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Há tempos eu vinha protelando um programa que me foi indicado por um amigo, o José Vignoli, um apreciador, pesquisador e proprietário de carros nacionais da marca Willys. Segundo ele, uma visita ao Arquivo Público do Estado de São Paulo. O Arquivo é uma das principais fontes documentais do país. Lá é possível consultar jornais e revistas de antigamente, entre outros documentos, era algo imperdível, coisa que ele fazia com certa frequência. Admito que o que me levou até lá não foi a busca de grandes reportagens, ou o impulso de fazer determinado levantamento histórico. Fui mesmo atrás de anúncios classificados, vocês podem imaginar do quê…

Desde que eu me lembro por gente, tão tradicional quanto a lasanha de domingo era a cena do meu pai no sofá da sala com o jornal O Estado de S. Paulo nas mãos. Depois de ler as notícias e reportagens nas seções de Política, Economia  e Internacional, chegava a hora dos anúncios classificados dedicada aos carros, chamada Autos e Acessórios. Desconfio que ele postergava a parte mais prazerosa. Vale lembrar que até meados dos anos 1990, a internet tal como a conhecemos hoje não existia nem mesmo nos desvarios dos mais criativos autores de ficção. Eram os jornais eram o principal meio de se procurar casa, apartamento, carro, emprego e até animais de estimação. Na seção chamada Negócios e Oportunidades, por exemplo, podia-se encontrar de helicópteros a projetores de filmes domésticos de 8 mm.

Pois para criar uma espécie de túnel do tempo particular, pedi para ver as edições do Estadão do início do mês de abril de 1966, ou seja uma volta de meio século. Minha viagem teve início com uma breve aula de como operar o sistema de microfilme, uma vez que, por questões de espaço e conservação, as páginas dos jornais estão reproduzidas neste sistema. É incrível que caibam tantas páginas no pequeno rolo de filme que corre para frente e para trás ao comando de teclas. É como se fosse um antigo toca-fitas, tem até avanço rápido e lento.

aprilfoolAcelerei a busca e fui direto ao meu objeto de interesse. O borrão das imagens projetadas correndo pela base do equipamento me transportaram em poucos segundos me transportariam ao meu destino. De repente, uma grande foto de um Fusca com o capô dianteiro aberto e com um radiador à mostra, me obriga a uma freada brusca no projetor: “1º. de abril! 1º. de abril!”, dizia o título, uma ironia com o carro famoso por ter motor traseiro arrefecido a ar… Aliás, o anúncio de página inteira obedecia o padrão internacional dos anúncios da VW do tipo saia-e-blusa, ou seja, a página era dividida ao meio por imagem foto e texto. Um clássico!

Segui adiante e finalmente cheguei ao objetivo, a tal seção Autos e Acessórios. E dei de cara com uma parede de “tijolinhos” que anunciavam uma quantidade considerável de carros, sem nenhuma preocupação organizacional no que diz respeito a divisão por marcas ou ordem alfabética dos modelos. Quem estava a fim de comprar um Aero-Willys era obrigado a passar por várias Kombi, DKW-Vemag Belcar e Vemaguet, Gordini, Jeep… Mas naquela edição de sexta-feira (os dias mais nobres para se anunciar eram quinta, sábado e domingo), lá estavam o que hoje seriam verdadeiras moscas brancas. Logo na página de abertura do caderno aparece um “Motor Porches” (sic) e o telefone 807930. Seriam vários motores? Quais? Ou seria apenas um erro de concordância? Fico imaginando a possibilidade de comprar um motor Porsche zerinho “discando” apenas seis dígitos – ou números, como se dizia. Segui em frente e topei com um Thunderbird 1956 “em estado de novo e documentos em ordem”. Ah, se o dono soubesse que o modelo desta safra se tornaria o mais icônico e desejado dos Thunder, ele pensaria duas vezes antes de anunciá-lo no jornal. E o que dizer dos pequenos Interlagos berlineta, cupê e conversível, anos 62, 63 e 64, à venda na rua Veridiana, 384? E não é que o vendedor ainda aceitava troca e tinha disposição para financiar a longo prazo?

