Chega a dar pena  de ver o trânsito, a entidade  circulatória das cidades, sendo maculado por esse tipo de mau comportamento  tão comum.

As causas são muitas, e na maioria das vezes, o assunto tratado via aparelho eletrônico pode esperar um tempo sem nenhum tipo de prejuízo para o motorista, que tem a obrigação moral de dirigir com atenção ao veículo e no fluxo de trânsito. Todo mundo sabe, mas poucos praticam a parada em local fora da via caso seja necessário utilizar o telefone móvel. Quem faz isso é quase tratado como um ser alienígena.

É normal quem critica esse tipo de comportamento da conexão a qualquer momento ser tachado de  antiquado, chato, até mesmo retrógrado. Se você, como eu, sabe os motivos pelos quais  é importante dirigir bem, o mais rápido possível e sem atrapalhar os outros, não se incomode de ouvir esse tipo de crítica. Elas são equivocadas.

Sempre me recordo da explicação técnica do porquê as autoestradas alemãs não terem limite de velocidade em grande parte de suas extensões. Não se trata de prazer de acelerar tudo que der, nem de apostar corrida com outros carros. É uma simples regra democrática. Todos tem direito de usar a estrada. Se eu estou dirigindo por ela,  e quanto mais rápido eu usar, outros poderão fazer a mesma coisa. Em outras palavras, anda-se rápido para abrir espaço para outros motoristas que precisam passar pela estrada. Simples, lógico e prático.

Ao longo da história da mobilidade passamos por várias fases mais ou menos ruins no que se refere à qualidade do ato de conduzir veículos. No começo era tudo difícil. Carros complicados, ruas cheias de cavalos, estradas de terra e lama. Tivemos melhorias em todos os setores, nos veículos e nas vias, e vieram os exagero na velocidade, os desleixos na condução dos veículos e na conservação das vias, e tudo ficou pior.

O que vivenciamos hoje é um contraste forte entre ruas, avenidas e estradas complicadíssimas e carros muito fáceis de serem dirigidos, com comandos bem posicionados que não requerem força física nem habilidade especial,  visibilidade ajudada por equipamentos modernos, como câmeras de ré e alarmes de proximidade e outros itens de conveniência até mesmo redundantes.  Dadas essas facilidades, a maioria dos motoristas passa a usar uma boa parte de suas capacidades cerebrais para fazer mais alguma coisa, já que o carro não as entretém ou satisfaz.

Nesse ponto os telefones de múltiplas funções, que são mais computadores pessoais do que telefones na verdade, chegaram para deixá-las  felizes em não mais gastar tempo apenas dirigindo. Elas se conectam aos seus “espertofones”  e se desconectam quase totalmente de seus veículos, apreciando ao máximo os câmbios automáticos, sensores de estacionamento, freios com ABS e outras mordomias da vida atual. O mais impressionante é que dizem se sentir seguras mesmo dirigindo dessa forma, distraidamente, pois sabem que os carros tem airbags. Como se eles garantissem a vida em qualquer tipo de acidente.

Muito provavelmente o resultado da pesquisa feita na cidade de São Paulo, divulgada no dia 23 de setembro passado — dia em que o Código de Trânsito Brasileiro completou 18 anos — tem muito a ver com esse uso indiscriminado e exagerado dos smartphones. A pesquisa mostrou que 43% dos motoristas aprovam as reduções de velocidades permitidas que vêm sendo impostas pela  Prefeitura, completamente à revelia de consultas a quem tem o poder do título de eleitor. O universo pesquisado foi ridiculamente pequeno, de apenas 700 pessoas, e destas,  53% reprovam as reduções, mostrando que o bom-senso ainda prevalece nesse assunto, enquanto os restantes 4% não sabem se aprovam ou não, algo inacreditável provindo de um motorista que use as vias dessa cidade.

Supõe-se que as velocidades menores sejam apreciadas por tanta gente (43%, repito) também por facilitar o uso dos telefones espertos, infração que é muito pouco averiguada e gera um número baixo de autuações frente à quantidade de gente que a comete. Claro que o uso do famigerado filme escurecedor de vidros é responsável por deixar escapar do olho da lei essa autêntica irresponsabilidade. Uma desgraça leva a outra, nesse caso.

O resultado é aquele que descrevi no começo desse texto, mas vai muito mais além, com carros parados após semáforos abrirem, filas de carros imobilizados por alguém mais à frente que não viu que o fluxo voltou a se mover pois está de olho grudado na tela de seu aparelho,  sinalizações sendo ignoradas pois não foram captadas pela visão e cérebro do motorista, que para evitar ser multado por excesso de velocidade, anda mais devagar do que é permitido, gerando lentidões sem motivo real, e por aí afora.

A lista de problemas causados por quem  dirige e usa telefone ao mesmo tempo é infindável. Um deles chega a me causar gargalhadas. Já vi muitas vezes manobras sendo feitas em estacionamentos, garagens e até mesmo em vagas nas ruas que demoram uma eternidade, e presenciei os autores das trapalhadas com mãos ocupadas segurando telefones. É impressionante a capacidade de não perceber que está atrapalhando a coletividade, meio que dando uma banana a quem tem horários a cumprir, e fazendo sua manobra sem pensar no que está ao redor. E ainda dizemos que somos um povo solidário. Só se for depois da desgraça consumada.

Se pensarmos nos motivos desses comportamentos, veremos que estão  muito ligados com não apenas o que se aprende ao começar a dirigir e que vai evoluindo com o tempo, mas antes disso, com a educação que se recebe na família e na escola, desde criança. Se formos ensinados a respeitar o direito alheio para sermos também respeitados, é quase certo que seremos motoristas que tem uma programação mental coletiva, ou seja, a noção que um só pode prejudicar muitos, e isso é ruim para todos, até aquele que se considera mais esperto.

Mas se os ensinamentos da infância nos levaram a considerar que ninguém é melhor ou mais importante do que nós mesmos, o resultado dessa atitude que fica no subconsciente irá gerar  motoristas egoístas, um dos comportamentos mais nocivos ao trânsito que podem existir.

No meio desses problemas arraigados em muita gente que até é muito boa fora de um carro, mas tem a mania de usar o telefone todo tempo enquanto dirige, os políticos aproveitam para criar dificuldades para todos, e criar fontes de renda fácil, como todos sabemos.

Por tudo isso, se você usa seu smartphone freqüentemente ao dirigir, largue ele por meia hora e preste atenção nos veículos que atrapalham o fluxo. Muito certamente você irá entender um pouco melhor o prejuízo que essas pequenas máquinas causam ao nosso cotidiano de usuários da mobilidade. E lembre seus conhecidos, parentes e amigos: largue o telefone e dirija.

JJ

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