Anfavea propõe programa para retirar de circulação milhões de sucatas sobre rodas que congestionam, poluem e colocam a segurança em risco.

Como o governo federal se mostra incompetente para implantar a inspeção veicular, estabelecida pelo código de trânsito há 18 anos, continuam milhões de BMV (Brasilia Muito Velha) circulando livremente pelo país. Quebram no meio da rua e aumentam os congestionamentos, emitem gases poluentes dezenas de vezes acima dos índices tolerados e, caindo aos pedaços, colocam em risco a vida do dono e dos outros motoristas.

Voltou recentemente à tona a ideia de um programa de renovação de frota, imaginada (mas não foi adiante) há dois anos para os caminhões com mais de trinta anos. Ela voltaria agora estendida para os automóveis fabricados há mais de quinze anos. A proposta foi levada pela associação das fábricas de automóveis (Anfavea) ao governo federal em 2015, a partir dos estudos de um grupo de 19 entidades da indústria, comércio, sindicatos e órgãos do governo.

O programa, chamado Sustentabilidade Veicular, não foge ao roteiro já proposto no passado: o dono do veículo o leva a uma empresa de reciclagem para sucateá-lo e emitir uma espécie de “atestado de óbito” que dá direito a uma carta de crédito para reduzir o custo da aquisição (financiada) de outro veículo novo ou usado menos idoso.

Aposentar a sucata ambulante vai muito além dos interesses das fábricas, pois contribui para o meio ambiente, fluxo e segurança do trânsito e desenvolve a economia como um todo. Além de, claro, estimular as vendas da indústria automobilística: estima-se um acréscimo de 500 mil unidades anuais nos primeiros anos de vigência do programa, um reforço muito bem-vindo num mercado em crise e com gráfico de vendas apontado para o assoalho. Ao contrário de outros países (como a Argentina e alguns europeus) que implantaram plano de estímulo semelhante mas durante período limitado, o programa brasileiro seria permanente. Evitando assim um pico de vendas durante sua vigência seguido de uma marcha-ré do mercado ao expirar.

A ideia é boa, mas falta um detalhe a ser resolvido e contar com o aval definitivo do governo federal: de onde sairão as verbas necessárias para financiar a carta de crédito e o financiamento para a aquisição do veículo mais novo. O programa não pode se basear somente em recursos ou incentivos do governo federal, às voltas com uma gravíssima crise fiscal. Mas imaginou-se a criação de fundos específicos a partir do licenciamento dos veículos, seguro obrigatório (DPVAT), taxas e outros.

Um plano de renovação de frota que traz benéficos sociais, econômicos e ambientais deveria congregar esforços do poder público (governos federal e estaduais), do BNDES, da indústria automobilística (apesar de abalada pelas vendas em declínio), das empresas de financiamento e seguros. Um verdadeiro “mutirão” que poderia contribuir fortemente para um processo de reversão da nossa economia em frangalhos.

A indústria automobilística brasileira está de olho nas exportações, aproveitando a desvalorização do real, para compensar a retração do mercado doméstico. Um caminho natural e que poderá recuperar parte do seu fôlego. Mas é indispensável uma injeção de ânimo também nas vendas internas, que tiveram queda de 27% em 2015 e outros 6% estimados para 2016. Mais de mil concessionárias foram fechadas no ano passado com 32 mil postos de trabalho eliminados. Estima-se que outras 400 lojas fecharão as portas este ano, caso não haja uma reversão do cenário econômico.

O programa Sustentabilidade Veicular deveria ter sido anunciado em janeiro, mas foi adiado sem nova data para ser implementado. Pela sua importância, espera-se que não tenha a gaveta de algum ministério em Brasília como destino final.

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


Sobre o Autor

Boris Feldman
Coluna: Opinião de Boris Feldman

Boris Feldman é engenheiro elétrico formado pela UFMG, também formado em Comunicação, jornalista especializado em veículos e colecionador de automóveis antigos. Além da coluna Opinião de Boris Feldman no AUTOentusiastas, é colunista do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, e do jornal O Povo, de Fortaleza e tem o programa de rádio Auto Papo, na emissora Alpha FM, de São Paulo, e em mais 38 emissoras pelo país, com três edições diárias.

