Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas POR QUE MEU TIO QUEBROU A CADEIA ALIMENTAR – Autoentusiastas

Muitos anos atrás meu tio Horacio (aquele que teve vários Citroën 3 CV) foi vítima de furto. Chegando no seu carro, cadê o toca-fitas? Nada dele, apenas o painel e o carro arrombados. Até aí, infelizmente, nada de muito original. Acontecia com alguma frequência em Buenos Aires naquela época. E uso o pretérito imperfeito apenas porque hoje praticamente não se veem mais toca-fitas, não porque não se vejam mais furtos, infelizmente.

Eu era pequena, mas me lembro que no domingo no tradicional almoço na casa da minha avó, com toda a família reunida, ele comentou o fato. Mas mais indignado do que com a perda ele estava com o que havia ouvido durante a semana no trabalho. Alguém havia sugerido que ele fosse num desmanche (clandestino, como quase todos naquela época) e comprasse um toca-fitas. O sujeito ainda comentou que era muitíssimo mais barato do que os originais, vendidos no comércio especializado e, especialmente, nas “caríssimas” concessionárias.

Quem conhece meu tio Horacio sabe como ele pode ser firme em suas convicções. E justiça seja feita, é coerente, com aquela lógica de quem estudou e adora Ciências Exatas. Não teve dúvidas, passou um sermão no colega. O principal argumento dele é que ao fazer isso estaria fomentando o comércio que alavanca os furtos e roubos. No raciocínio cristalino de químico dele, se não houver demanda não haverá mercado para isso e os furtos diminuiriam e, teoricamente, poderiam até acabar. Comprar uma peça num desmanche, que certamente era proveniente de furto a outro, ou quiçá ao próprio veículo, não era levar vantagem. Ao contrário, era pagar menos por algo que poderia voltar a ser roubado justamente para alimentar a demanda que existia porque havia outras pessoas que compravam esses acessórios para pagar menos.

coluna9-3-16 desmanche2 CORR

Painel de carro já foi assim…(foto reiv8.blogspot.com)

Era na Argentina, mas me lembra da ótima campanha publicitária aqui no Brasil do biscoito Tostines. Vende mais porque está sempre fresquinho ou está sempre fresquinho porque vende mais? Ao tentarmos economizar comprando uma peça roubada — sim, porque naquela época não havia a menor dúvida quanto à origem delas — fomentamos o mercado do crime. Isso sem falar que dessa forma ainda pagaremos mais depois no seguro, na franquia, e por aí vai.

Adoro meu tio Horacio por vários motivos, mas esse é mais um. E, como várias outras coisas ao longo da minha vida, essas pequenas coisas ajudaram a formar meu caráter. Sempre me recusei a fazer esse tipo de coisa. Jamais comprei peça em desmanche e posso listar diversos motivos para isso. Procedência incerta, para dizer o mínimo, mas acaba sendo uma pseudoeconomia porca, de curto prazo, que se volta contra todos nós. E jamais faria algo mesmo que eu pessoalmente levasse algum tipo de vantagem se isso fosse prejudicar outros.

O problema dos desmanches é antigo e já há vários formas de combatê-los além de atitudes individuais como a do meu tio Horacio. Mas, como diz o Bob Sharp, dá um trabalho!

coluna9-3-16 desmanche1 Adj

Sim, toca-fitas existiu (foto v8andvintage.wordpress.com)

Em outubro de 2015 o governo do Estado de São Paulo lançou um programa que dá acesso ao interessado à procedência da peça a partir de etiquetas fixadas em cada uma delas com número de série vinculado a um código QR (veja foto de abertura). Assim, o interessado tem a garantia de comprar apenas peças legais — bem, logo eu que sou meio paranoica com essas coisas e gostaria de ter certeza de que ninguém colou uma etiqueta verdadeira a uma peça roubada, pensei em mil coisas… mas o programa tem ainda um perfil para as fornecedoras de etiquetas. Assim, elas podem informar a numeração de série das cartelas vendidas a cada empresa registrada. Talvez não seja totalmente à prova de fraudes, mas é um empecilho significativo.

Outra vantagem do sistema é que ele permite que sejam feitas denúncias de suspeitas de irregularidades pelo mesmo sistema e, claro, regulamenta e regulariza a atuação dos estabelecimentos que trabalham corretamente.

