Caro leitor ou leitora, não se preocupe, você leu certo o título e deve ter estranhado uma notícia de futebol aqui no AE, mas é apenas a maneira de eu começar a contar a talvez maior infâmia que já vi nos meus 73 anos.

A Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) regulamentou os track days! Exatamente a mesma figura de se um dia a  Confederação Brasileira de Futebol regulamentasse o futebol de várzea.

Levou para o “automobilismo de várzea” toda a sua burocracia, arrogância a ineficiência com o objetivo de — digo-o sem medo de errar —  só poder ser o de aumentar seu faturamento, com isso alijando desse tipo de automobilismo todo cidadão que queira apenas  se divertir um pouco e despretensiosamente nos fins de semana.

 

Pista dois juntos

A CBA liquidou essa saudável e acessível prática de automobilismo com sua “burrocracia”, em vez de incentivá-la

A truculência administrativa da CBA pode ser vista no texto transcrito do comunicado de hoje, que pode ser lido adiante, e no qual que fiz questão de manter os inadmissíveis erros de português, de redação e de conceito.

Com a regulamentação dos track days, eventos simples e despreocupados como o “Torneio de Regularidade de Interlagos” do Jan Balder tornam-se inviáveis.

 

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Os incríveis e divertidos ralis de regularidade do Jan Balder, verdadeiros “futebol de várzea”, tornam-se inviáveis a partir de agora

É uma vergonha e um acinte a entidade que conduz o automobilismo no Brasil, além de estar deixando o automobilismo morrer por incompetência e inoperância, matar uma atividade saudável e que por si só semeia o automobilismo que ela própria deveria promover.

Vários leitores do AE já andaram no “inferno verde”, o Anel Norte (Nordschleiffe) de Nürburgring, onde tudo que é preciso é pagar uma taxa e assinar um termo de isenção de responsabilidade. O que a CBA fez é uma verdadeira piada de mau gosto, coisa de país que de “abençoado por Deus” não tem nada.

Leia a íntegra das “Normas para a Prática de Track Day” divulgadas hoje e acredite se quiser:

 

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE AUTOMOBILISMO
CONSELHO TÉCNICO DESPORTIVO NACIONAL

NORMAS PARA PRÁTICA DE TRACK DAY

1.0 – INTRODUÇÃO – A Confederação Brasileira de Automobilismo, em conjunto com as Federações Estaduais, atendendo o disposto no Artigo 19 do CDA, normatizará através deste regulamento a prática da modalidade TRACK DAY a qual somente poderá ser realizada seguindo todos os itens da presente normatização.

1.1 – O Track Day consiste na direção esportiva de carro em autódromo, em que o piloto busca um excelente desempenho de seu veículo, sem competir com qualquer outro piloto que esteja na pista. Todo e qualquer evento relacionado ao TRACK DAY ou similar, organizado pela CBA, FAU, Clube ou Promotores de Eventos, deverá, obrigatoriamente, seguir as presentes Normas.

Os eventos que não seguirem esta normatização serão punidos, desde multa até a cassação da homologação do Autódromo que os sediar.

2.0 – PARTICIPANTES: Os participantes do Track Day deverão possuir cadastro CBA na primeira participação, e cédula desportiva especifica para as demais participações durante o ano.

2.1 – Será permitida a presença de mais um integrante na tripulação do veículo, que, porém, não poderá pilotar.

2.2 – Todos os participantes, incluindo o segundo integrante, deverão preencher e assinar a Ficha de Inscrição.

2.3 – A quantidade de veículos na pista não pode ultrapassar 2/3 do grid máximo do autódromo.

3.0 – OFICIAIS DE COMPETIÇÃO:

Para a realização do evento será obrigatória a presença dos seguintes Oficiais de Competição:

– 01 Comissário Desportivo indicado pela FAU sede do Evento;
– 01 Diretor de Prova aprovado pela FAU sede do Evento;
– 01 Comissário Técnico aprovado pela FAU sede do Evento;
– Equipe de Sinalização de pista;
– Secretaria de Prova.

4.0 – DA SEGURANÇA: Para a realização do evento serão indispensáveis os seguintes itens:

– 01 Uti móvel;
– Serviço Médico com respectivo CRM;
– Equipe de resgate;
– Equipe de combate a incêndio.

