A última semana de janeiro passado foi bem agitada no mundo da informática. Na terça-feira a Ford lançou seu sistema SYNC 3 na Campus Party 2016, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, e eu estive lá.

No dia seguinte, a notícia que tomou Wall Street de surpresa: a toda-poderosa Apple anunciou que as vendas do iPhone estagnou e previu que haverá diminuição do lucro no próximo trimestre. Muita discussão a respeito. Seria um fenômeno previsível ou não? Na quinta-feira, era a vez da Samsung se manifestar, avisando que 2016 seria um ano péssimo para o setor de smartphones.

Veio a sexta-feira e mais notícias ruins: a Microsoft revela que sua divisão de smartphones Lumia vendeu em 2015 menos da metade dos aparelhos vendidos em 2014, e a Sony também revelou desaceleração de vendas dos seus smartphones.

Pode não parecer, mas estas notícias e outras estão todas interligadas. Não estamos falando apenas de smartphones conectando ao painel do carro para atendermos ligações telefônicas ou ouvir música em MP3. Há muito mais coisas em jogo.

Mas vamos começar devagar.

 

Ford lança o SYNC 3 na Campus Party

A Campus Party é uma grande festa, mas diferente das demais. É uma festa onde tecnologia e diversão se juntam, com muita cultura hacker e nerd se misturando com os eventos de grandes fabricantes da área de TI (Tecnologia da Informação), regados por uma conexão de internet dos sonhos. Ali é onde muitas empresas aproveitam para fazerem seus lançamentos. E foi o que fez a Ford ao lançar o SYNC 3, sendo a única fabricante de automóveis no evento.

Não vou nem mencionar aqui os repetitivos press releases já bastante comentados.
Para isso, deixo a apresentação do SYNC 3 nas palavras da própria Ford:

A apresentação disfarça muitos detalhes. A novidade do SYNC 3 ser compatível com os sistemas Car Play da Apple e Android Auto do Google é provavelmente a menos importante. É apenas a tomada de tecnologias que em breve estarão nos painéis de carros de todos os fabricantes.

Também é pouco importante o que já é óbvio. Smartphones se conectando por Bluetooth ao painel do carro, oferecendo serviços de mapas online, telefone viva-voz, rádios online e música, todo mundo já tem. Não precisaria essa atualização para oferecer essas facilidades. A verdadeira importância do lançamento do SYNC 3 para a Ford foi mencionada muito sutilmente na apresentação: a integração à chamada “Internet das Coisas”, um novo mundo que promete unir o mundo físico ao digital.

 

A Internet das Coisas

A ideia de conectar objetos não é nova. Um bom exemplo disso é o JAVA, uma mistura de linguagem de programação e máquina virtual que é das mais importantes hoje na internet. Em sua origem há mais de 20 anos, o JAVA não pretendia criar aplicativos para a internet, mas promover a criação de programas de automação para objetos e até interconectá-los, independente das arquiteturas usadas.

A chamada “Internet das Coisas” é uma revolução silenciosa que vem ocorrendo por enquanto dentro de grandes laboratórios de pesquisa e que promete em breve chegar ao mercado. Ela é baseada em dois pilares principais:

– Todos os objetos receberão um chip dedicado, conferindo inteligência a esses objetos e permitindo que eles se comuniquem livremente entre si;
– Muitos objetos se comunicarão entre si e com o ambiente via dispositivos RFID (sigla em inglês de Identificação por Radiofrequência). Além responder com uma identificação única no planeta inteiro, cada dispositivo RFID pode ser equipado com dezenas de tipos de sensor e informar a leitura dele ao dispositivo que o está “interrogando”.


Em resumo, podemos pensar que a Internet das Coisas é uma forma de todas as coisas se comunicarem com todas as outras coisas.

Vamos pensar no seguinte cenário: Você toma seu café da manhã, e retorna para a geladeira a caixinha de leite pela metade e vai trabalhar. No final do expediente, você volta para seu carro e ele se conecta ao seu smartphone. O conjunto automóvel e smartphone usa a internet para se comunicar com os dispositivos na sua casa e verificar se está tudo bem. Ao conversar com sua geladeira, ela informa que a caixinha de leite está pela metade e que outros alimentos estão quase fora da validade. E como a geladeira sabe isso? A caixinha de leite e as embalagens possuem chips RFID que identificam o tipo do produto, o fabricante, as datas de fabricação e validade, e no caso da caixinha de leite, o dispositivo RFID possui um sensor de nível para saber quanto leite tem dentro dela. A prateleira da despensa também possui um computador que lê tudo que está guardado lá, de alimentos a remédios. A despensa também informa que alimentos estão perto da data de validade.

