Apolo foi uma das divindades principais da mitologia greco-romana, um dos deuses olímpicos. Filho de Zeus e Leto e irmão gêmeo de Ártemis, foi o deus mais influente e venerado de todos os tempos da antigüidade clássica, depois de Zeus. Era temido pelos outros deuses e somente seu pai e sua mãe podiam contê-lo. Era o deus da morte súbita, das pragas e doenças, mas também o deus da cura e da proteção contra as forças malignas. Era também o deus da beleza, da perfeição, da harmonia, do equilíbrio e da razão.

apolllo deus grego  APOLLO COMPLICADO apolllo deus grego

Apollo, mas grafado com dois “L” como em inglês, foi também um automóvel da marca Volkswagen feito no Brasil no período de 1990 a 1992, durante a Autolatina, empresa holding iniciada em julho de 1987.

Com a Autolatina, as empresas Ford e Volkswagen passaram a ter operações conjuntas em diversos níveis, inclusive com produtos compartilhados, a Volkswagen produzindo os Ford Versailles e Royale (derivados dos Volkswagen Santana e Santana Quantum) e a Ford produzindo os Volkswagen Apollo, Logus e Pointer (derivados do Ford Escort e Ford Verona). Também foram compartilhados entre as duas marcas os motores Volkswagen AP 1,8 e 2-L e os motores Ford CHT AE 1000 e AE 1600.

Na realidade, a Ford e Volkswagen, mantinham a identidade e a individualidade de suas marcas nas revendas. As concessionárias Volkswagen continuaram vendendo e assistindo seus produtos e a Ford, da mesma maneira com os seus. Não se tratava então de uma incorporação ou fusão das duas empresas e sim, de um acordo operacional múltiplo, teoricamente com benefícios para ambas.

Comentou-se na época que o Apollo não estava nos planos da Autolatina, e que só acabou existindo por pressão da rede de concessionários VW.

Interessante ver produtos Ford feitos na fábrica da Volkswagen e vice-versa, produtos Volkswagen feitos na fábrica da Ford.

E assim foi com o Apollo, versão Volkswagen do Ford Verona que era derivado do Ford Orion, o Ford Escort europeu três-volumes (notchback rear end design)

 

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Ford Orion europeu, derivado do Ford Escort e que deu origem ao Verona e ao Apollo

 

O Apollo visualmente era o Ford Verona com detalhes mais chamativos, como, por exemplo, defletor na tampa do porta-malas, lanternas traseiras escurecidas (fumês), pára-choques pintados na mesma cor do veículo, bancos esportivos da marca Recaro, teto solar, mostrador dos instrumentos com iluminação indireta na cor laranja e acabamento monocromático na versão GLS, mais luxuosa. Com tudo isso, era 20% mais caro que o Ford Verona.

 

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Propaganda do VW Apollo com destaque para o defletor na tampa do porta-malas

 

Mecanicamente, tinha três diferenças básicas em relação ao modelo Ford: amortecedores com cargas mais firmes e o motor AP 1,8-L com transeixo 020-M, ambos da Volkswagen.

O Apollo iniciou suas vendas em 1990 e foi descontinuado em 1992, com 53.000 unidades comercializadas. Na realidade, com menos de dois anos em produção, foi o veículo com menor tempo de vida da Volkswagen.

E como explicar isso?

A primeira razão partiu da própria Volkswagen que mexeu impropriamente na curva dos amortecedores, principalmente os traseiros, visando dar um toque mais esportivo no veículo.  Na realidade a maior carga de compressão adotada aumentou os esforços solicitantes nas buchas de borracha e com isso, a variação de alinhamento dinâmico da suspensão traseira do veículo ficou ainda mais crítica. O Apollo ficou desconfortável e não ganhou nada em termos de estabilidade direcional e em curva com relação ao Verona, muito pelo contrário.

 

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Suspensão traseira independente do Escort / Verona e Apollo com bandejas curtas e braços tensores com terminais com buchas de borracha

 

A segunda razão partiu também da própria Volkswagen, que decidiu por liberar para o Apollo somente o motor AP 1,8-L, sem outra opção. Com isso o transeixo VW 020-M teve que ser adotado gerando muitas dificuldades operacionais e de instalação.

O mecanismo externo de seleção e mudança de marchas era impreciso devido às inúmeras alavancas e junções e por este motivo muitos problemas de qualidade ocorreram, por exemplo, alguns desencaixes do mecanismo, que deixavam o câmbio inoperante.

Interessante que  o transeixo VW 020-M tinha um bom projeto, com sincronizadores eficientes, mecanismo interno bem projetado e com excelente qualidade. A aplicação é que foi deficiente.

