Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas CARROLL SHELBY E OS CORVETTES ITALIANOS – Autoentusiastas

O Chevrolet Corvette é um dos ícones da indústria automotiva americana, ao lado do Ford Mustang. Desde sua primeira versão, lançada em 1953, mesmo com o fraco motor Blue Flame de seis cilindros, o ‘Vette é o carro esporte americano com um pé na Europa. Além disso, há uma forte ligação na história do Corvette com outro automóvel ícone americano.

Por anos a fio, o conceito de carroceria de compósito de fibra de vidro, leve e resistente, suspensão independente traseira e motor V-8 formavam a receita da GM para o carro se aproximar dos modelos europeus, sucesso no período pós-guerra.

 A evolução de geração em geração, desde a orignal C1 ainda com eixo rígido traseiro até a atual C7, elevou os padrões do Corvette em todos os aspectos. Qualidade e desempenho (não apenas em linha reta) eram as principais deficiências do modelo, hoje uma referência em como fazer um carro relativamente barato de alto desempenho.

Corvette de 1959, já com motor V-8 disponível (oldcarbrochures.com)

A produção em série do carro jogou os números de volumes anuais para o alto, salvo os primeiros anos em que o projeto ainda estava alavancando os número de vendas por ser algo novo para os americanos. Não demorou para que o Corvette fosse para as pistas enfrentar os rivais americanos e internacionais. Os potentes motores V-8 de corrida disponíveis, aliados ao baixo peso do carro e a suspensão com potencial para ser calibrada para as pistas, logo emplacaram sucesso nacional.

As corridas de carros esporte nos EUA estavam ganhando público nos anos 1950, com a participação dos fabricantes e de equipes cada vez mais profissionais. Além dos carros locais, muitos pilotos corriam com carro importados, especialmente os vindos da Europa, já reconhecidamente rápidos e competitivos.

A frota de carros europeus de corrida era veloz, porém frágil. Os robustos motores V-8 da América eram muito superiores neste quesito. Não era difícil ver Ferraris e Maseratis com motores Ford ou Chrysler instalados no lugar dos originais que quebraram e o conserto era caro e demorado.

Gary Laughlin, o idealizador do Corvette italiano (welovecoolcars.com)

 Um texano envolvido com exploração de petróleo chamado Gary Laughlin foi um destes pilotos que ficou com seu Ferrari encostado em uma oficina depois de quebrar o motor numa corrida. O reparo seria caro demais, além do tempo necessário para importar peças da Itália. Como bom americano, queria aproveitar o que havia de bom em seu mercado local, e um carro de corrida com motor americano seria uma boa ideia. Era a oportunidade de juntar a confiabilidade americana com o desenho e agilidade européia.

Gary era revendedor Chevrolet e uma pessoa muito bem relacionada, tanto na indústria como nas pistas de corrida. Dois de seus contatos nas pistas eram os texanos Carroll Shelby e Jim Hall, pilotos e preparadores, com boa experiência em carros vindos da Europa, como Aston Martins, Ferraris e Maseratis. O senso comum entre os três texanos ditou como deveria ser o carro de Gary: a base italiana, leve e funcional, com motor americano resistente e potente.

Carroll Shelby (ao fundo) e Jim Hall, os dois texanos juntos

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Ed Cole, um dos facilitadores do projeto dos três texanos (gearheadzproducts.com)

Na época, Shelby tinha experiência internacional em competições. Já havia pilotado Aston Martins, Ferraris, Healeys e Maseratis tanto nos EUA como na Europa. Disputou corridas de F1 em 1958 e 1959, além da incrível vitória em Le Mans em 1959.

Hall também já havia pilotado carros como Maseratis, Listers, Coopers e Ferraris na mesma época de Shelby, era um bom piloto e tinha as mesmas tendências de inventor que Carroll, modificando seus carros para extrair o melhor desempenho possível.

A facilidade para conseguir componentes para o projeto dos texanos e até carros inteiros da Chevrolet por conta de seu contato como revendedor fez Laughlin escolher o Corvette como a base de seu projeto. Shelby e Jim Hall, que depois ficou mundialmente famoso com os Chaparral e que também era revendedor GM, começaram a traçar o plano de como deveria ser o Corvette, e a necessidade de uma carroceria mais eficiente seria primordial para o carro ser bem sucedido. Na época, boa parte dos carros vencedores vinham da Itália, então era para lá que os olhares se voltaram.

Sergio Scaglietti topou fazer o carro, contanto que Enzo Ferrari não ficasse sabendo (sportscardigest.com)

Com a ajuda de seu amigo Peter Coltrin, jornalista e fotógrafo californiano com diversos contatos na Europa, Gary conversou a respeito do projeto com Sergio Scaglietti, o chefe da Carrozzeria Scaglietti, em Modena. A idéia era enviar alguns Corvettes para a Itália para receberem uma nova carroceria mais aerodinâmica e eficiente que a original de plástico reforçado com fibra de vidro.