5.0 – DAS REGRAS DE CONDUTA:

Circulação na área dos boxes:

  • Proibido dar marcha ré ou andar na contramão dentro dos Box;
  • A velocidade deve ser reduzida(1ª marcha);
  • Na saída de Box não poderá ser ultrapassada a faixa branca que delimita asaída de Box para a pista.

Não é permitido em Pista:

  • Mudar de trajetória;
  • Ultrapassar nas curvas;
  • Dividir frenagem no final da reta;
  • Submeter os outros participantes à qualquer situação de risco ou perigo;
  • Efetuar manobras bruscas, como mudanças repentinas de direção, ou quaisquer outras manobras que possam comprometer a segurança dos participantes;
  • É Expressamente proibido o consumo de bebida alcoólica pelos participantes.
  • É vedado o uso de capacetes que não ofereçam proteção adequada ao piloto e ao 2º integrante, cabendo ao Comissário Técnico analisá-los durante asvistorias, com a possibilidade de reprovação.

OUTROS PROCEDIMENTOS E EXIGÊNCIAS

  • Qualquer problema no veículo o piloto deve procurar sair da pista para a área de escape. Ligar pisca Alerta.
  • O uso de cinto de segurança, bem como de capacete são obrigatórios ao piloto e ao 2º integrante.
  • Caso haja chuva no dia do evento, ou caso a pista se encontre escorregadia em razão de precipitação anterior, somente serão permitidos pneu com “sulcos” para escoamento de água.

6.0 – VISTORIAS DOS VEÍCULOS:

A vistoria deverá se r realizada pelo Comissário Técnico e será obrigatória para
todos os veículos que venham a participar do Evento. Os veículos devem estar
em perfeito estado de conservação, com atenção especial ao conjunto pneus / rodas / suspensão / luzes de sinalização / freios.

Não será permitido o uso de pneus do tipo “REMOLD” de qualquer marca.

Caso o veículo esteja equipado com pneus “SLICK”, estes deverão estar em perfeito estado, o Comissário Técnico analisará o estado dos pneus a seu critério.

Será obrigatório nos veículos, a presença de gancho para resgate, de cinto com 3 arnesses e de extintor de incêndio dentro do prazo de validade.

Parágrafo Único: Cintos abdominais serão permitidos se equiparem originalmente o veículo.

7.0 – DEFINIÇÕES GERAIS

Os casos omissos não previstos nestas Normas, bem como dúvidas, incorreções e divergências de interpretações, etc., serão decididos pelos Comissários Desportivos, aplicando sempre a Legislação pertinente.

A presente Norma entra em vigor na data da sua publicação, cancelando todas as anteriores.

Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 2016

Conselho Técnico Desportivo Nacional
Nestor Valduga
Presidente

Confederação Brasileira de Automobilismo
Cleyton Tadeu Correia Pinteiro
Presidente

 

Uma verdadeira infâmia, isso que está aí acima.

Bob Sharp
Editor-chefe
AUTOentusiastas



Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

Publicações Relacionadas

  • CorsarioViajante

    Perfeito Bob, nem conseguem gerenciar o que já tem e querem engolir ainda mais. Lamentável. O automobilismo, que no Brasil já capenga nitidamente, dá seus útlimos suspiros com esta bur(r)ocratização forçada e desnecessária que abafa as bases e complicam desnecessariamente uma prática que deveria ser simples, prazerosa, descompromissada.

