Um ponto chama a atenção imediatamente para quem anda no Ford EcoSport com motor 1,6 litro e a transmissão robotizada de dupla embreagem, o silêncio interno.

Não consegui produzir um som de motor que incomodasse a mim ou aos passageiros que andaram comigo nos dez dias de avaliação, o que mostra que é um projeto que faz valer os anos de aprendizado de NVH (noise, vibration and harshness — ruído, vibração e aspereza) da Ford, que evoluiu muito.

Como eu havia dito na apresentação do carro há coisa de dois meses, eu iria entender melhor o câmbio robotizado numa avaliação mais longa, e é o que fiz agora.

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Boa altura livre do solo ao assoalho para uso também fora do asfalto com tranqüilidade

Com gasolina anda bem, sem ser nenhum monstro esportivo, claro, mas os 126 cv dão conta do recado facilmente em qualquer situação. Em estradas com subidas  sucessivas, a estabilidade ótima permite manter o pé no acelerador de forma a que a caixa não sinta ser necessário baixar muitas marchas para acompanhar o fluxo. De fato, em algumas subidas, até bastante íngremes. não há redução de marcha desde que se venha embalado, algo possível de ser feito quando é um trecho que se conhece e se sabe não haver nenhuma câmera de arrecadação. Claro que segurança vem em primeiro lugar, e só se deve fazer algo assim se as condições permitem.

Com álcool, melhora mais um pouco pelos 5 cv a mais, 131 cv, que dá para sentir levemente em algumas condições. Não há diferença perceptível na qualidade e suavidade do funcionamento do motor com álcool, sendo tão bom quanto com gasolina. Nada a ver com algumas calibrações de alguns carros flex de alguns anos atrás, que funcionavam bem com gasolina mas passavam a um funcionamento “quadrado” com álcool. Mecanicamente o motor é bastante suave, nunca desagradando nesse quesito.

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Ford EcoSport

A caixa de câmbio com dupla embreagem simula bem o funcionamento de uma automática epicíclica com conversor de torque, mas sem as patinagens dessa, que tanto incomodam a quem não nenhum carinho especial por não trocar de marcha, como eu.

Não há desperdício notável de energia do motor girando elementos da transmissão sem passar força às rodas, e nesse ponto é uma robotizada com que eu conviveria sem problema. Desde que eu tivesse um carro de câmbio manual e pedal de embreagem para uso normal. Mas isso sou eu. O cliente padrão do EcoSport com esse câmbio não deve ser um fanático autoentusiasta, daqueles furiosos para dirigir rápido a qualquer instante, de cambiar e fazer punta-tacco toda hora. Aliás, punta-tacco aqui é mesmo indesejável, pois pode-se danificar as embreagens acelerando e freando ao mesmo tempo, como está claro no manual do proprietário.

Clara também é a calibração eletrônica desse câmbio, voltada para conforto, com as trocas sendo quase imperceptíveis. Isso agrada em cheio à maioria dos usuários na maior parte do tempo. Só é possível sentir as trocas no modo S (Sport), quando as rotações são bem mais elevadas, as acelerações melhoram bastante, e claro, o consumo sobe. É para emergências ou diversão, já que andar assim o tempo todo garante três coisas: amizade com os frentistas dos postos e menos dinheiro no seu bolso, fora o tempo perdido parando mais freqüentemente para abastecer.

Na lateral da alavanca, a tecla com + e -, para subir e descer manualmente

Na lateral da alavanca, a tecla com + e –, para subir e descer manualmente

As seis marchas são bem escalonadas, aproveitando bem os giros do motor. Apenas algumas condições um pouco fora do comum fazem haver uma pequena demora nas trocas, mas isso não ocorre na maior parte do tempo, nunca desagradando quem dirige.

Apenas 1,2 litro de lubrificante sintético de especificação 75W são aplicados na caixa. Se nada de errado ocorrer, o fluido não deve ser trocado e nem completado. As relações são exatamente as mesmas da caixa usada com o motor 2-litros, exceto relação final de diferencial, mais curta no motor 1,6.