Tudo isso é informado por um assistente pessoal baseado em inteligência artificial  por meio de voz  enquanto você dirige. Esse assistente pode então propor algumas receitas para você aproveitar os ingredientes que estão para vencer. Entretanto, a receita que você escolheu possui ingredientes que não estão presentes, mas de qualquer forma, o estoque de leite na dispensa está baixo e você precisa realmente passar no supermercado. O assistente então sugere um supermercado habitual no caminho de volta para casa, e já altera a rota prevista no GPS do carro para ir ao supermercado.

Dentro do supermercado, seu smartphone já vem com uma lista de compras que seu assistente pessoal montou, e não precisa esperar em filas nos caixas, pois totens  na saída automaticamente reconhecem todo conteúdo do seu carrinho, consultam seu smartphone, liberam a compra pelo cartão de crédito e imprimem o cupom fiscal.

Ao sair do supermercado, seu assistente pessoal pode preparar a banheira para seu banho, e quando você chega em casa, o portão é automaticamente aberto e a luz da garagem é acesa. Você não precisa de chaves para entrar em casa porque o sistema de segurança tem vários sinais da sua presença na casa (seu smartphone, seu carro), mas ainda assim, uma câmera de vigilância reconhece seu rosto e destranca automaticamente sua porta.

Após o banho previamente preparado, você põe as compras na despensa e na geladeira, que reconhecem automaticamente o novo conteúdo ao varrer os dispositivos RFID presentes. Quando você olha para a tela da geladeira, lá já está a receita que você combinou com seu assistente.

Tudo isso é feito porque cada componente com que a pessoa se relaciona, desde os mais óbvios como o smartphone e o carro, até os mais inesperados, como o portão automático e a lâmpada da garagem, estão integrados e se comunicam livremente pela internet.

O nome “Internet das Coisas” vem exatamente desta realidade. Os pesquisadores perceberam que a internet hoje é uma internet de pessoas. O tráfego de dados existe essencialmente de máquinas que conversam entre si atendendo processos humanos. O tráfego de dados da Internet das Coisas será essencialmente de máquinas fazendo pedidos para outras máquinas de forma automática, sem intervenção humana no processo. Entretanto este é um fato que ainda não foi bem explicado ao público.

 

A Internet das Coisas é uma grande revolução social

Muitos cientistas hoje começam a pensar na vida do planeta sob uma nova escala. Biólogos começam a entender formigueiros não mais como um agrupamento organizado de formigas, mas como um organismo vivo inteligente. Demorou anos para que o conceito de entidade viva evoluísse do conceito de ser individualizado para um de um ser esparso, amorfo e sem conexão mecânica entre seus elementos. Este conceito levou ao surgimento da Teoria Gaia, proposta pelo cientista britânico James Lovelock em 1969, onde toda biosfera e toda geologia do planeta se juntam para formar um grande ser vivo.

Estas teorias influenciaram a forma como a paleontologia, a arqueologia e a sociologia encaram o fenômeno da sociedade humana. Hoje as sociedades humanas em todos os tempos são compreendidas como seres vivos e com comportamento inteligente. Porém as sociedades humanas possuem um diferencial quanto às demais sociedades: nós criamos ferramentas, e estas ferramentas não só são internalizadas à estrutura social, como a transforma. Foi assim com o machado de pedra, o domínio do fogo e a invenção da roda.

São vistos desta forma a evolução dos grandes meios de transporte, como os navios, trens e mais recentemente aviões e automóveis.

Um automóvel por si só não é uma entidade viva, mas quando dentro de um contexto humano, ele faz parte e transforma o tecido social, assim como o cálcio, uma verdadeiro mineral, forma nossos ossos e dependemos dele para viver.

É aqui onde a Internet das Coisas pode revolucionar a sociedade humana. Todos os objetos, do mais sofisticado avião à mais simples lâmpada elétrica, a introdução de elementos de automação é capaz de trazer algum nível de inteligência para objetos anteriormente passivos e sem vida. Com a Internet das Coisas, muitas das transformações do mundo real que hoje dependem exclusivamente da vontade humana passarão a ocorrer pela interação direta entre as máquinas. Isso irá transformar muitas das formas com que podemos nos relacionar com o mundo num futuro muito próximo.

Uma das melhores definições do que é a Internet das Coisas é dada pela Technopedia:

A Internet das Coisas (Internet of Things – IoT) é um conceito de computação que descreve um futuro em que os objetos físicos todos os dias estarão conectados à Internet e serão capazes de identificar-se junto a outros dispositivos. O termo está intimamente identificado com RFID como o método de comunicação, embora também poderia incluir outras tecnologias de sensores, outras tecnologias sem fio, os códigos QR, etc..