Publicações Relacionadas

  • Lemming®

    Cada vez que vejo uma matéria sobre incentivo para troca de veículo com ônus para o erário entro em pânico.
    Não é possível que alguém em sã consciência não veja que isso virá a ser como muitas outras iniciativas que terminam em roubalheira.
    Carro não é direito é uma liberdade e não tem como admitir que o custo seja repassado a toda a sociedade da maneira que for com a desculpa esfarrapada de que é para o “bem geral”.
    As jabicaras na rua são caso de polícia e fiscalização. Apreende e manda para a sucata. Ônus para o proprietário e pronto.
    Fora isso é socialismo de fato.

    • Claudio

      É o governo outra vez esquivando-se de suas responsabilidades e fazendo demagogia com o chapéu alheio.Quem não tem recursos de manter um carro, mesmo que antigo, em boas condições mecânicas que ande de transporte coletivo.

      • WSR

        É melhor andar num BMV a andar no transporte coletivo, no Brasil, em horário de pico.

    • Luciano Ferreira Lima

      Infelizmente uma boa ação que será desviada do caminho certo. Eu não acredito em mais nada de conotação salutar que saia da cartola do governo. Abraços Lemming.

    • JeffRL

      Geralmente quem tem carro caindo os pedaços é por que não tem como fazer a manutenção mesmo. Então, se não consegue fazer manutenção em um Monza caindo os pedaços(exemplo), como vai financiar um veículo mais novo?

    • Fernando

      Também não sou a favor deste plano.

  • Renan V.

    Boris, e quem depende dessas BMV´s para ganhar a vida? E quem tem apenas essas sucatas como meio de transporte? E quem não tem dinheiro para financiamento mesmo com os incentivos? Perguntas complicadas num quadro complicado. Aliás, não vejo a frota tão ruim e em frangalhos não, mesmo em lugares mais simples e desabastados, garagens com Palios, Celtas… Só penso que o governo não deveria interferir tanto na economia, aliás, simplesmente não deveria interferir. Ações governamentais brasileiras são desastrosas, principalmente nos recentes e atual governo, e não basta o assistencialismo das bolsas, agora mais isso? Há quem defenda? Não era melhor uma economia sólida para, naturalmente, impelir o consumidor a comprar e trocar de carro, mas sem essa, de malhar os outros carros?

    • Fernando

      Creio que as BMVs já englobem Corsas, Palios e Celtas, é só ver que o Corsa e Palio na faixa dos 20 anos e Celta já com 15, quando mal mantidos, já causam problemas suficientes no trânsito e são justamente o que as pessoas de renda baixa conseguem comprar e tentar manter, mas em muitos casos ainda se passa carro de mão em mão sem nem transferirem, acumulando multas e etc. Coisas de Brasil, onde se vê carro vendido com preço dizendo: “R$XXXX + DOC” como se documentação não fosse obrigação de estar em dia…

      • Renan V.

        Quanto aos carros, Fernando, eu discordo, na minha opinião isso é “assunto de juiz”, cada caso é um carro e cada carro é um caso. Tem muito Corcel I mais conservado do que Fiat Punto. Agora, sobre os documentos, quem sai perdendo são os cofres da União, que deixam de arrecadar mediante ao não pagamentos de taxas, seguros e impostos, no mais, todo o ônus vai para esse donos e antigos proprietários desleixados.

  • Mr. Car

    A idéia é boa? Esta carta de crédito que o sujeito receberá por entregar um carro com 15 anos (ou mais) vai representar quantos % do valor do carro 0km a ser financiado? Certamente, uma merreca, ou seja, quem não tinha dinheiro para trocar de carro, vai continuar não tendo, e tendo que financiar o novo a juros altíssimos por um longo prazo. E mesmo supondo que se possa comprar carros usados: o sujeito troca um de 15 anos por um de 10, 12, e daqui a pouco está tendo que trocar outra vez. O (des)governo quer renovação de frota? Então que diminua bem os impostos extorsivos na hora da compra, e que coloque a economia do país nos eixos. Isto já ia ser um grande incentivo para se trocar de carro naturalmente, por iniciativa própria, não por o (des)governo ter resolvido que o cidadão tem que trocar.