Na posição S da alavanca, pode-se ver qual marcha está engatada no mostrador central do quadro de instrumentos, junto do computador de bordo. E pode-se trocar de marcha com a tecla + / – que há no lado esquerdo do pomo, trocas que são mais fácil de serem feitas com o polegar da mão direita. Nesse ponto, o carro fica devendo ao seu proprietário as borboletas junto do volante, para poder comandar o câmbio sem tirar uma mão do comando mais importante de qualquer veículo, o volante.

Na posição D também se pode trocar manualmente pela tecla, mas aí o mostrador mostra o D seguido da marcha engatada apenas por alguns segundos, apagando em seguida o número e ficando apenas o D. Poderia ser igual a da posição S, tornando mais fácil saber em que marcha se está, algo útil se você quiser subir as marchas antes do computador, algo que pode ser feito para deixar o carro ainda mais silencioso e econômico.

Nas duas posições não se consegue engatar marcha errada para a velocidade, nem subindo e nem reduzindo. Ou seja, não se força, por exemplo, uma sexta a 40 km/h nem mesmo em descida, e não se reduz para segunda a 80 km/h. Isso mostra uma calibração de software protetiva, que evita danos ao motor. Muito bom e que dá tranqüilidade ao motorista. Mesmo que ele cometa um erro ao tentar trocar manualmente, o computador não deixa.

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Letra “P” no centro do mostrador superior mostra a posição da alavanca de câmbio; falta um termômetro da água do motor

Sobre consumo de combustível com essa transmissão robotizada,  vê-se pelo computador de bordo o que fazem congestionamentos terríveis. Em um dia sofrível em São Paulo, véspera de feriado, andei cerca de 150 quilômetros pela manhã e à tarde, sempre com ar-condicionado ligado, em avenidas e ruas absurdamente travadas, e vi números como 4,5 a 5 km/l de gasolina nessa condição.  Foi um uso forçado, digamos que pedi para sofrer para ver o pior consumo possível. Com álcool a situação piora, com cerca de 4 km/l, mas ótimos 7 km/l em ruas de  bairro sem congestionamentos, mas com o pára-anda em cruzamentos, lombadas e valetas,  e até ótimos 13 km/l andando em avenidas livres, coisa rara hoje em dia, com as velocidades máximas de ridículos 50 km/h. Aliás, só os limites são padronizados, mas as avenidas não o são. O que essa atual administração paulistana criou foi descabimentos como avenidas com poucas e estreitas faixas de rolamento, corredores de ônibus e muitos pedestres, tendo o mesmo limite das vias locais das avenidas marginais, onde há muito mais largura das faixas, mais faixas e número mínimo de pedestres. É ignorância técnica pura e doentio sentimento anti-automóvel na sua mais asquerosa forma.

Em estrada movimentada e com muitas subidas, 10 km/l de gasolina, mas isso a não mais de 90 km/h, já que o trânsito era muito carregado, e esse número foi obtido com muitas variações de acelerador, algo sabidamente ruim para consumo. E mesmo assim é um bom número. Na mesma estrada com trânsito leve e com álcool, 17 km/l num trecho a 90 km/h. Numa estrada moderna, chega-se a 14 km/l fácil, sem esforço e acompanhando o tráfego mais rápido, sem passar da velocidade permitida de 120 km/h na maior parte do tempo.

Essas medições foram feitas zerando o computador de bordo a cada trecho que eu gostaria de medir. Não são números de consumo instantâneo, que pode ser visto em forma de barras na parte de cima da tela do computador de bordo. São médias de trechos de características diferentes, acredito, algo mais útil para o leitor. Conclusão, consumo muito bom.

Sim, consumo é um dado importante tanto para nossas economias quanto para mostrar a eficiência de um automóvel. Se você acha besteira, imagine em um carro de corrida feito para provas de longa duração a importância do quanto se gasta de combustível, e você rapidamente concluirá que saber quanto é queimado dentro do motor é assunto não apenas de mão-fechadas.