Scaglietti concordou com o projeto, e não apenas um carro seria feito, mas três carrocerias, porém deveria ser feito na maior discrição possível, uma vez que a Ferrari era um de seus principais clientes e Enzo Ferrari poderia não aceitar muito bem a idéia da Scaglietti trabalhar para outras pessoas em projetos similares, como uma forma de concorrência à própria Ferrari. Na época, Sergio estava trabalhando no Ferrari 250 TdF (Tour de France), o qual seria semelhante ao novo Corvette-Scaglietti.

Ferrari 250GT Tour de France (TdF) de 1958 (classicdriver.com)

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1957 Ferrari 250 GT Tour de France Scaglietti

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Outro Ferrari TdF de Scaglietti, semelhança completa com os Corvettes

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Ferrari 250GT Berlinetta Tour de France (autogespot.pt)

A parte da negociação com a Scaglietti estava resolvida, agora Gary precisava conseguir os carros para enviar. Ele tinha contato com Ed Cole, membro do alto escalão da GM, que facilitou a retirada de três chassis modelo 1959 da linha de montagem antes de receberem a carroceria. Dois chassis eram equipados com motor V-8 283 pol³ (4,6 litros) carburados com dois quadrijets e caixa automática Powerglide e um chassi foi equipado com câmbio manual de quatro marchas e injeção mecânica de combustível da Rochester, já na configuração de 320 cv que só estaria disponível ao público dois anos depois.

Este chassi equipado com injeção de combustível foi o primeiro a ser trabalho na Itália. O desenho previamente feito para o Ferrari TdF foi modificado para se ajustar ao entreeixos e as demais dimensões do Corvette. Uma solicitação de Laughlin foi que a grade dianteira original do carro fosse mantida para deixar uma marca de que aquele carro ainda era um Chevrolet Corvette, e quem sabe atrair a atenção da GM para uma possível série especial ou uma produção em pequena escala.

O primeiro Corvette sendo feito na fábrica da Scaglietti (welovecoolcars.com)

Não custa lembrar que Gary e Jim Hall eram revendedores GM, logo qualquer negócio do tipo seria bem vindo, bem como Shelby e novamente Hall que tinham interesse em criar um carro esporte competitivo o suficiente para colocar nas pistas e comercializar aos demais pilotos americanos.

O primeiro carro foi entregue de volta a Gary Laughlin já em 1960, mas o resultado foi um pouco diferente do que ele esperava. A nova e bela carroceria de alumínio era significativamente mais leve que a original (180 kg a menos), mas o acabamento de montagem não era dos melhores. Como o carro foi feito sem grandes movimentações para permanecer escondido dos olhos da Ferrari, não se gastou muito tempo e esforço nos detalhes. Este primeiro carro muitas vezes é conhecido como Corvette Italia.

A diretoria da GM logo ficou sabendo do projeto com a Scaglietti, e na época os programas relacionados a carros de corrida e de alto desempenho estavam sendo cortados em todos os lugares do EUA por conta de programas de segurança automotiva. Também seria uma concorrência interna com o próprio Corvette de produção normal.

O primeiro Corvette concluído em 1959 (conceptcarz.com)

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Motor Fuel Injection americano na carroceria europeia (blog.hemmings.com)

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A bela silhueta do Corvette Scaglietti destaca-se em qualquer lugar (welovecoolcars.com)

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Painel do Scaglietti Corvette, uma mistura de italiano com americano (conceptcarz.com)

Não demorou para esta onda esbarrar no projeto de Laughlin, e os outros dois carros tiveram que voltar da Scaglietti inacabados, também por pressão de Enzo Ferrari que ficara sabendo do desenvolvimento. Carroll Shelby recebeu um telefonema direto de Ed Cole solicitando que tudo fosse cancelado e os carros trazidos de volta para os EUA.

Os três carros não eram idênticos, cada um com peculiaridades e detalhes diferentes, como a grade dianteira de Corvette do primeiro carro. O segundo carro possui uma admissão de ar no capô e saída laterais de ar e design da traseira mais suave, enquanto que o terceiro carro, pintado de azul, tem saídas laterais de ar atrás das rodas dianteiras, entrada no capô e pequenos filetes traseiros na carroceria. Os dois últimos carros foram completados nos EUA.

O segundo Corvette feito, já completado nos EUA (supercars.net)

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O segundo Corvette

Nenhum deles foi devidamente ajustado para compensar o menor peso da carroceria, a suspensão precisava ser recalibrada, mas nenhum deles foi parar em uma pista de corrida. O carro de Shelby e de Hall foram completados e depois vendidos, passando de mão em mão de colecionadores ao longo dos anos, mas até hoje os três estão preservados. Carroll Shelby mal viu o carro e já o colocou à venda pois precisava de dinheiro e tinha que continuar a procura de alguém que topasse uma parceria para seu projeto de carro esporte.

O terceiro Corvette, o único não vermelho

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As linhas gerais dos três carros são bem parecidas (blogs.discovery.com)

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O detalhe das “barbatanas” no fim da carroceria, perto das lanternas

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Motorzão americano no coração do Corvette italiano, este carburado e não injetado como o primeiro

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Interior do terceiro carro, volante de Corvette

Este projeto foi o embrião do Shelby Cobra, o híbrido anglo-americano de maior sucesso de todos os tempos que culminou na lenda que hoje é o Cobra, o carro feito por um fazendeiro que destruiu  Ferraris nas pistas.