  • Carlos A.

    Assunto complexo, pois acho que começa com a consciência, meu caso por exemplo tenho um carro com 36 anos em perfeito estado, isso significa que tudo funciona, tem pneus em ótimo estado e apresenta segurança no uso. Além das coisas que se arrastam pelas ruas com algumas algumas décadas de uso, vejo muitos carros novos com no máximo 1 ano (falo isso pois são veículos de pessoas que trabalham próximo de casa os vejo diariamente) ou indo para 2 anos e já estão longe de serem seguros, com pneus acabados, lâmpadas queimadas e selo de troca de óleo da loja de esquina, indicando provavelmente que nem a primeira revisão foi feita na concessionária, não que isso seja um crime, mas pelo estado geral do carro comprova que o cara financiou e esqueceu que além do custo das parcelas, carro tem custos anuais de impostos e taxas, combustível e manutenção preventiva ou nada preventiva nesses casos sitados!
    Assim, temos outro fator que é a fiscalização, onde automaticamente esses restos de carro seriam eliminados da rua, custando caro aos seus donos e com isso evitando que tivessem a coragem de usá-los colocando além de tudo, terceiros em risco.
    Aí com o governo estimulando com menos impostos também acho que a renovação seria automática….
    ….mas isso me parece utopia em todos os sentidos, impostos menores, consciência e educação.

  • Hemi Enthusiast

    Fundo para financiamentos para veículos, pagos por nós? Li direito? Surreal!
    Porque não usa o dinheiro das multas de trânsito, já que vai diminuir o transito, acidentes, mortes…

  • Mr. Car

    Em tempo: eu juro para vocês que a foto que ilustra esta matéria me incomoda.

    • Renan V.

      Isso é uma chacina.

  • Fabio Fabio

    Aqui no meu estado , carros com mais de 20 anos de uso são isentos de IPVA

  • Baptista

    Concordo com o que já foi dito. Quem não tem dinheiro para manter uma BMV não terá como arcar um menos usado ou novo. O problema todo acho que foram os incentivos do governo fora de hora que criaram um vôo de galinha: curto e insustentável. A indústria automotiva, assim como toda economia, surfou no boom e agora acorda para a realidade. Não sou economista mas penso que foi o que aconteceu. Sinto para quem perde o emprego e o empresário que teve prejuízo.

    Além da vistoria obrigatória, penso que deve haver uma discussão mais urgente: o seguro obrigatório que englobe não só os danos pessoais do DPVAT, mas também que cubra o risco de batidas e furtos/roubos. Vejo na internet que todas economias mais sólidas já adotam e passou da hora do Brasil abraçar a ideia.

    Abraços, Baptista.

    • Fernando

      Concordo com todo seu ponto de vista, pois ressaltou o que age fortemente aqui:

      1- Surfar na onda “boa” e não enxergar a crise, até que tudo quebre e aí não tem uma viva alma que assuma que aquilo era um bom momento e ele pode virar. No caso da indústria automotiva isso foi amplificado com o fácil crédito e redução de impostos temporariamente. O crédito já é bem mais seletivo hoje…

      2- Seguradoras não quebram e tem margens de lucro que ninguém questiona(e boa parte nem faz idéia). Mas quando o negócio não interessa para elas, simplesmente se negam a segurar os carros com bases em estatísticas, que como o caso acima, flutuam como navio em tormenta, e assim usam de vários argumentos para em um belo momento negar o seguro para carros mais antigos. E justamente não é a idade do veículo o motivo para isso, embora seja o argumento deles.

  • Renato Texeira

    Na minha opinião, alem do governo ser negligente por não implementar a inspeção veicular ele incentiva a circulação de casos velhos pelas ruas. Afinal, quanto menor o valor do veículo (e portanto quanto mais antigo), menor o valor de IPVA.