O que a fábrica melhorou muito nesse segundo Ford EcoSport em relação ao original, de 2003, foi o acabamento interno. As cores e texturas são agradáveis, e a combinação de cinza escuro nas partes altas e cinza médio nas mais baixas é muito boa nessa versão Freestyle. Mesma coisa nos bancos, com tecidos que são resistentes e fáceis de limpar, além de terem padrão de costuras bastante moderno. As coberturas laterais plásticas são bem desenhadas e tem montagem sólida. Mas é preciso aplicar ainda mais engenharia para melhorar o casamento de peças, para permitir maior rigidez de alguns conjuntos,  como, por exemplo, nas molduras pintadas do painel de porta e este. Mais pontos de fixação entre componentes é o que falta, basicamente.

Já o painel de instrumentos teve grande melhoria, sendo superior em tudo ao carro antigo. Estilo, aparência do material, cor, texturas e a tão importante aparência de firmeza e solidez. Assim como o volante e as teclas, todos de muito boa qualidade tátil. Atende perfeitamente ao cliente.

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Painel agrada à vista e ao tato (foto divulgação)

O porta-malas de 362 litros até que surpreendeu, cabendo mais itens do que eu imaginaria fosse capaz, já que mesmo sendo curto no comprimento, tem largura correta e altura grande. Fica apenas um pouco trabalhoso equilibrar uma carga sobre outra para aproveitar o espaço na vertical, mas nada que não dê para conviver.

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Há um gancho em cada canto do piso, para amarrar cargas pesadas

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Tapete velho para proteger o carpete do carro de uma carga suja: cuidando do amigo carro

A porta de carga tem uma mola a gás, como no primeiro EcoSport. Julgo totalmente desnecessária. Deveria ter apenas um limitador com dois ou três estágios, para segurá-la aberta em diversas posições.  Com a mola a gás, o que acontece com freqüência é o usuário abrir um pouco a porta e a mola a empurrar para a posição totalmente aberta, o que só é bom se não houver nada atrás do carro. Se houver uma parede e a pessoa não segurar a porta, ela vai bater. Mesma coisa se houver outro carro ou uma moto. É preciso uma mão para pegar ou colocar a carga e outra para segurar a porta nessas condições. Ponto a ser repensado.

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Não é amortecedor, é mola a gás, como nos hatches

O banco traseiro com regulagem de inclinação do encosto em quatro posições ajuda bastante quando se tem muita bagagem ou volumes grandes a carregar, já que se pode deixar o encosto menos inclinado e aumentar o espaço no porta-malas. E sendo bipartido com proporção aproximada 70/30, fica fácil acomodar muita coisa.

Na frente, o conforto é muito bom, com ampla regulagem de altura para o motorista e ajuste lombar, além de uma gaveta debaixo do banco do passageiro, perfeita para esconder objetos de valor e/ou que não possam ficar expostos ao sol.

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Porta-malas expansível, banco é muito bom

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Local para esconder objetos de valor sob banco do passageiro

O porta-luvas é dos melhores, com prateleira de bom tamanho, onde o manual do carro cabe perfeitamente, e mais um volume grande abaixo, com porta-canetas e iluminação.

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Sem aperto no porta-luvas, volume ótimo

E a suspensão? Primoroso comportamento de conforto e estabilidade, sendo dirigido como um carro o tempo todo, nunca preocupando pela sua altura de 1.696 mm. O entreeixos grande de 2.521 mm para o comprimento total de 4.241 mm certamente ajuda nisso, com as rodas bem próximas dos cantos, balanços dianteiro e traseiro bem curto, fazendo o EcoSport parecer menor do que é externamente, e permitindo um espaço interno bem satisfatório, mais do que se imagina ao olhar de fora. A largura com espelhos é de 2.057 mm, bem largo, mas o carro manobra muito bem em vagas apertadas.

Sentei atrás, com o banco dianteiro regulado para mim, que tenho 1,81 m,  e os joelhos ficam a uma boa distância do encosto do banco. Melhor do que em alguns carros maiores.

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“Eu atrás de mim” e há espaço de sobra para as pernas

O fato de ter os balanços curtos tanto na frente quanto atrás, e mais a suspensão elevada em relação a carros normais, tira do caminho a preocupação com valetas e lombadas urbanas, essas inutilidades que encontramos a todo momento. Passei por dezenas delas e em nenhuma houve qualquer tipo de toque ou raspada da parte inferior. Tranqüilidade total nesse aspecto.