Os Corvettes Italia poderiam ter sido o caminho para o sucesso de Carroll Shelby com a GM, caso tivesse seguido em frente e um volume de produção tivesse sido feito. Talvez o lendário Shelby Cobra nunca tivesse existido, nem os Mustangs GT350 e GT500 preparados por ele, pois os contatos de Carroll com a Ford se intensificaram depois do fim do projeto do Corvette.

Carroll Shelby e os Cobras, que poderiam ter sido Corvettes (carrollshelbymerchandise.com)

São os rumos da história onde algumas portas fechadas levam a novos caminhos, e às vezes este caminho é mais iluminado que o anterior. Shelby hoje é sinônimo de Fords velozes, se fosse com a GM, poderia não ter sido tão bem sucedido. Nunca saberemos.

 MB



  • Silvio

    Esse capô longo, com um quê de E-Type, uma latifúndio de tão longo. O caboclo vai sentado quase no eixo traseiro e observando o panorama depois de algumas braças de capô. Acho que as linhas são lindas, mas um pouquinho desproporcionais, mas ainda assim lindas.

    • Certa vez um amigo meu, designer automotivo profissional com excelentes credenciais, me explicou que em casos como este (falando em termos de design, não de engenharia) a grande proporção do capô é para evidenciar que ali tem um motorzão. Passa a sensação de potência, de que ali é uma superfície grande pois tem coisa boa debaixo.
      abs,

  • Marcel Mano (chassisblog)

    Milton, excelente! Muito bom, material, informações e a sua paixão! Baita abraço!

    • Obrigado Marcel, quando descobri esta história e a relevância histórica destes carros, procurei o máximo de informações possíveis pois a cada novo detalhe, a história ficava melhor. abs

  • m.n.a.

    …é para aceitar facilmente um V12…

  • Lorenzo Frigerio

    Muito bom!

  • CorsarioViajante

    MUito legal o texto, cada ironia do destino…

  • Nora Gonzalez

    Milton, bela história e belas fotos! para não falar da combinação de motor Corvette com carroceria Ferrari… Um raro caso de hamburguer com pesto que deu certo, diria.

  • Rafael Schelb

    Realmente muito interessante essa história!

  • János Márkus

    Fico aqui imaginando a reação do Enzo Ferrari quando ficou sabendo da existência desse três Corvettes Spaghettis…

  • Jad Bal Ja

    Eu quero o azul por favor… Deixa ver quanto tenho na carteira….

  • Lorenzo Frigerio

    O motor da Corvette equipou outros carros italianos, como os Iso Grifo/Bizzarrini 5300GT e Lele. Espero que algum dos articulistas do AE resolva escrever sobre esses carros, que são bem significativos.

    • RoadV8Runner

      Excelente idéia!

  • agent008

    Muito boa! Caros, em algum restaurante de Curitiba eu já provei um hamburguer com pesto. Uma delícia! Acho que foi no Peggy Sue, inspiradíssimo diner estilo anos 50 com shows e clipes de puro rock’n’roll rolando nas telas o tempo todo. Pelo menos era assim há uns 8 anos quando fui a última vez…. hehehe

  • RoadV8Runner

    Esses Corvette com carroceria Scaglietti ficaram simplesmente fantásticos! Uma pena que não tenha sido possível uma maior produção, apesar de que talvez tenha sido melhor assim. Não consigo imaginar um mundo sem Shelby Cobra ou Mustang GT350 e GT500. E, no fim das contas, o Corvette acabou se tornando um sucesso absoluto e convive entre nós até hoje.
    Mas imagino como o Enzo Ferrari deve ter ficado “feliz” ao descobrir o projeto de Scaglietti às escondidas…

    • Esses carros vieram apenas para entrar para a história, ou melhor, para a história “secreta” dos Shelbys.
      E deve ter sido ótima a cara do sr. Ferrari quando descobriu rsrs.

  • Carlos Spindula

    Guardadas as proporções, um carro que quando saiu no Brasil me impressionou pelo capô mais longo foi o VW Santana, na década de 80. Abria-se o capô e via que ficava sobrando espaço ali na frente do motor e o radiador era ligado ao bloco por uma mangueirona que ficava pendurada praticamente. Lembro bem porque depois tive um Santana 1987 1.8 alcool, que dava essa impressão de carrão por causa do capô mais volumoso, diferente do GM Monza da época.

  • Jairo Evaristo

    Aquele exemplar azul com interior vermelho é um show! E tenho quase certeza que o @Mr. Car o aprovaria, mesmo tratando-se de um esportivo.

  • V12 for life

    Como grande fan da Chevy e do Vette acho bom não ter dado certo esse projeto pois o Shelby Cobra é um dos dois únicos conversíveis que acho bonitos, o outro é o Corvette C1.