O hidrogênio poderia ser utilizado — teoricamente — como combustível. Mas na prática a teoria é outra…

O que não falta na internet é “Professor Pardal” oferecendo a tal bomba de geração de hidrogênio, que faz automóvel funcionar com água…

O sistema é simples e não é caro (entre R$ 2.000 e R$ 3.000): é composto de um depósito para água (com bicarbonato de sódio) e um dispositivo eletrolítico que recebe corrente da bateria. A eletrólise separa o hidrogênio (H2) do oxigênio (0) da água e o injeta no motor, sob forma de gás, misturado ao combustível original que pode ser gasolina, álcool, diesel ou gás natural. O resultado, segundo os “professores”, é aumento de desempenho e redução de consumo e poluição.

Simples mas não funciona, pois não resiste a uma análise com um rigor científico mínimo. Em primeiro lugar, porque a água não é combustível: é preciso isolar o hidrogênio, operação que requer intensa energia elétrica. No caso, fornecida pela bateria do automóvel. Nos primeiros quilômetros, o consumo realmente se reduz, pois a energia da bateria está sendo utilizada na produção do hidrogênio. Mas o alternador não dá conta de recarregá-la. Então, não existe mágica: a energia elétrica para se obter o hidrogênio não cai do céu…e a conta não fecha.

Além disso, há problemas operacionais: o gás de hidrogênio enviado para o motor pode conter vapor de água, que acaba oxidando seus componentes. Por ser mais leve, sua combustão é mais rápida que a da gasolina, alterando os padrões de funcionamento do motor. Fora o perigo de explosão, pois o hidrogênio é altamente inflamável. Mesmo que não fique armazenado, pode haver vazamentos, ressecamento de mangueiras etc. Já teve matéria na tevê em que o “professor pardal” fazia o carro rodar só com hidrogênio. Mas o motor só funcionava até descarregar a bateria.

Na internet, vários fabricantes anunciam o equipamento. Um deles tem a cara de pau de mostrar matéria da TV Globo exibindo um dos ônibus que rodam em São Paulo (EMTU) tendo o hidrogênio como combustível. Ótimo argumento favorável ao dispositivo, mas não passa de propaganda enganosa, pois não explica que, nestes ônibus, o hidrogênio não é usado como combustível para ser queimado no motor, mas para gerar energia elétrica numa célula a combustível (fuel cell). Nela, uma reação química entre hidrogênio e oxigênio produz energia elétrica para acionar os motores do ônibus.

BMW_Hydrogen_7_at_TED_2007

O BMW Hydrogen 7 era um bicombustível hidrogênio-gasolina com motor V-12 de 6 litros; só ficou três anos em produção (foto en.wikipedia.org)

A rigor, o hidrogênio poderia ser utilizado teoricamente como combustível. Mas, na prática a teoria é outra e todas as tentativas nesse sentido fracassaram. A BMW desenvolveu e chegou a fabricar, em 2006, um Série 7 movido a hidrogênio. Motorzão V-12, de 6 litros, para gerar míseros 260 cv. Eu dirigi este carro na Alemanha: como ele era bicombustível (um tanque de gasolina, outro de hidrogênio), um botão no painel permitia escolher entre os dois. Ao optar pelo segundo, dava a impressão de se ter desligado uns dois ou três cilindros…

O projeto (único no mundo) durou apenas três anos e se diz que a BMW só o desenvolveu por uma amizade mal explicada entre dois presidentes: da fábrica do automóvel e do fornecedor do equipamento…

Estas fabriquetas do “gerador de hidrogênio” no Brasil estão faturando graças à crescente divulgação dos automóveis com célula a combustível, principalmente agora que a Toyota iniciou a venda de um modelo com este sistema, o Mirai. Como eles utilizam o hidrogênio, quem não lê a matéria atentamente imagina que ele seja queimado como combustível. E corre para comprar o dispositivo do “professor pardal”…

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


Error, group does not exist! Check your syntax! (ID: 7)
  • Minoru

    Em minha humilde opinião de leigo, creio que o hidrogênio só se tornará um combustível viável quando se encontrar uma forma de extraí-lo da água, pois enquanto a maior fonte de hidrogênio for o petróleo, estaremos apenas trocando seis por meia dúzia e mudando o lugar de onde estará a fumaça…

  • Pois é caro Boris Feldmann,
    Não dá para enganar a “equação da energia” e como tem gente tentando fazer isto…
    O que mais tem é gente” esquecendo” fatores nesta equação – mas para se ter um resultado fidedigno é necessário somar todos os fatores e é ai que vem a “hora da verdade”.
    Mas eu reputo este sensacionalismo todo ou ao desconhecimento de causa de “técnicos de meia tigela” ou ao mau caratismo mesmo de gente que está a fim de dar uma faturada em cima da burrice alheia.
    Como volta é meia costuma acontecer com os tais “catalisadores” mágicos que diminuem “garantidamente” o consumo de energia.
    Belo artigo, parabéns caro Boris, esta reflexão estava faltando mesmo!

