Uma imagem que causa estranheza a todos, um “Fusca ao mar!”, e logo vêm as perguntas: quem fez isto? Onde foi que isto aconteceu? Parece ser um Fusca real, será? Será que ele já está apodrecendo? Calma, aqui vão as respostas para estas perguntas e muitas outras.

O artista internacional Jason deCaires Taylor é o fundador e Diretor Artístico do MUSA – o Museu Subaquático de Arte, em Cancún, no México, criado em 2009, onde exibe suas obras mais famosas, como “A evolução silenciosa”, de 2012, um ambicioso projeto composto de 400 figuras em tamanho natural modeladas com base em pessoas reais do México e de todo o mundo.

 

AG-21-Foto-01  FUSCA AO MAR! AG 21 Foto 01

Detalhe da instalação “A evolução silenciosa” com suas estátuas em tamanho real baseadas em modelos igualmente reais, já dispostas em seu lugar definitivo no fundo do mar

Das várias obras de Taylor, uma se destaca para nós, Fuscamaniacos. É a instalação “Antropocena” de 2011, que é um Fusca em escala 1:1 e que engloba um viveiro para crustáceos e esconderijo para peixes pequenos, como veremos adiante. Nesta foto, a escultura do menino sobre o capô dianteiro (ver logo adiante), que tanto incomoda muita gente, ainda não tinha sido colocada.

 

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Foto de Taylor dando o acabamento na escultura em cimento de um Fusca em tamanho real; esta escultura é intencionalmente oca para servir de abrigo a peixes e crustáceos  (foto National Geographic Magazine)

Mas há uma foto do “Fusca ao mar” que se tornou emblemática e mostra o Fusca já completo, no fundo do mar há algum tempo e com o acréscimo controvertido do tal menino sentado sobre o capô dianteiro, encostado no parabrisa e apoiado sobre o teto do carro, com o rosto escondido pelo braço. Mas esta figura humana está completamente inserida no contexto do trabalho de Taylor, cuja ênfase reside exatamente nas pessoas que retrata em suas figuras.

 

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O “Fusca ao mar”  de concreto em tamanho natural realizado por Jason deCaires Taylor já no fundo do mar, já com a estátua do menino no capô dianteiro

Taylor lançou, também em 2011, uma nova coleção de esculturas submarinas, intitulada “Que Hemos  Hecho” (O que temos feito). Nas palavras do próprio Taylor, estas esculturas têm o objetivo de “explorar o significativo impacto que os seres humanos tiveram sobre os ecossistemas do nosso planeta e os efeitos subsequentes às gerações futuras. ”

Como um artista ambiental, as esculturas submarinas de Taylor servem ao mesmo tempo como arte e ativismo ecológico; a coleção “Que Hemos Hecho” se desenvolve nessa linha. Suas três peças iniciais, “Inércia” (inércia), “Vacío” (vácuo), e “Herencia” (herança), estão localizadas em águas rasas do Parque Nacional Marinho, localizado na parte norte do estado mexicano de Quintana Roo, áreas severamente danificadas por furacões e tempestades tropicais, onde o ecossistema está necessitando de regeneração. Vamos ver duas destas obras:

 

As obras do MUSA estão dispostas no fundo do mar nas costas mexicanas, na região de Cancún e sua disposição geográfica pode ser vista no esquema abaixo, mas o trabalho continua, se bem que depende de aporte de doações, visto que a entidade não tem fins lucrativos.

 

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Foto de satélite da região onde as estátuas foram instaladas

Estas esculturas são, em certo sentido funcional, recifes artificiais para as plantas e a vida marinha animal, para que elas as colonizem e habitem. Além disso, as esculturas de Taylor são feitas com materiais compatíveis com o meio ambiente, tais como concreto com pH neutro reforçado com vergalhões de fibra de vidro inerte especial.

As estátuas são preparadas fora da água para depois irem sendo afundadas formando as instalações temáticas criadas por Taylor e executadas com o auxílio de sua equipe.

 

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Estátuas prontas aguardando o “afundamento” no Mar do Caribe; é interessante observar a diversidade das imagens; e pensar que em pouco tempo elas poderão ficar irreconhecíveis…

Taylor diz o seguinte de sua obra: “Eu estou tentando retratar como a intervenção humana ou a interação com a natureza podem ser positivas e sustentáveis, um ícone de como podemos viver em uma relação simbiótica com a natureza.”  Para facilitar este efeito, os visitantes podem ver suas obras mergulhando com snorkel entre as esculturas ou fazendo um passeio em barco com fundo de vidro, de maneira que possam testemunhar a beleza representativa das esculturas de Taylor, bem como um ato de regeneração ecológica em andamento. Visando fazer o público repensar a sua relação com o meio ambiente e ser inspirado para tanto em relação à consciência crítica e cuidado ambiental, Taylor se colocou no mapa entre os principais artistas ambientais contemporâneos.

