parada, apesar de mais longo. Vá que era a ventoinha… ficar num congestionamento seria horrível.

Era uma época em que os dois viajávamos muito a trabalho e de fato havia uma zona cinzenta na divisão de tarefas — não apenas dos carros, em tudo. Sempre fizemos tudo em conjunto, sem muitas cobranças, mas a falta de tempo havia deixado tudo meio fluido e eu sempre disse que manutenção de carro tem de ter um único responsável. Ou que cada carro tenha o seu responsável. O pior cenário é quando ninguém assume.

Uma das minhas tias tinha um acordo com meu tio, marido dela. Ele pegava os dois carros todo final de semana e cuidava de tudo: combustível, água, pneus, tudo… Sábado era dia disso. E sempre funcionou bem.

Prestando toda a atenção do mundo no carro, percebi que apenas alguns quilômetros adiante do posto a ventoinha não entrava em funcionamento apesar de que eu achava que deveria ter ligado. Estava eu já perto do meu destino e eis que o indicador de temperatura do painel vai de novo para as alturas em segundos e corta o motor. Vixi! Por sorte, a rua era em descida e consegui chegar até o estacionamento, que estava a poucos metros.

Sou persistente, mas não idiota nem néscia e aí percebi que o problema tinha de ser outro, pois eu mesma havia preenchido o reservatório com água e rodado poucos quilômetros. Ricardo, mil desculpas, mil desculpas, mil desculpas, dizia o SMS que enviei prontamente. E assim que o motor esfriou e pegou novamente fui direto até a concessionária. O problema, como quase sempre, uma cebolinha. A solução: a troca da peça, uma nova rotina para a manutenção dos carros, um jantar caprichado e uma taça de vinho com um pedido de desculpas. E um telefonema para minha mãe: o vovô tinha razão, não se deve mudar de faixa em túneis nem pontes.

Mudando de assunto: Está certo que o campeonato de Fórmula 1 está apenas no início, mas as primeiras voltas do Bahrein prometem. Gostei de ver nomes novos como o de Stoffel Vandoorne, que já havia feito um treino classificatório excelente e estreou marcando pontos. Já imagino o Fernando Alonso tendo ataques de caspa por não poder correr e ainda ver um moleque novato fazer bonito com o carro dele. E o Romain Grosjean? Já gritei muito com ele (bem, na verdade com a televisão) nos primeiros anos quando fazia horrores e tirava pilotos da corrida por pura bobagem, mas deu show com um carro que vem surpreendendo. E, claro, o corretíssimo Niko Rosberg. Quem sabe este ano ele finalmente ganha um campeonato?

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade da sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Nora Gonzalez
Coluna: Visão Feminina

Nora Gonzalez é jornalista, foi repórter (inclusive de indústria automobilística) e editora da Gazeta Mercantil e de O Estado de S. Paulo durante muitos anos. É fã de carros desde pequena, especialmente de Fórmula 1.

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  • Acyr Junior

    Nora, gosto muito dos seus textos, principalmente pela abordagem que dá aos seus muitos assuntos, sempre interessantes. No meu entender, é da natureza humana pensar logo de cara que a falha ou culpa vem dos outros, nunca de nós mesmos. Todavia, reconhecer o erro e ter a nobreza de pedir desculpas, isso só para pessoas de dignidade. Eu já era seu fã, estou só reiterando meu apreço.
    PS: aquele velho truquezinho do clip metálico na cebolinha tiraria você dessa fácil, fácil…

  • Octávio Castellões, perfeito!

  • guilermecvieira, nada de bronca, mas o fato é que todo carro está sujeito a uma variedade de problemas. Não se deve atribuir grande incidência deeles a uma determinada nacionalidade. Há algo de surreal no relacionamento carro-proprietário/motorista em que acredito piamente. O carro parece ter sentimentos. Ou seja, depende muito do motorista um carro dar mais ou menos defeito.

  • Diogo, o que você fez quando a temperatura da água chegou a 100 graus é o mesmo que faria se a luz acendesse. Lembre-se que sob pressão de 1 bar a água só entra em ebulição a 130 ºC.

  • Ana, unir os dois fios que chegam à cebolinha por por um clipe de papel, fechando o circuito.

  • CorsarioViajante

    Para você ver, no meu Polo tinha termômetro de ponteiro como tantos gostam. O termômetro ficava imóvel no 90. NUnca passou disso. Ou seja, apesar de ser um ponteiro era claramente “anestesiado” pelo sistema para ficar ali.

  • CorsarioViajante

    QUe bom Nora! Depois vi no BCWS que teve uma safra que tinha um outro problema relacionado, mas ele já tinha vendido.