“A vida começa todos os dias” — Érico Veríssimo

Eu ainda era um meio adolescente quando uma imagem ficou marcada em minha memória. Estava eu simplesmente olhando o movimento da rua quando vi um jipe passar com dois rapazes MUITO sujos, mas MUITO sorridentes. Eles tinham um sorriso que extrapolava a alegria. Na verdade, transmitia felicidade. Coisa simples.

Foi mais ou menos nessa mesma época que meu interesse — que viraria paixão — pelo mundo a motor despertou. Carros e motos eram assuntos cada vez mais presentes no dia a dia. E, então, eis que um dia apareceu a oportunidade de “fazer” uma trilha de moto. E nesse dia nasceu uma paixão: o off-road. E que poucos anos mais tarde foi (muito) intensificado com os carros 4×4. E a paixão virou profissão. E da primeira trilha até hoje já se passaram 26 anos.

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Como se pode “terminar” um dia off-road; muito sujo pode significar muita diversão e muito trabalho em equipe (autor)

Conto isso para, de certa forma, dizer que foi o “acaso” que me levou até o Off-Road. Mas foi a paixão que me faz viver isso intensamente até hoje.

Esse site é voltado àqueles que tem paixão por automóveis, afinal o nome já diz tudo: Autoentusiastas. E imagino que muitos leitores do site achem totalmente incompatível a paixão por um automóvel com a prática do off-road. Basicamente, imagino que o “dó” de usar o carro nas condições fora-de-estrada, nas trilhas da vida, é que traga esse sentimento.

Puxe da memória, volte aos tempos de criança. Lembra como era “gostoso” brincar de carrinho”? Tenha a certeza que é quase a mesma coisa. O que eu vou tentar mostrar com essa matéria é justamente isso. E como pode ser interessante, divertido, prazeroso e ainda trazer novos amigos, conhecer novos lugares e um novo estilo de vida. E não custa nada lembrar que a vida é muito curta e efêmera para não aproveitá-la.

Quando você usa o carro no asfalto em avenidas e rodovias, o prazer em dirigir está em “controlar” a máquina, sentir suas reações, provocá-lo, contornar as curvas, brincar com as leis da física e por aí vai. Quando em pista e em local controlado, é hora de buscar os limites, aumentar a velocidade, a ação da força G sobre você e sobre o carro e, ainda assim, tentar ao máximo manter-se no controle, explorando as situações.

E acredite, tudo isso é potencializado no off-road. Controlar a máquina, fazer a abordagem correta de cada obstáculo, usar a técnica correta, brincar com as inclinações em subidas e descidas, andar a 40 km/h no meio do mato e ter a sensação de estar a mais de 120km/h (pois, tudo a sua volta e perto passa mais rápido e a análise de terreno e condições é enorme em pouco espaço de tempo), superar os terrenos difíceis e tudo isso se soma à sensação de liberdade, o contato com a natureza, as paisagens encantadoras, os lugarejos e a vida simples dos lugares simples. A lista é imensa. Acho que eu ficaria enumerando por parágrafos e mais parágrafos.

Controlar a "máquina" em terrenos acidentados e inclinados pode trazer uma "adrenalina" inacreditável. Foto: auto na Serra da Canastra (MG)

Controlar a “máquina” em terrenos acidentados e inclinados pode trazer uma “adrenalina” inacreditável (Foto: autor, na Serra da Canastra, MG)

Off-road estraga o carro?

A resposta é: depende. Como tudo na vida, depende. Vai depender do seu jeito de dirigir nas trilhas, do tipo de trilha que você vai fazer, do carro que você vai escolher e de uma série de outras variáveis, entre elas a experiência adquirida  — por isso mesmo, a dica é sempre começar aos poucos.

É claro que os elementos do fora-de-estrada (barro, areia, pedra etc.) trazem maior desgaste do que apenas trafegar pelo asfalto. Mas, tenha em mente que um bom veículo 4×4 para uso em aventura é projetado para esse fim e para essas condições. Portanto, fora uma manutenção preventiva mais frequente, o uso moderado e em trilhas leves pouco desgaste traz aos veículos.

Um item que muita gente considera é a conservação da pintura, da carroceria. De fato, o uso no fora-de-estrada costuma causar maior agressão à pintura, em função de andar “no meio do mato”, entre pedras e outras dificuldades. Mas costumo contar uma história de alguns anos atrás, quando eu tinha um veículo que não ia para a trilha e numa única semana um ralado num portão e um riscado fundo que apareceu na rua, o carro estacionado, o deixaram em pior estado do que o outro jipe que eu tinha e que ia para a trilha a toda hora. Então, isso também depende.

Mas o fundamental aqui é entender o conceito entre usar e aproveitar ou não usar e conservar. Resumindo: ou você usa e se diverte ou faz a opção por não aproveitar tudo o que um veículo 4×4 pode lhe proporcionar e, assim, eventualmente, conservar o carro um pouco mais.

