Assim como para a maior parte dos autoentusiastas, meu interesse e curiosidade por automóveis começaram na infância. No início minha atenção se prendia apenas a ônibus e caminhões, cujas figuras eu recortava de revistas e colava na parede do quarto. Depois, aos poucos, quando aprendi a ler, começaram a surgir em casa exemplares das revistas Quatro Rodas e Oficina Mecânica.

Meu pai nunca foi um grande autoentusiasta, tinha algum interesse por automóveis, mas nada que o fizesse ler mensalmente revistas sobre o tema. Analisando hoje, é possível que ele tenha percebido o meu interesse e por isso comprasse as revistas. Um fato a destacar é que os carros que sempre me chamaram a atenção, e isso ocorre até hoje, são os modelos “comuns”, desses que um dia eu pudesse ter. E sempre gostei de modelos médios, o VW Pointer por exemplo foi um modelo que me fez suspirar durante um bom tempo.

Acompanhei a abertura do mercado brasileiro no início dos anos 1990 às novas marcas, e uma delas me chamou a atenção, a Renault. Não sei bem explicar por que, naquela época chegaram veículos das mais variadas marcas e países e embora eu já tivesse algum conhecimento sobre o assunto, não sabia o histórico e posicionamento da maioria das fábricas que não fossem as quatro brasileiras.

E um modelo em especial, lançado em 1994, quando eu tinha 12 anos de idade, tornou-se meu sonho de consumo, o Renault 19. Guardo até hoje o folheto do Salão do Automóvel de 1996, que me fazia ficar horas vendo as fotos e lendo as descrições e especificações do carro que eu gostaria de ter.

 

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Esse foi o folheto que despertou minha paixão pelo Renault 19

Como criança em fase de transição para a adolescência, eu criava verdadeiros roteiros de viagem com o Renault, e conseguia criar na minha mente sensações como o som do motor ou revestimento dos bancos.

O tempo passou e em 2000 tivemos um primeiro Renault na família. Num rompante de ousadia, meu pai comprou um Kangoo RN para minha mãe. Digo que foi ousadia não pelo veículo em si que era exótico à época, mas sim porque para ele carro bom era apenas VW e Chevrolet, o resto não aguentaria 1 ano de uso. E o Kangoo aguentou seis anos, quando foi trocado por um Berlingo.

Nessa época fiz um rolo de pai para filho e fiquei com o Berlingo, que fora pouquíssimo usado pela minha mãe e era praticamente zero-km. Eu tinha uma pequena loja de roupas que só dava prejuízo, e em 2007 a necessidade financeira me fez trocá-lo por um carro mais barato. Como eu já tinha algum olho clínico para carros usados, consegui encontrar numa loja um Escort 1,8 GL 1993 a álcool absolutamente original. Enterrei a diferença do valor na loja e fiquei com o Escortinho.

 

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Escort 1,8 GL 1993, dentro dele minha namorada que viria a ser minha esposa

Mas um ano depois o Escort já não me agradava tanto. Embora estivesse realmente em perfeito estado com cerca de 50 mil km, eu não me entendia com o câmbio que enroscava a 1ª e a marcha ré, reclamava do calor no verão (não tinha ar-condicionado) e eu queria um carro quatro-portas.

E achei o anúncio de um Renault 19 RT ano 1997 (último ano de exportação do modelo da Argentina para o Brasil) numa concessionária Ford no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde moro. Eu já tinha visto alguns Renault 19 à venda e todos estavam em estado sofrível. Mas quando cheguei nessa loja da Ford, meu coração deu um salto: o carro estava absolutamente íntegro, tinha tido apenas um dono, também aproximadamente 50 mil km originais, manual do proprietário e de manutenção, chave com controle remoto que funcionava, toca-fitas original e tudo mais que acompanhava o carro quando saiu da fábrica, e que deveria continuar acompanhando todos os carros se os donos não fossem tão desleixados.

 

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O meu Renault 19

Sentei com o vendedor para negociar e disse que daria meu Escort na troca. Ele chamou um consultor técnico para avaliar meu carro, e de início ao saber do ano e modelo o consultor torceu o nariz. Insisti para que fosse vê-lo e a história mudou. Me lembro até hoje que o avaliador, um japonês, de cara percebeu que o Escort estava bom e disse que aceitaria o carro e posteriormente o compraria para seu pai. Negócio feito, paguei a pequena diferença em forma de leasing e após alguns dias de burocracia fui pegar o carro. Eu estava ligeiramente nervoso no dia, estava realizando um sonho de infância mas ao mesmo tempo tinha medo que o carro não estivesse tão bom assim e logo me trouxesse problemas.

