Janeiro foi mês de queda livre. Salvo uma ou outra exceção, ninguém escapou da forte retração nas vendas que apanhou o setor de surpresa, ainda que em graus variados de impacto modelo a modelo, segmento a segmento.

Nem os dois suves mais vendidos do momento, Jeep Renegade e Honda HR-V, cujo sucesso os fazia andar na contramão do mercado com curiosa fila de espera para compradores, conseguiram manter o mesmo ritmo de seis mil e poucas unidades emplacadas por mês e fecharam janeiro com menos de cinco mil unidades, o que nos faz presumir a fila de espera por eles encurtou um pouco ou está prestes a desaparecer. A ser confirmada essa hipótese, pode-se entender haverá modelos com filas de vendedores esperando clientes. O sedã Toyota Corolla, assim como alguns modelos do segmento premium, que também pareciam desconhecer a escassez de compradores com vendas estáveis e ritmo aquecido, desta vez sentiram o baque.

Ao todo foram comercializados 146.699 automóveis e comerciais leves, que nos 20 dias úteis do mês significaram um ritmo diário de emplacamentos de 7.485 unidades. Sugiro evitemos comparar com janeiro do ano passado, pois aquele mês se parece como o último antes da crise, em que se desovaram várias unidades “com IPI antigo” e o Pacote Dilma 2 ainda estava sendo digerido. Tampouco usaria como parâmetro dezembro de 2015, por ser mês de fechamento e isto ter levado àquele sobrefaturamento de vários modelos que inflaram o resultado, citado na coluna do mês passado. Talvez para termos uma melhor ideia se começou a se definir um novo patamar de vendas em 2016, inferior às previsões últimas da Anfavea, tenhamos de esperar mais um pouco. Segundo a entidade apresentou no final do ano passado, projetavam-se vendas totais de 2.376.000 de unidades, ou algo em torno de 9.400 emplacamentos/dia. Desta forma, janeiro começa num ritmo médio 21% inferior.

Emplacamentos diários Automóveis e Com. Leves 12 meses (Fonte: Anfavea)

Emplacamentos diários Automóveis e Com. Leves 12 meses (Fonte: Anfavea)

Gráfico licenciamentos diários Automóveis e Com. Leves 12 meses (Fonte: Anfavea)

Gráfico licenciamentos diários Automóveis e Com. Leves 12 meses (Fonte: Anfavea)

À espera de melhores notícias no cenário macroeconômico

Com a saída do doutor Levy do Ministério da Fazenda no apagar das luzes do ano passado, a doutora Dilma tratou logo de nomear o Nélson Barbosa, cujo discurso desenvolvimentista a encantava, ou era o que preferia ouvir. Mudança também agradava ao partido do governo, ou o substituto desagradava menos que seu antecessor. No entanto, o mercado reagiu com certo ceticismo a essa mudança, uma vez que pairavam sobre ele desconfianças dos tempos das pedaladas fiscais.

Ao ocupar a nova cadeira, Barbosa rapidamente procurou dar um sinal positivo ao avisar que manteria as medidas do ajuste fiscal inalteradas e algumas semanas depois anunciou que os bancos oficiais relaxariam o crédito ao consumidor, este mesmo que havia sido apertado há cerca de um ano e era tido como um dos fatores que vinha causando a retração nas vendas.

Criou-se então uma expectativa de que os bancos voltando a oferecer prazos maiores e menos restrição aos tomadores de empréstimo possam nos dar leve recuperação nas vendas. Mas é ponto comum que o fator principal, e não paliativo, continua sendo a volta da confiança do consumidor e esta parece deve tomar mais tempo para vir.

Se o escândalo da Lava Jato e envolvimento de dezenas de parlamentares já vinham jogando contra a estabilidade político-institucional, o mês de janeiro viu o ex-presidente da República entrando no rol dos investigados por conta de duas empreiteiras protagonistas do escândalo haverem supostamente lhe favorecido com benfeitorias e compras de móveis para imóveis que ele nega serem seus. Para piorar, seguiram-se uma série de desmentidos, contradições e trapalhadas dos advogados que o defendem. O partido do governo e partidários até podem achar que os fatos não são fatos e se são, sua relevância vem sendo estrategicamente potencializada pela mídia e ministério público e parte da sociedade com vistas ao novo cenário eleitoral de 2018, mas temos de convir ser anormal um cidadão receber agrados que ultrapassam milhão de reais de empreiteiras, cujos presidentes e proprietários estão encarcerados, em imóveis sem dono e móveis em nome de amigos de familiares, todos pagos em dinheiro vivo e de forma discreta. E estes agrados se estenderam até três anos depois que deixara o cargo de presidente.

