Estamos testemunhando o início do fim da era do antigomobilismo?

 

Com o avanço da tecnologia, a obsolescência programada com prazos cada vez mais curtos e a alteração da relação homem-carro, é possível que em pouco tempo já não se tenha mais exemplares colecionáveis. Recentemente outro fator está sendo acrescido a esta equação que são as municipalidades que estão proibindo a circulação de carros com mais idade, deixando menos carros disponíveis para se tornarem veteranos de coleção.

 A responsabilidade dos que mantém carros de coleção hoje em dia se torna maior, pois deles depende a manutenção dos exemplares realmente colecionáveis de hoje no futuro.

Eu sempre me impressiono com os incríveis carros conceito que estão saindo das pranchetas e deixam todos intrigados em salões de automóvel…

Será que este carro poderá em 30 anos vir a ser um carro de coleção?

Desculpem-me sou de outros tempos, hoje já não existem nem pranchetas, nem réguas T, nem canetas de nanquim — daquelas que sempre entupiam na hora errada ou largavam excesso de tinta num trabalho quase pronto, nem compassos, tampouco esquadros, curvas francesas ou transferidores, tudo é feito em modernos programas de computador — adeus às “cópias heliográficas” (cópias de originais em papel vegetal feitas em papéis fotossensíveis expostos a uma luz intensa) testemunhas de projetos que eram usados no passado. Tudo fica em memórias de computadores e logo poderão ser “ilegíveis”, já nas próximas mudanças de sistema operacional destes computadores e de seus programas — perder-se-ão no “limbo-cibernético”…

Ferdinand Porsche e seu filho Ferry em sua empresa em Stuttgart observando um desenho do Fusca numa prancheta de desenho, que foi feito à mão sobre papel vegetal (translúcido para permitir cópias heliográficas), com auxílio de réguas, esquadros, curvas francesas, canetas de nanquim etc

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Exemplo de “cópia heliográfica” no caso do Fusca de pós-guerra elemento que ajuda na restauração de veículos antigos e permite a reconstituição de carros por meio de computação gráfica

 

O desenho que se segue é “modelado e renderizado” por Dan Palatnik um dos maiores especialistas nesta tecnologia, em nível mundial. Este desenho em três dimensões com volume foi feito a partir de “blue-prints” (tipo particular de cópias heliográficas onde o fundo era azul e as linhas são geralmente em branco) como a cópia da ilustração anterior. O Dan Palatnik tem uma admirável coleção de “blue-prints” originais dos mais variados carros e o seu trabalho se distingue pelo esmerado cuidado nos detalhes. Ele é um grande especialista em carros antigos. O saia e blusa não é original de fábrica, mas falaremos sobre isto em outra oportunidade.

 

Um dos belos trabalhos de Dan Palatnik

 

Pensando nos revolucionários carros-conceito eu comecei a “ruminar com meus botões”, coisa antiga também, pois hoje o jeito é “ruminar com o seu velcro”… Desta “ruminação” surgiu uma sucessão de idéias que eu gostaria de dividir com todos os antigomobilistas de raiz, a quem coloco as perguntas abaixo.

Será que no futuro ainda existirá “antigomobilismo” para estas coisas que estão surgindo ou os carros feitos com estas composições estranhas de materiais? Será que estes objetos rodantes não identificados durarão mais de 30 anos para então virarem relíquias? Já estamos ultrapassando o limiar dos carros colecionáveis em potencial?

Estas perguntas assustadoras não querem calar… Hoje a gente sofre para conseguir peças para um Fusca de 50 anos, algumas têm que ser refeitas, mas os componentes e as dimensões são conhecidos ou mensuráveis. Mas com a eletrônica fortemente customizada por marca e totalmente integrada será que existirão peças de reserva NOS (New Old Stock) daqui a 30 anos para um dos carros supermodernos de hoje em dia?

 

 

O pior de tudo é a redução dos prazos aceitos para a obsolescência programada em toda a indústria, o que não deixa a automobilística de fora. Acho que estamos abaixo de 10 anos em alguns tipos de carros. Daqui a pouco virão carros com componentes realmente biodegradáveis. O que vai acontecer com estes componentes quando o carro atingir o limiar de validade da auto-decomposição?