As esculturas serão alteradas na sua aparência ao longo do tempo,  à medida que o coral cresce e a vida marinha se estabelece. O controle estético é abandonado à natureza, em forte manifestação física da mensagem por trás do trabalho  intelectual. Com o avanço da tecnologia e do ambiente construído, parece que perdemos a nossa ligação intrínseca com a natureza.  A manifestação de organismos vivos que coabitam e estão enraizados em nosso ser se destina a lembrar-nos da nossa estreita dependência da natureza e do respeito que se deve ter, definindo um papel integral no futuro do planeta.

As estátuas são feitas com base em modelos reais e são esculpidas em concreto especial para depois de afundadas servirem de base para diferentes tipos de corais e outros tipos de vegetação marinha que se apoderam da escultura e, muitas vezes, tornam as imagens originais irreconhecíveis, seguindo o ritmo da evolução natural destes elementos.

 

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Exemplo dos 3 estágios de uma das figuras de Jason deCaires Taylor: o modelo vivo, a estátua logo depois de instalada (todas as estátuas são retratadas de olhos fechados) e a ação da natureza poucas semanas depois

Chamo a estátua do Fusca de “ativa”, pois, além de emprestar a sua superfície para a proliferação de corais, o seu interior foi preparado para servir de abrigo para peixes pequenos e filhotes, além de ter estruturas dedicadas à procriação de lagostas e outros crustáceos. Para tanto, o Fusca de concreto recebeu aberturas estrategicamente distribuídas para permitir a entrada e saída destes animais; conforme mostra o esquema abaixo:

 

AG-21-Foto-09  FUSCA AO MAR! AG 21 Foto 09

Esquema interno da escultura de Fusca mostrando o seu lado “ativo”; na foto na qual Taylor estava dando acabamento na escultura do Fusca, ele estava trabalhando os acessos para espécies menores ou filhotes

O procedimento de colocar a estátua de Fusca no fundo do mar foi uma manobra complexa e um pouco desastrada. Algumas imagens deste procedimento podem ser vistas no vídeo abaixo:

 

O MUSA depende de contribuições para cobrir seus custos e para tanto ele depende de vários patrocinadores.  E um deles é a Volkswagen, que no dia 30 de julho de 2012 submergiu um Beetle esculpido no mar do Caribe.

 

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Um Beetle foi esculpido e afundado no Mar do Caribe com o patrocínio da Volkswagen e agora faz companhia ao Fusca que já estava lá

A marca alemã patrocinou a colocação no fundo do mar de uma réplica deste modelo que agora faz companhia para o emblemático Fusca, instalado um ano antes. A Volkswagen fez a sua contribuição para o MUSA com a presença de dois carros emblemáticos da marca: Fusca clássico e sua derivação moderna, o atual Beetle. O primeiro foi um trabalho realizado pelo próprio Taylor, que está nas profundezas do Caribe desde 2011.

O Beetle é um trabalho elaborado por Rodrigo Quiñones Reyes, membro da equipe de Taylor, feito com cimento e varetas de fibra de vidro marinho, materiais resistentes à corrosão e 20 vezes mais duros do que os materiais convencionais.

O processo de afundamento desta estátua foi mais tranquilo, tendo sido usado um barco especializado para realizar o procedimento, ao contrário dos balões usados no caso do Fusca cuja fixação acabou escorregando e complicando o procedimento.

Também neste caso eu preparei um vídeo com fotos dos preparativos (com a comparação do Beetle real com a sua réplica em concreto) e a manobra de afundamento (fotos do site AutoAnuario ON-LINE). Esta estátua também é oca e oferece abrigo para espécies marinhas, sendo que as aberturas de passagem dos peixes estão nas janelas.

 

Este empreendimento chamou e continua chamando a atenção da imprensa em todo o mundo. Existem mais de 1.000 matérias sobre o parque de estátuas subaquáticas mexicano. Na matéria da National Geographic que se segue podemos ver um apanhado sobre a instalação que começa com o próprio Taylor dando acabamento no Fusca de concreto, um pouco antes dele ser afundado para sempre:

 

 

Jason deCaires Taylor é um homem de muitas identidades, cujo trabalho reflete as influências de sua vida eclética. Crescendo na Europa e na Ásia com seu pai inglês e mãe da Guiana, nutriu sua paixão pela exploração e descoberta. Grande parte de sua infância foi passada nos recifes de coral da Malásia, onde desenvolveu um amor profundo pelo mar e um fascínio pelo mundo natural.