Internet das Coisas é importante porque um objeto que pode representar a si mesmo torna-se digitalmente algo maior do que quando o objeto existe por si só. Não é mais o objeto se relacionando apenas com você , mas agora ele está conectado aos objetos ao seu redor, os dados de um banco de dados , etc. Quando muitos objetos agem em uníssono, eles são referidos como tendo inteligência ambiente.

Como vemos, esta definição abarca a hipótese da inteligência coletiva promovida pela Internet das Coisas.

 

O automóvel na Internet das Coisas

Dentro do universo que é a Internet das Coisas, o automóvel é um microcosmo em si mesmo, se relacionando com os dispositivos a bordo assim como diversos dispositivos que o circundam. Em princípio, a definição de carro conectado é bastante ampla, já que mesmo um carro com um rádio com Bluetooth que permita ouvir multimídia ou ligações telefônicas pode ser considerado como conectado. Entretanto, o conceito vai muito além.

Um carro moderno, por si só já possui uma rede embarcada que faz todos os subsistemas funcionarem. Esta rede controla e mantém conectados o motor, o câmbio, os sistemas de segurança como ABS, o controle de tração e de estabilidade, todo sistema de multimídia, entre outras coisas.

Por ali passam muitos dados de importância apenas imediata e que logo são esquecidos dentro do conceito fechado de automóvel. Entretanto, estes dados podem assumir diferentes aspectos quando são transportados para o mundo exterior.

Imagine quantas vezes você não parou em um cruzamento vazio porque o sinal estava fechado. Pensando de uma forma lógica, isso é uma idiotice. Puro desperdício de tempo e dinheiro, mas era a única forma de funcionar, dada a falta de interação entre o seu automóvel e o sinal à frente.

Mas num carro conectado não tem de ser assim. O carro pode se comunicar com o sinal à frente, e caso não venha ninguém, o sinal é mantido aberto para que você possa atravessá-lo com segurança e sem ter de parar inutilmente. Entretanto, se outro carro estiver se aproximando do cruzamento pela via transversal, o sinal pode ponderar a prioridade de cada carro, e caso o outro tenha a prioridade, você será avisado que deve parar antes de cruzar. Mas basta o outro carro atravessar o cruzamento, o sinal é liberado para você. Economia com segurança.

Outro exemplo mostra como informações aparentemente muito simples podem gerar informações muito sólidas. Vamos pensar em um limpador de para-brisa. É um dispositivo bem simples do automóvel. Um automóvel com um limpador ligado não quer dizer muita coisa, mas quando os carros próximos estão todos com limpadores ligados, isso é sinal de chuva. Parece uma ideia boba, mas é possível medir a fronteira que separa o tempo seco da chuva, e a velocidade do limpador é uma indicação da intensidade da chuva.

No caso de um carro convencional, o limpador de para-brisa apenas tem um motor que é comandado por um interruptor elétrico, mas num carro moderno o acionamento é feito pela eletrônica embarcada e, portanto, a informação de acionamento do motor do limpador é um dado disponível dentro da rede intraveicular, e que em um carro conectado pode ser informado externamente.

Se a operadora de uma rodovia recebe sinal de dezenas de carros ligando seus limpadores a partir de determinado ponto da rodovia, e medir as velocidades de acionamento deles, não só ela pode expedir um aviso de alerta para os motoristas que ainda não chegaram naquele ponto sobre a chuva e sua intensidade, como ela pode dinamicamente mudar as placas de velocidade da via para velocidades seguras, mais baixas, e ainda reforçar as informações para o serviço de meteorologia.

Se os carros começam a ter problemas de aderência, o acionamento do ABS e dos controles de tração e estabilidade podem indicar pontos escorregadios e novo alerta é expedido aos motoristas antes daquele ponto. Entretanto, um carro que esteja acionando em demasia os sistemas de segurança em relação aos demais pode receber um alerta de anormalidade para o motorista enquanto as autoridades na via podem ficar de olho nele.

Havendo um acidente, o sinal da bolsa inflável pode chamar automaticamente a equipe de resgate da operadora, e outro aviso pode ser enviado para os motoristas.

A conectividade promove alertas antecipados aos demais motoristas e ações pela operadora da via

A conectividade promove alertas antecipados aos demais motoristas e ações pela operadora da via

Caso haja o risco de inundação em um ponto, antes mesmo da chuva chegar, através de serviços de meteorologia, os motoristas podem ser alertados deste risco para que não passem pelo local e recriando rotas seguras nos seus GPS, evitando que fiquem presos e passem por uma situação de risco de morte.

O potencial da Internet das Coisas no automóvel é virtualmente ilimitado, mas ele pode ser muito mal compreendido. O consumidor está habituado com sistemas de informação e entretenimento no painel, sendo que estas aplicações já estão bem desenvolvidas. O verdadeiro potencial da Internet das Coisas nos automóveis não está em aplicações para o prazer do motorista e passageiros, mas na interação do automóvel com o ambiente que o cerca.