  • Cristiano Mendonça

    Se o Boris Feldman fosse jornalista especializado no início do séc.XX estaria discorrendo sobre as inúmeras impossibilidades técnicas de se produzir carros em outras cores que não fosse o preto. O eterno argumento de todas as suas matérias é a impossibilidade e a estupidez de todo mundo, exceto ele. Haja….

  • Brotti

    Boris, me desculpa, a materia era exatamente o que eu queria saber obrigado!

    Bob, agora o AE publica piadas?

    De: AUTOentusiastas
    Para: Marcelo
    Enviadas: Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015 9:12
    Assunto: Re: Teste de kit

    Marcelo,

    Lamento que você tenha entendido mal (ou eu não tenha me expressado bem), mas o fato é um “kit para produzir hidrogênio” a bordo é a piada do milênio e o Ae não é lugar para piadas.

    Um abraço

    Bob

    —– Original Message —–
    From: Marcelo
    To: AUTOentusiastas
    Sent: Wednesday, August 12, 2015 6:32 AM
    Subject: Re: Teste de kit

    Bom dia Bob,

    Mas me desculpa, não acho que seja brincadeira. Faz uma pesquisa sobre o assunto.

    Mas de qualquer forma, peço desculpas se te aborrecido com o assunto “inútil”. Leio o autoentusiastas há anos, conheci seu trabalho ainda na época da revista oficina mecânica e não esperava uma resposta tão tosca.

    Marcelo

    Enviado do Yahoo Mail no Android

    De:”AUTOentusiastas”
    Data:23:31 ter, 11 de ago de PM
    Assunto:Re: Teste de kit

    Marcelo,

    Esse tipo de assunto/brincadeira não tem lugar no AUTOentusiastas. Só tratamos de coisas sérias.

    Um abraço

    Bob Sharp
    Editor-chefe
    AUTOentusiastas

    —– Original Message —–
    From: Brotti
    To: [email protected]
    Sent: Tuesday, August 11, 2015 11:27 PM

    Subject: Teste de kit

    Boa noite!

    Uma sugestão de pauta:

    Está aparecendo no mercado um kit para “converter” o carro a água.

    Pelo que pude entender, esse kit separa as moleculas de hidrogênio da água, e o carro consome hidrogênio, ao invés de gasolina…. Não é furada um negócio desse? Hidrogênio se não for armazenado de maneira correta pode ser muito perigoso. Correto?

    Não estão criando bombas ambulantes?

    Existe algum fabricante pensando em algo do tipo? Mas com segurança.

    Parabéns
    pelo site! Os textos são ótimos!
    Continuem assim!

    Brotti

    • Brotti,
      se você ler o aviso no final de qualquer coluna no AE entenderá por que foi publicado este assunto.

  • BlueGopher

    Alguns cálculos rápidos, H2 x diesel, sujeitos à correção pelos entendidos:

    Quantidade de hidrogênio em 1kg de água:
    Sabemos que o peso atômico do oxigênio é 16, e o do hidrogênio é 1.
    Logo, em 1 litro de H20 (=1 kg), temos portanto aproximadamente 0,111 kg de hidrogênio e 0,888 kg de oxigênio.
    Energia disponível:
    Como o H2 tem 28.670 kcal/kg, as 111g possuem 3.182 kcal disponíveis.
    Comparativamente, o diesel possui 10.200 kcal/kg, e uma massa específica de 815 a 853 g/l, (média 834g/l) ou seja, possui em média 8.500 kcal/l.

    Assim, precisamos de 0,374 litros de diesel para obtermos as mesmas 3.182 kcal que 111g de hidrogênio.

    E para termos os 0,111kg de hidrogênio disponível para queima, teríamos que fazer antes a eletrólise da água. E um processo de eletrólise da água tem baixíssimo rendimento, consome aproximadamente 3 vezes mais energia do que a que ficará disponível no hidrogênio resultante.

    • Rubem Luiz

      Veja também o ESPAÇO que o hidrogênio ocupa.
      Se não me engano ocupa pelo menos 40% a mais de espaço para a mesma energia.

      Isso SE usássemos tanques cilíndricos para líquidos.

      Para compressão do hidrogênio, não podemos colocar qualquer formato de tanque (como usamos para combustível líquido), para aguentar pressão precisa formato cilíndrico/esférico, exigiria redesenho dos veículos.

      (Talvez usando estrutura tubular como proteção e tanque, porque levar um cilindro no porta-malas o pessoal que usa GNV mostra como ocupa espaço!)