Tampouco estimo que os desdobramentos, quaisquer sejam, possam trazer parte da normalidade de volta.

O setor automobilístico já bebeu de muitos benefícios e cortes de impostos com vários governos, portanto é normal a indústria, quando em problemas, recorra ao governo federal e mostre um chapéu vazio junto com a ameaça de demissão de dezenas de milhares de trabalhadores. Mudam os atores, ministros e técnicos tributários, mas o país tem histórico positivo de que esse corte de impostos trouxe recuperação e expansão da indústria.

Na minha conta particular, vejo com certa simplicidade, se você cortar o imposto (IPI) à metade e em seguida dobrar as vendas, a arrecadação federal será a mesma e indústria e trabalhadores saem ganhando, já vimos isso acontecer, mais de uma vez. As vendas mais que dobraram, portanto a arrecadação em termos absolutos teve saldo positivo quando comparada com o ponto inicial, porém o governo e sua sede arrecadatória voltam ao mesmo ponto com alegação que a renúncia tributária afetou as suas contas e seu equilíbrio fiscal. Então torna a taxar o IPI “normal” e o impacto negativo nas vendas é imediato. Esse parecia ser um ciclo evitável, que somente o tratamento de impostos de forma definitiva poderia dar uma solução mais perene, como se redefiníssemos um novo IPI e não voltássemos mais a falar dele.

Mas quem está sem comer ou sem pagar o aluguel não pode esperar mais outra longa discussão, mesmo porque esse tema é tão antigo que transcende gerações de trabalhadores. A operação Zelotes e consequente prisão de um lobista e ex-diretor da Anfavea e de sua esposa, por suspeita de compra de medidas provisórias de redução de IPI ao setor, jogaram uma pá de cal nessa possível solução. Há o agravante de um dos filhos do ex-presidente da República confirmadamente haver recebido pagamentos desse lobista. E enquanto se procura explicar como um senhor octogenário e não muito chegado a esportes, contratou serviços esportivos de um jovem por cerca de 4 milhões de reais não se esclarece, acho a solução do IPI menor e definitivo volta a aparecer como mais viável e em prazo mais curto, não sem antes vermos um verdadeiro tsunami de demissões no setor este ano e no próximo.

Lembremos muitos fabricantes de automóveis e autopeças lançaram mão do programa PPE (Plano de Proteção ao Emprego) para conter demissões em massa, que por princípio não teria como durar mais de um ano, haja visto os recursos envolvidos (saldo do FGTS) serem de curto alcance. Sem avistar a volta do mercado de três milhões e pouco de autoveículos por ano, o PPE atingirá seu prazo limite e esses trabalhadores não terão o retorno aos postos de trabalho. Urge uma nova rodada de discussões entre indústria e governo.

Como se não bastassem os problemas internos, o cenário macroeconômico global em janeiro também deu sinais de enfraquecimento, turbulências na China, preço internacional do barril de petróleo despencando e afetando economias de países dependentes de sua exploração e exportação, como Rússia e Venezuela e membros da Opep. Enfim, o cardápio do início de 2016 azedou-se mais um pouco e o patamar de vendas diárias médias de veículos leves parece será mesmo inferior aos 9.400. Resta saber quanto menor.

Os mais vendidos do mês, troca de posições.

O novo líder do mercado brasileiro segue mais líder que nunca. Em janeiro, o Chevrolet Onix teve emplacadas 12.952 unidades, o Hyundai HB20 teve 8.988 e tomou o segundo posto do Fiat Palio, com 8.012.

Prisma subiu uma posição no ranking, Chevrolet agora com dois modelos entre os cinco mais vendidos ocupou a liderança como marca, não somente em automóveis de passageiros, posto que já vinha figurando há um tempo, mas também liderou na soma com comerciais leves, Toyota, impulsionada pelas boas vendas da nova Hilux. tomou o quinto posto da Renault, que caiu para oitavo. O impacto do lançamento da Hilux foi tão marcante que esta tomou a posição de sua concorrente direta Chevrolet S10 com mais que o dobro das vendas, 2.838 x 1.265.

Como já comentado nesta mesma coluna nos meses anteriores, o esperado lançamento da nova picape Fiat Toro, VW Gol e Voyage e Saveiro face-lift devem trazer novo vigor às vendas e compradores às lojas, seguidos de outros lançamentos programados para o semestre.

Até o mês que vem.