Por outro lado, o veículo deixa um rastro fácil de seguir, indicando todos os percursos feitos. Um risco para à privacidade das pessoas promovida pela Internet das Coisas.

 

O Efeito Videocassete

O entusiasmo da indústria de componentes eletrônicos com a Internet das Coisas é enorme. Especula-se um volume de negócios da ordem de 45 trilhões de dólares nos próximos anos relacionados com esta tecnologia. Da mesma forma, há enorme entusiasmo nas demais indústrias pelo uso desta ferramenta tecnológica.

O que alguns especialistas citam, entretanto, é a falta de vontade da indústria em explicar essa tecnologia para os consumidores. Não vemos muitas explicações a respeito, mas apenas casos isolados, como a de tarjetas para cobrança automatizada de pedágio.

Cobrança automática de pedágio é mostrada como ação isolada e não como parte de um projeto maior

Mas os consumidores/usuários também são vistos como um dos grandes desafios dessa tecnologia. Cada consumidor tem um modo de vida diferente, e as coisas que ele possui tem de atender às necessidades da sua rotina. Para que isso ocorra, muitos comportamentos dos dispositivos inteligentes precisam ser programados.

Voltando ao nosso exemplo anterior, quando o automóvel chegou à frente da casa, o portão automático se abriu e a lâmpada da garagem se acendeu para que os ocupantes do carro não entrassem na casa no escuro. Mas as lâmpadas são todas iguais no ponto de venda e não tem aplicação específica. A mesma lâmpada que serve a garagem pode servir a um quarto, à cozinha ou a um banheiro, mas o comportamento de cada uma será diferente quando estiver em seu lugar. Da mesma forma, a lâmpada da garagem de uma pessoa reage de forma diferente da de outra pessoa.

Essa diferenciação é feita através da programação dos dispositivos. Alguém tem de programar a rede da casa de forma que quando o carro for detectado chegando no portão de entrada, a lâmpada da garagem receba uma ordem para acender.

Para uma pessoa pode ser mais interessante que sua geladeira faça uma lista de compras e a pessoa seja redirecionada ao supermercado na saída do trabalho, como no nosso exemplo, mas para outra pode ser mais interessante que a geladeira faça o pedido diretamente ao supermercado e agende a entrega na hora que ela estiver em casa. Tudo isso tem de ser programado de alguma forma para que as coisas possam funcionar com perfeição.

Fala-se muito na indústria no potencial de serviços que podem ser gerados para pequenas empresas que façam estas programações, mas a realidade não é tão boa assim.  Quanto um consumidor estaria disposto a pagar para um bom programador desenvolver todas as rotinas de automação de sua casa? E para estes profissionais trabalharem por uma fração do valor da geladeira conectada desse consumidor não compensa.

Um passo mais próximo da realidade está na busca de interfaces de programação dos dispositivos que sejam tão simples de usar para que a programação possa ser feita por usuários leigos. Bonito de dizer, mas difícil de implementar, principalmente por causa do “Efeito Videocassete”.

O Efeito Videocassete tem esse nome graças à primeira manifestação dele em larga escala pelos consumidores. Durante a década de 1980, programar um vídeo cassete era uma função bastante elementar, mas a maioria dos usuários só sabia usar as funções básicas do aparelho. Recursos avançados, como a gravação de um canal de TV num horário pré-programado, nada difícil de ser feito, nunca foi usado na imensa maioria dos aparelhos, pelo menos pelos adultos, por questão de medo de lidar com a tecnologia e até mesmo por preguiça ou comodismo. As crianças, mais ativas, curiosas e menos medrosas, lidavam com primazia a programação destes aparelhos.

O Efeito Vídeocassete é a soma de dois comportamentos dos usuários, que por um lado têm certa preguiça e falta de curiosidade e pelo outro, um certo receio de manusear uma tecnologia que eles não compreendem, que à guisa da Esfinge para Édipo os desafia.

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– Decifra-me ou te devoro!

Hoje o Efeito Videocassete é bastante presente, mas está mais disfarçado.
– Pergunte às pessoas que tem carros modernos com computadores de bordo avançados o quanto elas sabem mexer nas funções desses dispositivos. A maioria só sabe o básico mais elementar.
– A maioria das TVs LCD possuem inúmeras funcionalidades, mas a maioria das pessoas só sabem trocar de canal e aumentar ou diminuir o som.
– Olhe o que a maioria das pessoas tem de aplicativos em seus smartphones. São os aplicativos mais básicos, geralmente relacionados com redes sociais. Muitos usuários de smartphones pediram para um amigo para instalarem e configurarem os aplicativos para eles, porque eles mesmo nem sabem mexer.