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Vejam a “saúde” da valeta, coisa absurda.

O modelo que usamos é um Freestyle, e o manual indica o peso em ordem de marcha de 1.274 kg,  carga útil de 416 kg, peso bruto total de 1.690 kg. Puxar um reboque de 400 kg é o máximo permitido, para capacidade máxima de tração de 2.090 kg. No meu uso normal, foram aproximadamente 1.600 kg na maior parte do tempo.

O uso misto para o qual o EcoSport foi concebido e que deveria ser mais aplicado pelos seus usuários é o de passeios na terra. Andei nessa condição e vi que o carro funciona muito bem, sem desconfortos para os ocupantes, nem entradas de poeira em nenhuma porta. Há também uma coisa muito boa. As molduras plásticas na parte inferior da carroceria  têm um desenho que segura a maior parte da lama que as rodas levantam. Ou seja, mesmo sem ter pára-barros existe um efeito similar. Isso é perfeito para quem gosta de um carro bem cuidado, e mais ainda se você mesmo lavar seu carro, algo que julgo ser atribuição de autoentusiastas, desde que se tenha lugar para isso. Uma escova macia com sabão nessa região e está tudo limpo de novo. E não sendo pintadas, as molduras vão ficar mais tempo como novas, sem os inevitáveis riscos em peças plásticas coloridas que envelhecem tão rapidamente os carros.

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Moldura ou soleira externa ajudam a segurar sujeira, muito bom mesmo

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No mercado de compradoras femininas, o carro tem uma aceitação ótima. Algumas características que são apreciadas por quase todos, independente de sexo, são mais importante ainda para as mulheres. Além da óbvia característica de se sentar mais alto que em um carro de passeio, as mulheres gostam muito quando os espelhos permitem boa visibilidade, e o EcoSport os tem realmente muito bons. Ajudam bastante o trabalho das moças que não gostam de torcer o pescoço. A grande quantidade de porta-objetos também é ponto positivo para elas, além da regulagem de altura dos bancos.

Na mecânica, já explicada em parte na matéria do lançamento, nenhuma novidade a não ser o conjunto motor 1,6 e câmbio robotizado. Abrindo o capô se vê muitas coisas interessantes, como a facilidade incrível para acesso a um item simples mas que em muitos carros é uma dor de cabeça: trocar lâmpada de farol. Aqui a facilidade é total. Junto a esse fato, as tradicionais peças em amarelo para os pontos de manutenção que podem e devem ser feitos pelo usuário do carro, como verificação de nível de óleo do motor, líquido de arrefecimento do motor, água do lavador de pára-brisa e a trava do capô e encaixe da vareta de sustentação deste. Tudo fácil de ver e de acesso tranquilo, inclusive o reservatório de fluido de freio, de forma desenhada para fácil acesso à tampa.

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Farol posicionado bem alto permite acesso fácil

 

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Já torceu os pulsos trocando lâmpada de farol? No EcoSport isso nunca vai acontecer

 

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Fluido de freio com reservatório amigo, fácil de abrir a tampa

Fica fácil entender a diferença de estrutura frontal entre o Fiesta e o EcoSport: quase nenhuma. As longarinas e painel dianteiro são iguais, mas como o utilitário é mais alto, nota-se o motor baixo e a base do pára-brisa, alta, com espaço grande entre ambos, o que abre um acesso muito bom para a parte traseira do motor, com grande vão para a parede de fogo.

Passando na terra e depois olhando-se dentro do cofre, fica fácil entender que seria ótimo adicionar alguns defletores para evitar que a sujeira suba facilmente para essa região, pois respingos de lama se espalharam ali dentro depois de algumas voltas pelo chão sem calçamento.

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Motor baixo, parede de fogo alta e muito espaço para manutenção

 

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Espaço entre motor e parede de fogo é enorme

Em suma, o EcoSport é um produto muito bom, que teve melhorias notáveis na atual geração, ou segunda carroceria. Tanto em mecânica quanto em exterior e interior é um carro bastante evoluído, que pode ser usado sem preocupações.

Mais dados técnicos estão na matéria do lançamento, aqui nesse link

JJ

Fotos: autor, a menos que indicado em contrário
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