MAS

Fonte: Fenabrave

Fonte: Fenabrave

Fonte: Fenabrave

Fonte: Fenabrave

Fonte: Fenabrave

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  • BlueGopher

    Análise lúcida.
    Como citado, o ponto-chave para uma retomada do mercado é a reconquista da confiança do consumidor.
    Mas como fazê-lo numa época em que os maiores responsáveis pela administração do país estão preocupados somente em encontrar maneiras de escapar das acusações de roubo, desvio de dinheiro, negociatas e pura corrupção de que são acusados, enquanto que as ações ideais para o bem do país ficam jogados na lata do lixo?
    Nestas condições não conseguimos enxergar aquela famosa luz no fim do túnel, aquela virada psicológica que inverteria a tendência negativa do mercado.
    No desespero, a Anfavea provavelmente tenta obter uma redução de impostos, mas sendo realista, creio que esta não teria um efeito permanente no mercado, não seria suficiente para acender esta luz.

  • Mr. Car

    Pois é, este é o receio. As coisas piorarem tanto em 2016, que 2015 fique parecendo um grande ano.

  • É a demonização! O mais curioso é que tem fabricante que apoia o dia mundial sem carro!

  • João Carlos, não é só a demonização.

    Eu, por exemplo, não suporto andar em trânsito congestionado.
    Dirijo todos os dias, mas quase sempre em trânsito local.

    Para deslocamentos maiores quase sempre eu me programo para usar o metrô.
    A estação de metrô mais próxima fica a pelo menos 3 km de casa, então eu uso o carro até o estacionamento pegado na estação e faço o resto de trajeto de transporte público.

    Eu tenho um carro com 20 anos, e pelo meu uso não tenho o menor estímulo a fazer uma dívida para trocá-lo.
    Existe planejamento de uma estação de metrô numa linha que irá até o aeroporto de Guarulhos, a apenas 300 metros de casa. No dia que essa linha estiver funcionando, o estímulo diminui ainda mais.

    A questão é que quanto mais há congestionamentos, menos útil o carro se torna, e não compensa o endividamento por um bem tão caro.

    Coloque o aperto de cinto, e aí que o pessoal para de comprar de vez. Se não tem, continua se virando, e se tem, adia a troca.

    Aí entra outra variante, desta vez ligada à demonização.
    Pegue uma avenida larga de 3 faixas e coloque do lado esquerdo da pista uma ciclovia, do lado direito uma faixa de ônibus, e na faixa espremida do meio, baixe a velocidade que era de 70 km/h para 50 km/h.
    Tem uma avenida aqui perto onde fizeram isso. Era uma avenida vazia. Agora é uma avenida que congestiona.

    Esse congestionamento induzido piorou o uso do carro, um desestímulo a mais para usar o automóvel.

  • ochateador

    De que adianta ressuscitar a versão GTS/GTI se as pessoas não tem crédito para comprar veículos?

    • Concordo. E isso me fez lembrar de um fato de adolescência.

      Nos anos 1970 e começo dos 1980, a maioria dos carros era quase tudo igual e só mudava acabamento. Mesmo as versões esportivas eram muito pouco mais que os “pé-de-boi”.
      As diferenças de motor entre um Opala SS4 e um Opala básico ficavam essencialmente no carburador, no distribuidor e nos tuchos mecânicos. O mesmo ocorria no Chevette, no Corcel, etc..
      Eu e o CMF contamos a história do motor FIASA nesse artigo, onde dá para ver bem alguns detalhes:
      http://www.autoentusiastasclassic.com.br/2012/06/motor-fiasa-uma-historia-recheada-de.html

      Naquela época saía muito mais barato comprar o carro pé-de-boi e fazer o upgrade de motor. Algumas concessionárias tinham inclusive os kits prontos para substituição no carro zero km.
      Muitos amigos meus faziam uma festinha, regada a muito refrigerante e música para fazermos o upgrade dos motores.
      Os pais tinham comprado o carro básico com sacrifício, o filho adolescente que via que iria pegar o carro em um ano ou dois ia juntando dinheiro pra comprar o kit, e quando tudo estava nas mãos, fazíamos a festa.
      No final, o desempenho ficava até melhor que o do esportivo original porque o carro básico era mais leve.

      Nessa época, o único esportivo de verdade que estava além do potencial de upgrade do carro básico era o Passat TS.

      Hoje tenta passar um UP! básico para a versão TSI. Não dá mais para fazer essas graças.

  • Mineirim

    Diogo, lembre-se de que o Fusion é o mais vendido dos sedãs grandes.
    No mais, concordo com seu comentário e acrescento: a Ford está acomodada há muitos anos com aquela fatia de 10% do mercado. Agora a casa caiu…
    Abraço

    • Diogo

      Tem razão, havia esquecido do Fusion.