  • Bob, não tenho experiência em automobilismo de pista suficiente para dar opiniões. Mas, apenas para ilustrar a forma como a CBA “enxerga” tudo isso, gostaria de citar o que vi acontecer com os Rallyes de Regularidade dos quais participei (e organizei) por tantos anos com veículos 4×4. Nos anos 90 sempre participei dessas provas, (bem) organizadas de forma amadora, sem supervisão da CBA e tudo funcionava bem e era, verdadeiramente, uma delícia. Pois, bem, com o crescimento do interesse pela modalidade em todo o país, eis que alguns fabricantes (notoriamente, Mitsubishi – ainda no final dos anos 90 – e Troller – a partir de 2003) entraram nesse “mercado” com seus campeonatos mono-marcas. Foi quando a “coisa” chamou a atenção da CBA. Pois bem, tome regulamentação, exigências, necessidade de federação, etc. O que acabou acontecendo. As provas organizadas pelos Jeep Clubes, outras agremiações e pequenos organizadores (onde me encaixo) se tornaram inviáveis, pelo aumento de custo. Competir com a capacidade financeira de um campeonato monomarca (que, sim, tem muito mais facilidade para cumprir com as exigências, cujo custo final fica “pequeno” quando comparado ao custo promocional do evento) se torna inviável e repassar para o competidor todos os custos (como era antigamente) se torna caro e não motiva os participantes. Assim, o mercado hoje se restringe a esses campeonatos monomarcas e mais algumas poucas provas, onde foi possível buscar um diferencial e um atrativo. Todas as demais, simplesmente, se foram. Imagino que, aos poucos, é o que vai acontecer com os Track Days. Vão sobrar alguns poucos. Provavelmente, alguns, como percebo que já acontece, de origem monomarca também e com fundo promocional. E vamos em frente… Abraços

    • Pois é, Carqueijo, o olho grande da CBA não tem limite.

  • Mr. Car

    Bob, existem pistas particulares, certo? Sobre estas, a CBA tem alguma autoridade? Se as respostas forem “sim” para a primeira pergunta, e “não” para a segunda, então que se pratique o “automobilismo de várzea” nos particulares, e se mande a CBA para aquele lugar que todo mundo deve estar pensando após ler este post.
    Abraço.

    • Mr. Car,
      Independe de ser autódromo particular ou de governo, pois a CBA se arvora do direito de ser dona de qualquer forma de automobilismo e pode impor multa ao organizador do evento. E não há tantos autódromos particulares. O fato é que mela tudo.

      • J1_1nior

        Mas no caso de uma pista particular não homologada pela CBA (um autódromo em uma fazenda), tanto a pista quantos os organizadores não poderiam sofrer qualquer tipo de punição pela CBA, correto?

        • J1_1nior
          A CBA pode entrar com ação contra o dono da propriedade por organizar uma competição sem sua supervisão.

          • CCN1410

            Sacanagem… Isso é falta do que ter o que fazer. A tendência é aumentar os “pegas” nas avenidas.

          • Matheus Ulisses P.

            Isso é crime da mala preta! Absurdo é eufemismo.

  • V12 for life

    Tudo que da para comentar sobre isso é que a CBA tem que acabar.

  • Marcos Amorim

    Tem muito tempo que não comento aqui, mas essa merece.
    As exigências, pelo menos na parte de segurança, não estão nada diferentes do que ocorre nos tracks que participo, isso desde 2012. Por mais amador que fosse, os organizadores sempre prezaram pela segurança, mais até que em certas competições que dizem ser sérias e toleram as mais diversas bizarrices em pista. O que complica é exatamente essa parte burocrática da CBA, com especial destaque para as carteirinhas e um caminhão de gente que precisa ter ligação com a federação local. Nos eventos menores isso simplesmente inviabiliza que ele seja realizado.

    Agora deixo minha aposta: próximo alvo da CBA serão os hot laps, que provavelmente irão querer que se enquadrem nesse regulamento.

  • H_Oliveira

    Bob, não tem NADA que possa ser feito!?

    • H_Oliveira,
      Vou analisar esse assunto com um advogado.

  • Fat Jack

    Enquanto isso sabemos muito bem os destinos dos autódromos do Rio de Janeiro, de Brasília e mais recentemente (e não menos importante) Curitiba. Onde estava a CBA nesses casos?
    Perdoem-me a generalização mas a grande maioria das Federações, Confederação e entidades de atuação semelhante estão corroídas pela corrupção (em nível mundial), busca de enriquecimento dos seus comandantes e busca do dinheiro fácil a qualquer custa, e a CBA torna-se cada vez mais pós graduada neste “Modus operandi” (o qual faz-me lembrar de uma música no qual o refrão é: “_Não é que eu vou fazer igual, eu vou fazer pior!”), tornando o esporte somente o garoto propaganda.

  • Mudem logo a sigla e o nome para CAB, Coveiros do Automobilismo Brasileiro.
    Vem cá, Bob. Esse pessoal não tem mais o que fazer, não?

