Já comecei enrolando pelo título. Muitos devem ter pensado que o Kinder ovo se deve ao tamanho do Cuore, um dos poucos kei car japonês que veio aportar no Brasil entre 1994 e 1997. Não foi essa a ideia. O Kinder ovo se deve ao fato deste Cuore em especial vir com uma surpresa: um motor estourado, que só abrindo para saber o que compramos. Assim como o ovo de chocolate que sempre tem uma surpresinha, este Cuore guardava uma diversão extra dentro de um motor travado.

Como já contei aqui, já tive outro Cuore antes, um 1995, duas portas, que hoje continua nas ruas de Tatuí (SP) com meu mecânico, o Renato. Mas eu gosto de miniencrencas, principalmente este representante dos kei jidosha, categoria japonesa que lá conta com benefícios fiscais por se da categoria “de entrada”. São muito gostosos de dirigir, parecem carros de brinquedo e ótimos no trânsito urbano. Além disso encaram uma estrada com uma valentia inesperada para o seu diminuto tamanho.

Este segundo Cuore que comprei foi um dos últimos Daihatsu (marca da Toyota) que chegaram no Brasil. Feito em 1997, tem como principais diferenças dos anteriores (até 1995) o fato de ter quatro portas e um belo conta-giros no painel.

Este Tomatinho com motor três-cilindros de 850 cm³ (exatos 846 cm³) já era conhecido. Há anos que via passar pelo Planalto Paulista (bairro de São Paulo) e o admirava por ser “liso de lata” e ter todos os detalhes de carroceria e, parecia, de interior. Não chegava a ser bonito, mas era um carro com alguma sorte na vida.

Era. Pouco mais de um ano atrás, passei na frente da casa do dono e lá estava ele com uma placa: “Vendo. Problema no motor”.

Tem gente que resgata cachorros na rua. Eu pago meu karma com certa alegria resgatando carros abandonados. Cada um tem o que merece. Ou gosta.

Conversei com o dono, que se declarou “sem saco” de consertar o carrinho. “O motor começou a bater, continuei andando, até que ele parou perto de casa. Empurrei e tá aí. Não sei o que houve”.

Engatei uma terceira (o câmbio engatava bem as cinco marchas) e chacoalhei o Cuore para frente e para trás e o motorzinho estava realmente travadão. Meu diagnóstico foi “desbielou”. Uma biela saiu do virabrequim, um divórcio geralmente litigioso com bons prejuízos. Olhei o bloco, passei a mão por trás onde não conseguia enxergar (não fico mais de seis horas sem me engraxar) e não percebi nenhum furo, uma evidência que a biela não tinha saído pelas paredes do bloco para conhecer o mundo aqui fora. O cárter também estava intacto, sem amassados de dentro para fora.

No pior cenário, teria de comprar um motor inteiro num ferro-velho. Olhei os documentos e não havia nímero de motor registrado. Melhor assim.

A pintura estava desgastada e tinha ganhado um banho de verniz para recuperar o brilho alguns anos atrás. O verniz estava se soltando. Um amassadinho no para-lama dianteiro, riscos nos para-choques, mas nenhuma marca de pancada forte.

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Tampão do porta-malas intacta foi fator decisivo na compra do Unicórnio

No final da negociação, o que me convenceu foi o tampão — melhor chamar de  tampinha — do porta-malas: há mais de 10 anos que eu não via uma dessas original. Até o meu Cuore anterior tinha uma feita em madeira. Ele já estava com rodas de 13″ do Escort (mesma furação, 4 x 108 mm), já que os aros originais de 12″ tinham sido roubados de madrugada, certamente por um dono desesperado de alguma Towner. Estranho que em um carrinho assim pequeno (3.310 mm de comprimento), uma rodinha 13″ já parece uma 17-polegadas em um carro maior. Os dois pneus dianteiros estavam carecas, mostrando as “lonas”, mas os traseiros estavam bons. Chacoalhando o Unicórnio (com aquela antena enorme e desproporcional no teto), percebi que os amortecedores traseiros estavam bem ruins. Tudo normal para os pouco mais de 120 mil km rodados, exceto o motor estourado.

