Brasileiro não se preocupa com equipamentos de segurança, pois acha (ou tem certeza?) de que acidente só acontece com os outros. Como não os exige, a maioria dos nossos automóveis é equipada apenas com os dispositivos de segurança ativa ou passiva exigidos pela legislação.

Segurança ativa? É o conjunto de dispositivos que evitam o acidente. Tornam o carro mais estável ou reduzem o espaço da freada, entre outros. Sistema de freios ABS é um bom exemplo. Segurança passiva? É a que reduz as conseqüências do acidente. Airbag, por exemplo.

Sabe qual dispositivo foi considerado por técnicos e autoridades em segurança como o mais importante já desenvolvido para o automóvel, depois do cinto de segurança? Nem airbag, nem ABS: é o controle eletrônico de estabilidade (ESP, da Bosch ou ESC, genérico). Tanto que, numa recente conferência internacional de segurança veicular (Brasília, novembro último), a entidade inglesa GlobalNCAP sugeriu que o Brasil torne obrigatório o ESC. É o sistema que atua nos freios seletivamente assim que sensores detectam o início de uma derrapagem lateral e trazem o carro de volta para a trajetória correta. Estas derrapagens podem ser provocadas por excesso de velocidade em curvas ou por um golpe do motorista no volante para desviar de um obstáculo, como um cachorro atravessando a pista. Elas são responsáveis por um considerável número de graves acidentes, pois o carro dá um cavalo-de-pau ou sai da pista. O ESC é equipamento de série em todos os automóveis de Primeiro Mundo. Será obrigatório na Argentina a partir de 2018. No Brasil, o Contran decidiu, na semana passada, torná-lo obrigatório. Mas só em 2022, quatro anos depois da Argentina, pois o governo não tem pressa para exigir um dispositivo que já poderia evitar milhares de acidentes, mortos e feridos a partir de 2018, como decidido pelos “hermanos”.

Desde janeiro de 2014, ABS e airbag equipam todos os automóveis comercializados no Brasil, mas só mesmo porque se tornaram obrigatórios, pois eram raros os motoristas que os exigiam. Sua preferência sempre foi por rodas de liga leve, ar-condicionado, som da pesada e revestimento em couro. É tamanha a ignorância em relação à segurança que a maioria dos passageiros no banco traseiro considera desnecessário afivelar cintos. Com a conivência do motorista.

No Brasil, vários modelos médios e alguns compactos já contam com o ESC. Mas está enganado quem pensa que ele equipa todos os nossos modelos mais sofisticados: o dispositivo não existe nem como opcional, por exemplo, no “top-of-line” Corolla Altis, que custa mais de R$ 100 mil. Culpa da Toyota? Parte dela, parte do consumidor que não exige, pois nem sabe do que se trata; parte da imprensa que não esclarece o motorista; das concessionárias, que também o desconhecem e não incentivam o cliente a exigi-lo; e do governo, que demorou uma eternidade para torná-lo obrigatório.

O ESP não custa, como muitos pensam, milhares de dólares: não chega a R$ 1.000 desde o carro já tenha o ABS. Muito pouco, diante de sua importância para evitar acidentes e reduzir o número de feridos e mortos nessa nossa carnificina rodoviária.

Segurança é tema de faz-de-conta no Brasil. Governo, indústria, parlamentares, todos fazem de conta se preocuparem com o assunto. Mas só tomam qualquer decisão diante da pressão de lobistas defendendo as empresas interessadas no faturamento.

Até que o dispositivo seja tornado obrigatório, em 2022, motoristas deveriam se preocupar, ao comprar um automóvel, de conferir se ele é dotado do ESC. Para resguardar a sua integridade e da sua família.

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

 

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