A Lei do Desmanche foi sancionada em São Paulo em 2 de janeiro de 2014 e entrou em vigor em 1º de julho do mesmo ano e acabou servindo de referência para a Lei Federal 12.977/2015 que entrou em vigor em 20 de maio de 2015. No primeiro ano de vigência foram fechados 700 estabelecimentos ilegais. O governo não tem números de em quanto foram diminuídos os números de furtos apenas graças a este programa, mas é lícito supor que se há mais dificuldade em comprar peças roubadas deve ter diminuído o mercado para elas. Até o fim de setembro de 2015, 1.546 empresas do setor de desmanche haviam solicitado o credenciamento no Departamento de Trânsito e 1.092 estavam autorizadas a funcionar. O site do Detran SP tem a lista dos estabelecimentos cadastrados em tempo real. Certamente não é a solução, mas acredito que algo assim aliado principalmente à atitude individual de não fomentar o mercado clandestino é que farão a diferença.

Mudando de assunto: recentemente estive em Iperó, interior de São Paulo, fazendo trilha no Morro Ipanema. É uma reserva da qual gosto muito e onde já estive outras vezes. Faz-se uma parte de carro e depois há várias opções a pé, de diversas durações. Mas fui surpreendida com umas estranhas lombadas na parte, digamos, automobilística. O fato é que como é um caminho sinuoso de cascalho e estamos num país tropical onde chove bastante, a água erode (adoro essas conjugações irregulares) a lombada por um dos lados. Por “culpa”da gravidade, é claro, apenas o mais baixo. Resultado: você vem dirigindo e só vê a lombada, mas do outro lado ela esta corroída, troncha. Um dos carros à minha frente entalou e ficou num ângulo engraçado, vertical. Um furdúncio para tirá-lo de lá. E não são poucas, apesar de utilidade questionável. É impossível alguém desenvolver velocidade nessa trilha — ou seja, as lombadas, como na maioria dos casos, são totalmente desnecessárias.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Nora Gonzalez
Coluna: Visão Feminina

Nora Gonzalez é jornalista, foi repórter (inclusive de indústria automobilística) e editora da Gazeta Mercantil e de O Estado de S. Paulo durante muitos anos. É fã de carros desde pequena, especialmente de Fórmula 1.

  • eNe

    A lei da vantagem é para perdedores.

  • Renato Texeira

    Sobre os desmanches, lembro de uma recente reportagem feita aqui em Porto Alegre, que constatou que alguns dos conhecidos desmanches ilegais estavam em terrenos alugados e que eram pertencentes a prefeitura. Para variar, a prefeitura disse que não sabia e não podia fazer nada. Não é a toa que Porto Alegre é a capital nacional do roubo de veículos.

  • Nora Gonzalez

    Carlos A., também vi a matéria sobre o seguro popular e já havia começado a pesquisar para escrever sobre isso. Quanto a comprar em desmanches, não vejo problemas se a origem da peça for lícita. Errado, e contraproducente, é alimentar a indústria do furto.

    • Carlos A.

      Nora, seria legal uma matéria sobre esse tal seguro popular. Sobre compra em desmanches não vejo problemas da forma como fiz, e até acho muito interessante a Lei atual com cadastro e rastreio das peças, mas mesmo assim prefiro efetuar essas compras em último caso, e sempre atento aos detalhes, na dúvida sobre a origem não compro. Infelizmente são poucos que pensam assim, do contrário não haveria praticamente roubos e furtos de veículos pois sem ‘clientes’ a atividade ilegal não se manteria.

    • Danniel

      Também vi a matéria sobre o seguro popular e minha opinião é a seguinte: se hoje eu tenho um carro segurado, em linha de produção ou que saiu de linha recentemente, porque não aproveitar que ainda há oferta de peças novas e originais? Alguns aqui sabem a dificuldade que passo para conseguir peças para o Omega, só,ente de estoques antigos esquecidos nos fundos das lojas ou de desmanches.

      A implementação da lei do desmanche em São Paulo foi muito interessante, o único contra que soube através de colegas, é que é necessário um CNPJ cadastrado no Detran para fazer a venda das peças. Isso proíbe uma pessoa física vender as peças do seu próprio carro, no caso por exemplo de um defeito muito caro de resolver.

  • Nora, eu já tive de recorrer a desmanche para comprar um capô dum Palio 2002 que tive porque simplesmente em todas as lojas de Fortaleza, ninguém, NINGUÉM, tinha o bendito capô para vender e fora daqui só de frete eu pagaria o mesmo da peça, pois o estado do Ceará gosta de morder uma diferença de alíquota de ICMS, coisas do nosso Brasil, de mercadorias compradas em outros estados e enviadas para cá.
    Apesar de ter comprado a contragosto, fui em um ferro-velho conhecido daqui que costuma comprar carros sinistrados de seguradoras e encontrei o capô em excelente estado, faltando só pintá-lo na cor do carro. Lembro que paguei coisa de R$ 250,00 no capô (o original custava coisa de uns R$ 350,00, mas ninguém tinha, como falei).
    Mas em regra evito ao máximo comprar peças em desmanches, principalmente os que você só de olhar sabe que é clandestino, justamente para evitar alimentar esse mercado que tanto conhecemos de comércio de peças e acessórios roubados.