Comprei o carrinho. E o agora ex-dono foi taxativo: “Você tem de tirar esta encrenca logo daí. Tenho outro carro para parar na vaga.”

“Me dê meia hora que já faço o resgate,” disse-lhe.

O ex-dono mora no alto de um morro e minha casa fica no início de outro morro. Passa uma rua, com um sinal na avenida ligando os dois morros.

Peguei meu Charade (que já contei a história aqui no AE) e treinei um pouco, cronometrando o tempo de abertura do sinal na avenida.

Voltei com o Charade e uma corda de reboque. Dei a chave para o cara e disse “me siga”. Soltei o Cuore na descida e parei uns 400 metros antes do sinal. Fiquei esperando. Quando o sinal abriu lá embaixo, soltei o Cuore. Ele foi ganhando velocidade passou a uns 80 km/h com sinal virando para o amarelo. Dei um toque no freio (sem ajuda do hidrovácuo, claro, pois o motor estava parado) e entrei na primeira à esquerda, já a rua da minha casa. O carrinho, com os pneus meio murchos não gostou muito da “esquina esportiva”, mas aceitou o castigo. Com o embalo, o Cuore rodou mais uns 200 metros, varando duas lombadas e parando a uns 100 metros de casa. Logo depois chegava o ex-dono, meio assustado, com o meu Charade: “Você passou o sinal como um doido e sumiu!”.

“Agora é hora de usar a corda”. Ele me rebocou os 100 metros restantes e o Cuore ficou estacionado na rua, esperando transporte para Tatuí (SP). Foi o resgate mais simples e rápido da minha vida.

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Subindo no caminhão prancha para viajar de São Paulo aTatuí

Dois dias depois, passa um caminhão-plataforma que iria voltar “batendo” (sem carga) para Tatuí. O Cuore saiu de São Paulo na hora do almoço. Umas quatro horas depois, ligo para o Renato para saber se o Tomatinho já tinha chegado na oficina em Tatuí.

Todo animado, o Renato responde: “Foi borra, o cara não trocava óleo do coitadinho. Desbielou o terceiro cilindro. Vamos precisar de pistões/anéis, virabrequim, uma biela e uma válvula de escape que entortou. O bloco levou uma pancadinha interna, da biela que fugiu, mas só fez uma marquinha. Sem problemas”.

“Caramba, você já abriu o motor!”

“Pois é, eu estava muito curioso também para saber o que tinha travado. O carrinho chegou uma hora e meia atrás e eu já despinguelei tudo. O motor está todo aberto na bancada”.

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Poucas horas depois de sair de São Paulo, o motorzinho travado já estava desmontado

Caça ao tesouro

O motorzinho de três cilindros era todo standard, nunca tinha sido aberto. Se não fosse a “economia” na troca de óleo certamente teria passado tranquilamente dos 200 mil km. O óleo (geralmente de baixa qualidade e preço) não é trocado e o dono vai só “remontando”, completando o nível com qualquer lubrificante. O óleo velho, com alterações de viscosidade e perda de aditivos e propriedades lubrificantes vai se tornando uma borra, com a ajuda inestimável de nosso combustível que tem as mesmas qualidades de nossos políticos. Forma-se borra que, além de não lubrificar corretamente, vai entupindo os dutos de óleo internos do motor. Chega um momento que o “lubrificante” para de circular e o motor perde rendimento. Se forçar o motor começa a “fundir” (as peças móveis superaquecem e literalmente se fundem, se unem umas as outras). Se forçar mais ainda, uma biela (que já está “grudando” no virabrequim) acaba escapando do conjunto e levando pancada do próprio virabrequim, ao qual ela estava ligada. Foi exatamente o que aconteceu com o motorzinho tricilíndrico deste Unicórnio (ou Tomatinho).

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Lubrificante que virou borra fez o motor travar; veja o estado da biela que “fundiu” e se soltou

Mas, era hora de caçar peças e restaurar o motor.