 

APOLLO COMPLICADO CAMBIO APOLLO TRAMBULADOR

Cambio VW 020-M e seu conjunto complicado de seleção e engate de marchas

Como referência, o Ford Verona com o motor CHT 1,6-, era a simplicidade máxima em termos de mecanismo de seleção e engate.  A torre da alavanca de mudanças era solidária ao motor através de um tubo e suporte com coxins e o engate e seleção das marchas era feito somente com um único varão.  Sistema simples, preciso e confiável.

 

APOLLO COMPLICADO cambio escort

Escort e Verona – trambulador de varão único (B) para seleção e engate de marchas

A terceira razão, também relativa ao câmbio, foi referente às relações de marcha muito reduzidas. A 5ª, por exemplo, era 18,5 % mais curta que a do Ford Verona, gerando mais ruído interno na cabine e também aumento no consumo de combustível.

1a 3,45 (3,154) – 2a 2,12 (1,94) – 3a 1,44 (1,29) – 4a 1,13 (0,91) – 5a 0,89 (0,75)
Diferencial 3,67:1 em ambos

As relações entre parênteses se referem ao Ford Verona GLX com motor AP 1800. Para se ter idéia do absurdo, enquanto a v/1000 do Verona era 38,2 km/h, resultando em 120 km/h a 3.150 rpm, no Apollo era 32,2, 120 km/h a 3.730 rpm.

A quarta razão foi o preço do VW Apollo muito maior que o do Ford Verona, 20% em média. Deveria ter sido justamente o contrário, um Apollo mais espartano e um Ford mais luxuoso, coerentes com as diferenças de mercado na época. Em minha opinião, o Verona tinha conceito mais simples e coerente, sem adereços, ao contrário do Apollo.

Na realidade houve tremenda dificuldade para transformar um Ford com seu DNA de conforto, acabamento e economia de combustível em um Volkswagen.

E assim, o Apollo, com menos de dois anos em produção e 50.000 unidades produzidas, pode ser considerado um dos maiores fracassos da história da Volkswagen, quem sabe maior até que o VW 1600, o “Zé do Caixão”, que também teve vida curta e alta rejeição por parte do consumidor.

 

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Propaganda do VW 1600 (Zé do Caixão)

 

O Ford Verona fez mais sucesso, com aproximadamente 115.000 unidades produzidas e que teve também o motor AP 1,8-L com transeixo VW 020-M, ao longo dos seu seis anos de vida. Praticamente culminou com o fim da Autolatina.

 

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Ford Verona em final de produção

Encerro esta matéria homenageando aqueles que sabiamente decidiram pela dissolução da Autolatina, holding que tinha tudo para dar errado e infelizmente deu. Na realidade a que menos perdeu foi a Volkswagen, que ganhou tecnologia em projeto e manufatura de caminhões, herança da Ford e que deu certo!

CM

Créditos: Volkswagen do Brasil S.A. – Ford Motor Corporation do Brasil – imagens Google – wikipedia

Sobre o Autor

Carlos Meccia

Engenheiro mecânico formado pela FEI (Faculdade de Engenharia Industrial) em 1970, trabalhou 40 anos na Ford brasileira até se aposentar. Trabalhou no campo de provas em Tatuí, SP e por último na fábrica em São Bernardo do Campo. Dono de amplo conhecimento de automóveis, se dispôs a se juntar ao time de editores do AUTOentusiastas após sugestão do editor Roberto Nasser.

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  • G. Vilchez

    Interessante alguém de dentro da Ford contar os bastidores desse projeto.
    Então essa caixa de câmbio tinha as mesmas relações do XR3 1.8, realmente eram muito curtas, o que até se justificava num esportivo, mas nem tanto em um carro com pretensões luxuosas, como era o Apollo.

  • André Monteiro

    Tenho um Apollo 1992 desde 0km. Acabou de completar 550.000km. Indestrutível.

  • Fernando

    Tenho um Escort XR3 1.8(como está no emblema hehe) e afirmo algumas das deficiências citadas referente ao acionamento do câmbio, inclusive o desgaste prematuro das buchas do trambulador.

    Não diria que tem acionamento ruim, pois acho um tanto direto e preciso, mas os Escort MK4 que tive e dirigi comparativamente com os Escort MK5 e Logus que também tive e dirigi em outras ocasiões, acho que o acionamento nestes últimos enquanto teve melhoras nestes problemas crônicos, não acho que tem engates tão gostosos quanto nos com o 020-M. O câmbio dos mais novos parece seguir melhor nos engates, porém faz de maneira seca/dura e mais lenta.

    O problema do 020-M nos Escort/Verona/Apollo eu creio que a adaptação poderia ter levado um pouco mais em conta as forças que agem para cada direção e assim atenuar as forças sobre as buchas, e também o material delas poderia assim resistir melhor a estas cargas ao longo do tempo.

  • Barroso

    Perderam-se os comentários anteriores?