 


Um efeito colateral do Efeito Videocassete é observado nos computadores pessoais, indo dos desktop’s a até os smartphones. Trata-se da interface gráfica. As primeiras interfaces gráficas a chegarem ao grande público vieram em computadores Machintosh e depois PCs com Windows há mais de 30 anos. O que se observa ao longo desse tempo é que, quanto mais as interfaces gráficas avançam para tornar o uso do computador mais fácil, os usuários se acomodam ainda mais e exigem ainda mais facilidades para a próxima versão.

Outros usuários, ao contrário, se mostram refratários à mudança para uma nova versão de interface “desconhecida” porque não querem passar por um novo processo de aprendizagem. Esta constante acomodação do usuário leva a indústria a um ciclo constante de evolução para as pessoas continuarem fazendo o mesmo que faziam há 10 ou 20 anos. E as interfaces gráficas nunca são consideradas 100% efetivas.

Se pensarmos em termos de Efeito Videocassete, será que um consumidor trocaria sua geladeira atual, simples, confiável e que ele entende, por outra, “smart” e conectada, pronta para a Internet das Coisas, sabendo que, ou ele paga para alguém fazer a programação, ou ele se mete a programá-la, ou que sem a programação ela vira um elefante branco no meio da cozinha?

E por outro lado, será que ele aceitará que seu assistente pessoal, falando através da geladeira conectada, o repreenda por escolher comer aquele pedaço de pizza em vez de uma saladinha saudável porque a balança do banheiro informou que ele está acima do peso?

A gana do consumidor pela grande novidade da Internet das Coisas é uma das grandes incógnitas da indústria, e esse é um dos motivos dela estar começando tão devagar.

 

A Babel digital

A maior dificuldade enfrentada hoje pela Internet das Coisas não é de ordem técnica. Tecnologia é, em muitos casos, mais do que suficiente para cumprir seu papel. A maior dificuldade é de padronização de protocolos. Antes de explicar o problema, vamos entender o mecanismo do protocolo através de um exemplo.

Imagine você conversando com outra pessoa através do telefone. Você nunca viu aquela pessoa, mas pode conversar facilmente com ela porque os dois falam o mesmo idioma, o português, por exemplo. A língua é para os humanos um protocolo de comunicação.

O protocolo nivela diferenças. Uma vez que duas pessoas se entendem pelo telefone, torna-se pouco importante outros elementos estruturais dessas pessoas, como sexo, cor da pele ou idade. Você pode conversar com uma pessoa por anos a fio e conhecê-la apenas recentemente e descobrir que ela é fisicamente bem diferente de como você a imaginava.

Mas imagine que você ligue para alguém e essa pessoa fale mandarim. Você não fala mandarim e ela não fala português. Isso torna a comunicação impossível entre as partes. É por isso que o inglês se tornou a língua universal no presente. Mesmo com línguas-mãe diferentes, pessoas que aprendem o inglês provavelmente poderão se comunicar com pessoas de outras origens.

O mesmo ocorre entre computadores e dispositivos. Para se comunicarem, é importante que eles dialoguem usando os mesmos protocolos.Mas da mesma forma como o inglês foi universalmente como língua de referência, para a internet o World Wide Web Consortium (W3C) é um organismo internacional responsável pelo estabelecimento de todos os padrões que mantém a internet unificada, incluindo a padronização de protocolos.

Entretanto, como a Internet das Coisas ainda é coisa de laboratório mas promete ser uma grande fonte de recursos, ela logo chamou o interesse de grandes grupos que logo propuseram quatro padrões de   protocolos para comunicações entre objetos. Três dessas propostas são abertas, livres de royalties e direitos de patente, envolvendo não apenas protocolos digitais, mas também de sinais de rádio ou outras mídias. Em grupos diferentes vemos empresas como Google, Intel, Qualcomm, Samsung e outras gigantes.

Correndo por fora, a Apple propõe um quarto protocolo, mas de acesso bem mais restrito, visando essencialmente a funcionalidade de seu próprio ecossistema. O W3C vem lutando ativamente para unificar todos estes protocolos em um padrão único, de forma a torná-lo equivalente à web para os computadores pessoais.

Analistas vem avisando que quatro protocolos diferentes é intolerável, pois levará a Internet das Coisas à fragmentação e a criação de ilhas da fantasia funcional, onde nem todas as coisas conversarão livremente entre si. Isto seria o golpe de misericórdia em um negócio que pode ser bom para todos. Mas muitos enxergam o termo “interoperabilidade” como um palavrão, e acreditam ser melhor insistir em seu próprio protocolo por motivos mais imediatistas.