Além disso, existem várias e várias formas de “brincar” no Off-Road. Você pode usá-lo para trilhas, passeios, viagens, expedições, ralis de regularidade e velocidade (veja ao final do texto).

Em certas situações mais extremas qualquer descuido pode, sim, trazer algum dano ao veículo. Foto: autor na Serra do Japi, na região de Jundiaí (SP)

Em certas situações mais extremas qualquer descuido pode, sim, trazer algum dano ao veículo (Foto: autor, na Serra do Japi, na região de Jundiaí, SP)

Off-road é caro?

Basicamente, não. Existem bons carros 4×4 usados para uso em trilhas a partir de pouco mais de R$ 10.000. Claro, quanto mais velho menos confiável e mais chance de gastar com manutenção. Com valores na faixa de R$ 50.000 é possível comprar ótimos veículos 4×4 usados e já se chega perto de alguns veículos seminovos. Você pode pensar em ter um veículo melhor para uso múltiplo, ou seja, o seu uso diário e mais a prática do off-road. E também há a opção de ter um segundo veículo (mais velho, mais rústico, mais simples) apenas para off-road.

Alguns exemplos (em valores aproximados e em condições normais de uso, sem acessórios que possam agregar valor):

  • Lada Niva 1,6-L gasolina ano 1991 – R$ 10.000
  • Nissan Pathfinder 3-L V-6 gasolina ano 1991 – R$ 15.000
  • Suzuki Samurai 1,3-L gasolina ano 1995 – R$ 15.000
  • Suzuki Vitara 1,6-L gasolina ano 1997 – R$ 20.000
  • Mitsubishi Pajero 2-portas 3-L V-6 gasolina ano 1998 – R$ 25.000
  • Land Rover Discovery 1 3-L V-8 gasolina ano 1997 – R$ 25.000
  • Mitsubishi Pajero TR4 2-Ll gasolina 2005 – R$ 30.000
  • Toyota Hilux SW4 3-L diesel  ano 2000 – R$ 35.000
  • Jeep Wrangler 2-portas 4-L gasolina ano 1998 – R$ 40.000
  • Land Rover Defender 90 2,5-L diesel 2-portas ano 1998 – R$ 45.000
  • Mitsubishi Pajero TR4 2-L gasolina 2011 – R$ 45.000
  • Troller T4 2,8-L diesel ano 2006 – R$ 50.000
  • Land Rover Defender 110 2,5-L diesel 4-portas ano 2001 – R$ 55.000
  • Suzuki Jimny 1,3-L gasolina ano 2015 – R$ 55.000

Em termos de manutenção, sempre vai depender muito do tipo e quantidade de trilhas que você faça e do estado e qualidade do seu veículo. Pode variar muito, mesmo.

Para um passeio simples você não gastaria muito mais do que pensar em sair para almoçar numa cidade a 100 quilômetros de sua casa, uma referência para uma ideia de valor de um passeio simples.

Um grande comboio de veículos 4x4 com diversas marcas, modelos, tamanhos e preços. Foto: São Bento do Sapucaí (SP)

Um grande comboio de veículos 4×4 com diversas marcas, modelos, tamanhos e preços (Foto: São Bento do Sapucaí, SP)

Estilo de vida

Eu — e muita gente — entende o Off-Road como um estilo de vida. O carro, na verdade, é apenas um meio. Você o usa para um outro fim e ele passa a ter mais do que a simples finalidade da locomoção diária para ir trabalhar e resolver suas coisas. No Off-Road o carro ganha “nova vida”, ele lhe leva a lugares diferentes, lhe leva a lugares passando por caminhos onde um veículo “comum” não ousaria chegar perto, ele lhe “insere” num mundo de apaixonados por 4×4. Nas trilhas mais difíceis você vai reaprender o trabalho com companheirismo e em equipe, vai assimilar que um carro de R$ 100.000 pode ser ajudado por um carro de R$ 15.000 e ninguém é melhor do que ninguém na hora da dificuldade… E por aí vai.

Esse estilo de vida passa por reunir os amigos, marcar um passeio ou viagem, escolher o roteiro com as melhores trilhas, sair em grupo, utilizar o rádio de comunicação (isso é muito comum) para que todos se falem durante o passeio, fazer novos amigos, rever velhos amigos, conhecer lugares novos, rever lugares, fotografar, filmar e colecionar histórias para contar.

Uma grande diferença do Off-Road num veículo 4×4 e numa moto é a integração entre as pessoas. No carro você pode levar mais gente (sua família e amigos, por exemplo), os carros podem ser equipados com rádios e você consegue falar com os demais integrantes durante o passeio e a trilha, você pode levar mais coisas para uma viagem (curta ou longa), para um piquenique c à beira de um lago ou no alto de uma montanha, pode desfrutar de mais conforto e, principalmente, segurança.

