Cuba, além de sua história sujeita a chuvas e trovoadas, tem praias lindíssimas (afinal, ela está no Caribe), os charutos mais famosos do mundo (“puros”), o daiquiri feito com seu inigualável rum, a música — salsa e rumba — no sangue e no coração do povo e a única frota de automóveis do mundo que parou no tempo… e  que deve ter encantado a comitiva de Barack Obama na semana passada.

O país é todo um museu com raridades que desfilam a céu aberto, mas tem também um outro, este com teto e com o acervo montado a partir de veículos “confiscados” pelo regime de Fidel Castro.

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Uma imagem notável, os carros típicos e ao fundo o Capitólio de Havana, construído em 1929 destinado a abrigar as duas câmaras do Congresso; a cúpula chega a 91,73 metros de altura

Fui a Cuba conhecer o país, um pouco da sua história, e a da revolución de 1959 e, claro, os dois “museus”!

 

Museu sem teto

É indiscutível o talento dos mecânicos cubanos, pois conseguem manter rodando verdadeiras sucatas sobre rodas. São cerca de 50 mil “banheirões” americanos, todos fabricados até o início da década de 1960, quando os EUA cortaram relações diplomáticas e decretaram o embargo econômico ao país. Além deles, o que se vê hoje em Cuba são principalmente dois modelos compactos russos, o Lada e o Moskvitch. E alguns franceses, italianos e asiáticos, principalmente Kia e Hyundai. Ônibus e caminhões modernos são chineses.

Embora o país tenha aberto, há três anos, a possibilidade do livre comércio de automóveis, sua importação e exportação não tem volume significativo. A baixa renda da população impede o acesso aos automóveis importados e, embora várias fábricas estejam de olho neste mercado, há dificuldades burocráticas e falta infraestrutura para o pós-venda (assistência técnica). E seu preço é muito elevado pois se paga impostos “Padrão Brasil”: um compacto importado não sai por menos que US$ 25 mil. Um Mercedes não chega lá por menos que US$ 100 mil.

Por outro lado, exportar os antigos é também quase impossível: os empecilhos do governo, o preço e o estado miserável de quase todos os carros americanos não anima os colecionadores…

As fotos e vídeos dos automóveis que rodam em Cuba não revelam seu estado real de conservação e desanimam o colecionador, pois são muito raros os que mantêm a originalidade. Os carros utilizados como táxi já tiveram a mecânica completamente alterada: motores a gasolina foram substituídos por diesel, mais barato e de menor consumo.  A maioria roda com motor e câmbio Mercedes ou Mitsubishi.  A quase totalidade dos conversíveis não saíram assim da linha de montagem: tiveram seu teto cortado e adaptado um tosco sistema para encaixar a capota de lona.

Suspensão e freios são também adaptados na maioria deles. E, finalmente, seu preço é elevadíssimo, pelos padrões internacionais: um sedã de quatro portas americano da década de 50 (Chevrolet, Ford, Buick, Oldsmobile) vale de 15 a 20 mil dólares, muito mais que um modelo similar nos EUA. E, como originalidade não consta do cardápio, os cubanos vão no embalo da adaptação e quase todos são apaixonados por rodas mais largas e esportivas. Verdadeiro tiro de misericórdia do que se poderia manter de original no automóvel…

 

Museu com teto

Qualquer cidade de Cuba tem um museu dinâmico de automóveis: é a própria frota circulante. Mas é raríssimo de se ver nas ruas um carro que mantenha sua originalidade, pois a dificuldade do comércio e o boicote econômico impostos pelos EUA em 1961 privou seus donos da reposição de componentes.

O único lugar onde se percebe originalidade é no Museo del Automóvil de Habana. Embora estatal, é mal divulgado, carece de verbas para manutenção e é pouco prestigiado pelo próprio governo. Ele foi deslocado recentemente de uma rua nobre numa região restaurada no centro de Havana, mas nem o escritório central de turismo de La Havana Vieja indica seu novo endereço, num galpão na região portuária da cidade.

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LaSalle modelo 340 V-8 Sedã Imperial 1930

É de procedência americana a maioria dos cerca de 50 veículos de seu acervo, entre automóveis (alguns muito raros), motos e caminhões. Havana viveu anos de muita fartura financeira até a revolução de 1959, pois o governo do ditador Fulgêncio Batista estimulou toda a máfia dos jogos dos EUA a montar seus negócios em Cuba. Não faltavam, na época, cassinos, boates, hotéis de luxo, artistas e prostitutas que fermentavam as noites. E que traziam milhões de dólares. Além da importação de modelos médios da GM, Ford e Chrysler, chegavam também Cadillacs, Lincolns, Rolls-Royce, Bentley e Mercedes-Benz.

Os automóveis expostos no museu de Havana não brilham como nos museus de outros países: são originais, mas foram tomados de seus proprietários para integrar seu acervo e mantidos como se encontravam, sem nenhuma restauração.

Entre os americanos, desde Fordinho modelo T da década de 1910 até um Chevrolet 1957 usado por “Che” Guevara. Entre os europeus, Rolls, Daimler e alguns Alfa Romeo. Caminhões Republic e Mack muito raros e motos completam a coleção, instalada hoje num galpão abandonado por muitos anos no porto de Havana, com montagem e iluminação precárias. Na fachada, sequer uma placa indicando que o prédio abriga raridades mecânicas….

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A segunda motocicleta é uma Harley-Davidson, já o resto, só um perito no assunto…

BF

 

Sobre o Autor

Boris Feldman
Coluna: Opinião de Boris Feldman

Boris Feldman é engenheiro elétrico formado pela UFMG, também formado em Comunicação, jornalista especializado em veículos e colecionador de automóveis antigos. Além da coluna Opinião de Boris Feldman no AUTOentusiastas, é colunista do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, e do jornal O Povo, de Fortaleza e tem o programa de rádio Auto Papo, na emissora Alpha FM, de São Paulo, e em mais 38 emissoras pelo país, com três edições diárias.

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