 

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Bancos excepcionais, ótima ergonomia

Sentei, liguei o motor, fechei os vidros, liguei o ar-condicionado (que funcionava) e saí. Agora na rua eram somente eu e aquele Renault que eu sempre quis, e no painel eram infinitos botões e luzes, eram os retrovisores com ajuste elétrico e desembaçador, os bancos de veludo e espuma macia como sofás, o silêncio e aconchego do bom acabamento. Comparado ao Escort, que era a carburador, o motor do Renault com injeção eletrônica multiponto era um relógio e o câmbio, embora a caixa JB3 da Renault tivesse aquele movimento esquisito da alavanca, em minha opinião funcionava muito melhor.

Foram tempos felizes, mas não fáceis. Logo nos primeiros dias tive de reparar a boia do combustível que não marcava e não existia nova para vender. Depois válvula termostática, os quatro amortecedores (que ainda eram os originais), bandejas e buchas, as laterais do radiador que eram de material plástico e racharam (foram trocadas por metal), bomba d’água que travou, motor de arranque, compressor do ar-condicionado que furou um pistão interno (foi reparado mas depois disso o ar nunca mais gelou direito), correia dentada e esticador (esses por precaução), um cilindro de freio que oxidou e válvula reguladora traseira que vazou e quase deixaram minha esposa em maus lençóis, entre muitas outras intervenções que não me lembro mais.

 

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Quadro de instrumentos de fácil legibilidade incluía útil medidor do nível de óleo, o inferior do lado direito

Aliás, o 19 nunca me deixou na mão, mas à minha esposa sim, e por duas vezes: uma por bomba de combustível queimada e outra, pela quebra do cabo de embreagem. Em ambas ocasiões um amigo mecânico veio socorrer e no caso do cabo da embreagem, levou o carro andando trocando as marchas no tempo. Até que em 2011, por absoluta irresponsabilidade e imperícia minhas, bati com o carro na rodovia dos Imigrantes. Não foi grave, bati com o lado esquerdo no parachoque traseiro de uma carreta e perdi paralama, farol principal e de neblina e toda a estrutura interna que prendia essas peças. As únicas que comprei novas foram farol de neblina e pisca. O farol principal só havia marca paralela à venda, de qualidade ruim. Comprei farol e paralama num desmanche, e o reparo ficou razoável (longe de perfeito, qualquer um com alguma experiência saberia que foi batido).

Nessa época as coisas melhoraram, eu passei num concurso público e estava também com um Focus GLX Duratec 2007 e, com dor no coração, achei que era hora de me desfazer do Renault. Coloquei um anúncio num grande site de automóveis e esperei. Em quase um mês foram algumas visitas ao anúncio e absolutamente nenhum contato. E o preço estava bom diante do estado do carro, eu sempre vendi carros usados por preços razoáveis ligeiramente abaixo da tabela.

Até que minha esposa teve uma ideia: seu pai tinha um Fusca já em péssimo estado e talvez pudesse comprar o 19. E assim foi feito, parcelei o valor em família e levei o carro até ele, em sua última viagem comigo, 450 quilômetros até a cidade do interior de São Paulo, onde ele mora. O carro imediatamente virou seu xodó e até hoje é muito bem cuidado. Como eu já havia feito diversas manutenções não sobrou muita coisa para quebrar. Mesmo assim foram trocados os silenciadores, discos e pastilhas, rolamentos e outras coisas menores.

É o único Renault 19 da cidade, e hoje os mecânicos de lá ainda têm dificuldade em comprar peças básicas de suspensão ou rolamentos, que quase sempre são rigorosamente as mesmas do Logan/Sandero/Mégane/Scénic/Kangoo e estão fartamente disponíveis.

Para mim a venda em família foi a melhor solução que poderia haver, vejo que o carro é extremamente útil ao meu sogro e família e ainda suspiro quando vou visitá-lo e o vejo na garagem ou estacionado na porta da casa. Já passados muito mais de 100 mil km, o motor ainda funciona redondinho e silencioso, sem bater nada, prova de que os motores Renault são muito duráveis — são quase 5 litros de óleo a cada troca, creio que isso contribua bastante para sua longevidade.

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Cada vez que vejo o 19 parado em frente à casa do meu sogro bate uma enorme saudade

Não passa pela cabeça do meu sogro se desfazer do carro, e espero que o 19 retribua esse carinho com mais muitos anos de bons serviços.

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