    • Lorenzo Frigerio

      O pior de tudo… o capô original do desmanche é melhor que um novo do paralelo.

  • Gambiarra das boas a do seu avô hein! rsrsrs

    Vi uma gambitech parecida, não lembro se foi no Clube Peugeot ou outro site, um membro, pegou uma tampa dessas baratinhas, e enjambrou ali alguns fios, um de antena, uns três ou quatro coloridos…

    Ao sair do carro, ele tirava o painel frontal, e colocava aquela tampa. Quem olhava de fora, via apenas os fios caídos no painel, achava que o cara já tinha sido roubado, rsrsrsrs

  • Nora Gonzalez

    Fabio, a curva de nível serve para unir pontos de igual altitude de um determinado lugar. Neste caso, é lombada mesmo, pois não há o que igualar nem unir. Elas estão apenas na largura da estradinha.

  • Saci

    Estive em Teresina-PI dias atrás e me assustei com a escandalosa oferta de smartphones usados na Praça Rio Branco (centro da cidade).

    Escandalosa porque vi agentes fardados (não sei de qual instituição, se guardas municipais ou militares) transitando normalmente pelo local.

    O crime, no Brasil, começa de baixo e vai subindo… subindo… Ou começa de cima e vai descendo?

    • Marcelo R.

      Na minha humilde opinião, começa de baixo e vai subindo. Já que o princípio da democracia é que “todo poder emana do povo”, nossas “otoridades” são um reflexo da nossa sociedade, infelizmente. Tem político que superfatura obra, desvia verba? Sim, tem! Ao mesmo tempo, também temos aquele pedreiro “cidadão de bem”, “trabalhador”, que pede mais cimento e tijolos do que a obra necessita e vende o excedente, para tirar um “extra” sem que o contratante da obra saiba… Não são todos que fazem esse tipo de coisa. Mas, exemplos desse tipo se espalham por toda a sociedade, infelizmente…

  • János Márkus

    Aqui em Brasília temos uma região onde se concentram mais desses estabelecimentos. Dá para ver que muitos trabalham com carros comprados de leilão, pode-se dizer que é a maioria. Mas o que mais chama a atenção é a quantidade de veículos de serviço de concessionárias (todas, sem exceção) circulando na região frequentemente transportando peças que foram compradas lá. Ou seja, os clientes das concessionárias pagam caro por peça que dizem que é original.

    • Kar Yo

      Acho que a leitura pode ser outra. Pagamos caro por peças que não precisariam ser trocadas e que serão revendidas nesses estabelecimentos.

  • Alexander NotTheKing,
    parabéns pela postura.

  • Saci,
    mais ou menos. A última eleição para presidente mostrou uma nação dividida. Lamentavelmente .não aconteceu o que se deu na Argentina, o tirar aquela maluca do poder e entrar o Maurício Macri.

    • Daniel S. de Araujo

      Bob, por isso que digo: Lula representa o que há de pior na sociedade brasileira. A sociedade do jeitinho, da moral flexível. que acha normal se locupletar do cargo, que acha bonito o cara comparar tudo a uma grande partida de futebol, e por aí afora.

  • Corsário,
    acho que sinal de que o brasileiro mudou será ao entrar num banheiro público e ver a privada limpa por ter sido dado descarga após o uso. Enquanto isso não acontecer, nada feito.

    • CorsarioViajante

      Perfeito.

    • Saci

      Hahaha, ótimo exemplo.
      A propósito, em um país cujo estado mais rico e produtivo onde um ex-procurador de justiça do Ministério Público (licenciou-se para se tornar Deputado) é um dos principais investigados por ROUBAR merenda escolar de escolas públicas (merenda de crianças carentes!!!) não se pode esperar nada.

    • Roberto Neves

      Bob, eu trabalho há 31 anos numa das maiores empresas públicas do país. Hoje mesmo entrei no sanitário (limpo várias vezes por dia, perfumado com os melhores produtos) e encontrei a privada usada e papel higiênico. Não haviam dado descarga. É comum encontrar papel higiênico pelo chão, urina ao redor do vaso etc. É triste a falta de educação básica. Isso, repito, numa grande empresa pública que realiza concurso público dificílimo para ingresso em seus quadros.

  • Fernando

    Já analisei um tanto essas questões de marcação das peças, porém como unitariamente elas não possuem número de série(os rádios sim…) fica complicado de saber se aquela etiqueta que consta nessa peça no desmanche seja realmente uma etiqueta original, isso pode muito bem acontecer e levar mesmo uma pessoa que esteja bem intencionada a levar um produto roubado e com uma etiqueta que leve a um engano.