Esta briga, alimentada por muitos interesses particulares, é o principal entrave para a adoção em larga escala da Internet das Coisas.

 

A Internet das Coisas e o mercado de smartphones.

Os smartphones são peças centrais nas estratégias da Internet das Coisas. É por meio dele que as pessoas são identificadas, se conectam à internet e comandam todas as coisas. Eles são o terminal de controle pessoal de todo sistema. Entretanto, como vimos na introdução desta matéria, os grandes fabricantes de smartphones atingiram no final de 2015 um patamar de vendas, e esperam vendas em declínio em 2016. Os bons dias de vendas sempre crescentes ficaram para trás.

Muitos analistas culpam a atual crise econômica nos países emergentes como o Brasil para a crise dos smartphones. São as análises mais imediatistas e que passam a impressão que assim que a crise econômica passar, a antiga bonança do crescimento infinito retornará. Esta é provavelmente a análise mais errada que possa ser feita no momento.

Vamos recuar no tempo para entendermos melhor o problema. Os computadores PC desktop gozaram de uma longa curva de adoção que durou mais de 30 anos, e que atingiu um pico em 2010. Após isso, as vendas começaram a decrescer em ritmo cada vez mais acelerado. Os analistas mais imediatos previram que o problema era que o crescimento do mercado de notebooks estava canibalizando o mercado de desktops. Era uma forma de mercado de substituição, onde um notebook era comprado para substituir um PC desktop antigo. E todos aceitaram essa explicação.

Tempos depois foi a vez dos notebooks sentirem o mesmo decaimento de vendas, e os mesmos analistas apontaram como a causa desse decaimento ao lançamento dos tablets. Houve até a previsão de que os tablets substituiriam quase que por completo os notebooks, previsão apressada tendo em vista as severas limitações de interface dos tablets para produtividade. Mas novamente essas explicações foram aceitas.

Mas, para surpresa de todos, os tablets seguiram rapidamente o decaimento de vendas dos desktops e notebooks, e novamente apontaram para um culpado: os smartphones de tela grande, que inicialmente até ficaram conhecidos por “phablets” (mistura de smartphones e tablets).

Agora é a vez dos smartphones darem sinais desse decaimento das vendas, e o bode expiatório é a crise econômica dos países emergentes.

Porque essas análises não são coerentes? Se o declínio das vendas de PCs e desktops ocorreu em função do crescimento das vendas de notebooks, então quando as vendas de notebooks caíram, o crescimento de desktops deveria ter retomado o rumo, mas isso não aconteceu. O mesmo pode ser dito dos notebooks com os tablets. O problema não é esse.

A causa dos sucessivos decaimentos de vendas dos diferentes dispositivos é que todos essencialmente possuem a mesma natureza básica: são terminais de acesso à internet e assistentes digitais pessoais. O que os diferencia de forma significativa é sua mobilidade. O que observamos é uma saturação do mercado da grande categoria que junta todos esses dispositivos, e o decaimento por su-categoria seguiu uma ordem crescente de mobilidade. Esta visão mais integrada de crise de uma grande categoria comum ajuda a entender porque outra subcategoria recente do mesmo grupo, a das Smart TVs, não teve a aceitação esperada.

As pessoas começaram a acessar a internet por meio de desktops e mais raramente por notebooks. Conforme a tecnologia de mobilidade foi avançando e os preços caindo, as pessoas foram substituindo desktops por notebooks, notebooks por tablets e tablets por smartphones de tela grande, deixando as opções mais antigas para aplicações mais específicas.

Mas a evolução tecnológica não se resumiu a isso. Muitos dispositivos já idosos, são ainda bons o suficiente para uma boa experiência na internet e para o trabalho convencional. Na falta de inovação real no setor, as pessoas não veem necessidade de trocar de dispositivo por um novo. Isso gera a saturação e o amadurecimento dos mercados. Muitos computadores rodando sistema operacional Windows XP, muitos com oito ou dez anos de fabricação, continuam úteis e ainda representam a terceira plataforma de desktops da internet.

Os picos de vendas ocorrem quando as vendas vão progressivamente reduzindo seu crescimento até que ele tem crescimento zero e as vendas nivelam. Não é incomum que o crescimento se torne negativo após o pico, ou seja, que haja retração nas vendas.
Muitos analistas pintam cores otimistas mesmo quando a desaceleração do crescimento é evidente. Ao invés de mencionar a desaceleração e previsão de pico futuro, persistem na análise de que as vendas continuamente estão batendo recordes, dando a entender que elas nunca vão parar de crescer.