Lembro da primeira ignição transistorizada que apareceu no Simca Tufão (com o símbolo de um transistor na lateral), tinha componentes discretos, não integrados, e dava até para trocar uma resistência, um tiristor ou transistor (bastava saber fazê-lo — muitos “mexânicos” tentavam usar um ferro de solda de 500 W que fazia os componentes volatizarem — e a culpa era da “maldita modernidade”)… Mas hoje há milhares de componentes em chips dedicados que não admitem nem pensar em conserto, tem que trocar e, pior, a troca deveria ser feita por um componente específico da geração daquele carro (que pode mudar várias vezes dentro de um mesmo ano de um tipo de carro). É de se duvidar que nestas tecnologias hipermodernas haja espaço para as saudáveis gambiarras que deixam nossos antiguinhos felizes andando por nossas estradas.

Para dar uma de Herodes em relação a carros ainda colecionáveis no futuro, vários governos mundiais reagiram à presente crise mundial oferecendo a troca premiada de carros — desde que o carro “velho” fosse efetivamente e comprovadamente sucateado. Dava dó assistir à TV alemã Deutsche Welle mostrando carros “ainda novinhos”  na  Alemanha (a regra dizia nove anos ou mais de idade) serem desmantelados por conta do incentivo para troca por 0-km, mais “ecológicos” e mais econômicos. Nestas ações sucumbiram muitos dos que ainda poderiam virar carros de coleção no futuro!

Imagem aterradora para um antigomobilista, este é um das centenas de pátios de esmagadoras de carros na Alemanha, fomentados pelas facilidades do “Verschrottungsprämie” – Prêmio de Sucateamento – para troca de carros com nove anos de uso ou mais por um “zerinho”… Estes ai já não têm como se transformar em “carros de coleção”

Soma-se a isto a tendência da proibição de circulação, praticamente um decreto de morte, que prefeituras estão decretando como a de Paris, na França, onde a prefeita Anne Hidalgo decretou que a partir de 1º de julho de 2016 carros fabricados até 1996 estarão banidos das ruas de Paris. Ela diz que os carros de coleção estariam fora desta regulamentação, mas agora não existirá mais o “tempo de maturação” para que um carro passe de “velho” para “antigo”…

Sem esquecer dos procedimentos ostensivos de várias municipalidades no sentido de expulsar veículos particulares dos perímetros internos das cidades, desmotivando aceleradamente as novas gerações em relação aos carros. Talvez passemos a colecionar bicicletas?

Qual é o futuro do antigomobilismo? O que acontecerá com o plantel de carros de coleção sem a reposição de carros colecionáveis? Estamos no limiar de um tempo no qual o ocaso do antigomobilismo passa a ser previsível?

Outra pergunta que não quer calar: será que a tendência atual da indústria automobilística não mostra que está ocorrendo uma mudança conceitual e sentimental no relacionamento entre homens e automóveis? O elo outrora intocável de amor e cumplicidade inexplicável entre homem e máquina estará sendo minado pelo moderno consumismo de nossos dias? Será que os carros estão a caminho de serem degradados para meros objetos descartáveis de uso com substituição feita de tal modo que não sobrem testemunhas de época para o futuro, mesmo porque não existirão mais condições técnicas que viabilizem a conservação de “espécimes de coleção”? Esta situação é preocupante para um antigomobilista de plantão como eu.

A nova tendência de carros auto-dirigíveis que poderão transformar a maioria dos veículos urbanos em “cabines de transporte anônimas”, assim como vagões de um trem invisível usado pela coletividade, certamente irá reduzir em muito o que hoje chamamos de automóvel. Vamos colecionar estas cabines?

Pois é, estamos vendo que de um lado a indústria e de outro a sofreguidão por possuir novidades (que nem sempre são melhores) está fomentando a aceleração das trocas, bem como a descaracterização do meio individual de transporte que ainda é teimosamente chamado de carro. Celulares, programas de computador, eletrodomésticos e carros…. Uma tendência explosiva e definitivamente cruel que pode ser a pá de cal no antigomobilismo.

Será?

AGr

 

Nota do Autor: este material foi originalmente publicado na minha coluna “Volkswagen World”, do Portal Maxicar (www.maxicar.com.br), e esta publicação ocorre de comum acordo com o meu amigo Fernando Barenco, gestor do MAXICAR, companheiro de muitos anos de trabalho em prol da preservação dos veículos VW históricos e de sua interessante história. O conteúdo foi revisado, ampliado e atualizado. O seu conteúdo é de interesse histórico e representa uma pesquisa bastante aprofundada do assunto. Pesquisas complementares na internet. Ilustrações: pesquisa na Internet.
 A coluna “Falando de Fusca” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

 

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