Uma opção interessante para quem precisava de mais espaço para a família podia ser o Simca Tufão 1964, único dono. O Tufão era a versão ligeiramente mais apimentada do Simca Chambord. Equipados com um motor V-8 que produzia uma agradável sinfonia, os Simca esbanjavam charme, mas na hora de entregar desempenho produziam mais calor que energia. O preço? Dois milhões de cruzeiros.

Numa época em que possuir telefone em casa era sinal de status, era possível trocar um VW Sedan VW ou um Gordini por uma “linha 65,” conforme propunha um discreto tijolinho. E que tal um “Romi-Isetta-BMW” 59, em perfeito estado e com pneus novos, por 300.000 de entrada e oito parcelas de 100.000?

Havia os abonados que não precisavam se preocupar com financiamento e muito menos com consumo de combustível. Para esse público existiam lojas especializadas em importados.  Como a Petrolauto, aliás nome para lá de adequado aos produtos por ela comercializados. No anúncio de primeiro de abril o estabelecimento oferecia seis opções de Impalas, um Buick Skylark, um Mercedes-Benz 220S e um Oldsmobile Cutlass.

Mas nem os carros povoavam as páginas de classificados. Quem buscasse equipamentos não perderia a viagem ao consultar a seção do diário. Era possível encontrar ofertas de rádios como Telespark, Motoradio, Intertron, Radiomatic e Transtropic, de uma, três e cinco faixas (ondas médias, curtas e longas). Nada de FM, isso ainda era coisa de poucos importados. Também havia opções de bagageiro, espelhos laterais e trava de câmbio, entre outros acessórios.

Curiosamente, aquele primeiro de abril marcaria a chegada da locadora Hertz ao Brasil. O anúncio de apresentação dizia que a empresa havia adotado os veículos da linha Willlys e destacava o luxo do Itamaraty, “palácio sobre rodas”; o espaço do Aero-Willys, “que leva seis confortavelmente”, e a economia do Gordini, “que faz até 16 km com 1 litro de gasolina”. Como se pode ver, de 50 anos para cá muita coisa pode ter mudado, os anúncios têm imagem e até movimento, mas algumas preocupações continuam as mesmas.

SB



Sobre o Autor

Sérgio Berezovsky

Sérgio Berezovsky, fotógrafo, editor de fotografia e jornalista, depois de atuar em nas revistas Veja, Placar, Exame e nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, foi redator-chefe e diretor de redação da revista Quatro Rodas de 2000 a 2013.

  • Mr. Car, procure uma “Seleções”, acho que de 1944, fala de novo tipo de avião, a esguicho… jet!!! As traduções eram complicadas naquela época.

  • BlueGopher

    Nota 10 por esta saudosa lembrança!
    Como era gostoso passar horas lendo os cadernos de classificados do Estadão.

    Era uma época muito diferente da atual, quando estamos acostumados a comprar qualquer coisa, a qualquer momento, em qualquer lugar.
    Naquelas décadas, para conseguirmos encontrar determinadas pechinchas, o negócio era acordar e destrinchar o jornal bem cedo no domingo, para então telefonar ou correr para a casa do vendedor antes que outros interessados aparecessem.

    • Sergio Berezovsky

      É isso mesmo, BlueGopher. Valia até fazer plantão nas bancas no fim da tarde de sábado para ser um dos primeiros a ver a edição de domingo… Um abraço.

  • Que lamentável, Mr. Car. Essas coisas não têm preço. Imagino a sua dor.

  • Fabius_

    Para quem pode e precisa, as buscas em arquivos são um prato cheio… melhores ainda são os relatos do que se pode encontrar numa simples pesquisa. Obrigado pelo relato!

  • Dercílio

    Que bacana, Sérgio!! Pensei que só eu fosse “doente” a esse ponto kkkkk. Adorava os anúncios, ficava imaginando os carros, quem seriam os sortudos compradores. Na verdade, tenho até hoje guardado o anúncio que originou a compra do Del Rey 1982 de minha mãe, comprado em 1983 com oito mil quilômetros na época. Depois de um tempo na tentativa de organizar o caderno, passou-se a separar por marcas — aí a seção “Clássicos e Raridades” era minha preferida… Muito obrigado por relembrar bons momentos!! Forte abraço!