Entretanto, como alertou outro analista, “um foguete continua subindo mesmo quando o combustível acaba. Ele segue cada vez mais alto, mas em algum instante ele alcança a altura máxima e passa a cair a partir de então.” A ideia otimista de que o mercado sempre está continuamente batendo recordes cria uma ilusão para investidores e consumidores. Ela pode ser útil para uma oscilação natural do mercado e evitar alarmismos, mas a longo prazo, se mantida, em algum instante a verdade terá de ser dita. E esse momento nunca é agradável.

Mas essa crise poderia ser prevista? Vejamos o gráfico a seguir, com dados do IDC sobre o crescimento das vendas de PCs desktops:

Crescimento de embarques de PC's novos

Crescimento de embarques de PCs novos

Neste gráfico vemos nitidamente que o crescimento das vendas de PCs passa a negativo em um ponto por volta de 2011. Percebemos também que os valores positivos não ultrapassam os 15% e os  negativos não ultrapassam os -10%.

Agora vejamos o gráfico de crescimento de vendas de smartphones, também com dados o IDC:

Crescimento do mercado de smartphones (fonte: IDC)

Crescimento do mercado de smartphones (fonte: IDC)

A primeira coisa que notamos é que o pico  dos smartphones ocorreu no terceiro quadrimestre de 2010, portanto muito próximo do mesmo pico dos PCs desktop, o que reforça a tese de correlação entre eles, explicada por ambos pertencerem a uma mesma macro categoria de produtos.

Outro detalhe é observar que o pico dos smartphones ocorreu com uma taxa de crescimento de mais de 90% ou mais de 6 vezes o pico dos PC’ desktops. Esta diferença é que fez com que os desktops tenham atingido o pico de vendas (crescimento zero) seguido de decaimento muito mais cedo que os smartphones.

Também é digno de nota que o segundo gráfico possui uma curva muito bem comportada, e que até uma criança poderia ao longo de 6 anos fazer a projeção que o pico de vendas ocorreria por volta do começo de 2016, fato que realmente ocorreu. E basta continuar as projeções para perceber que o futuro imediato não é nada bom, com decaimento significativo das vendas.

Estes gráficos também contradizem muitos analistas de último instante que preveem que as vendas se estabilizarão no pico, uma típica previsão reconfortante de curto prazo. Para que as vendas de smatphones se estabilize, a curva descendente teria que dar uma guinada, algo que não foi feito pelos fabricantes em 6 anos e que não ocorreu com os outros tipos de dispositivos da mesma grande categoria. Difícil acreditar nessa mudança de tendência agora. Nem os próprios fabricantes espelham essa esperança em seus relatórios.

De todos os fabricantes de smartphones, a empresa mais prejudicada com a desaceleração do setor certamente é a Apple. Ela detém mais de 90% dos lucros do setor de smartphones, sendo que 61% dos lucros da empresa derivam diretamente das vendas de aparelhos iPhone e todo o resto do portfólio de produtos e serviços depende de alguma maneira do iPphone. Segundo o balanço da empresa divulgado recentemente, outros produtos como Apple TV, Apple Music e Watch oferecem lucros apenas marginais e dificilmente conseguirão crescer o suficiente para compensar qualquer diminuição da lucratividade vinda do iPhone.

Outro problema que afeta a empresa é que ela não investiu na diversificação de produtos e serviços em plataformas concorrentes ou outros mercados, como faz a Microsoft e a Samsung, se fechando dentro do próprio ecossistema. Algo que afete esse ecossistema afeta a empresa como um todo, sem que a empresa tenha um plano “B” para manter a lucratividade. Certamente a desaceleração e retração de vendas do setor de smartphones afetará a Apple como nenhuma outra companhia.

Sendo um gigante do setor de tecnologia da informação, uma previsão ruim para a Apple é uma previsão ruim para todo o setor, incluindo a Internet das Coisas.

 

As incertezas do carro conectado

A ideia do carro conectado é natural e vem sendo desenvolvida de forma competente. Ela possui certas características de infância da tecnologia, algo que percebemos nitidamente quando comparamos a primeira geração de smartphones e os modelos atuais. Mas isso é natural. Entretanto, os sistemas de conectividade nos automóveis estão sob várias ameaças.

Para começar, a crise dos smartphones tendem a contaminar as iniciativas de conectividade dos automóveis. O computador no painel do carro é um dispositivo que pertence à mesma macro categoria a que pertencem PCs desktops e smartphones. Sendo uma crise de demanda dessa macro categoria, é bem provável que a iniciativa de conectar os carros seja afetada por ela também.

Há também o desafio de como os usuários irão encarar os novos sistemas. Muitos consumidores leigos já possuem carros com conexão via Bluetooth para ouvir música e atender ligações telefônicas. Outros já possuem telas coloridas com funções de mapas e controle do ar-condicionado. Os novos sistemas de conectividade podem receber uma percepção limitada pelo usuário, que o imagina como apenas um aprimoramento dos sistemas que ele está acostumado. O Efeito Vídeo Cassete pode amplificar esse engano. Seguindo essas premissas, as pessoas possivelmente continuarão comprando carros apesar do computador conectado e não por causa dele.