Durante um passeio uma parada em grupo para um pic-nic pode ser um grande momento de confraternização. Foto: autor no sertão do PIauí

Durante um passeio uma parada em grupo para um piquenique pode ser um grande momento de confraternização (Foto: autor, no sertão do Piauí)

Diferentes formas de praticar Off-Road

Com um carro 4×4 nas mãos, você pode decidir entre várias “modalidades” de atividades para praticar Off-Road, cada qual com sua diversão, seu público de adeptos, seu tipo de veículo mais apropriado e outras. E pode escolher uma, duas ou todas. Abaixo segue uma simples tabela para explicar um pouco a diferença entre essas principais modalidades (fotos ao final da matéria).

Atividade Descrição Tipo de Veículo Acessórios ou Modificações Faixa de Custo
Passeios e Viagens Curtas A ideia é conhecer lugares novos, não muito distantes e trilhas leves Qualquer veículo 4×4 equipado com reduzida em condições originais Utilize um pneu do tipo All-Terrain Menor
Trilhas A ideia é vencer obstáculos difíceis, caminhos desafiadores e terrenos complicados Veículos com estrutura de chassis e carroceria e eixos rígidos são desejáveis, entre- eixos curtos pode melhorar o desempenho Guincho, cintas de reboque, pneus mud-terrain,

Suspensões reforçadas e elevadas

Média
Expedição A ideia são viagens longas com grandes distâncias e muitos dias (ou meses) Veículos originais, espaçosos, com grande capacidade de carga e alta autonomia, mecânica confiável e rede de assistência na região da viagem Guincho, equipamentos de camping e sobrevivência, pneus do tipo All-Terrain,

GPS

Alto
Rali de Regularidade Competição onde se mede as equipes (duplas) que cumpriram as velocidades médias do roteiro com maior precisão Veículos originais com suspensões fortes e resistentes, motores de bom desempenho e bom comportamento em baixas rotações e pequeno diâmetro de giro Sistemas de navegação em ralis, pneus do tipo mud-terrain, itens de segurança adicionais (cinto de quatro pontos, por exemplo) Média
Rali de Velocidade Competição onde se mede as equipes que cumprem o trajeto em menor tempo, ou seja, maior velocidade Veículo modificado com gaiola de segurança, bancos e cintos de competição, peso aliviado, suspensão reforçada e preparada para altos impactos e saltos Proteções inferiores, pneus all-terrain e mud-terrain conforme o clima no dia Muito Alto

Importante: numa matéria futura vamos falar de dicas de equipamentos para a prática do Off-Road.

Conclusão

A ideia dessa matéria era mostrar um pouco do universo Off-Road. E desmistificar algumas ideias que a maioria das pessoas tem sobre o assunto. Tenha a certeza de que o off-road não deixa ninguém indiferente: ou você ama ou você odeia. A vida em aventura lhe traz a oportunidade de inúmeras histórias para contar, de experiências para viver, de amizades a fortalecer e lugares para conhecer. Não pense que apenas lugares longínquos são encantadores. Muitas pessoas ficam absolutamente surpresas com lugares que são possíveis conhecer a apenas 70 ou 80 quilômetros a partir de grandes cidades como São Paulo.

Quando me profissionalizei, um dos lemas que adotei foi “disseminar o estilo de vida off-road, com entusiasmo e alegria”. Se essa matéria lhe empolgou a pensar no assunto, me ajudou um pouco mais a seguir com essa missão e, principalmente, me deixou mais feliz.

Espero encontrar vocês em breve. Quem sabe em alguma trilha e num veículo 4×4.

Nota do AE:
Atendendo a pedidos de alguns leitores estamos estudando a organização de um passeio off-road AE organizado pelo Luís Fernando Carqueijo.  Mas precisamos avaliar a viabilidade e o interesse de um grupo maior. Caso você tenha interesse por favor responda o questionário deste link: Pesquisa Passeio Off-road. E se conhecer alguém que possa se interessar compartilhe o link. Obrigado.

Mais fotos

Atoleiros podem segurar o carro e você vai precisar de um guincho ou a ajuda de outro carro. Foto: Embú das Artes (SP)

Atoleiros podem segurar o carro e você vai precisar de um guincho ou a ajuda de outro carro (Foto em Embu das Artes, SP)

Atravessando dunas no Maranhão durante uma Expedição. As grandes viagens sempre são uma experiência fascinante. Foto: autor

Atravessando dunas no Maranhão durante uma Expedição; as grandes viagens sempre são uma experiência fascinante (Foto do autor)

Levantando poeira em Rally de Regularidade no ano de 2006. Foto: Donizeti Castilho

Levantando poeira em Rali de Regularidade no ano de 2006 (Foto: Donizeti Castilho)

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Ralis de Velocidade como o Rally dos Sertões requerem veículos preparados (principalmente, em itens de segurança e estrutura) e experiência. Mas são incomparáveis em aventura e adrenalina ( Foto: Rally dos Sertões 2009 – Etapa 3)

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