Comprei o kit de retifica em uma loja de peças para importados (pistões, anéis, bronzinas e jogo de juntas/retentores), logo depois de caçar o virabrequim e a biela. Troquei também as três válvulas de escapamento, já que havia uma torta, pois tinha levado uma pancada do pistão “desbielado”. O motorzinho tem apenas duas válvulas por cilindro.

O virabrequim foi simples e barato. Achei pela internet uma loja que estava parando de vender peças usadas, para trabalhar apenas com novas. O “vira” era usado e standard e foi para a primeira retífica (- 0,25 mm), custando apenas R$ 150. A biela foi mais complicada. Achei várias em ferro-velho pela net, mas todo mundo queria vender as três. Acabei pagando metade do preço das três (R$ 200) por uma biela só, do único vendedor que topou desmanchar o jogo.

Tudo foi retificado no capricho: os cilindros para receber os pistões sobremedida (também 0,25), assim como o virabrequim. O cabeçote recebeu válvulas novas e tudo foi assentado e ajustado.

Motor montado, fizemos todos os detalhes externos (correias, mangueira, velas, revisão de injeção etc.) e faltava um disco de embreagem, que estava gasto. Colocamos um da Towner, que é idêntico, bate até a numeração. O platô da embreagem felizmente estava bom, pois é difícil de achar e o da Towner não serve.

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O motor de três cilindros e 850 cm³ foi pintado de amarelo. Por quê? Porque gosto da cor

Hora de pintar o motor. “Que cor?” pergunta o Renato. “Amarelo”, respondo.

“Por que amarelo?”

“Sei lá. Sempre quis ter um motor amarelo e acho preto muito sem graça. Todos os motores são essa tristeza. Esse vai ser um motor alegre”

Colocamos o motor, já pintado em amarelo, ele roncou “de primeira”. Funcionou uma meia hora parado e na marcha-lenta, ligando a ventoinha do radiador várias vezes. Parecia tudo bem e fui andar em um Cuore que tinha comprado já há várias semanas e nunca tinha rodado com ele.

Fui para estrada e caiu um pé d’água. Não conseguia rodar a mais de 60 km/hora com os dois pneus dianteiros carecas. O carrinho aquaplanava direto, não dava nem para acelerar e ele ia de uma pista para outra. Passei em casa e peguei dois pneus aro 13″, herança do Chepalinha que ganhou rodas 14″ (veja no AE Classic parte 1, parte 2 e final ).

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Chepalinha, agora com aros 14, foi o doador de dois pneus de aro 13 para o Cuore

Com os bons pneus do Chevette na dianteira, a vida mudou. O motorzinho, ainda amaciando, ficou ótimo. E o Renato ficou revoltado. Ele tinha feito o motor do Cuore dele alguns meses antes (usando peças do mesmo fornecedor), e este motor do Tomatinho ficou muito melhor. Diagnóstico dele: no meu motor, ele tinha mandado as peças para outra retífica, que tinha ferramentas mais novas (e técnicos mais caprichosos), que deixaram os cilindros perfeitos, com a folga correta para os pistões e anéis, assim como tinham acertado melhor o virabrequim, bielas e cabeçote.

Os 42 cavalinhos a 5.300 rpm (mais do que suficientes para os 630 kg de peso do Cuore) já estavam bem sadios e dispostos, mesmo antes do motor estar amaciado.

Mas, claro que rodando deu para perceber vários outros pênaltis. A suspensão traseira estava um lixo, o freio não era lá estas coisas, tinha alguns barulhinhos, precisava de um belo tapa estético… A briga iria ter mais alguns capítulos. Assim como esta história.

Nota do catador de sucata: Na foto de abertura, do Cuore pagando promessa em Aparecida, ele não estava totalmente pronto, mas já tinha ganhado pintura completa e umas calotas imitando “orbitais” do Gol, de pura gozação. Odeio calotas e estas custaram “10 real” cada. No final, ganhou rodas de liga leve… Aguarde o próximo capítulo.

JS

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