    • Fernando

      A ordem de arrecadação do IPVA pode parecer injusta por ter os antigos pagando menos, mas isso é o que fez ser viável, não fosse isso a arrecadação total seria menor, e eles querem o total maior. Quem paga o valor do mais novo sustenta tranquilamente o restante, é assim que funciona aqui. Mas é claro, seria justo ser como em outros países, que não há cobrança alta de imposto anual como aqui.

      • Renato Texeira

        Isto tudo só prova que os impostos não são criados para benefício da população. Já seria mais justo se a cobrança do IPVA fosse como é em muitos países, onde quanto mais pesado o veículo (e portanto, maior o dano causado as rodovias), maior a taxação associada.

  • Fernando

    Acréscimo de 500 mil unidades por causa deste plano? E depois, dobrar a meta? Parece-me não só otimista, mas ilusório. Quem tem a BMV não vai comprar carro novo, não com estes valores de seguro e impostos, sem falar em revisões e preço que andam os combustíveis. É isso ou a comida no prato, e aí ninguém pode questionar a prioridade.

    Por falar em impostos, agora tudo fez sentido: um programa que não terá eficácia, junto de aumento de impostos/taxas e governo líder na corrupção, boa jogada(só não é novidade).

  • Carlos

    Já disse isso antes e repito, acho a liberdade de ideias um valor enorme do Autoentusiastas. Tenho quase certeza que a maioria dos outros autores do site tem posição muito distinta da do Boris sobre esse tema, mesmo assim ele pode se expressar e emitir opinião. Espero que isso se mantenha como um valor do site, permitindo sempre, dentro dos limites do respeito e da polidez necessária, que ideias diferentes circulem. Em tempo, pessoalmente acho a ideia ruim, como economista (que sou) não apoiaria de maneira alguma tal medida se minha opinião fosse importante para quem tomará a decisão.

  • Mr. Car

    Fiquei um tempão sem internet, he, he! Sugestão? “Conquest of Paradise” – Vangelis.

  • Bera Silva

    Perfeito!

  • Daniel S. de Araujo

    Desculpe mas isso é um absurdo. Essa história de “capitalismo patrimonialista” “capitalismo colonial” é, fazendo das palavras de um amigo, “bater palma para maluco”, ou seja, uma conversinha que cai muito bem nas rodas das humanas da USP mas sem respaldo na vida real. Ao que me consta, ignorando a questão da corrupção, a filosofia econômica que norteia o PT não é nem aristocrática nem surgida em meios trad4icionais.

    Então, culpar o capitalismo colonial pela derrotada do Keynesianismo petista há 15 anos no poder (e mais alguns da era FHC, pessoa esta que está longe de ser um liberal) é tão leviano quanto a historinha do marido que culpa o sofá pela infidelidade da esposa.

    Quanto aos países escandinavos: http://www.libertarianismo.org/index.php/artigos/a-aurora-nordica-para-o-capitalismo/

  • Wagner Bonfim

    Bom, a opinião dele não é que só o governo, ou mesmo nós pagadores de impostos, devamos ser penalizados para sustentar um programa como este, de renovação da frota. Pelo que li, ele deseja que seja feito um “pacto” que permita uma recuperação mais rápida da indústria automobilística e que insira variados atores na solução do problema.

    Tenho que concordar que a situação da indústria automobilística é séria e preocupa (como a de qualquer outra hoje). O Brasil se desindustrializou severamente, ao mesmo tempo que voltou-se ao consumo para sustentar um crescimento mentiroso.

    Vimos que não deu certo e teremos de repensar nosso modelo econômico …

  • Leo Cordeiro

    Daniel,na verdade pelo que entendi,esse programa daria uma carta de crédito maior que o valor de mercado do veículo a ser sucateado e o financiamento seria subsidiado.Dessa forma essas pessoas com menor potencial de consumo,teriam como trocar seu veículo,o que talvez não fosse possível em outras condições.