      E olha que eu vislumbro um futuro a hidrogênio (pois pode ser produzido localmente, com geração solar, eólica ou hidrelétrica, ambas sazonais), mas gambiarra em veículo atual exige muito mais coisas que simplesmente colocar um cilindro no porta-malas.

      É a mesma dificuldade de transformar um veículo em híbrido: O motor elétrico é o de menos, o problema está no espaço e acomodação das baterias, e a forma de carga (Para evitar desequalização e sulfatação). “Como e onde” colocar o hidrogênio é o problema.

      No “como” tem que ver de onde sai, porque não é nem problema de rendimento de eletrólise, tem mini-hidrelétrica aqui rodando com ladrão aberto uns 4 meses no ano por excesso de água, ligar gerador de H seria ótimo, mas… esses produtos a venda para enganar trouxa são geradores de HHO, geram muita umidade, ela condensa nos cilindros, o trabalho para separar tudo é grande demais, não vi equipamento comercial a venda para isso.

      (Idem com relação a painel solar e gerador eólico, são 2 ou 3 meses com vento demais, e 2 ou 3 meses sem vento nenhum, armazenar em bateria não dá. Com solar até podemos usar baterias, mas nem sempre consumimos a noite, as vezes é mais interessante produzir H, armazenar, e 1x por semana ligar um motor a combustão para alguma tarefa mais pesada)

      A Boeing anunciou produto comercial com hidrogênio e célula a combustível:
      http://computerworld.com.br/boeing-cria-celula-de-combustivel-que-gera-e-armazena-energia
      Espero que a indústria chinesa logo barateie uns clones de menor tamanho do produto, ou pelo menos geradores de hidrogênio (limpo e sem umidade) para ser usado em motores a combustão depois (que seja um gerador monocilíndrico de 2 cv).

  • Danilo Grespan,
    acho que depois que o Brotti leu o que eu disse a ele, entendeu e sossegou. Colunistas não precisam concordar o veículo de comunicação. Por isso são colunistas, não editores.

  • braulio

    Aí temos outras questões envolvidas: O gás de hidrogênio pode, sim, ser usado como combustível, mas o que não dá é para retirar esse hidrogênio da água, queimá-lo, gerando água novamente e ainda tirar energia do processo. Na faculdade você deve ter assistido à aulas de termodinâmica o suficiente para saber que esse é um moto-perpétuo do tipo 1 (você sabe, mas mais gente vai ler isso e é interessante lembrar que moto-perpetuos podem ser tipo 0, 1 ou 2, dependendo da lei termodinâmica que ele violaria caso funcionasse).

  • Renato Texeira

    Aproveitando que o assunto está relacionado com modificação, a tal reprogramação de injeção, que muitos vendem por aí, funciona? Muitos que trabalham com isto prometem aumento de potência ou redução de consumo, mas alguns dizem que é ilusão e que pode até reduzir a vida útil do motor.

  • Lucas Sant’Ana
  • Macro

    Exatamente, você ganha em algum ponto porém perde em outro(s). Não existe milagre.

  • Danniel

    Macro, como engenheiro eletrônico acompanho o canal do Dave há uns 5 anos, o cara é muito bom! e conseguiu largar o emprego de projetista para se tornar Youtuber em tempo integral..

    Da mesma forma ele mostra como um aparelho que promete aumentar a vida útil das baterias não funciona (acho que o nome é Batterizer).. ele vem sofrendo ataques por conta disso.

    • Macro

      Também acompanho ele desde 2010 quando comecei a me Interessar por eletrônica e ele tem grande responsabilidade pela minha mudança de mecatrônica pra engenharia eletrônica. rs O mais Impressionante nem é ele viver do YouTube mas sim conseguir sustentar uma família com dois filhos ainda por cima! (se bem que a esposa dele também trabalha mas ainda sim não deixa de ser Impressionante ao meu ver)

      Esse vídeo do batterizer também vale a pena ser visto mesmo sendo um pouco mais técnico para o lado da eletrônica. A lição que se aprende com essas coisas é que não se deve acreditar tão facilmente no que as pessoas dizem, normalmente é bom de mais para ser verdade.

  • Pedro Coimbra,
    parabéns, você acabou de criar uma lenda, a dos motores turbo de injeção direta! Por que não cria mais uma? Esse assunto é interessante.

  • Pedro Coimbra,
    esclarecido. Por que você citou o Golf 3-cilindros 1-L? Esse só na Alemanha.

  • Danniel

    Seria mais simples uma forma de desconexão elétrica ou diminuição da corrente de excitação do alternador, ficando o eixo dele “livre”.

    O único problema que vejo nisso, pelo menos nos carros que temos hoje, é a diminuição da tensão do sistema de aproximadamente 14V para 12,5V, o que fazem as lâmpadas dos faróis alterarem seu brilho toda vez que o alternador ligue e desligue. No caso de faróis LED isso poderia ser compensado por um regulador de tensão chaveado, com alta eficiência.