A faceta da atualização tecnológica também é um grande desafio. Para usuários de smartphones, a atualização constante de versões do sistema operacional é ponto chave. Muitos usuários do sistema Android reclamam com razão da demora para os fabricantes lançarem atualizações, fundamentais na correção de bugs e de falhas de segurança.

Esta falha por parte dos fabricantes de automóveis em atualizar constantemente os softwares dos veículos, mesmo os modelos mais antigos testará a paciência dos donos dos automóveis, e pode influenciar nas decisões futuras de trocas de carros pela marca atual ou da do concorrente, não só dele, mas de muitos à volta dele.

A constante atualização tecnológica é importante em outras facetas:

– Depois que foi demonstrado num Jeep Cherokee que carros conectados podiam sofrer invasões por hackers e comandados remotamente, sem o desejo do motorista, os consumidores ficaram assustados com o risco que isso representa. Manter o sistema constantemente atualizado é um fator que gera uma sensação de segurança pelo usuário, algo que os fabricantes não podem desprezar.
– Uma coisa é um smartphone de R$ 1.500,00 ficar obsoleto em dois ou três anos e precisar ser trocado. Outra coisa completamente diferente é um carro feito para durar mais de 10 anos ter o computador do painel obsoleto em dois ou três anos. A atualização tecnológica é fundamental para que a obsolescência da eletrônica do carro não seja severa.
– Os sistemas de conectividade lançados hoje precisam prever as necessidades futuras em cinco  ou seis anos pelo menos, e muito disso depende do projeto de hardware, algo que não pode ser atualizado através de um simples download, e mesmo as atualizações de software futuras não podem deixar o sistema lento.

O futuro do carro conectado passa pelo entendimento pleno do que ele é e do que ele é capaz de fazer pelo motorista e pelos ocupantes do carro. A grande ideia do carro conectado não é a de promover diversão e distrações ao motorista, mas a de integrá-lo a um mundo muito maior através da interação entre máquinas sem interferência humana.

Mas tudo isso tem de ser bem explicado para o motorista e mostrado como se usa, e não apenas dizer “que o carro agora está conectado e compatível com os sistemas X e Y”. A falha em comunicar ao usuário para que serve a nova tecnologia levará à compreensão errada do que ele significa e o projeto não alcançará os objetivos pretendidos.

Carros conectados são considerados tanto uma evolução natural do automóvel como também um fator de estímulo à compra de novos veículos, uma esperança para fabricantes de automóveis e de chips. Entretanto, o desaquecimento dos mercados de dispositivos conectados, de desktops a smartphones, os atrasos na oferta e as dificuldades de adoção da Internet das Coisas, e a possibilidade dos novos computadores de painel conectados serem confundidos com meros rádios evoluídos, podem anular estes esforços.

Não é uma questão de dizer que os fabricantes de carros estejam errados em persistir no carro conectado. Essa evolução é natural e está de acordo com a realidade técnica, e os fabricantes tem feito o seu melhor. O grande desafio é que a indústria começa a lançar seus primeiros modelos dentro de um quadro desafiador que pode consumir quase todo o esforço para alavancagem de vendas dos carros conectados, o que pode frustrar expectativas.

A grande questão passa não só pelos fabricantes de automóveis, mas de todos os dispositivos, que precisam lentamente preparar o consumidor para o futuro que estão planejando para todos nós.

AAD

Fontes das imagens:

http://www.appdevelopersalliance.org/internet-of-things/auto/
https://www.artstation.com/artwork/BXdgm
http://www.digikey.com/en/articles/techzone/2014/jul/what-engineers-need-to-know-when-selecting-an-automotive-qualified-mcu-for-vehicle-applications
http://www.auto-medienportal.net/artikel/detail/25729
http://www.autonews.com/article/20150301/OEM06/303029948/volvo-to-unleash-self-driving-cars-on-swedish-roads
http://www.15min.lt/gazas/naujiena/naujoves/2020-metais-jau-turesime-automobilius-kuriems-nereikes-vairuotojo-anot-general-motors-219-175310
https://www.linkedin.com/in/anthony-tony-brown-6b96615a
The Internet of Things – or the emperor’s new wearables?
http://www.minyanville.com/special-features/from-the-buzz-banter/articles/The-Tech-Twilight-Zone-Tablets-Are/6/13/2014/id/55293
https://theoverspill.wordpress.com/tag/microsoft/
http://beyondmena.com/category/observations/technology-observations/
http://www.vidadesuporte.com.br
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