    • Arnaldo,
      No comunicado de imprensa de hoje não só o track day foi regulamentado, como também o drifting, arrancada, e registro de escolas de pilotagem. Coisa de bandido mesmo.

  • braulio

    Como ficarão as apresentações de veículos em autódromos? Todos os jornalistas têm carteirinha da CBA, para fazer a “busca um excelente desempenho de seu veículo, sem competir com qualquer outro piloto que esteja na pista”, ou esse evento não entra nos similares que a CBA pretende regularizar?

    • Braulio,
      Depois dessa não seria surpresa a CBA regulamentar a apresentação de veículos em autódromos, seja para a imprensa, seja para clientes.

  • RoadV8Runner

    Só não falo um palavrão aqui em respeito aos demais (e porque o Bob não deixa… Rsss!)
    Absurdo é pouco para essa estupidez sem tamanho. Onde já se viu tamanhas exigências quanto a pessoal de apoio? E que texto totalmente meia boca é esse, que se digna a ser um regulamento oficial? Português medonho e cheio de erros crassos…
    Não tem mais jeito, o Brasil falhou vergonhosamente como nação. Perco cada vez mais minhas esperanças nesta terra torta.

  • Nicolas

    so falta a cba querer regulamentar rachas de rua agora ¬¬

  • Brenno

    Uma coisa não entendi na parte abaixo. O cadastro é 0800? Cédula Desportiva é o mesmo que licença de Piloto, que custa x mil reais?

    :”Os participantes do Track Day deverão possuir cadastro CBA na primeira participação, e cédula desportiva especifica para as demais participações durante o ano.”

  • Lucas

    Triste tudo isso. Eu, que nunca participei de um track day, agora é que vai ficar difícil de participar mesmo. Valeu CBA! Valeu!

  • Lucas dos Santos

    E eu achando que esse assunto já tinha morrido…

    Lamentável que, mesmo depois de tantas críticas – sensatas e bem fundamentadas, por sinal – a CBA tenha insistido em levar isso adiante. Isso só mostra que há muitos intere$$es por trás disso…

  • vstrabello

    Mais um pouco a CBA irá regulamentar as competições de autorama….

  • Micheski

    Nenhum participante de track day ta preocupado com o que a cba acha da pratica. É só mudar o nome do evento para “dia do hamburguer”

  • Fernando

    É isso de que me lembrei de frases que eu não ouço há alguns anos, como: “não corra na rua, vá para o autódromo”. Com a qual concordo.

    Mas para a nossa realidade, a frase da vez é: “vote em mim” e a próxima: “pague o imposto”.

  • guest

    No caso de Interlagos, pelo relato do Flavio Gomes, há uma tabela de preços mais “camarada” para qualquer competição em que se introduza um track day: http://flaviogomes.grandepremio.uol.com.br/2016/01/163634/

    É muita coincidência…

    • Fernando

      Em uma coisa eu posso concordar com ele: querem lucrar com os trackdays…

  • Alessandro

    Aí vai alguém de superesportivo e passa a 100 quilômetros por hora nos boxes, mas estava em 1ª marcha (rsrs), piada de mau gosto mesmo.

    • Lucas dos Santos

      E, se levarmos ao pé da letra, quem andar a 60 km/h em quarta marcha estaria passível de punição!

  • Murilo Bonato

    Com todo respeito aos leitores e ao genial Bob, mas para resumir o que penso desta situação, só me vem a mente é um : ei CBA, vai tomar no c…….

  • Daniel S. de Araujo

    Confederações Esportivas, Sindicatos, Conselhos Profissionais são todas entidades paraestatais visando encher os bolsos de alguns poucos parasitas.

  • Realmente a pratica de corridas de automóveis para leigos em Interlagos deveria ser amplamente fortalecida, desde que a segurança seja observada tanto para os automóveis quanto para os “pilotos” inscritos. Se ficar livre, no seja o que Deus quiser, é problema na certa.

  • H_Oliveira

    Bob Sharp para presidente dessa federação?

    Desculpe, é um momento de indignação e o comentário é meio que em tom de brincadeira, mas seria, sim, algo excelente ter alguém que realmente se importa com o automobilismo cuidando do mesmo.

  • Agnaldo Timóteo

    A culpa?

    Simples, é daquele Chevette roda presa que ficou amarrando a turma toda lá atrás!