 

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Taylor em seu ateliê, entre estátuas de tamanho natural, moldadas e esculpidas em concreto especial

Isto, mais tarde, levou-o a passar vários anos trabalhando como instrutor de mergulho em várias partes do globo, desenvolvendo um forte interesse no naturalismo, conservação e fotografia subaquática. A ligação com o mar continua a ser uma constante durante toda a vida de Taylor, embora outras influências principais sejam encontradas muito longe do oceano.

Durante sua adolescência, o trabalho como artista de grafitti disparou o seu interesse na relação entre arte e meio ambiente, promovendo a ambição de produzir arte em espaços públicos e direcionando o foco de sua educação artística formal. Ele se formou, em 1998, no Instituto de Artes de Londres, como bacharel em Artes com Menção Honrosa em Escultura e Cerâmica.

Mais tarde, a experiência colhida na Catedral de Canterbury lhe ensinou técnicas tradicionais de escultura em pedra, enquanto cinco anos trabalhando em cenografia e instalações para concertos lhe deram experiência com guindastes, levantamento de peças, logística e projetos em grande escala. Foi com essa gama de experiências que ele desenvolveu as habilidades necessárias para executar os projetos subaquáticos ambiciosos que fizeram seu renome.

Esculpindo em cimento em vez de pedra e supervisionando guindastes, em traje de mergulho completo para criar recifes artificiais submersos abaixo da superfície do mar do Caribe, as variadas vertentes da sua vida diversificada mesclaram-se convenientemente e agiram de um modo bem-sucedido no desenvolvimento de suas esculturas submarinas. Estas obras públicas ambiciosas têm um aspecto prático e funcional, facilitando a interação positiva entre as pessoas e frágeis hábitats submarinos.

Jason deCaires Taylor ganhou grande interesse público e reconhecimento por seu trabalho único, com artigos em mais de 1.000 publicações ao redor do mundo, incluindo a National Geographic, Vogue, USA Today, Daily Telegraph e The Guardian. Suas esculturas foram motivo de programas e documentários na CNN, Discovery Channel, BBC, Metropolis Art Lounge e Thalassa.

Sua reputação internacional foi estabelecida em maio de 2006, quando criou o primeiro parque subaquático do mundo em Granada, nas Antilhas, levando-o a empreendimentos tanto privados como públicos. Taylor é atualmente fundador e diretor artístico do Museu Subaquático de Arte (MUSA), em Cancún, no México.

AG

A coluna “Falando de Fusca” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Alexander Gromow
Coluna: Falando de Fusca & Afins

Alemão, engenheiro eletricista. Ex-presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor dos livros "Eu amo Fusca" e "Eu amo Fusca II". É autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Além da coluna Falando de Fusca & Afins no AE também tem a coluna “Volkswagen World” no Portal Maxicar. Mantém o site Arte & Fusca. É ativista na preservação de veículos históricos, em particular do VW Fusca, de sua história e das histórias em torno destes carros. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

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  • Mr. Car

    Assim, está ótimo, e pode ser considerado verdadeiramente como arte. O duro é quando inutilizam ou destroem um carro de verdade, muitas vezes funcional ou recuperável, para fazer “arte” modernista, ou quando roubam carros, depenam, e o que resta vai parar no fundo de rios, lagos, lagoas, e represas. Este último tipo de “naufrágio”, infelizmente, é o que não falta no Brasil.

    • Salve Mr. Car,
      Taí, concordo plenamente com o seu comentário. Eu também detesto quando Fuscas são inutilizados em nome de uma “arte” para lá de duvidosa. Aliás eu sempre reclamo quando vejo as barbaridades que você descreveu! O que o pessoal esquece é que é “EXTINÇÃO É PARA SEMPRE!”

  • CorsarioViajante

    Muito bacana, uma coisa muito legal nesta coluna é que sempre consegue usar o Fusca como ponto de partida para falar de vários outros assuntos. Parabéns! Sou artista plástico por formação e gostei muito.

  • Ambos os carros, caro Carlos A., tanto o Fusca como o “Beetle” são ocos e têm aberturas para a entrada de peixes e crustáceos. Isto está em conformidade como todo este projeto de preservação da fauna e flora marinhas na costa do México, próximo a Cancún.

  • CorsarioViajante

    Você consegue alcançar este espectro mais amplo, mais “cultural” do Fusca, e muito bem, por isso mesmo eu, que não sou fã do usca, sempre leio com gosto sua coluna, pois a partir do besouro o assunto vai para história, arte, etc etc. Parabéns!