    Um método um tanto interessante é fazer uma marcação padrão de numeração de peças(como em armas), coincidindo com o número do chassi do carro(ou renavam) e assim esse número não poder ser aceito se estiver danificado(e neste caso a peça ser obrigada a ser descartada) ou ausente. Simples e que evita certos enganos, e em que o consumidor poderia ter acesso ao número do chassi/renavam e por si consultar a situação do veículo de origem dessa peça, se realmente foi baixado ou se é produto de roubo.

  • Nora Gonzalez

    Mr. Car, parabéns a você pela sua atitude – mas agradeço pelo Dia da Mulher.

  • Nora Gonzalez

    Alexander NotTheKing, adoro conhecer exemplos que provam que há, sim, gente correta e que uma postura decente compensa. Parabéns.

  • Nora Gonzalez

    CorsarioViajante, deve ser o mesmo tipo de pessoa que prefere andar com uma bolsa falsificada de má qualidade do que com uma bem feita mas de grife menos conhecida ou sem nenhuma grife. E ainda acha que leva vantagem… haja divã para tratar disso.

  • Arno moura cavalcanti

    Em se tratando de lataria,a usada em bom estado, é superior à nova comprada na autorizada.Principalmente as vedações com KPO e a lisura da chapa.
    reza a lenda que nas fabricas as melhores peças vão para a linha de montagem.
    As que têm algum defeito vão para a reposição

  • Renato Sacramento

    Alexander, não sei se já jogou games na vida. Se sim, entenderá meu comentário: FATALITY!!!

  • Daniel S. de Araujo

    Nora, esse seu texto remeteu minha mente ao inicio dos anos de 1990, quando a moda eram os toca-fitas Bosch (Rio de Janeiro, Los Angeles, Miami etc.).

    Nessa época, um amigo de meu tio queria comprar um toca-fitas para sua Marajó e assim fomos (eu era moleque e fui junto) parar na Galera Pagé. Na primeira loja que fomos, o vendedor apareceu com uns aparelhos de marcas exóticas e o amigo de meu tio disse que na verdade ele queria algo da Bosch. O vendedor, mais do que depressa, disse:
    – Bosch no momento eu não tenho mas se o senhor esperar meia hora, eu te arrumo o modelo que o senhor quiser…

  • Renato Sacramento

    Muito oportuno o texto e muitos dos comentários!

    Sobre a questão de tanto o estado, quanto o cidadão fazer a sua parte, lembro-me de um esclarecimento feito pelo colunista da BBC Brasil, Tim Vickery, sobre como a Inglaterra conseguiu acabar com o problema dos Hooligans nos estádios. Segundo ele, o estado tomou a iniciativa em criar dispositivos efetivos que impedissem a entrada e/ou a permanência dos mesmos naqueles locais. E através de campanhas na mídia, os verdadeiros torcedores, que antes procuravam os Hooligans no estádio, para ficar mais próximos deles (onde os mesmo conseguiam entrar), passaram a afastar-se, deixando-os isolados. Ou seja, a mensagem sem voz era clara: “basta! Não toleramos mais vocês!”

    Trazendo este exemplo para o assunto abordado, de fato, o estado pode fazer campanhas e leis, mas se o “organismo” chamado sociedade não esforçar-se pra expurgar a “doença”, o efeito será fraco, quase imperceptível.

    Aliás, pra quem ainda não assistiu este vídeo, por favor, tente identificar como alguém honesto mantém a sua opinião até o fim, mesmo diante de uma forte opinião contrária. E veja também como um desonesto contumaz possui desculpas na ponta da língua (apesar de presa) para torcer os fatos em favor da desonestidade.

    • Nora Gonzalez

      Renato Sacramento, sem comentários (modo irônico ativado). Depois de ver isto, voltei a ler a mensagem de AlexanderNotTheKing para me lembrar que a honestidade e a retidão compensam.

  • Leonardo Mendes

    Quando vi a chamada do texto, antes de clicar, já pensei “É texto da Nora“, mas foi dito e feito.

    Essa questão levantada no texto me lembra um comentário que fiz recentemente em rede social sobre a epidemia de roubos de rodas aqui em Santos… somos a única cidade do litoral do estado onde você estaciona seu carro, anda dois quarteirões e encontra suas rodas à venda por um preço camarada.

  • Patricia Sharp

    Oi, Nora, sou a mulher do Bob. Adoro suas colunas, parabéns!

  • Bucco

    Você tem pena das Teles? Não confunda replicação de informação (uns e zeros) com roubo de mercadoria. Gatonet é direito de todos. Subtrair peças de carro, não.

    • Malaman

      Todo desonesto tem explicação para suas atitudes. Essa de que são só zeros e uns é nova para mim.